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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

126 - "Sinto que estou a trair a Di ao estar aqui contigo"



(Adriana)


Ele permaneceu em silêncio por instantes.

- Adriana, o meu pai…

- Desculpem interromper – o médico apareceu – O Thiago já pode receber visitas.

Sorri. Finalmente poderia ver o meu filho. Por outro lado, queria ter ouvido o que tinha o Alexis a dizer… Ironia do destino, não é verdade? Ele entrelaçou a sua mão na minha e seguimos para a ala pediátrica.
O Thiago estava num berço, alimentado por soro. Doer-lhe-ia ter aquilo no pulso? Passei-lhe a mão pela cabeça e ele olhou-me, sorrindo assim que nos reconheceu. Sentámo-nos no sofá ao pé do berço. O Thiago tinha aquele quarto só para ele. O Alexis ia brincando com os meus dedos. Sabia que estava nervoso e pressentia que ia continuar o que havia começado na sala de espera.

- O meu pai – recomeçou para minha satisfação – Bem, nós somos três filhos. Eu sou o mais novo. Depois há o José e a Alejandra que tu conheceste no nosso casamento.


Lembrança
Estávamos a entrar no salão de festa e eu ainda sentia o meu coração em êxtase. Não conseguia parar de olhar o meu anel. Casada. Casada com o homem da minha vida!
Após o primeiro brinde com champanhe, os convidados espalharam-se pelas mesas de aperitivos. O Alexis pegou na minha e arrastou-me até perto da sua família. Era…embaraçoso. Eu estava casada e não conhecia a sua família. Ele apresentou-me primeiro à sua irmã Alejandra, que não havia conhecido durante a minha visita ao Chile, porque ela se encontrava emigrada na Argentina onde havia casado. Depois apresentou-me aos tios e por fim aos primos. Mas pai? Nem vê-lo. O Alexis nunca me falava dele e dizia-me sempre que era “um assunto do passado”.


***


- Um ano depois de eu nascer, o meu pai abandonou-nos – engoli em seco – Aquele cobarde pegou em todo o nosso dinheiro e fugiu – vi-a o ódio no seu olhar – Passámos fome, Adriana, passámos fome.

- E…ele nunca mais voltou? – perguntei.

- Claro que voltou. Quando soube que eu tinha assinado pelo Barça. Veio por interesse, Adriana.

- O que fizeste?

- Mandei-o para longe, muito longe.

- E ele foi? Assim, sem reclamar? – perguntei surpreendida.

- O meu pai tem…coisas a esconder. Droga – explicitou – Anda nesse tipo de…coisas. Se ele se aproximar, meto-o na cadeia em três tempos.

- E se…e se ele apenas quisesse reconciliar-se com vocês?

Ele olhou-me seriamente.

- Adriana, para mim o meu pai está morto. Aliás eu nem tenho pai. A minha mãe, que passou fome para me alimentar, é minha mãe e meu pai. E ela fez tudo da maneira certa – disse com mágoa.

- Desculpa, ter tocado neste assunto – lamentei.

- Não – recusou-se – Já te devia ter contado há mais tempo. Só quero que compreendas que o Thiago não precisa do meu pai para nada. Nem o Thiago, nem eu.

- Vejo tanta mágoa em ti…

- Adriana, sabes como foi passar anos e anos a fio a fazer presentes para o dia do pai e depois às escondidas deitá-los fora?

- Porque os fazias?

- Não queria que na escola soubessem que eu não tinha pai. Tinha vergonha. Mas também não queria que a minha mãe os visse. A minha mãe sofreu muito por ele. Amava-o. Às vezes, tenho medo que ainda o ame – ele suspirou – Gostava que ela viesse para Espanha. Sinto-a tão…desprotegida no Chile. Está lá o meu irmão, mas mesmo assim…

- A tua mãe é uma mulher forte. Não vai voltar a cair nas mãos do teu pai – tentei descansá-lo.

- Ainda tive esperança que o nascimento do Thiago a trouxesse para cá. E sei que ela pensou nisso. Mas é demasiado agarrada ao Chile.

- Vai correr tudo bem. Quem sabe se ela não vem para cá – sorri-lhe.

- Fazes-me tão feliz – passou-me a mão na face, arrancando-me um sorriso – Sabes que te amo, não sabes?

