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domingo, 29 de abril de 2012

96 - "Não é uma suspensão. É uma expulsão."


Doente – Ana…
Ana – Pedro…
Pedro – Não me digas que vieste ver-me morrer… Supostamente este transplante devia salvar-me – ironizou.
Ana – Não posso acreditar que sejas tu.
Pedro – Mas sou. Aguentei e vou regressar em força depois do transplante.
Ana – Há um homem com 3 filhos num quarto ao lado com cancro. Ele merece muito mais este fígado do que tu.
Pedro – Mas eu ainda tenho muito para fazer. Pelos vistos, a neurótica da ex do teu namorado não fez bem o serviço. Era só assustar. Foi pena o teu namoradinho, não ter sido um cavalheiro, e não se ter atirado para a frente do carro, como nos filmes…
Ana – Eu não acredito… Vocês estavam…aliados?
Pedro – Achas? Claro que não… Mas ouvi dizer que estavas grávida antes e que depois…puff! deixaste de estar.
Ana – Cala-te, Pedro.
Pedro – Talvez a Carla tenha feito exatamente o que tinha a fazer. Pena não ter levado o teu namoradinho à frente…
Ana – CALA-TE! Primeiro, tu devias ter vergonha. Estamos numa sala cheia, estás prestes a ser operado e és capaz de confessar tudo isto. E segundo, eu sou casada com o Cesc.
Pedro – Casada?! Mas tu estás parva? Mas ele é o quê?! Um Deus grego?!
Ana – Não. Simplesmente é algo que nunca conseguiste ser: um Homem. Ele faz-me feliz e tu nunca fizeste.
Pedro – Sabes perfeitamente que estamos destinados.
Ana – Não, não estamos nem nunca estivemos. Sabes, espero que recuperes só para depois te ver a apodrecer na cadeia!
Pedro – Acredita que não, amor, acredita que não.
Ana – Eu vou embora. Tenho coisas a fazer.
Pedro – Não me desejas boa sorte?
Ana simplesmente retirou-se. Antes de entrar na sua sala respirou fundo.
Enfermeira – Está bem, doutora?
Ana – Estou sim.
Enfermeira – Tem a certeza? Já percebi que aquele homem lhe fez muito mal.
Ana – Eu estou bem. O transplante de rim a que faltei quando estava a fazer o parto à Adriana correu bem?
Enfermeira – Sim, correu tudo como o desejado.
Ana – Então, vamos ver em que posso ajudar neste transplante de coração…
Ana entrou na sala. Havia uma pessoa em morte cerebral.
Ana – Qual é a história dele?
Enfermeira – Não sabemos. Não há família a identificá-lo. Mas como é dador e ainda por cima é compatível vamos efetuar o transplante.
Os médicos presentes explicaram a Ana como se realizaria o transplante e para que precisavam dela. Queriam sobretudo a sua grande aptidão a nível de psicologia para gerir as emoções do doente que ia receber o coração e da sua família. Ana dirigiu-se ao quarto do doente que receberia o coração.
Ana – Boa noite, Leonardo.
Leonardo – Boa noite, doutora. Não me diga que são mais más notícias… Sempre que aparece um médico novo, é porque o anterior já não tem coragem para me dar mais más notícias.
Ana – E se eu lhe disser que tenho boas notícias?
Leonardo – Como por exemplo o quê? Que a minha esperança de vida aumentou de 30 dias para 31? – perguntou desanimado. Tinha apenas 25 anos e estava numa cama de hospital há cerca de 3 meses. Tinha deixado toda a sua vida para trás e com a sua vida tinha deixado também a sua esperança.
Ana – Temos um coração para si.
Leonardo – O quê? Está a falar a sério?
Ana – Estou sim. Eu estou aqui para lhe dar a notícia de que ainda hoje vai ser operado.
Leonardo – Eu não acredito… - disse incrédulo – Tenho de ligar à Lía.
Pegou no telemóvel e ligou àquela, que Ana presumia ser sua namorada.
Leonardo – Lía, preciso que venhas rapidamente ao hospital.
