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quarta-feira, 27 de março de 2013

135 - "Sabia que virias…novamente"



(Ana)

- Conseguimos!

Assim que ouvi aquela palavra arranquei a carta das suas mãos. Só quando lesse acreditaria. Era verdade… Tínhamos conseguido. O Tiago seria libertado. Seria libertado hoje!
Abracei o Cesc fortemente sentindo as lágrimas dominar-me.

- D. Graça! – chamei de imediato.

- Estou aqui… - respondeu aparecendo na sala – Querida – ela olhou-me – Estás bem? – mostrou a sua preocupação perante as minhas lágrimas.

- O Tiago vai ser libertado. Vai ser libertado hoje! Conseguimos! – gritei, refugiando-me nos seus braços. Ela tremia, chorando comigo.

Era a maior vitória que poderíamos conquistar!

- Vamos? – o Cesc apareceu com o Rodrigo ao colo. Provavelmente já teriam passado vários minutos desde que eu e a D. Graça nos tínhamos abraçado, saboreando aquela conquista. Mas alguém merecia muito mais saboreá-la…

- Vamos – afirmei de imediato.

Seguimos para a cadeia de Barcelona. Os quilómetros pareciam multiplicar-se. Parecíamos cada vez mais longe do nosso destino. Era absurdo! Assim que chegámos à cadeia, tudo se desenrolou a um ritmo avassalador, mas que mesmo assim era demasiado lento.
Os funcionários já sabiam da libertação do Tiago. Mas ele não.
Deixaram que eu entrasse para a sala onde habitualmente o víamos todas as tardes e lhe desse a notícia. A adrenalina dominava-me em cada passo que dava em direção à sala.

- Ana – ele sorriu-me como fazia todas as tardes – Só vieste tu? – estranhou – Está tudo bem? O Rodrigo está bem? – perguntou visivelmente preocupado.

- Ele está lá fora – respondi com a voz a falhar-me e as lágrimas a aprisionar-me.

Ele aproximou-se de mim, já que eu continuava imóvel perto da porta.

- Ana, estás bem? – perguntou agarrando fortemente as minhas mãos.

- Estás livre – solucei – A tua pena foi-te perdoada. Foste indultado.

As suas mãos começaram a tremer e rapidamente as lágrimas o contagiaram.

- Livre? – sussurrou.

Apenas fui capaz de abanar a cabeça afirmativamente, ao mesmo tempo que ele me apertava num abraço forte, saudoso, agradecido.

- Livre… - repetiu em choque – Livre.

- Apenas…tens de ir buscar as tuas coisas e…podemos ir.

- Não tenho nada para ir buscar. Tudo o que tenho está fora destas paredes…

Percebi de imediato que se referia ao Rodrigo, à D. Graça, a mim e ao Cesc.

- Vamos? – perguntei, esticando-lhe a mão.

- Vamos – respondeu, apertando-a.

Caminhámos apressadamente até à entrada, onde ele abraçou fortemente o Rodrigo que o aguardava com um enorme sorriso.
Recolhi os seus documentos na receção já que percebi que ele não se lembrava sequer de o fazer. Ele estava completamente perdido com o Rodrigo. Já na rua, inspirava e expirava profundamente repetidas vezes. Seria o cheiro da liberdade?
Ele rodopiou-os várias vezes sob as gargalhadas contagiantes do Rodrigo.

- Obrigado – agradeceu emocionado – Não tenho palavras para agradecer. Não tenho porque não existem. O que fizeram por mim foi… Perdoaram-me, apoiaram-me, não passou um dia em que não vos visse. Criaram o meu filho quando eu não pude e…e libertaram-me. Não há palavras para agradecer isso. Não há palavras para descrever a minha gratidão para convosco!

- Não digas nada – respondi – Nós sabemos. Sabemos…

Ele sorriu-me e aproximou-se de mim, beijando-me na testa.

- Vamos para casa? – perguntei.

- Que casa?

- A nossa – respondi olhando para todos nós.

Entrámos no carro e em minutos estávamos já no nosso inconfundível lar.

- Bem-vindo.

- Obrigado – agradeceu.