Abanei afirmativamente com a cabeça.

- E eu também te amo – aproximei os nossos rostos e rocei os nossos narizes. Trocámos alguns beijos mas o meu telemóvel interrompeu-me. Era a minha mãe. Aflitíssima como se pode imaginar. Expliquei-lhe o que se passava e tentei acalmá-la. O Alexis também ligou para o Chile para falar com a família. Não tinha a intenção de contar-lhes do internamento do Thiago, pois era apenas um telefonema de rotina. Todos os dias ele ligava à mãe para saber como ela estava e matar saudades. Mas não lhe conseguia mentir, por isso, quando ela lhe perguntou se estava tudo bem, acabou por contar-lhe do Thiago. Resultado: lá vinha a minha sogra a caminho de Barcelona!

- Alexis, eu vou passar os dias e as noites aqui com o Thiago – informei-o.

- Devíamos fazer turnos – sugeriu – Não vais passar cá duas semanas.

- Para a semana tens de voltar aos treinos.

- Eu sei, mas até lá vamos alternando.

- Não abdico de passar as noites com ele – avisei-o.

- Mas não vamos passar aqui os dias – recusou-se – A minha mãe vem para cá, aflitíssima e sei perfeitamente que vai querer passar dias com o Thiago aqui.

- Então vamos rodando. Mas não o quero deixar sozinho.

- E não vai ficar – acariciou-me a face – Agora vou a casa comer alguma coisa e trazer coisas essenciais para passarmos cá a noite.

- Obrigada, amor – dei-lhe um beijo nos lábios.


(Alexis)


Conduzi até casa, mas quando lá cheguei surpreendi-me…


(Ana)


Depois de sabermos que o Thiago tinha uma infeção urinária, decidi voltar para casa. Não tinha ficado assim combinado, mas sentia-me tão enjoada e cansada que era impossível manter-me ali. Apanhei um táxi e voltei para casa.

- Ana? – perguntou surpreendido o Cesc, assim que me viu – Estás cá? Eu ia sair agora mesmo…

- Estou maldisposta. Vim descansar.

- Mas o que sentes? – perguntou preocupado.

- Apenas estou enjoada e cansada – confessei.

- Vai deitar-te. Vou preparar-te um chá.

- Não me apetece.

- Não há discussão possível, Ana.

Suspirei, encolhendo os ombros. Nem valia a pena tentar vencer o Cesc.
Deitei-me sobre a cama e enrosquei-me sobre mim mesma. O Cesc chegou minutos depois com chá.

- Toma.

Nem contestei. Bebi o chá a pouco e pouco e a verdade é que me senti melhor. Sentia o cansaço apoderar-se de mim. Odiava esta sensação.

- Estás melhor? – perguntou-me, sentado à minha frente.

- Um pouco. Estou apenas…exausta.

- Então vem cá.

Enterrei-me nos seus braços e acabámos por nos deitarmos. Não tardou a que eu adormecesse.


***


- Claro. Quando a minha esposa acordar, eu ligo-lhe e combinámos uma hora – a conversa que o Cesc estava a ter ao telemóvel acordou-me.

- Quem é? – perguntei num sussurro.

- O advogado. Quer falar connosco sobre o Thiago – disse-me pondo a mão sobre o microfone.

- Ele que venha – disse curiosa. Seriam boas notícias?

Ele trocou mais algumas palavras ao telefone e acabou por desligar.

- Ele vem a caminho – informou-me, sentando-se sobre a cama – Como te sentes?

- Muito melhor.

- Ainda bem – sorriu.

Seguimos para a sala e passaram cerca de 20 minutos até que o advogado chegasse. Saudámo-lo e sentámo-nos na sala de estar.

- Não trago boas notícias – informou-nos.


(Alexis)

- Blanca? Que estás aqui a fazer? – perguntei-lhe, vendo-a à porta de minha casa.

- Liguei-te mas não me atendeste – levei a mão ao bolso e apercebi-me que tinha o telemóvel em silêncio.

- Desculpa. Tinha o telemóvel em silêncio. Precisas…de alguma coisa?

- Estou a incomodar, não estou? – perguntou.

- Claro que não. Simplesmente…fiquei surpreendido.

