Páginas

domingo, 29 de julho de 2012

107 – “Sim, tarado, mas teu!"

(Ana)
- Tia! – o Pedro entrou e saltou para o meu colo, enquanto os meus pais, o meu irmão Alexandre e a minha cunhada Margarida ficaram petrificados. Já o Cesc entrou num pânico silencioso ao ver o Pedro no meu colo. “Em cima do nosso filho” seriam as palavras de pai principiante dele – Tinha saudades tuas – deu-me um abraço apertado e um beijo na bochecha.
- Eu também tinha saudades tuas, pirralho – passei a mão pelo seu cabelo a despenteá-lo – Entrem – disse aos meus familiares que ainda estavam do outro lado da porta.
- O que é que esta mulher está aqui a fazer? – perguntou a minha mãe em tom agressivo.
- Entrem. Temos muito que conversar.
A minha família olhou-me a mim e à Graça, que estava cabisbaixa.
Eles entraram e fomos até à sala.
- Menina Ana, quer que prepare alguma coisa? – perguntou-me a Graça.
- Sente-se, Graça – pedi-lhe, apontando o lugar ao meu lado.
- Não posso, menina – recusou.
- Não és minha empregada, és minha amiga, minha protetora, meu anjo.
Percebi a estupefação da minha família ao ouvir tal coisa. A Graça timidamente sentou-se ao meu lado, mas mal o fez a campainha tocou.

(Cesc)
- Eu vou lá! – disse. A Graça já estava a levantar-se – Deixe-se estar, Graça.
- Mas… - tentou contrapor.
- Mas nada – discordei.
Fui até à porta e abri.
- Maninho! – saudou-me a minha irmã – Que bebé é esse? – apontou para o Rodrigo que ainda andava no meu colo, muito animado.
- Longa história – resumi.
- Hum está bem. Mas onde anda a minha…
Tapei-lhe a boca rapidamente, sabendo que a palavra “grávida” iria sair bem audivelmente dali, pondo a família da Ana em alerta.
- A família da Ana está cá – sussurrei-lhe – Vai haver uma conversa complicada – alertei.
- Ela não se pode enervar – chamou-me a atenção.
- Eu sei. Anda. Entra. Mas nada de te desbocares – ela lançou-me um olhar reprovador.
Fomos até à sala.
- Carlota! – saudou-a Ana.
- Olá, Soler! – Desde que eu e a Ana nos casamos que a Carlota começou a chamar a Ana de Soler. Uma picaria entre as duas. A minha irmã deu-lhe um beijo na face e depois saudou os restantes presentes.
- Carlota, porque não vais até lá fora com o Simão? – não queria que ele ouvisse aquela conversa.
- Porque é que não vais tu?
Olhei-a de modo repreensivo e ela cedeu.
- Leva também o Rodrigo.
- Quê?! Francesc Fàbregas y Soler sou péssima com crianças!
- Hoje vais ser boa – passei-lhe o Rodrigo para os braços, que logo se entreteve com o colar dela.
- Cesc…
- Ou posso sempre dizer ao pai que namoras com o M…
- Ok! – interrompeu-me, revirando os olhos – Vamos, Pedro?
- Com ela? – apontou para a minha irmã.
- Sim, Pedro. Se ela se portar mal, eu ajusto contas com ela – brinquei.
- Ah ah ah que piadinha, maninho.
- Vai lá, Pedro. O Peti já tem saudades tuas.
- Sim, vamos! – puxou a Carlota bruscamente pela mão o que lhe causou um pequeno desequilíbrio, que me deixou com um sorriso no rosto.
Agora temia o que poderia ouvir da boca da Ana. Havia algo que eu não sabia. A vida dela parecia um campo de minas. Ainda havia algumas a ser pisadas e a deixar as marcas. Sentei-me ao seu lado direito, pegando-lhe a mão.