- De momento somos sete em casa, mais a Catarina – anunciei sob o espanto dele.

- Sete?

- Nós, a Adriana e o Thiago, o filho dela.

- A Adriana está a morar cá? – perguntou surpreendido.

- Longa história… - abreviei – Vais ter muito tempo para ouvi-la. Agora…agora é um novo começo!


***

(Adriana)

- Ontem à noite… Tu…

Todo o meu corpo tremia. Não me sentia capaz de lhe mentir.

- Tu… - suspirou – Esquece. São apenas…parvoíces – soltei o ar preso nos meus pulmões – Adeus – despediu-se.

- Adeus – gaguejei, empurrando o carrinho para longe dali. Queria fugir. Esconder-me!

Sentia-me asfixiada, sufocada pela minha própria loucura. Corri dali para fora, parando apenas quando estava entre as quatro paredes de casa.

- Tiago? – surpreendi-me com aquela visão.

- Olá – saudou-me com um sorriso.

- Conseguimos – confirmou a Ana.

- Que bom! – expressei a minha felicidade correndo a abraçá-lo – Merecias.

- Obrigado – ele estava visivelmente emocionado.

- Anda, tens de conhecer o meu pequeno – puxei-o pela mão, até ao carrinho, onde o Thiago dormia serenamente.

- É lindo…

- Sai à mãe! – brinquei, originando fortes gargalhadas.


***

Dava voltas e voltas na cama…
Três da manhã de 19 de dezembro. Dia de aniversário do Alexis. Há um ano atrás estávamos igualmente separados… Suspirei. Sentia a falta dele. Tentava a todo o custo controlar aquele desejo insano. Mas não conseguia. Não conseguia!
Levantei-me, envolvi-me num cobertor, peguei nas chaves e saí. Caminhei aqueles curtos metros, tremendo de frio. Cuidadosamente abri a porta e entrei silenciosamente. Pousei o cobertor no sofá e segui até ao quarto. Ele dormia serenamente e eu aproximei-me cautelosamente. Deitei-me ao seu lado e percorri o seu rosto com os meus dedos levemente.

- Feliz cumple [Feliz aniversário]– sussurrei.

- Gracias.

Senti-me colapsar assim que ouvi a sua voz. Os seus olhos abriram-se e senti-me mingar perante eles. Tentei levantar-me, mas ele agarrou-me firmemente pelo braço, impossibilitando-o.

- Eu…

- Shiu – ele colocou o seu indicador sobre os meus lábios, silenciando-me – Sabia que virias…novamente.

Envolveu o meu corpo com o seu braço e senti-me arrepiar. Aconchegou-me e sussurrou:

- Buenas noches.

Simplesmente adormeci nos seus braços, apenas tornando a acordar no dia seguinte quando os fracos raios de sol invadiram o quarto. Levantei-me cuidadosamente de forma a não acordá-lo e voltei a casa.
Mais um dia sem ele.
Dois.
Três.
Quatro.
Cinco.

- A pensar nele? – perguntou a minha mãe, sentando-se junto a mim à varanda.

- Em que mais poderia estar a pensar? – suspirei – É noite de Natal. Há um ano estávamos juntos e era tudo…perfeito! Agora tudo se desmoronou…

- Lembras-te do que te mandava fazer quando rasgavas umas calças?

- Mandavas que as cosesse – respondi sem perceber o que importava aquilo.

- E o que te mandava fazer quando partias um brinquedo?

- Que o consertasse… O que tem isso de especial neste momento?

- Adriana, não o mandava porque não te podia comprar outro par de calças ou outro brinquedo. Mandava-o porque há coisas na vida que não se podem apenas deitar fora e substituir. Há coisas que têm de ser consertadas. Um casamento não se deita fora – baixei o olhar – conserta-se.



(Alexis)

A noite de consoada estava a ser triste.
Toda a minha família tinha vindo do Chile. Éramos mais de vinte à volta da mesa, mesmo assim ela estava vazia… Faltava a Adriana, faltava o Thiago.
Tinham resolvido vir assim que souberam da minha separação da Adriana. caso não o fizessem, seríamos apenas eu, a minha mãe e o meu irmão.
Ainda assim…Faltava ela.