Leonardo – Não. Está tudo bem. Apenas preciso que venhas.
Leonardo desligou.
Leonardo – Importa-se de ser a doutora a dar-lhe a notícia?
Ana – Claro que não.
Leonardo – Depois peça-lhe para vir até aqui.
Ana – Tudo bem. Até já.
Ana foi dar a conhecer aos médicos de que já tinha informado Leonardo do transplante e que avisaria agora a sua família. Logo que chegou à receção, viu uma mulher bastante preocupada quase aos gritos com a rececionista.
Ana – Lía?
Lía – Sou eu.
Ana – Namorada do Leonardo?
Lía – Sim, sou eu. O que se passa?
Ana – Sente-se.
Sentaram-se as duas em cadeiras da sala de espera.
Ana – O Leonardo vai receber um coração novo hoje.
Lía abraçou-a fortemente.
Lía – Obrigada, obrigada, muito obrigada.
Ana – Ele pediu para vê-la antes da operação. Vamos?
Lía – Claro.
Ana levou Lía até ao quarto de Leonardo.
Lía – Amor! – correu a beijá-lo. – É hoje. Eu sabia que este dia chegaria.
Leonardo – Se não fosses tu, não teria aguentado até a este dia. – Estendeu uma caixa em veludo – Casas comigo?
Lía – Claro que caso.
Trocaram um beijo. Ana sabia que aquelas coisas aconteciam mas era a primeira vez que presenciava um pedido de casamento em pleno hospital.
Ana – Leonardo, vamos?
Leonardo – Vamos.
Lía – Fico à tua espera.
Leonardo – Até já.
Trocaram um beijo e rapidamente Ana ordenou que mandassem Leonardo para o bloco. Finalmente, tinha um tempinho livre e foi até ao quarto de Adriana.
Adriana e Alexis estavam juntos a trocar alguns beijos.
Ana – Posso?
Adriana – Claro.
Ana entrou e dirigiu-se à cama onde Thiago se encontrava. Auscultou-lhe o coração e os pulmões.
Adriana – Está tudo bem?
Ana – Está sim. Já lhe deste de mamar?
Adriana – Não.
Ana – Então prepara-te porque não tarda ele vai acordar.
Adriana respirou fundo.
Ana – Calma. Vai correr bem. Eu vou à sala de espera ver se mando o plantel para casa.
Adriana – O plantel?!
Ana – Nem mais. Devem ser tudo candidatos para mudar a fralda ao Thiago. Até já.
Adriana – Ana! E se ele acordar?
Ana – Se ele acordar, vai tornar-se um monstro de 7 cabeças e 43 patas que te vai engolir viva.
Adriana – Ana, estou a falar a sério.
Ana – Relaxa. Eu já volto.
Alexis – Ana!
Ana – Sim, Alexis…
Alexis – O Cesc vai adorar ver-te de bata… - gozou.
Ana – Eu pensava que a vossa panca era só por enfermeiras…
Adriana – Meninos, vá lá, temos uma criança no quarto!
Os três riram-se e Ana foi até à sala de espera. Estavam todos sentados ou nas cadeiras ou no chão a conversar animadamente. Obviamente que a sala estava de olhos postos neles.
Ana – Então, meninos?
Villa – Quando podemos vê-lo?
Ana – Sim, a Adriana está bem.
Villa – Desculpa, entusiasmei-me!
Todos se riram.
Ana – Shiuuu! Mas podem vê-lo amanhã. Agora, tudo para casa descansar!
Todos se retiraram, exceto Cesc.
Ana – Qual foi a parte do “todos” que não percebeste, Cesc?
Cesc – Ei calma! Que se passa?
Ana – Nada. Agora vai.
Ana virou-lhe as costas, mas Cesc agarrou-a pelo braço e ela acabou por chorar nos seus braços.
Cesc – Hey, hey, Ana, que se passa?
Ana nada disse.
Cesc – Amor…
Ana – É muita coisa, Cesc.
Cesc – Senta-te. Temos tempo.
Ana sentou-se e tentou recompor-se.
Cesc – Podes começar.