(Ana)
- Ana, estamos à espera – disse-me o meu irmão.
- Então vamos ao início. Ao verdadeiro – percebi que eles temeram ao ouvir a última palavra. Aperceberam-se que havia mentira por detrás do passado que conheciam – A Dona Graça é – corrigi – era mãe do Pedro e foi o mais próximo que o Tiago teve de uma mãe – introduzi, mas entendi de imediato que os nomes Pedro e Tiago não ajudaram em nada – E foi o meu anjo.
- Ana, explica, por favor – senti o nervoso miudinho do meu irmão.
- A primeira vez que eu vi a Dona Graça, ela estava doente e o Pedro bateu-lhe – tremi ao contá-lo. Dois anos não apagavam certas imagens – Quando tentei ajudá-la, o Pedro bateu-me pela primeira vez – vi cada um deles estremecerem, principalmente a Graça, que chorava silenciosamente – Por sorte ou por bênção talvez, ele saiu e eu pude cuidar da Dona Graça, que me pediu para fugir. Lembro-me que ela tinha medo que eu ficasse sem tempo para fugir do que aí vinha. Mas não fugi. Claro que a partir daí foi uma bola de neve. Mais violência, mais dores, mais feridas. Contudo, a Dona Graça protegeu-me, tal como o Tiago.
- O…o Tiago? – gaguejou o meu irmão, confuso.
- Supostamente, o Tiago deveria tratar-me como o Pedro. Acho que o Pedro era um bocado sádico…
- Demente – ouvi o Cesc soltar, recaindo os olhos de todos sobre ele – Desculpem.
- Como se não tivesses razão… - comentou a Margarida num tom mais baixo, mas ainda assim audível.
- Continuando. – tentei recomeçar – Ele deveria tratar-me mal, porque o Pedro salvou-o da rua e ele tinha uma dívida para com ele. Só que o Tiago não conseguia ser o tipo de pessoa que o Pedro queria, por isso, fingia.
- Fingia? – perguntou o meu pai.
- O Tiago fingia que abusava de mim, que me batia. Simplesmente inventava coisas ao Pedro. Apenas abusou de mim uma vez… O Pedro estava desconfiado. Quis assistir.
- O quê?! – o Cesc exaltou-se – Estás-me a dizer que aquela besta quis ver o Tiago violar-te?
- Cesc… - disse num tom que pedia calma. Ele olhou de relance para o meu ventre. Percebi que pensou no nosso filho para se acalmar.
- Desculpa – pediu-me. Apertei-lhe fortemente a mão.
- O Tiago também só me bateu uma vez. O Pedro andava a desconfiar da minha falta de marcas.
- Marcas essas que supostamente eram feridas ganhas na escola por descuido – recordou amargurada a minha mãe – Como mentiste? Como?!
- Mãe, havia muita coisa em risco. Havia a minha vida, a vida da Dona Graça, as vossas vidas. Mas agora que o assunto Tiago está esclarecido, vamos ao principal, a Dona Graça – pausei – Dona Graça, poderia mostrar-lhes a ferida? – vi o sofrimento no seu olhar. Sabia que era penoso fazê-lo, mas mesmo assim levantou a camisola para deixar à vista a sua cicatriz no abdómen – Esta cicatriz era minha.
- Tua? – foi o Cesc que falou. Percebi que mesmo não tendo vivido aqueles momentos, era ele quem estava mais desesperado com aquela conversa.
- Quando o Pedro se apercebeu que eu estava grávida, a primeira ideia foi esfaquear-me. Matar o meu filho atrozmente – senti a minha respiração ofegante e senti-me tremer com aquelas recordações. Eu sentia dor física com tudo aquilo.
- Ana… - advertiu-me o Cesc – é melhor pararmos. Não estás bem. Não te podes enervar, lembra-te.
Olhei-o intensamente.
- Acredita que nunca, nem apenas um segundo por dia, me esqueço disso – ele percebeu a minha linguagem de código. Percebeu que queria dizer que o nosso filho estava presente em todos os segundos do meu dia. Assentiu com a cabeça, autorizando-me a continuar.
- Ele queria esfaquear-me – prossegui – Mas a Dona Graça enfrentou-o e na luta foi a ela a esfaqueada.
Vi a minha mãe levar as mãos à cara, chorando desalmadamente.
- Como? Como passou tanto tempo sem sabermos? – perguntou abalada.
- Mãe, eu não estava preparada para falar disto. Aliás o meu objetivo era enterrar isto para sempre. Mas a Dona Graça não merece esta injustiça – justifiquei.
- Claro que não – ela levantou-se e quase de imediato a Graça fez o mesmo, assim que a minha mãe se dirigiu a ela – Nós pedimos desculpa, Graça. Fomos injustos. E agradecemos-te por tudo – a minha mãe não se conteve e abraçou fortemente a Graça.
Suspirei de alívio, encostando-me às costas do sofá. O Cesc envolveu-me nos seus braços e deu-me um beijo na testa.
- Cada vez te amo mais – sussurrou-me.
Mirei-o e beijei-o rápida e discretamente.
Assim que a Graça foi abraçada por todos os meus familiares, voltou a atenção para mim.
- Vou fazer-lhe um chá – dispôs-se.
- Não é preciso. Se eu quiser, eu faço.
- Menina, eu vou fazer-lhe o chá. Porque não dá as boas novas à sua família? Parece-me a altura indicada… - já sabia que a perspicácia da Graça era enorme. E acho que bastou observar atentamente a conversa para somar 2+2 e pelas minhas atitudes e da minha família descobrir que a minha família de nada sabia.
Olhei o Cesc e percebi que não só apoiava, como estava ansioso para que anunciasse a minha gravidez. Respirei fundo e sorri.
- Eu e o Cesc vamos ser pais. Eu estou grávida.
Vi alguma estupefação. Sim, eu tinha 19 verdes anos.
- Bem, parabéns! – felicitou-me o meu irmão.
Assim que começaram a ultrapassar o choque da notícia, vi a sua alegria crescer. Por fim, estavam já bastante animados e até a fazer prognósticos sobre se seria menina ou menino, qual o nome, se teria o meu feitio… A Graça acabou por levar a sua avante e trazer o chá. Bebi-o tranquilamente até que:
- A Carlota – lembrei-me, olhando o Cesc. A Carlota e os miúdos não se davam muito bem. A Carlota tinha um feitio muito característico e paciência não era a sua maior qualidade. Tanto eu como o Cesc percebemos de imediato que tínhamos de nos despachar. Ela devia estar em pânico.