(Ana)

Este ano a casa estava cheia para a noite de consoada. Para além dos membros “cativos” ainda recebia a minha família e a família do Cesc (com direito a surpresa!).
Estava na cozinha com o Tiago a dar-me na cabeça por estar a comer as deliciosas rabanadas que só ele sabia fazer, quando tocaram à campainha.

- Eu vou lá! – anunciei.

- E eu vou contigo! – disse o Cesc, arrebatando-me pela cintura assim que cheguei perto do hall de entrada – Também sou anfitrião! – brincou.

O Cesc abriu a porta e de imediato senti as mãos da minha mãe sobre a minha barriga.

- Feliz Natal! – disseram quase em coro.

- Tchiii a tia está quase a explodir – disse o meu sobrinho Pedro, despoletando as gargalhadas.

- Imagino quem te andou a ensinar essas coisas! – atirei de imediato, olhando o meu irmão Alexandre.

- Maninha, eu não disse nada. A única coisa em que sou culpado é em dar-lhe os meus genes cheios de inteligência.

- É… Vê-se que lhe deste toda a inteligência – disse a Margarida divertida, dando-lhe uma palmada na nuca.

- Vamos lá a entrar, meninos, que eu quero aproximar-me da minha neta! – pediu o meu pai. Já era um avô babado!

Eles entraram e de imediato o Pedro foi a correr para a frente da televisão onde o Rodrigo já se encontrava a brincar. Aqueles dois já eram os melhores amigos!
Enquanto os homens se quedaram na sala com a única missão de vigiar os miúdos enquanto conversavam (certamente sobre futebol), eu, a minha mãe e a Margarida seguimos para a cozinha, onde a Adriana já se encontrava com a mãe, a D. Graça e o Tiago, que entretanto tinha acabado de retirar do forno aquelas bolachas… As bolachas da nossa infância! Quantas e quantas vezes nos tínhamos escondido atrás da casa da minha mãe a comê-las…

- Nem penses! – avisou-me de imediato.

- Mas a Catarina quer!

- Hum hum... Deixa de ser gulosa e culpar a tua filha.

O som da campainha interrompeu a nossa emocionante discussão. O Cesc colou-se de imediato a mim para abrirmos a porta aos seus pais.

- Feliz Navidad!

- Feliz Navidad! – retribuímos.

- A Carlota? – perguntou o Cesc.

- Chega mais tarde.

- Como sabes? – perguntou-me.

- Porque sei!

- Ana…

- Cesc…

- Bem, eu cheira-me que a tua irmã anda a tramar alguma! – atirou o pai do Cesc.

- Oh se anda – pensei para mim.

Eles entraram e foram-se dispersando.

- Estás a pensar nela? – perguntei sentando-me ao pé dele.

- Penso todos os dias – admitiu o Tiago – Ela foi a mulher da minha vida. Não merecia…ter morrido daquela forma. Pura e simplesmente não merecia ter morrido.

- Onde quer que ela esteja, a Joana ama-te. E basta olhares para o Rodrigo para teres parte dela contigo.

- Ele foi a melhor coisa que me aconteceu…

- E eu? – perguntei fingindo um amuo.

- Tu foste a segunda melhor coisa que já me aconteceu, claro!

Após mais uns minutos, a campainha tornou a tocar.
Levantei-me. Desta vez, o Cesc estava tão entretido a ser criança com as verdadeiras crianças que nem deu pelo toque.

- Feliz Navidad! – saudaram-me de imediato.

- Feliz Navidad! Entrem – convidei.

A Carlota arrastou o Marcelo pela mão até à sala, onde tornou a dar o ar da sua graça.

- Feliz Navidad!

- Carlota… - o pai dela arregalou os olhos ao vê-la com o Marcelo – O que é que este rapaz está aqui a fazer? Acho que não é o dia indicado para andares com picardias com o teu irmão – reprimiu, pensando que o Marcelo estava ali apenas como provocação ao Cesc.

- Pai, sê mais respeitoso para com o meu namorado!