Ana – Por onde?
Cesc – Começa pelo fim.
Ana – Prefiro começar pelo início – sorriu.
Cesc – Objetivo alcançado.
Ana – Desculpa?
Cesc – O sorriso.
Ana tornou a sorrir-lhe e beijou-o.
Cesc – Força. Começa.
Ana – Bem, primeiro foi o parto da Di. Custou-me tanto. Foi horrível. Tudo o que ela sofreu, nas minhas mãos. Não tiro da cabeça os gritos, os pedidos para que parasse, as lágrimas. Não sei se deva estar em Medicina.
Cesc – Sabes que ela te está grata. Não sabes? Tu fizeste nascer o Thiago. E tenho a certeza que a Adriana está muito grata, por isso, independentemente de tudo o resto. Fizeste bem, amor. Portanto para de pensar nisso. Tu serás uma ótima médica. Já agora o que se passava com aquela tua doente?
Ana baixou a cabeça para esconder as lágrimas que apareceram.
Cesc – Então, amor?
Ana tornou a levantar a cabeça.
Ana – O marido dela precisa de um fígado, mas outra pessoa vai recebê-lo.
Cesc – São as listas, Ana. Devias estar habit…
Ana (interrompendo-o) – É o Pedro que o vai receber.
Cesc – O quê?!
Ana – Eu falei com ele. Ele e a Carla estavam aliados. Eles planearam o meu atropelamento.
Cesc – O quê?!
Ana – Ele…ele gabou-se do aborto.
Cesc – Essa besta o quê?! Eu mato-o.
Ana – Cesc, fala baixo.
Cesc – Ana, ele não pode receber o fígado.
Ana – Ele está a recebê-lo. E promete voltar em força.
Cesc – Ana, nada te vai acontecer. Eu vou-te proteger, sempre, sempre, sempre. Eu prometo – abraçou-a – Mais alguma coisa a atormentar esta cabecinha? – passou-se a mão pela face.
Ana não respondeu.
Cesc – Então?
Ana – O meu período apareceu. Apareceu na semana passada. Não estou grávida.
Cesc – É só um pretexto para treinarmos mais
Ana riu-se.
Ana – Tarado.
Cesc – Otimista – deu-lhe um beijo na face – Porque não me disseste mais cedo?
Ana – Porque não gosto de te ver desiludido.
Cesc – Não fico desiludido, amor. Agora, mais alguma coisa?
Ana suspirou.
Cesc – Hoje são só problemas.
Ana – Parece uma bola de neve.
Cesc – É grave?
Ana – Quando eu fiz o parto à Di, eu passei por cima de ordens de superiores. Quando o diretor do hospital souber, vai-me castigar severamente.
Cesc – O que achas que vai fazer?
Ana – Acho que me vai suspender. Espero que seja por pouco tempo.
Cesc – Claro que vai ser. Arrependes-te de alguma coisa?
Ana – Nada.
Cesc – Então…
Ana (interrompendo-o) – Só tenho de suportar as consequências com orgulho.
Cesc – Exatamente.
Cesc beijou Ana, intensamente.
Ana – Cesc, estamos num hospital.
Cesc – Sim, mas essa tua bata… - trincou o lábio.
Ana revirou os olhos.
Cesc – Amo-te – deu-lhe um beijo rápido.
Ana – Também te amo. Muito mesmo. Mas agora tenho de subir ao quarto da Di. Ela deve estar em pânico. O Thiago já deve ter acordado.
Cesc – Posso vê-lo?
Ana – Supostamente, não poderias. Não é hora de visitas. Mas este hospital está um caos. Vem.
Ana levou Cesc até ao quarto onde Adriana se encontrava já com Thiago no colo. Cesc foi a correr espreitá-lo.
Cesc – É tão bonito. Vê-se que saiu à mãe!
Alexis – Vê lá se não queres ir fazer queda livre pela janela!
Cesc – Ui tanta agressividade.
Ana – Meninos, ponham-se a andar daqui para fora, se faz favor!
Cesc – Ok, chefe!
Alexis – Mas porquê?