- Estava em casa e…eram demasiadas recordações. Fiz mal em vir até cá?

- Claro que não.

- E vamos entrar ou ficamos por aqui? – perguntou.

- Blanca, eu…eu preferia que não entrasses em minha casa. Não é por mim, mas sabes que a Adriana não tem uma boa relação contigo e não quero que ela se sinta invadida.

- Compreendo perfeitamente. Ela tem razões para assim estar. Eu…fiz coisas no “Hombres Mujeres Y Viceversa” que foram autênticas provocações. Pode custar admitir, mas…a…a morte do meu pai fez-me repensar a vida. Estava a fazer tudo errado. Peço-vos desculpa por isso. Alexis, acredita que já não te amo. Apenas quero ser tua amiga. Podemos tentar? – perguntou-me.

- Blanca, vou-te ser sincero. Quero a nossa amizade de volta. Aquela que existia antes de começarmos a namorar, ainda no Liceu. Mas por outro lado sinto que estou a trair a Di ao estar aqui contigo.

- Eu percebo-te – interrompeu-me – Se fosse ao contrário, eu também não a quereria perto de ti. É normal que ela não goste de uma ex-namorada que tem fama de ladra e que se comportou como uma louca num programa de televisão. Mas apenas quero o vosso melhor e a nossa amizade, se possível.

Sorri-lhe.

- Claro que é possível.

- Obrigada – abraçou-me – Vamos passear? Pôr a conversa em dia! Ou tens algo para fazer?

- Tenho algum tempinho – disponibilizei-me.

Começámos a andar e a falar sobre o trabalho dela, a situação do Thiago, o meu casamento com a Di, até que ela se lembrou de algo.

- Ah já vi a Adriana na Cosmo – retirou a revista da bolsa. Ainda não sabia que estava já à venda – Saiu hoje. Ela está deslumbrante!

Ela estendeu-me a revista e passei algum tempo a lê-la, enquanto nos sentámos num jardim de Barcelona. Deslumbrante como sempre… Aquela mulher valia mais que a minha vida.

- Estás bem? – perguntei, vendo-a distante.

- Tenho medo que isto vos faça mal.

- Isto o quê? A nossa amizade?

- Também, mas estava a referir-me à Cosmo.

- O que pode correr mal? – perguntei descrente.

- Alexis, esquece. São só coisas do passado.

- Coisas do passado? Blanca, explica-te.

- Alexis, também foi assim que eu comecei. Também comecei numa revista chilena, lembras-te?

- Claro que me lembro. Foste um sucesso.

- E depois apareceu a oportunidade de ir para Nova Iorque. Eu tinha a idade da Adriana. Sei como este mundo nos muda. Torna-se uma obsessão. Obsessão por ser a mais magra, a mais bela. Esquecemos tudo. Até a família. Protege-a disso – implorou – Tenta mantê-la afastada das grandes objetivas. Não quero que ela te deixe a ti e ao Thiago e corra para Nova Iorque, Paris ou Milão. É um mundo de ilusões… Eu sou a prova disso. Olha tudo o que perdi à custa deste mundo. Protege-a – tornou a pedir-me.


(Ana)


- Tem más notícias? – perguntei.

- Sim. Estudei o caso e…não conseguiremos redução da pena, muito menos a sua libertação.

- Como não? – perguntei.

- Ana, foi um milagre não ter sido condenado a 15 anos de prisão. Ele apenas foi julgado pela agressão e tentativa de abuso sexual que cometeu sobre si. Ele poderia ser julgado por violação contra si, cumplicidade em atos de violência sobre si, tráfico de droga, tentativa de homicídio qualificado contra o Francesc. É impossível tirá-lo da cadeia.

- É para isso que serve a justiça, não? – levantei-me exaltada – Joder! Se van todos à la mierda! – gritei, abandonando a sala.



O que reservará o futuro a estes casais?
O que fará Alexis em relação à situação da Adriana no mundo da moda?
E como correrá a gravidez de Ana, tão suscetível a emoções fortes?




Olá!
Mais um capítulo, bem pertito da Natal!
Espero que tenham gostado e deixem os vossos comentários!
Quero agradecer à corajosa Mariana que leu os 125 capítulos num máximo de 48h. Que mais há a dizer? Vocês são as melhores leitoras do mundo! Obrigada e bom natal :D


Beijo
Ana

domingo, 23 de dezembro de 2012

Feliz Natal e...capítulo a caminho!