- Namorado?!

Foi impossível controlar as gargalhadas. A Carlota estava sempre a surpreender.

- Bem, vamos jantar? – propus.

A pouco e pouco, fomo-nos juntando à mesa. O jantar foi longo e calmo, bem natalício.
Estávamos já na sala de estar a desfrutar da noite de consoada, quando o Cesc se sentou junto a mim.

- Cansada? – perguntou-me.

- Um pouco – admiti – Ainda bem que com a tradição espanhola as prendas são só pelos Reis porque senão não sei como teria comprado tudo a tempo.

- Sim, as prendas são nos Reis, mas eu cá estava mais à espera de um milagre de Natal!

- Milagre de Natal? – perguntei.

- Yup. Filha – ele colocou a mão sobre a minha barriga – Vá lá… Dá um pontapé para o papá sentir. O papá também merece! Tem tanto mérito na tua criação como a mamã!

- Parvo – dei-lhe uma palmada na mão – Regula a temática das conversas com a tua filha, se faz favor!

- Peço desculpa! – brincou.

Ficámos vários minutos em silêncio apenas a observar o ambiente na sala. Até que…

- Estás a sentir? – perguntei num sussurro.

O Cesc apenas foi capaz de acenar afirmativamente com a cabeça enquanto as suas mãos tremiam sobre a minha barriga e os seus olhos brilhavam, enquanto, pela primeira vez, sentia a filha.


(Alexis)

Duas e meia da manhã.
Quem tocava tão freneticamente à campainha? Levantei-me e apressei-me a ir até à porta. Tinha de ser algo urgente, grave.
Abri a porta e…
Não era possível. A Adriana? Ali? Mal tive tempo de tentar perceber se estava apenas a sonhar, já que ela se precipitou na minha direção, unindo fugazmente os nossos lábios.



Era real. Apressei-me a prendê-la nos meus braços, enquanto ela me agarrava violentamente pela t-shirt. Pontapeei a porta de modo a fechá-la para em seguida empurrar os nossos corpos contra ela.
Os nossos corpos tremiam, as nossas mãos tremiam, as nossas bocas tremiam. Separei os nossos lábios escassos milímetros e rapidamente ouvi a sua súplica:

- Não digas nada. Ama-me. Apenas ama-me.

Ela tornou a unir os nossos lábios numa urgência desmedida. Tão minha.



Agarrava-a fortemente. Provavelmente estava até a magoá-la. Mas estava dominado pelo medo. Pelo medo de não ser real, pelo medo de a qualquer momento ela se arrepender e fugir… Agarrava-a, prendia-a. Não a queria perder! Não a podia perder! Fui-nos conduzindo pelos corredores, sem nunca separar os nossos corpos. Eles não se queriam separar, não se podiam separar.
Entrámos no quarto e de imediato a encostei a uma das paredes.





(Adriana)

Ele fez os seus lábios escorregar pelo meu pescoço e pelo meu peito e eu não consegui evitar soltar um suspiro pesado dominada por um laivo de loucura, de desejo, de prazer. Ele tornou a elevar o seu rosto assim que sentiu as minhas mãos no seu rosto.



Os nossos lábios tornaram a unir-se numa entrega inexplicável. As nossas mãos percorriam incessantemente os nossos corpos. Abri-lhe a camisa e fiz os meus dedos deslizar pelo seu peito, enquanto ele me beijou um ombro, agora descoberto.




Ele acabou por rasgar a minha camisola enquanto eu lhe arranquei a camisa do seu tronco. Fez os nossos corpos tombar sobre a cama para rapidamente arrancar as minhas calças e despir as suas. Tornou a deitar-se sobre mim e senti como um choque a percorrer o meu corpo assim que as nossas peles se tocaram.
Ele tornou a largar os meus lábios e a possuir cada pedaço de pele do meu pescoço e do meu peito com urgência, quase com violência. Estávamos dominados por um sentimento sobrenatural. Tínhamos de nos possuir. As suas mãos grandes e quentes percorriam o meu corpo com uma loucura desmedida.