Ana – Quero estar com a Di a sós.
Alexis – Mas…
Ana – JÁ!
Alexis – Fui!
Alexis e Cesc retiraram-se.
Ana – Então, como estás?
Adriana – Exausta.
Ana – Já dormiste desde o parto?
Adriana – Um pouco.
Ana – Preparada para dar de mamar?
Adriana respirou fundo.
Adriana – Vamos a isso.
Adriana começou a tentar de mamar a Thiago, o que estava a ser difícil.
Adriana – Porque é que ele não pega?
Ana – Tenta, só mais um pouquinho.
Adriana voltou a tentar, a tentar e a tentar, até que Thiago acabou por mamar. Foi uma alegria imensa para Adriana. Finalmente tinha conseguido e Thiago mamava muito satisfeito. Depois Ana pegou nele, trocou-lhe a fralda e deitou-o no berço. Depois foi sentar-se ao pé de Adriana.
Ana – Então?
Adriana irrompeu num choro descontrolado.
Ana – Calma, Adriana, que se passa?
Adriana – É tanta coisa. Tenho medo, estou cansada, estou exausta. Eu não pensei que me sentiria assim quando o Thiago nascesse.
Ana – Adriana, isso chama-se baby blues e é normal. Principalmente, no teu caso. Tiveste um parto dificílimo. Amanhã, tenho a certeza que tudo será diferente.
Adriana – Então porque me sinto assim?
Ana – Estás em choque. Acabaste de ter um filho e as tuas hormonas estão um caos.
Adriana – Amanhã, vai ser mesmo melhor?
Ana – Vai sim.
Adriana – Obrigada, Ana. Por nos teres salvo aos dois.
Ana abraçou-a.
Ana – És mãe há poucas horas e já és uma mãe coragem. Queres que passe cá a noite contigo?
Adriana – Não é preciso.
Ana – Então, vou dormir um pouco. São três da manhã. Preciso mesmo de dormir.
Adriana – Até amanhã.
Ana saiu e logo Alexis a abordou.
Alexis – Porque é que ela estava a chorar?
Ana – Tem calma. É normal. O parto altera muito uma mulher. Até tu ainda estás em choque. E a Di também. Ela está exausta.
Alexis – O que posso fazer?
Ana – Ajuda-a com o Thiago. Reduz ao máximo o seu cansaço.
Alexis – Ok, eu vou fazer isso.
Alexis dá um beijo na testa a Ana.
Alexis – Obrigada.
Ana – De nada. Até amanhã.
Alexis – Até amanhã.
Ana – Alexis, já avisaste os vossos pais?
Alexis – Sim, já. Foi uma trabalheira convencê-los a não vir.
Ana – Os avós são assim. Até amanhã.
Ana foi até à sala de espera, onde Cesc a esperava.
Cesc – Vamos para casa?
Ana – Preciso só de ir ver como correu o transplante do Leonardo.
Cesc – Tudo bem. Eu espero.
Ana foi até ao quarto de Leonardo. Ele ainda estava inconsciente. Lía dormia ao pé dele. Ana leu o seu relatório e rapidamente percebeu que o transplante tinha sido um sucesso. Retirou-se e de regresso à sala de espera, Elisa, mulher de Hugo, que esperava o transplante de fígado, apareceu e abraçou-a.
Elisa – Obrigada, obrigada, muito obrigada.
Ana – Desculpe?
Elisa – O Hugo vai receber o transplante.
Ana – Como?
Elisa – Ele vai receber o fígado hoje mesmo! Vieram prepará-lo, porque há uma possibilidade de ele receber o fígado.
Ana ficou abismada. O que teria acontecido para Pedro poder não vir a receber o fígado?
Ana – Que bom. Fico muito feliz por vocês. Bem, eu tenho de ir.
Elisa – Obrigada.
Ana retirou-se. Voltou a vestir a bata e entrou no bloco, onde Pedro deveria estar a receber o fígado.
Mas em vez de estar a receber o fígado, estava a ser reanimado.
Ana ficou imóvel até que…
Médico – Acabou. Estamos há uma hora nisto. Hora do óbito?