Passo por cá para vos desejar um santo e feliz Natal!
Sejam sonhadores e vivam esta quadra tão especial que possui uma magia tão sua com alegria e paz!
Se ainda não o leram, façam-no e deixem o vosso comentário, eu vou tentar postar em breve ;)



Beijo
Ana

Ah só mais uma coisinha! Respondam à sondagem que está a decorrer. É essencial para que eu tenha a certeza que os capítulos chegam até a vocês! Por favor, respondam, não custa nada!!
 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

125 - "Lembraste-te de que era nosso filho quando me traíste?!"


   (Tiago)


O guarda disse algo à Ana e ela respondeu-lhe de forma serena como lhe era característico, abanando a cabeça afirmativamente. Ele saiu e a Ana confirmou as minhas suspeitas.


- O guarda veio dizer que a hora de visita terminou.


- Já desconfiava, mesmo que não tenha percebido uma única palavra do que ele disse.


A Ana abriu um breve sorriso.


- Catalão. Com o tempo vais apanhando alguma coisa, mas não te preocupes que a maioria usa castelhano – fez-se um breve silêncio – Amanhã, estamos cá outra vez – garantiu-me.


- Obrigado – agradeci-lhe com sinceridade.


Ouvi a respiração profunda da Ana seguida do seu olhar inconfundivelmente expressivo. Tinha chegado a hora. Peguei no Rodrigo que rastejava pelo chão já exausto de tanto brincar e levantei-me. Embalei-o pouco mais de meio minuto, antes que ele cedesse ao cansaço. Dei-lhe um beijo na testa e passei-o para o colo da D. Graça.


- Até amanhã – sussurrou a Ana com a voz a falhar-lhe devido às lágrimas.


- Até amanhã – beijei-lhe a testa e limpei-lhe uma lágrima que teimou em aparecer.


Ela e a D. Graça encaminharam-se para a saída, ficando o Cesc para trás.


- Mais cedo do que pensas estarás fora daqui – garantiu-me.


- Obrigado. Toma conta deles – pedi-lhe.


Ele acenou-me afirmativamente com a cabeça e saiu também. Tinha de ver os lados positivos: a Ana estava bem, estava feliz, com alguém que cuidava dela, alguém que inclusive tinha conseguido perdoar-me; o Rodrigo estava bem, protegido por quem eu mais confiava neste mundo, alguém que tinha conseguido sair do tormento que a aprisionava em Braga; faltavam apenas 24 horas para voltar a ver o meu filho…



(Cesc)


Notei a Ana abalada à saída da prisão. Apressei-me a agarrá-la pela cintura enquanto caminhávamos para o carro, indo a D. Graça à nossa frente com o Rodrigo nos braços. Apercebi-me de imediato que a minha princesa chorava.


- Então? – perguntei-lhe.


Ela aconchegou-se a mim e pousou a cabeça no meu ombro, sem nunca pararmos de caminhar.


- Imaginas como deve ser difícil? – perguntou-me, soluçando – Não ter liberdade, não poder estar com o filho, viver com a raiva dele próprio, que eu sei que ele vive…


Dei-lhe um beijo na cabeça.


- Arrependes-te…? – perguntei inseguro.


- De quê? – perguntou confusa, encarando-me.


- De o ter denunciado.


- Foi algo muito repentino. Estavas entre a vida e a morte e…eu guardava-lhe mágoa. Quando…quando ele abusou de mim a mando do Pedro…nunca pensei que o fosse fazer. Pensei que se ia revoltar contra ele, que me ia proteger. Pensei…pensei que nunca me fizesse mal – olhou-me – Achas que não há nada que possamos fazer para o tirar de lá?


- Eu vou fazer tudo para que consigamos. Prometo.


Ela abriu um sorriso modesto e fez os seus lábios tocar os meus.
O toque do seu telemóvel interrompeu-nos. A Ana pareceu ficar perturbada com a chamada e assim que desligou e me explicou, também eu fiquei.


- Era a Di. O Thiago foi internado, não se sabe ainda porquê. E acho que as coisas também não estão bem com o Alexis. Deixa-me no hospital, se faz favor – eu já abria o carro.