Fizemos as últimas peças que tínhamos no nosso corpo desaparecer para finalmente sermos um do outro. Apenas os nossos corpos, as nossas peles…
Há quanto tempo não sentia aqueles lábios beijar-me, aquela língua a percorrer-me, aquelas dentes a marcarem o meu corpo, aquelas mãos a possuir-me…
Explorámo-nos com minúcia. O que já tão bem conhecíamos… O simples facto de sentir as suas mãos percorrerem cada pedaço de mim faziam-me suspirar, delirar, desejá-lo de maneira absurda.

- Yo te amo – sussurrou-me, provocando um arrepio que percorreu toda minha pele.

- Faz-me tua – implorei num misto de medo e urgência. Tinha medo daquelas palavras, tinha urgência de ser amada.



Ele uniu os nossos corpos e senti um espasmo de prazer invadir-me. Soltei gritos que não eram apenas de prazer, mas também, e sobretudo, de felicidade. Naquele momento, ele era meu. Meu. Não importava nada mais. Não importava o passado, nem o futuro. Nem os momentos maus, nem os bons. Naquele momento éramos só nós, entregues um ao outro, dominados por um frenesim inexplicável, incontrolável. Não havia dor, sofrimento, traição. Éramos só nós carregados pelo sentimento mais puro possível: o amor.
Ele acabou por separar os nossos corpos e senti-me vazia…
Um vazio sufocante assombrava-me mas de imediato ele me preencheu. Quedou-se deitado sobre mim e fez os nossos lábios encaixarem-se vezes e vezes sem conta. Completavam-se. Apenas os separou quando a nossa falta de fôlego o obrigou.



Deitou-se junto a mim e envolveu o meu corpo com os seus braços, puxando-me para cima do peito dele. O seu coração batia descompassadamente ao ritmo do meu… Os seus dedos percorriam o meu rosto numa contemplação profunda. Os seus olhos fixavam os meus, deixando transparecer no seu brilho o medo que tinha de me ver fugir… Desviou-se ligeiramente e esticou-se até à mesinha de cabeceira. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto assim que vi o que ele se preparava para fazer. Ele limpou-a com os lábios num beijo leve.
Pegou na minha mão esquerda e fez a minha aliança deslizar pelo meu anelar, para de seguida beijá-la. Fez a sua mão deslizar pelo meu braço até encontrar a minha e a apertar.



Aconcheguei-me ao seu peito e acabei por adormecer enquanto ele me afagava os cabelos.



Olá!
Hoje nem há direito a perguntas xD
São duas e meia da manhã, joder! Se este capítulo está aqui, agradeçam à Nii’i que me pressionou até que ele saísse! Ahahah
Espero sinceramente que tenham gostado e deixem os vossos comentários (17? Vocês quando gostam, gostam mesmo xD)
Gracias a todas!!!


Besos
Ana Santos 

P.S. Milene, obrigada pelo teu comentário. É muito importante para mim!

terça-feira, 26 de março de 2013

134 - "E que o mundo saiba que de amor também se pode viver"



(Adriana)

- Porque não? Tu estás a precisar de consolo, eu estou a precisar de consolo, porque não nos consolamos um ao outro?

Após aquelas palavras foi impossível resistir.
Unimos os nossos lábios num beijo vazio de sentimento, mas cheio de ânsia por um pouco de conforto. Um beijo que começou receoso, cauteloso, mas que rapidamente tomou proporções maiores, mais livres, mais despreocupadas.
Ele puxou-me para o seu colo e eu subi sem hesitações.



O que havia começado calmo e receoso, era agora vigoroso, intenso, desesperado.
Ele deitou-me sobre o sofá e eu arranquei a t-shirt do seu tronco.


(Alexis)

O que estaria ela a fazer neste momento?
A pensar em mim? A brincar com o Thiago? A olhar as fotos do nosso casamento?
Curiosamente, hoje esta pergunta invadia-me de uma forma inexplicável: o que estaria ela a fazer neste momento?


(Adriana)

Senti as mãos do Thiago a aparecerem por baixo da minha camisola que rapidamente retirou atirando para o chão.
Os nossos lábios uniam-se desajeitadamente. Não se conheciam, apenas se consolavam.