Enfermeira – 3h34
Pedro estava morto. Ana estava em completo estado de choque.
Médico – Ana, quero-te no transplante deste fígado. Ana, Ana!
Ana despertou.
Ana – Como é que ele morreu?
Médico – O coração não aguentou a anestesia. Agora, prepara-te.
Ana preparou-se e participou no transplante que demorou mais de duas horas. Quando saiu, já Cesc tinha dormido bastante na sala de espera. Contudo, estava acordado, mas Ana nem deu por isso. Estava completamente perdida nos seus pensamentos.
Cesc – Ana, Ana!
Cesc correu até Ana que já estava a sair do hospital e assim que ele lhe tocou, ela despertou.
Ana – Ele morreu.
Cesc – O marido da tua paciente?
Ana – Não. O Pedro. O Pedro morreu.
Cesc abraçou Ana. Sabia que era traumatizante para ela, que eram demasiadas emoções para um dia só. Levou-a para casa e após algumas lágrimas, acabou por adormecer.
Dez minutos depois, no hospital, o choro de Thiago fazia-se ouvir. Adriana e Alexis acordaram de imediato. Adriana olhou para o relógio. Já tinha passado bastante tempo desde que Thiago tinha mamado.
Adriana – Tenho de lhe dar de mamar. – disse, saindo da cama.
Alexis – Deixa-te estar. Eu vou buscá-lo.
Adriana voltou a encostar-se na cama, enquanto Alexis tirou Thiago do seu berço. Embalava-o um pouco e ia falando com ele, de forma a acalmá-lo, enquanto Adriana se preparava para o pôr a mamar. Depois passou-o para Adriana, que ainda com algumas dificuldades, conseguiu pô-lo a mamar. Enquanto Thiago mamava, Adriana tinha encostado a cabeça à cama e fechado os olhos. Estava realmente exausta. Quando Thiago já estava satisfeito, Alexis retirou-o do colo de Adriana, fê-lo arrotar e embalou-o um pouco até ele sossegar. Ia falando com ele, às vezes, até cantando. Adriana olhava-os com um sorriso rasgado e um orgulho tremendo por Alexis. Quando finalmente Alexis conseguiu largar Thiago e pô-lo no berço, reparou que Adriana o olhava sorrindo.
Alexis – Estás olhar assim para mim porquê?
Adriana – Puseste-o a arrotar, falaste com ele, embalaste-o… Tu leste os meus livros sobre bebés, não leste?
Alexis – Digamos que dei uma olhadela.
Adriana – Olhadela?
Alexis – Ok, li-os todos. Queria estar preparado, percebes?
Adriana – Estás preparadíssimo.
Alexis – Então, fazemos uma boa dupla. Bem, agora dorme. Estás cansada, amor.
Adriana – Faz-me só um favor. Puxa o berço do Thiago mais para o pé de mim. – Alexis atendeu ao pedido de Adriana. – Agora sim, posso dormir.
Alexis deu um beijo a Adriana e foi deitar-se no sofá, do outro lado do berço.
Duas horas depois, Thiago tornou a chorar. Alexis levantou-se e passou Thiago para os braços de Adriana que lhe voltou a dar de mamar. Depois Alexis embalou-o um pouco, para que sossegasse, mas sem sucesso.
Adriana – Eu ajudo-te
Alexis – Não é preciso. Acho que já sei o que é.
Adriana olhou expectante para Alexis.
Adriana – Então?
Alexis – Fralda.
Adriana – Ai como não pensei nisso? – disse pondo-se de pé
Alexis – Relaxa. Eu faço isto.
Adriana – Pelo menos quero assistir – brincou.
Alexis pousou Thiago no muda-fraldas e com todo o cuidado acabou por lhe trocar a fralda. Depois embalou-o um pouco e pousou-o no berço, sempre sob o olhar atento de Adriana.
Alexis – Amor, não me olhes assim.
Adriana – Tenho tanto orgulho em ti.
Alexis – Estás mesmo a precisar de dormir. Já não dizes coisa com coisa – disse aproximando-se de Adriana.