(Carlota)
Eu e dois putos. Sorte grande! Eu e crianças eramos como Barça e Real: não havia junções. Ok, eu namorava com um madrilista. Mas isso era diferente! Para além disso, ele era o madrilista mais sexy que o mundo acolhia. Inacreditável. Até ao pé de crianças, a minha mente era perversa. Perversa não! Era apenas imaginação sexy…
Saí para o jardim com o Rodrigo ao colo e o Pedro a correr à minha frente. Para melhorar as coisas, o Peti vinha disparado em direção a mim. Se não fosse o Pedro a chamar a sua atenção, eu e o Rodrigo tínhamos experimentado a bonita e fria piscina da mansão Soler. O Pedro entretinha-se facilmente com o Peti. Já o Rodrigo era um quebra-cabeças. Eu não percebia nada de bebés. Eles não falam, caso não se lembrem! Como é suposto descodificá-los?! Ele chorava e eu enfiava-lhe a chupeta. Deitava-a fora e eu voltava a colocá-la.
- Ele quer brincar – interveio o Pedro.
- Ai sim, senhor Educador de Infância? – ironizei.
- Sim! – deitou-me a língua de fora – Ele está chateado. Olha para ele! – apontou para o puto que andava irrequieto – Ou isso ou tem cocó…
- Não! Ele deve querer brincar… - fiz um sorriso amarelo. Trocar-lhe a fralda? Isso é que não! – Pedro – chamei-o – como é que…como é que ele brinca? – sim, a pergunta era estúpida. Mas eu tinha mais conhecimentos automóveis do que infantis. Crianças na minha vida só mesmo o meu maninho mais velho.
Não gostar de crianças e elas não gostarem de mim era um bom argumento para recusar o convite que o meu caracolitos havia feito. Tinha de ser com calma e jeitinho, senão ainda me punha um par de patins. Tinha de falar com a Ana sobre o assunto.
- Senta-o no chão – sugeriu o Pedro. Não me parecia a melhor ideia, mas eu não tinha mais nenhuma. Fiz o que ele disse e pareceu-me que o Rodrigo se falasse agradeceria estar fora do meu colo. Ingrato! Ele começou com risos…fascinantes, admito. Era muito bem-disposto e já gatinhava.
Vi o Pedro orgulhoso da sua ideia e revirei os olhos como que desvalorizando. Ele deu-me um beijo na cara (este eu não esperava) e desatou a correr com o Peti atrás dele pelo jardim. Sentei-me ao pé do Rodrigo que continuava sorridente e alegre. Gatinhava e até já se punha de pé e dava pequenos passos, desde que eu o segurasse. Aos poucos e poucos começou a ficar cansado e aborrecido. Peguei nele e deitei-o sobre mim, dando-lhe a chupeta. Segundos depois, enquanto o Rodrigo ainda resmungava um pouco, o Pedro deitou-se exausto ao pé de mim com o Peti ao seu lado. Fiquei atenta ao Rodrigo que acabou por adormecer. Quando voltei a olhar o Pedro ele já dormia tranquilamente. Aos poucos e poucos, o sono também me invadiu e acabei também por ceder ao cansaço.