Ele afastou-os e fê-los deslizar pelo meu pescoço, pelo meu peito, pelo meu ventre, por toda a minha pele. Levei as mãos à sua t-shirt e retirei-a antes ainda de explorar o que havia por baixo dela. As nossas mãos moviam-se energicamente numa descoberta vazia. Descobríamos os nossos corpos, nada mais. Não havia um sentimento que nos unisse. Ou talvez houvesse… A dor.
As peças de roupa foram preenchendo o chão da sala e a confusão de sentimentos foi tomando conta de nós. Por um lado, tentávamos apelar à calma, ao discernimento, mas por outro, apelávamos à loucura, ao desespero. Sentia a dor emanada dos nossos corpos. Estávamos magoados, abandonados, perdidos…


***

- Arrependida? – perguntou-me.

- Não. Apenas…vazia.

- Acho que não somos tão bons a consolar-nos um ao outro como julgávamos… - concordou.

- Nunca vamos ser – recostei-me ao sofá, bebendo um pouco do chocolate quente que partilhávamos.

- Foi um erro… - concluiu.

- O que tínhamos a perder? Tu foste abandonado pela Julia, que não soube lidar com a distância, eu sou divorciada após pouco mais de um ano de casamento… Não tínhamos nada a perder.

- E agora o que vamos fazer?

- Suponho que…continuar.

- Continuar o quê?

- Não sei… - confessei – Apenas…continuar.


***


Estava perdida.
O que fazia agora? Voltava para uma casa que não era minha, decorada com fotos que não eram minhas, recordações que não eram minhas. Uma cama que não era minha. Uma cama fria. Vazia.
Sinto a falta dele. Sinto falta que me beije, sinto falta de abrir os olhos e ele ser a primeira coisa que vislumbro, sinto falta de o ver rir-se com o Thiago, sinto falta de ouvi-lo sussurrar que me ama, sinto falta do sorriso dele, do cheiro dele, do toque dele, do sabor dele. Dele. De nós…. De mim!
Encostei o carro e deixei a cabeça cair sobre o volante. Em segundos as lágrimas caíam também. Eu amava-o. E isso não iria mudar. Por mais papéis que se assinassem, por mais palavras que se dissessem, por mais coisas que visse, por mais erros que cometesse. Eu seria sempre dele, mesmo que ele já não fosse meu, mesmo que tivéssemos mudado. Mesmo que o mundo acabasse!
Saí do carro. Tropeçava nos meus próprios pés. Não bastava caminhar, tinha de correr. Corria. Corria desajeitadamente, tropegamente, mas com um destino. A cada passada a distância encurtava-se e a velocidade aumentava. Tinha de chegar!
E finalmente…tinha chegado. Procurei atrapalhadamente as chaves dentro da minha bolsa. Há semanas que não as usava. Assim que as encontrei, respirei fundo. Não podia fazer barulho. Abri a porta. Em casa. Em minha casa. Entre as minhas molduras. Entre as minhas fotos. Entre as minhas recordações. Aproximei-me de uma enorme tela pendurada na sala. Era uma foto do nosso casamento. Estávamos tão…felizes!