Adriana – Eu digo tudo o que tenho a dizer. – beijou-o.
Alexis – Eu amo-te.
Adriana – Eu amo-te mais.
Alexis – Impossível!
Adriana – É verdade.
Alexis – Eu amo-te mais do que é possível neste mundo. Mas sei que te amo mais do que ontem e que amanhã te amarei ainda mais do que te amo hoje.
Adriana beijou-o intensamente. Alexis pegou nela ao colo e colocou-a na cama.
Alexis – Dorme, amor.
Adriana – Daqui a pouco, é hora de dar banho ao Thiago.
Alexis – Sim, mas até lá, podes dormir um pouquinho.
Adriana – Tens razão.
Alexis deu-lhe um beijo na testa. Quando ia voltar ao sofá, Adriana agarrou-lhe a mão.
Adriana – Fica aqui.
Alexis – Adriana, precisas de descansar.
Adriana – Vá lá…
Alexis – Tudo bem. Mas se não estiveres confortável, eu saio.
Alexis entrou para debaixo dos lençóis e rapidamente se aconchegou a Adriana, que, ao sentir o seu cheiro e o seu toque, não tardou a adormecer.
Entretanto, Cesc acordava. Olhou o relógio e viu que eram quase 8 da manhã. Virou-se na expetativa de olhar Ana, mas ela já não estava na cama. Esperou um pouco, pensando que ela estaria na casa de banho, mas como ela não apareceu, levantou-se e foi procurá-la. Confirmou que ela não estava de facto na casa de banho. Foi procurando pelo resto da casa, até que a encontrou sentada no sofá, bebendo chá e olhando a cidade pela janela. Cesc aproximou-se dela e sentou-se no sofá.
Cesc – Bom dia.
Ana – Bom dia – disse, sem tirar os olhos do sol que ainda ia baixo.
Cesc – Por que já estás de pé?
Ana – Não conseguia dormir. Andava às voltas na cama. Preferi vir para aqui para não te acordar.
Cesc – Precisaste de mim?
Ana – Muito – suspirou.
Cesc – Sempre que precisares, acorda-me. Mesmo que esteja morto, acordarei nem que apenas precises de um abraço.
Ana beijou-o para depois saltar para o seu colo e abraçá-lo.
Ana – Obrigada, amor.
Cesc – A que horas tens de ir para o hospital?
Ana – Às três da tarde.
Cesc – Então, vamos dormir um pouco. Depois, tenho umas ideias…
Ana – Cesc…
Cesc – Cesc nada!
Pegou em Ana ao colo e levou-a para a cama, onde acabou por adormecer.
Uma hora depois, no hospital, Alexis irrompia numa felicidade tremenda!
Alexis – Di, amor, olha o Thiago a bocejar – disse entusiasmado.
Logo Adriana espreitou para o berço e sorriu ao ver Thiago, que logo a seguir os presenteou com os seus olhos. Sim, Thiago tinha aberto os seus olhos perfeitos e que faziam Adriana e Alexis ficarem completamente babados. Poucos minutos depois, a enfermeira apareceu e ajudou-os a dar banho a Thiago, que logo depois pediu para comer.
Alexis – Mas será que ele só come?
Adriana riu-se com a expressão de Alexis e deu de mamar a Thiago. Depois pô-lo no berço.
Adriana – Amor, vou dar um banho rápido. Fica de olho nele.
Alexis – Claro que fico, amor.
Adriana deu-lhe um beijo e foi dar um banho.

10h
Cesc acordava Ana com beijos.
Ana – Amor, deixa-me dormir. Tenho sonho.
Cesc – Dormes depois.
Ana – Quero dormir agora!
Cesc – Não! Levanta-te, amor.
Ana sentou-se na cama.
Ana – Já está!
Cesc – Veste um biquíni e um fato de treino.
Ana – Ah? Mas tu bateste com a cabeça?
Cesc – Amor, vamos correr um bocado e depois podíamos passar pelas piscinas ou assim.
Ana – Não gosto de piscinas.