- Estás bem, querida? – perguntou a D. Graça, preocupada certamente por ouvir a Ana pedir que a deixasse no hospital.


- Sim, não se preocupe – dizia-lhe, ajudando-a a pôr o Rodrigo na babycoque – O Thiago é que está doente e a Adriana ligou-me preocupada porque ainda não se sabe do que se trata.


- Coitadinho. Espero que não seja nada grave.


Elas acabaram de instalar o Rodrigo e eu conduzi até ao hospital.


- Vou deixá-los em casa e depois venho cá – prometi-lhe, assim que parei junto à entrada.


- Ok – aproximou-se de mim e deu-me um beijo discreto nos lábios.


- Depois dá novidades, querida – pediu a D. Graça.


- Claro. Se precisar de alguma coisa, ligue-me.


- Vai descansada.


A Ana sorriu-lhe e saiu do carro.



(Adriana)


- Estou frágil, mas não estou com Alzheimer – disse-lhe por entre dentes.


- Precisamos de falar. Quero explicar-te o que aconteceu e tenho esse direito.


- Tens é o direito de me deixares em paz – levantei-me.


- Adriana, vamos ser adultos – pediu-me, levantando-se também.


- Ah espero que sim. E espero que tu como adulto que queres ser me deixes em paz, visto que o meu filho está lá dentro doente e podias respeitar a minha dor!


- O nosso filho – corrigiu-me.


- Lembraste-te de que era nosso filho quando me traíste?! – exaltei-me.


- Eu não te traí, Adriana.


- Eu vou ligar à Ana – disse, afastando-me dele o máximo possível que a sala de espera me permitia.


Respirei fundo para me acalmar e liguei à Ana.


- Sim?


- Ana – a minha voz falhou e eu tornei a respirar fundo.


- Está tudo bem, Di? – notei a preocupação na sua voz.


- O Thiago está doente e ainda não me conseguiram dizer nada no hospital – disse-lhe, soluçando – E eu e o Alexis estamos…o nosso casamento está mal. Podes vir ter comigo?


- Claro, Di. Dentro de minutos estou aí.


- Obrigada.


Desliguei e mantive-me longe do Alexis. Quando vi uma enfermeira a passar, não resisti a interpelá-la.


- Sou mãe do Thiago Sánchez. Há novidades?


- Lamento, mas não. Assim que os resultados saírem, os pais serão de imediato informados. Com licença.


A enfermeira continuou o seu trajeto e eu deixei-me cair sobre uma das cadeiras com o desespero a invadir-me. O Alexis andava impacientemente de um lado para o outro, num canto da sala. Alguns minutos depois, sentou-se na cadeira à minha esquerda, mas não consegui aguentar aquela proximidade entre os nossos corpos. Tinha repulsa dele, do que me tinha feito, do que tinha feito à nossa família. Levantei-me e vi a Ana entrar no hospital. Corri até ela e afundei-me nos seus braços.


- Calma – pediu-me, enquanto me acarinhava.


- Desabou tudo – chorei, enquanto a abraçava.


- Vamos sentar-nos – ela caminhou comigo até às cadeiras e eu sentei-me enquanto ela foi buscar-me um copo de água – Bebe, vai acalmar-te.


Fiz o que ela me pediu e respirei fundo.


- Que se passou? – perguntou, acocorando-se junto a mim.


- O Thiago estava estranho, não parava de chorar e tinha febre. Trouxemo-lo para aqui há mais de duas horas e ainda não nos conseguiram dizer nada, Ana. NADA! E depois…depois…depois há aquela besta – olhei o Alexis de soslaio – Ele traiu-me, Ana – vi a surpresa estampada no seu rosto – Eu vi.


Ela nada conseguiu dizer. Apenas me abraçou, tentando consolar-me. Após alguns minutos, estava já mais calma e não resisti a fazer-lhe aquele pedido tão desesperado:


- Podes pressioná-los para saber o que tem o Thiago? Estou muito preocupada. Já passaram horas!


- Eu vou fazer o possível – garantiu-me.


Deu-me um beijo na testa e retirou-se.



(Ana)


Assim que me viu passar, o Alexis apressou-se a vir ter comigo.