Sentia falta de ser feliz…
Limpei as lágrimas que já escorriam pelo meu rosto (ou provavelmente apenas continuavam a escorrer). Tentei acalmar-me. Estava ali e estava a cometer um erro. Sabia-o. Era louco. Era doentio. Mas se estava a cometer um erro, pelo menos que desfrutasse dele. Pousei as minhas coisas no sofá. Os sapatos, o casaco, a mala.
Depois caminhei em passos serenos e mudos até ao quarto. Abri a porta delicadamente e senti o meu coração disparar. O que estava a acontecer-me? Já não era uma adolescente atrás do seu primeiro amor. Na verdade, era uma mulher divorciada atrás do seu único e grande amor.
Ele dormia serena e pesadamente. Suspirei. Ele tinha sido meu. Aquele quarto tinha-nos acolhido. Os nossos beijos, os nossos toques, os nossos sussurros, as nossas palavras, os nossos momentos. Passados. Irrepetíveis. Limpei novamente as lágrimas e fechei os olhos, concentrando-me para tentar parar de tremer. Assim que consegui, tornei a abrir os olhos e a aproximei-me da cama. Ajoelhei-me junto dele. Aquele cheiro, aquele respirar profundo…Senti um laivo de loucura percorrer-me como um drogado que sucumbe à sua dose diária. A sua dose, o seu vício, a sua perdição…
Estiquei a mão na sua direção. Ela tremia. Todo o meu corpo tremia. Pousei-a sobre o seu rosto. O seu calor… Ele mexeu-se ligeiramente. Não me afastei um único milímetro. Ao mínimo toque, o Alexis mexia-se. Mexia-se sempre. Sabia-o. Conhecia-o. Levantei ligeiramente a minha mão de modo a que apenas as pontas dos meus dedos o tocassem. Fi-las percorrer aquele rosto que conhecia tão bem… Cada traço, cada curva…
Passaram minutos. Talvez horas… Não sei. Perdia-me naquele rosto. Naquele calor. Naquele sangue quente a correr-lhe pelas veias. Ele acabou por voltar-se na cama e tive de levantar-me e ir para o outro extremo.
A aliança… Continuava no seu dedo. Eu tinha-a posto há mais de um ano atrás e ele nunca a havia tirado. Nunca. Será que nunca a tiraria?
O que interessava isso agora? Poderia pensar nisso quando estivesse sozinha, longe dele… Tinha toda uma vida para pensar nisso. Mas não tinha toda uma vida para estar ali. Para o ver, para o tocar, para ouvir o som da sua respiração, o cheiro da sua pele… Outrora, isso tinha sido uma realidade. O para sempre tinha sido uma realidade. Nós tínhamos sido uma realidade. Mas agora já não existia toda uma vida. Já não existia para sempre. Já não existia nós.
Mas naquele momento…naquele momento ninguém mo podia tirar. Naquele momento ele era meu. Deixei a minha cabeça tombar sobre a almofada, a minha almofada. Todo o meu corpo se deixou cair sobre aquela cama. Fiquei a observá-lo. Vê-lo era suficiente. Vê-lo… Apenas vê-lo. Estar ali. Estava louca… Completamente louca. E não havia cura. Eu não a queria.
Aproximei os meus lábios dos seus até se tocarem. Depositei um leve beijo sobre eles para depois afastar por milímetros as nossas faces. Inevitavelmente senti o seu braço envolver o meu corpo. Todo ele se arrepiou. Um gesto que há meses atrás era tão banal. Deitar-me, ele estar a dormir, o seu braço envolver o meu corpo. Não conseguia explicar. Era como…como se me pressentisse. Acontecia sempre. Até hoje…

- Eu amo-te… Vou sempre amar – sussurrei, passando a minha mão pelo seu rosto sereno.

A pouco e pouco, os meus olhos foram-se fechando, mesmo que o tentasse contrariar. Mas era inevitável. Aquela cama, aquele calor, aquele cheiro… Estava em casa.


(Alexis)

Acordei…diferente. Algo estava diferente. Não podia ser…
Abri os olhos rapidamente com aquela esperança inexplicável a dominar-me. Mas não…
Ela não estava ali. Por mais uma manhã consecutiva ela não estava ali… Porque haveria de estar? Porque tinha acordado com a sensação de a ter tido nos meus braços? Sentei-me e esfreguei a cara energicamente. Tinha acabado. Por muito que gostasse que tal não tivesse acontecido, a verdade é que já não éramos um casal, já não éramos um nós.
Mas então porque raio sentia o cheiro dela? Na minha t-shirt, na minha cama, nos meus braços?!
Estava louco.