Cesc – Faz o que eu digo, Ana Fàbregas y Soler!
Ana – Ok, fui!
Ana foi até à casa de banho e vestiu-se.
Depois foi até à cozinha, onde Cesc já preparava o pequeno-almoço. Estava a fazer torradas. Ana decidiu surpreendê-lo e roubar-lhe uma.
Cesc – Ei que estás a fazer?
Ana – Está ótima – disse, comendo a torrada.
Cesc – Tu vais pagá-las e ainda hoje!
Ana – Uh que medo.
Acabaram de tomar o pequeno-almoço e foram correr pela cidade. Correram bastante.
Ana – Cesc, estou a ficar cansada. Vamos parar.
Cesc – Tchiii, a minha mulher é uma fraquinha.
Ana – Eu digo-te a fraquinha.
Cesc – Fazemos assim: uma corrida até à praia para tirarmos as dúvidas.
Ana – Vamos a isso!
Cesc e Ana começaram a correr até à praia. Ana começou a isolar-se. Ao chegar à praia, atirou-se para o chão exausta.
Ana – Fraquinho!
Cesc – Tu mentiste!
Ana – Amor, estava farta de correr!
Cesc – Ainda bem que mentiste.
Ana – Ah?
Cesc – O objetivo era mesmo trazer-te para esta praia deserta.
Ana – E para quê? – levantou o sobrolho.
Cesc retirou a camisola.
Ana – Cesc, aqui não. É um sítio público.
Cesc – Eich o que anda na tua cabeça! – disse com sinceridade – Mas isso também era uma ótima ideia…Mas estava mais a pensar no primeiro banho do ano. Estamos em maio e eu sinto falta da praia.
Ana corou. Cesc tinha sido bastante decente nos seus pensamentos e ela tinha-os destorcido.
Cesc – Para de pensar nisso e anda! – disse, andando em direção ao mar
Ana retirou de imediato a sua roupa e começou a correr ultrapassando Cesc, que assim que a viu a correr, apressou também o passo. Cesc conseguiu mesmo alcançar Ana. Pegou nela ao colo e correu para o mar.
Ana – Ai Cesc está gelada! Deixa-me sair!
Cesc não atendeu ao pedido de Ana e à primeira onda, mergulhou-os. Ana começou a tremer.
Ana – Parvo!
Cesc rapidamente a agarrou e a beijou.
Ana – Não é com beijos que resolves isto!
Cesc – Eu sei fazer mais do que dar beijos – disse com ar insinuante.
Ana – Eu não acredito. O meu marido é um tarado!
Cesc – Vais-me dizer que não foi isso que mais te atraiu em mim…
Ana – Atrair? – riu-se – Foi por pena.
Desta vez, foi Cesc a rir-se, para depois precipitar Ana para mais uma onda.
Ficaram ali entre brincadeiras e declarações de amor quase mais uma hora. Depois, já com frio, foram saindo, bem agarrados aos beijos.
Os beijos eram tão intensos que acabaram mesmo por cair, entre o areal e o mar. Obviamente que a situação causou muitos risos, mas não foi por isso que os beijos deixaram de existir. Bem pelo contrário. Continuaram a suceder-se a um ritmo cada vez maior. Os lábios de Ana há muito tinham deixado de limitar-se a beijarem os de Cesc. Já percorriam o seu pescoço, o seu peito…
Cesc – Amor, não disseste que aqui não?
Ana – Cesc, vá lá. Apetece-me tanto – fez beicinho.
Cesc – Eu não acredito… Tu estás a fazer beicinho porque…
Ana – Sim, estou a fazer beicinho porque quero fazer amor contigo AGORA!
Cesc tomou de imediato aquele desejo como imprescindível e retirou o biquíni de Ana, que acabou por ver o seu desejo realizado, e bem realizado…
Depois vestiram-se rapidamente com um sorriso que só eles podiam decifrar.
Cesc – E se nos tivessem visto?
Ana – Tinham ficado a saber como se faz.
Cesc – Tu és doida!