(Ana)
Saímos para o jardim rapidamente e um sorriso de ternura surgiu nos meus lábios ao ver aquele cenário.
- O momento mais bonito que a tua irmã já protagonizou com crianças – comentei com o Cesc.
- O único momento que a minha irmã protagonizou com crianças – corrigiu.
- Ela vai ser uma madrinha perfeita para o nosso filho, não achas?
O Cesc olhou-me com um sorriso emocionado.
- Queres que a Carlota seja madrinha do nosso filho? – perguntou, confirmando as minhas palavras.
- Sim. Tu não?
Ele beijou-me intensamente, como eu não esperava.
- Então – reclamei – queres que fique sem oxigénio? – brinquei.
- Eu amo-te tanto – confidenciou-me, passando a mão no meu rosto.
- Eu também te amo, Cesc – disse, encostando as nossas testas – Acho que agora sabes tudo sobre o meu passado.
- E isso só me faz sentir mais privilegiado de fazer parte do teu presente – tornou a beijar-me.

(Adriana)
O dia começou com miminhos do meu e só meu marido, para depois o nosso Thiago sorrir-nos pela primeira vez. Foi um dos eventos que me encarreguei de marcar como importantes no seu álbum. Estávamos já deitados no sofá quando a campainha tocou. Fui abrir e era o Cesc com uma criança. A primeira coisa que me veio à cabeça foi “Ele tem outro filho e a Ana pô-lo fora de casa” mas afinal era o “neto” da Dona Graça, de quem a Ana me tinha falado há anos atrás. Era uma grande mulher, mas se a mãe da Ana a visse iria dar para o torto. Agora que também era mãe percebia a sua dor. Se o Thiago andasse a ser espancado e abusado em também exigiria saber. Tremi a pensar aquilo. Acabei por dar alguns bens essenciais ao Cesc: leite, fraldas, peças de roupa… Ele saiu e eu voltei ao sofá. Como o Thiago dormia sobre o peito do Alexis, peguei nele e fui pô-lo no berço. Voltei ao sofá, atirando-me para cima do Alexis.
- A vida deles é complicada – comentou.
- Sim. O passado da Ana tem muitas pontas soltas – confirmei.
- O teu passado não tem pontas soltas, pois não?
- Não, amor – beijei-o rapidamente – Não tive experiências como as da Ana, felizmente.
Ele sorriu-me e aproximou os seus lábios dos meus. Os beijos foram intensificando-se e percebi onde aquilo iria parar. Ou melhor, não iria parar… Peça de roupa a peça de roupa, beijo a beijo, toque a toque, fomo-nos amando sem pressas, sem imperfeições. Tudo naqueles momentos era perfeito. Desta vez, o Alexis tinha-se focado ainda mais em mim. Percebi que se tinha focado mais nas minhas sensações do que nas suas. Que mulher não desejaria aquele tratamento VIP? Estávamos já a trocar uns últimos beijos finais quando o assunto Ana me veio à cabeça. Como teria corrido a conversa?
- Amor, estás a pensar em quê? – o Alexis notou a minha distração.
- Desculpa – dei-lhe um beijo demorado de modo a compensá-lo – Estava a pensar na Ana.
- Estás preocupada?
- Sim – admiti.
- Porque não vais vê-la? Afinal somos vizinhos. São curtos metros de distância.
- Sempre tão prático o meu marido… - dei-lhe um beijo repenicado.
- Prática é comigo… - disse com um sorriso perverso.
- Tarado!
- Sim, tarado, mas teu! – aproximou-se perigosamente de mim.
- E não partilho com ninguém – roubei-lhe um beijo que vinha com mordidela incluída. Admito que estávamos já a entrar por caminhos mais elaborados, mas contive-me – Amor, quero ir ver como está a Ana…
- Ok – conformou-se.
Apanhei a roupa do chão e vesti-a.
- Mas depois compenso – sussurrei-lhe.
Dei-lhe um beijo provocante no pescoço e saí. Encontrei quem menos esperava.
- Tu?! O que fazes à porta de minha casa?