(Adriana)

Se acabó [Acabou]
Ya no hay más [Já não há mais]
Terminó el dolor de molestar [Terminou a dor de aborrecer]
A esta boca que no aprende de una vida [Esta boca que não aprende de uma vida]


He dejado de hablar [Deixei de falar]
Al fantasma de la soledad [Ao fantasma da solidão]
Ahora entiendo me dijiste que nada es eterno [Agora entendo disseste-me que nada é eterno]


Solo queda subir otra montaña [Apenas resta subir a outra montanha]
Que también la pena  [Que a pena também]
Se ahoga en esta playa [Se afoga nesta praia]


Y es que vuelvo a verte otra vez [E é que volto a ver-te outra vez]
Vuelvo a respirar profundo [Volto a respirar fundo]
Y que se entere el mundo [E que o mundo saiba]
Que de amor también se puede vivir  [Que de amor também se pode viver]
De amor se puede parar el tiempo  [De amor se pode parar o tempo]
No quiero salir de aquí [Não quero sair daqui]
Porque vuelvo a verte otra vez [Porque volto a ver-te outra vez]
Vuelvo a respirar profundo [Volto a respirar fundo]
Y que se entere el mundo [E que o mundo saiba]
Que no importa nada más [Que nada mais importa]


Esta humilde canción [Esta humilde canção]
La que está arrancándome la voz  [A que me está a arrancar a voz]
Va llevándome a un latido diferente [Vai levando-me a uma pulsação diferente]
Corre por mis venas la música de un alma libre [Corre pelas minhas veias a música de uma alma livre]
Y sin cadenas [E sem correntes]
Sin luz que perseguir [Sem luz a perseguir]



- Bom dia! – a voz da Ana despertou-me e de imediato baixei o volume da música.

- Bom dia – retribuí.

- Ontem não te ouvi chegar – comentou, sentando-se ao pé de mim.

- Eu…eu tive que fazer umas coisas. Desculpa. O Thiago deu muito trabalho?

- Não. Bebeu o leite normalmente e adormeceu em seguida.

- Ainda bem…

- Adriana, estás bem?

- Sim – menti.

- Adriana – ela colocou a mão no meu queixo e voltou a minha face para ela.

- Foi a noite mais longa e ao mesmo tempo mais curta da minha vida… - suspirei – Acho que quanto mais longa fosse mais erros cometia… - admiti, sucumbindo às lágrimas.


***

Estava a passear um pouco com o Thiago pelo parque, já que o primeiro dia de inverno se apresentava estranhamente ameno, quando o que menos esperava e menos queria aconteceu.

- Adriana…

- Olá – respondi, tentando não vacilar, evitando olhá-lo.

- Posso? – perguntou, apontando para o carrinho do Thiago.

- Claro.

Ele aproximou-me do carrinho e pegou no Thiago que esboçou um enorme sorriso ao ouvir a voz do pai.

- Ele está cada vez mais bonito… - constatou.

- E inteligente – completei.

Ele brincou com o Thiago por minutos para depois o voltar a pousar no carrinho.

- Bem, adeus – despedi-me apressadamente.

- Adeus.

Assim que nos despedimos, empurrei o carrinho. Queria sair dali. Antes que…

- Adriana – não, não, não, por favor… - Adriana – insistiu.

- Sim? – perguntei voltando-me para ele e rezando para que ele não me fizesse aquela pergunta, aquela que eu sabia que ele queria fazer, aquela à qual eu sabia que não conseguiria mentir…

- Ontem à noite… - senti-me vacilar. Não, não, não – Tu…


(Ana)

Estava a saborear os miminhos do Cesc que falava animadamente com a minha barriga, na esperança de finalmente sentir um pontapé, quando tocaram à campainha.

- Deve ser o carteiro… - deduzi ao ver as horas.

- Eu vou lá – disse, levantando-se.

- Ana – ele olhou-me sério, assim que voltou da porta – Chegou a resposta ao pedido de perdão da pena do Tiago.

Levantei-me de imediato, enquanto ele abria já o envelope.

- Então? – perguntei ansiosa.


Será Tiago libertado?
O que perguntará Alexis a Adriana?



Olá!

Hoje tudo mudou. Mudou o fundo do blog, a música apareceu… Mas estava a precisar!
A música foi a minha inspiração para o momento de loucura da Adriana que não estava de TODO planeado!
Espero que tenham gostado! Do capítulo, do novo fundo do blog, da música… Deixem os vossos comentários!

Besazo
Ana Santos