Voltaram para casa e tomaram um banho. Juntos claro. Depois ainda enrolados nas suas toalhas, almoçaram no sofá a ver notícias. O Euro era tema central de conversa. Espanha queria revalidar o título, sem dúvida.
Ana – Um mês sem ti…
Cesc – É verdade.
Ana – Vou ter de me sacrificar pela Nação…
Cesc – Que trágica, amor!
Ana – Mas vou ter saudades.
Cesc – Um mês vai passar a correr. Simplesmente já não me vais poder pedir certas coisas…
Ana – Podíamos deixar “o serviço adiantado”.
Cesc – Tu hoje estás mesmo acelerada!
Ana – Sabes deve ser do frio…
Cesc – Do frio?
Ana – Sim, debaixo desta toalha não há mais nada. Precisava mesmo de algo ou melhor alguém que me aquecesse.
Cesc – Tens, no armário, umas roupas que parecem cumprir esses requisitos.
Ana – Parvo!
Cesc rapidamente saltou para cima de Ana, para tornarem a fazer amor. Depois vestiram-se para ir para o hospital.
Quando lá chegaram, Ana foi de imediato abordada pela rececionista.
Rececionista – Doutora, os senhores diretores querem vê-la urgentemente.
Ana – Vou até ao gabinete deles. Até já.
Ana foi até ao pé de Cesc.
Ana – Eu vou ao gabinete dos diretores.
Cesc – Que diretores?
Ana – O do hospital e o da universidade. Volto já.
Cesc – Boa sorte.
Ana – Obrigada.
Ana deu-lhe um beijo e seguiu para o gabinete. Bateu à porta, e assim que lhe deram autorização, entrou.
Ana – Boa tarde.
Diretor do hospital – O que se passou aqui ontem foi inadmissível. Foi por cima de todas as diretivas! – reprimiu.
Diretor da universidade – Podes ser uma excelente aluna, mas não podes fazer o que fizeste ontem. O que fizeste é intolerável!
DH – Isto é um hospital universitário, mas quem aqui manda sou eu e a menina deveria saber isso.
Ana – Fiz o que achei melhor.
DH – Quem sabe o que é melhor, sou eu.
Ana – Onde estava ontem quando o seu hospital estava um caos?
DH – Eu não lhe admito!
Ana – O senhor não sabe ser líder.
DU – Ana! – reprimiu o diretor da universidade – Já tomamos uma decisão em relação a ti. Estás fora.
Ana – Eu já calculava que me iriam suspender. Por quanto tempo será?
DH – Não é uma suspensão. É uma expulsão.
Ana – O quê?!
DH – Esta instituição tem como o rigor e o respeito valores fundamentais. E a menina não é digna desta instituição. Quero o seu identificativo já.
Ana – Eu…eu não o tenho aqui. O meu marido ficou com a minha mala.
DH – Nós não nos importamos de acompanhá-la até ao seu marido para que nos dê o seu identificativo.
O identificativo era o que dava Ana acesso ao hospital e à universidade.
Ana – Tudo bem.
Os diretores seguiram Ana. Como Cesc já não estava na sala de espera, subiram até ao quarto de Adriana. Ana bateu à porta.
Ana – Com licença – disse com as lágrimas nos olhos – Cesc, a minha mala?
Cesc – Está aqui – estendeu-a – O que se passa?
Ana pegou na mala e retirou o identificativo.
DH – Não havia outra alternativa. Tem sorte por só a expulsarmos e não lhe pormos um processo judicial em cima. O identificativo, por favor.
Ana estendeu-lhe o identificativo.
Adriana – Não!

O que terá Adriana a dizer?
Como encarará Ana a expulsão?

Um obrigada muito especial a quem nos lê e um obrigada muito mais especial para quem decidiu começar a ler a fic, sendo ela já tão extensa. Muito muito obrigada! Esperamos pelos vossos comentários!
Convidamos-vos também a lerem as nossas outras duas fics mais curtas e completamente diferentes, Quando Um Nada Se Transforma Em Tudo e De Sempre Para Sempre, que estão referenciadas no topo do blog. Esperemos que gostem ;)