Quem estará à porta de casa de Adriana?
Como correrão as férias de Ana e Cesc?
Sempre irá Ana a Braga?
E qual terá sido o convite que Carlota recebeu de Marcelo?

Olá! Aqui está o capítulo.
Espero que tenham gostado :)
Agradeço a todos os que deixam os seus comentários e peço que continuem a fazê-lo.

Beijo
Ana*

segunda-feira, 23 de julho de 2012

106 - "Cesc? Tens outro filho?!"


(Ana)
Aquela imagem levou a minha cabeça divagar por lembranças passadas, muito mal passadas…

Lembrança
Três anos antes
- Vê se te despachas – gritou-me o Pedro – Tenho de passar por casa.
- Queres que vá contigo? – perguntei surpreendida. O Pedro nunca me tinha levado a casa dele.
- Epá, tu és um bocado lenta, miúda. Claro que quero, senão nem te dizia onde ia, não achas? E tu já estás vestida? Fogo, se eu demorasse o mesmo tempo a tirar-te a roupa que tu demoras a metê-la bem que estava lixado.
- Pronto, já estou.
Ele saiu sem dizer nada e eu segui-o. Não fiquei ressentida com as palavras dele. Eu sabia bem que ele estava num dia mau (como muitos outros) e apenas descarregava em mim.
Ele conduziu até sua casa. Era um verdadeiro casebre. Ele vivia ali?
Saiu do carro e eu segui-o. Entramos e a primeira coisa que vi foi uma senhora deitada num velho sofá, ela tremia debaixo do cobertor e percebi que estava doente.
- Mãe, o almoço? – perguntou o Pedro.
- Desculpa, filho, mas não o fiz. Estou doente.
- É que só me podes estar a gozar, velha! – gritou-lhe o Pedro.
A senhora levantou-se debilmente e ele aproximou-se bruscamente dele.
- Filho, eu estou mal. Desculpa.
- Desculpa? – o Pedro ergueu a mão e bateu na mãe, deixando-a estendida no chão.
- Pedro! – gritei, tentando aproximar-me da senhora.
- Desaparece daqui, senão também levas! – ameaçou-me. Recuei um passo, mas não me contive e voltei a aproximar-me. O Pedro não faltou à sua palavra e pela primeira vez bateu-me (não sabia eu que seria a primeira de muitas).
Não consegui reagir. Para minha felicidade, o telemóvel dele tocou. Percebi que eram problemas relacionados com o tráfico de droga e suspirei de alívio. Ele saiu disparado sem nada dizer. Assim que ele fechou a porta violentamente, baixei-me para auxiliar a senhora, ajudando-a a deitar-se no sofá novamente.
- A senhora está bem? – perguntei preocupada.
- Trata-me por Graça, querida – disse-me com uma voz ternurenta de mãe.
- A Dona Graça está bem?
- Não te preocupes. Isto passa. Já estou habituada. – confessou.
- O Pedro bate-lhe?
- Minha filha, tu mereces melhor. Foge enquanto tens tempo.
Aquelas palavras ficaram para sempre presentes na minha memória. Relembrava-as todas as vezes em que o Pedro me batia, me humilhava, me abusava…
Continuei a visitá-la às escondidas e a cuidar dela como podia. Após semanas e semanas a fio, consegui fazê-la fugir. Tratei de tudo e ela foi acolhida secretamente num refúgio para vítimas de violência doméstica em Guimarães. Este facto levou o Pedro a descarregar tudo em mim e, por consequência, começar a bater-me mais frequente e violentamente cada vez por motivos mais pequenos, ou mesmo inexistentes.