- Eu não a traí, Ana. Juro que não.


- Alexis, ela diz que viu.


- É tudo um mal-entendido. Tens de acreditar em mim.


- Não sou eu que tenho de acreditar em ti. É a Di.



(Adriana)


Reparei que a Ana trocou breves palavras com o Alexis antes de se encaminhar para o corredor. Não queria nem sequer pensar no que poderia ele estar a dizer. Não merecia a minha compreensão, pena ou fosse lá o que fosse.
Passaram breves minutos antes que a Ana voltasse, desta vez acompanhada por um médico.


- Já sabem o que o Thiago tem? – perguntei aflita.


- Sim, ele tem uma infeção urinária.


- Uma infeção urinária? Mas é grave? – o Alexis tirou-me as palavras da boca.


- Não é grave. Apesar de não ser muito frequente, acontece e é tratável com antibióticos. Ele ficará internado durante duas semanas – o meu coração estremeceu – mas apenas para que lhe seja administrado o antibiótico e para termos a certeza que está a ter os resultados pretendidos.


- Podemos vê-lo? – perguntei.


- Em breve – garantiu-me – Vamos apenas instalá-lo na ala pediátrica.


- Obrigada.


O médico retirou-se e o Alexis tomou a palavra:


- Podemos falar? Prometo que não te roubo muito tempo.


- Bem, eu vou ligar ao Cesc a dizer que está tudo bem – disse a Ana em forma de escapatória.


- Diz lá o que queres – disse friamente assim que a Ana se afastou.


- Eu não te traí, Adriana – desviei a cara – Adriana – levou o dedo ao meu queixo mas afastei-o de imediato – A Ana disse-me que tinhas visto… O que viste?


- Tu e a Blanca. Abraçados, cúmplices, vi-te a abrires-lhe a porta do carro, vi-vos a irem juntos.


- Adriana, isso é absurdo. Não viste traição absolutamente nenhuma.


- Ai não?! Quando estivemos mal por causa das cenas com o Marcelo, o que tinha acontecido? Fotos de nós a conversarmos, de mãos dadas como amigos e tu? Tu acusaste-me de traição! Quer dizer que para ti pessoas que andem de mãos dadas têm algo maior que uma amizade, logo se alguma vez te visse com alguém de mãos dadas é porque me estarias a trair – o Alexis revirou os olhos como me dizendo que estava a distorcer as coisas – O pior é que não vi mãos dadas, vi abraços, vi-vos dentro do mesmo carro. Tenho zero de confiança em ti!


- Acabaste? – perguntou-me – Posso falar agora e explicar-te as coisas?


- Faz o que quiseres – disse, mostrando-lhe indiferença.


- Quando cheguei a casa de ir correr, reparei que a Blanca estava prestes a tocar à nossa campainha e chamei-a para não criar confusões contigo – bufei – Ela agarrou-se a mim e…


- Coitadinho, não conseguiu defender-se!


- O pai dela morreu, Adriana!


Olhei-o pela primeira vez.


- Ela veio ter comigo porque…porque sou o único amigo que ela tem verdadeiramente. Conheci o pai dela e era uma excelente pessoa. Eles eram muito próximos. Adriana, eu simplesmente fui levá-la a casa porque ela não estava em condições de conduzir. Acredita em mim.


Silenciei-me durante alguns segundos.


- Eu acredito – ela abriu-me um grande sorriso – Mas, Alexis, eu tenho medo. Tenho medo que ela nos separe. Eu sei que ela te quer. E sinto-me insegura.


- Mas só te quero a ti – agarrou as minhas mãos – Tu e o Thiago são o meu mundo.


- Um mundo que te conhece muito menos que ela.


- O que queres dizer com isso?


- Que ela sabe o que aconteceu com o teu pai e tu nunca me falaste nisso. Será que não mereço saber porque não conheço o meu sogro e  porque é que o teu filho não tem avô?



O que terá Alexis a responder?
O que esconde o seu passado?
E Tiago? Como será esta nova etapa da sua vida?



Olá!
Um capítulo desta vez mais comprido e espero que do vosso agrado!
Obrigada a todas as que me seguem e continuem a comentar! Já agora, gostaram do nosso visual do blog?



Beijo
Ana