***
- Dona Graça – tornei a repetir – Entre.
Ela abriu um ligeiro sorriso e entrou. Dirigimo-nos até à sala. Ela trazia ao colo uma criança que deveria ter pouco mais de 10 meses de idade.
- Como estás, Ana? – perguntou-me amavelmente.
- Muito bem – admiti – E a senhora? Desde já as minhas condolências pela morte do Pedro.
- Ele era a pessoa mais horrível que eu alguma vez poderia ter criado, mas era meu filho e amava-o.
- Devia ter sido eu a dar-lhe a notícia. Peço desculpa por não o ter feito. Não me sentia com coragem para tal.
- Não faz mal, querida.
- O que a traz por cá? – perguntei-lhe.
- Queria falar uns minutinhos contigo se fosse possível.
- Claro. Quer que lhe traga alguma coisa? Um chá, uma água?
- Não, muito obrigada.
- E para o bebé?
- Também não é preciso. Ele comeu há pouco. Deveria estar a dormir agora, mas não consigo adormecê-lo.
- Posso pegar-lhe? – perguntei.
- Não sei se queres.
- Como assim?
- A história dele cruza-se com a tua.
- O quê? – a história daquele bebé cruzava-se com a minha?!
- Não eras a única.
- A única?! Que única?
- Não era só a ti que o Pedro tinha, não era só a ti que ele partilhava.
- O que quer dizer com isso?
- Este bebé é filho de uma rapariga que viveu uma situação como a tua.
Levei de novo as mãos ao meu ventre e deixei cair uma lágrima.
- Sou tão fraca – o meu choro intensificou-se – Como é que ela conseguiu salvar o filho dela e eu não?
- A culpa não é tua. A história dela foi mais feliz que a tua – olhei-a expectante e ela continuou – O Pedro e o Tiago eram muito diferentes. Tu sabes disso.
- Sim, sei. O Tiago nunca me bateu, nem nunca abusou de mim. Aliás só o fez uma vez obrigado pelo Pedro. Ele mentia ao Pedro por mim. Quando supostamente devíamos estar a envolver-nos, ficávamos fechados no quarto dele a conversar ou a ouvir música. Ele apenas me bateu e me tentou violar na noite em que vim a Braga no Natal.
- Exatamente. O Tiago era diferente do Pedro, mas…
- Mas…
- Ele estava em dívida para com o Pedro.
- Em dívida? – o que é que eu não sabia?
- O Pedro salvou o Tiago da miséria. O Tiago foi abandonado e o Pedro tomou conta dele desde o início. A partir daí o Tiago tornou-se o pau mandado do Pedro para lhe compensar.
- E este bebé? O que tem ele a ver com isto?
- Ele é filho do Tiago.
Confesso que fiquei em choque. Não estava à espera de tal coisa.
- A mãe dele – prosseguiu – morreu uns dias antes do Natal. O Tiago não sabia desde filho. Nem sabe. Ainda não tive coragem de ir visitá-lo à prisão. Ele nem sabe que o Pedro morreu. Eu…vejo o Tiago como um filho e queria que lhe desses o teu perdão.
Recuei um pouco ao ouvir aquela frase.
- Não sei… Eu preciso de pensar. Mas e a Dona Graça como se tem aguentado? – mudei de assunto.
- Preferia não falar sobre isso – pediu-me.
- A Dona Graça sabe que pode confiar em mim.
Ela olhou-me e eu percebi que ela estava no seu limite. Peguei no bebé.
- Como é que ele se chama?
- Rodrigo.
Levantei-me e comecei a abaná-lo. Percebi que a Graça chorava intensamente, escondendo-o tapando a cara. Preferi dar-lhe espaço. Andava a embalar o Rodrigo quando reparei no Cesc encostado à porta de acesso ao corredor, visivelmente atónito. Percebi que tinha ouvido a conversa. Caminhei até ele.
- Não podes ir a Braga – recusou-se.
Dei-lhe um beijo suave nos lábios.
- Falamos disso depois. Tenta adormecer o Rodrigo, por favor. Eu preciso de falar com a Graça.
Passei-lhe o bebé para os braços.
- Ana…
- Não te preocupes. Não vou tomar nenhuma decisão sem antes falarmos.
Ele assentiu com a cabeça e foi até ao nosso quarto. Eu caminhei de volta ao sofá e abracei a Graça que chorava inconsolavelmente.
- Tenha calma, Dona Graça – pedi-lhe – Fale comigo.
- Braga está um inferno – soluçou – Não há um dia em que os amigos do Pedro não passem por minha casa e me peçam dinheiro e me ameacem. Já dei tudo. O dinheiro, as joias de família, tudo. Não tenho mais nada. Quando eles voltarem, o que farei? Eles vão vingar-se no Rodrigo.
- Alguém sabe que está cá?
- Não, ninguém mesmo. Também não há ninguém. Sabes bem que era só eu e o Pedro.
- Então porquê voltar a Braga?
- Como? – perguntou-me – Não estou a perceber. A minha casa está em Braga. Tudo o que tenho está lá.
- Tudo o que tem é aquele casebre. Porque não começa de novo longe de Braga? Porque não começa de novo aqui, em Barcelona?
- É impossível, querida. Eu não tenho um curso, não tenho dinheiro para uma casa.
- A Dona Graça vai ficar em minha casa e arranjaremos solução.
- Mas…
- Mas nada – interrompi.
- Ana, não tenho nada para te dar em troca.
- Não tem de dar nada. E se quiser dar, porque não me ajuda aqui em casa? Em breve vou precisar de muita ajuda. Vou para férias e preciso de alguém por aqui. Tenho o meu cão lá fora e uma grande casa para cuidar. Para além disso, se tudo correr bem, dentro de meses haverá mais um membro na família.
A Dona Graça percebeu perfeitamente a que me referia e abraçou-me.
- Parabéns, minha querida. Tu merecias. Mas casaste?
- Sim, Dona Graça. Aliás o Rodrigo está lá dentro com o meu marido.
- Pensei que o tinhas ido deitar.
- Não, o Cesc tem de se habituar a estas cois…
- Yupi! – ouvi o Cesc dizer, atirando o Rodrigo ao ar, que se ria como um perdido.
- Cesc, eu disse “adormecer” e não “brincar”.
- Ele não consegue dormir. Tem fome – constatou.
Olhei a Graça e vi o seu desespero.
- Hoje a comida faltou – desfez-se em lágrimas.
- Tenha calma, Dona Graça. Cesc, vais a casa da Di para ela te dar leite.
- Claro. Até já – deu-me um beijo no rosto e saiu, todo animado com o Rodrigo a rir-se às gargalhadas.
- Obrigada, Ana – disse de imediato a Dona Graça.
- Não precisa de agradecer. Agora vá tomar um banho, enquanto eu começo a fazer o almoço.
- Eu ajudo – disse de imediato.
- Não. Vai tomar o seu banho, tornar a vestir a sua roupa. Depois se quiser pode ajudar-me. Mas à tarde saímos para comprar-lhe algumas roupas e coisas essenciais. Para si e para o Rodrigo claro.
- Eu não mereço…
- Não diga asneiras! Sabe que foi muito importante para mim. Como uma segunda mãe. A diferença é que a minha mãe nunca soube do que o Pedro me fazia.
- Desculpa. Criei um monstro.
- Não se culpe. Vá lá tomar banho.

(Alexis)
Hoje resolvi acordar a minha princesa como uma rainha. Preparei o pequeno-almoço e levei-o à cama.
- Di, Di, amor… - ia-lhe dando alguns beijos pelo rosto enquanto a acordava – Bom dia, amor – disse quando abriu os olhos.
- Bom dia – disse-me, juntando os nossos lábios.
- Trouxe-te um miminho – fui buscar o tabuleiro que tinha pousado na cómoda e levei-o para a cama.
- Hum…que bom! Algum motivo em especial para este miminho?
- Não. Amo-te e achei que era bom mimar-te.
- Oh eu também te amo – beijou-me.
Tomamos o pequeno-almoço calmamente para depois eu afastar o tabuleiro e focar-me na Adriana. Estávamos já a dar alguns beijos menos inocentes quando o choro do Thiago nos interrompeu. Podia ficar aborrecido, mas ele era a coisa mais importante da minha vida. Levantei-me e aproximei-me do berço, ficando maravilhado. Ao ver-me, o Thiago parou de chorar e pela primeira vez abriu-me um sorriso. Foi indiscritível o que senti. Era o primeiro sorriso “consciente” do Thiago. Ele tinha-me sorrido, ele sabia quem eu era.
- Di…ele sorriu-me…
- O quê?!
Tirei-o do berço e assim que viu a Adriana, o Thiago voltou a exibir o seu sorriso e a mexer os seus bracinhos, entusiasmado. Vi a Adriana ficar tão fascinada quanto eu.
- Oh pequenino, acordaste bem-disposto… - falou-lhe.
Deitei-o na cama, onde ele foi “tagarelando” ou típicos “aaaah”, “ohhhh”, “mmmhhh”… Ficamos quase uma hora ali a brincarmos os três, depois o Thiago começou a ficar mais aborrecido com fome. Peguei nele e enquanto a Di se vestia, fui preparar-lhe o leite. Sentei-me no sofá a alimentar o Thiago, para depois a Di se juntar a nós. Estávamos já mais calmos, estando o Thiago deitado sobre o meu peito e a Adriana ao meu lado a acariciá-lo quando a campainha tocou. A Adriana levantou-se e foi abrir.
- Cesc? Tens outro filho?! – ouvia dizer, chamando-me a minha atenção.
- Cruzes, Adriana, pensas-me em cada coisa!
Ele entrou e eu fiquei aliviado ao ouvi-lo negar que aquele filho fosse seu.
O Cesc explicou quem era o bebé, falando de uma tal Graça que percebi que a Adriana conhecia.
- Se a mãe da Ana sabe… - comentou a Adriana.
- Porque dizes isso? – perguntou-lhe o Cesc.
- Acho que deves saber que o Pedro batia e abusava da Ana – vi o Cesc engolir em seco – A Graça nunca contou à mãe da Ana, que quando soube nunca a perdoou – nesta altura o Cesc já dava o biberão ao Rodrigo.
Depois a Adriana fez um saco com as coisas mais essenciais: fraldas, fraldas de pano, leite, chupetas, roupas. O Cesc retirou-se, agradecendo e a Di voltou para a nossa beira, estando já o Thiago a dormir tranquilamente sobre mim.

(Cesc)
Voltei a casa, embalando o Rodrigo e pensando nas revelações da Adriana. Porque nunca tinha denunciado a situação a Dona Graça? Entrei em casa e a Ana veio logo ao meu encontro, pegando no Rodrigo e dando-me um beijo nos lábios.
- A Di deu-nos algumas coisas mais essenciais.
- Ainda bem – sorriu.
Queria falar-lhe da Graça, mas não tive coragem. Fui para o sofá com ela e com o Rodrigo que já era bastante esperto, brincando bastante. Quando a campainha tocou, vi a Graça a apressar-se a aparecer.
- Eu abro, menina Ana.
A Graça abriu e surgiu quem menos se desejava. Dei por mim a pensar “Porque agoiraste, Adriana?”
A mãe da Ana estava em choque:
- O que é que esta mulher está aqui a fazer?

Qual a resposta de Ana?
Criará Graça uma desavença familiar?
Irá Ana a Braga? O que terá Cesc a dizer sobre o assunto?

Espero que tenham gostado! Aqui está mais um capítulo, que hoje foi escrito até bastante rápido.
Quero ver os vossos comentários e opiniões.

A próxima fic em que devo postar é na Quando um Nada Se Transforma Em Tudo, que espero que sigam ;)

Beijo
Ana*