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sábado, 6 de abril de 2013

136 - "O que é suposto fazer quando a melhor parte de mim sempre foste tu?"



(Ana)

Acordei bem-disposta e acima de tudo grata por ter conseguido ter uma noite sem problemas, após tantos e tantos doces comidos! Assim que abri os olhos, reparei no intercomunicador em cima da minha mesinha de cabeceira. Significava que a Adriana não estava em casa… E eu sabia bem onde ela estava…
Levantei-me cuidadosamente para não acordar o Cesc e fui até ao quarto onde o Thiago dormia serenamente. Enquanto o olhava foi impossível não recordar as peripécias da noite anterior.


Recordação

- Mas, filha, nem apresentaste o teu namorado… - manifestou-se a mãe do Cesc, enquanto eu tentava conter as gargalhadas – Pelo menos a mim, porque o teu irmão e o teu pai já parecem conhecê-lo.

- Oh se conhecem! Então o meu maninho… - atirou a Carlota.

- Sim, Carlota, sim… - murmurou o Cesc.

- Chama-se Marcelo, mãe.

- Muito prazer, Marcelo.

- O prazer é meu, senhora Soler.

- Chama-me Nuria, rapaz! Nem a minha mãe é tratada por Senhora Soler!

O Marcelo esboçou um sorriso tímido, enquanto eu tentava a todo o custo conter a minha vontade de gargalhar com toda a situação.

- E então o que fazes? Trabalhas em quê? – a curiosidade da Nuria só podia abrilhantar ainda mais aquele espetáculo…

- Ah eu… - ele olhou a Carlota que se mantinha serena e alegre (como sempre) – Jogo futebol.

- Profissionalmente?

- Sim – respondeu curtamente o Marcelo, tentando enterrar o assunto.

- Mas aqui em Espanha?

- Sim, aqui em Espanha…

- Em La Liga? – perguntou surpreendida.

- Sim… - murmurou cada vez mais incomodado com o rumo que a conversa estava a tomar.

- Então vocês são colegas de profissão – disse apontando para o Cesc e para o Marcelo – Mas jogas onde Marcelo? No Sevilla, Atlético?

- Jogo…no Real Madrid – sussurrou.

- Ah…no Real – disse surpresa a mãe do Cesc, terminando o interrogatório.

- Já estou a ver que se tivesse escolhido um serial killer para namorado a tensão não tinha sido tanta… - ironizou a Carlota.

- Carlota – repreendeu-a a mãe.

- É verdade! Tudo bem que o gosto clubístico é duvidoso, mas é um brasileiro de caracóis fofinhos e paciência suficiente para me aturar!

- Marcelo, guarda bem esta frase porque vai ser a mais romântica que vais ouvir em toda a tua vida – decidi deitar uma acha para a fogueira.

- Piadinha… Fala quem se casou com…ele – olhou divertida o Cesc.

- Ui vai ser lindo quando tiverem um puto e tiverem de escolher-lhe o clube – o comentário descontraído do meu irmão Alexandre despertou uma cadeia de engasgamentos na mesa. Desde os pais do Cesc ao Marcelo, passando pelo Cesc e até pela…Carlota! Já eu e a Di desatámos a gargalhar. Até a Di que parecia ter vindo de um funeral (provavelmente o seu!) não conseguiu conter o riso.

- Oh tio, como é que se fazem os putos? – o meu sobrinho Pedro tinha decidido dar um toque genial à conversa.

- Ah…ah…os bebés…hum…não sei! Não sei! – respondeu o Cesc.

- Sabes sim! A tia tem um bebé na barriga e se tu és o papá dele então tens de saber!

- Ah…é melhor comermos porque senão arrefece! – desculpou-se o Cesc.

- Pois, realmente é a comer… - sussurrou a Carlota, mas não o suficiente…

- É a comer? – perguntou o Pedro num misto de curiosidade e confusão.

- O que a Carlota quis dizer é que…quando o bebé está na barriga da mamã tem de se comer muito bem para ele crescer.

- É por isso que a tia está gorda?

- Pedro! – repreendeu-o de imediato a Margarida.

- Oh é verdade, mamã! Já viste o tamanho da barriga da tia?!

- Pedro – o Cesc chamou-o – A barriga dela está grande porque o bebé tem de caber lá dentro.

- Pois… Tens razão! Desculpa, tia!


***


(Adriana)

Mais um erro…
Estava seriamente a precisar de um colete-de-forças. O que andava eu a fazer?
Aqueles braços que há horas me haviam transmitido confiança, amor, carinho, segurança, pareciam agora sufocar-me, pesar-me na consciência. Tinha errado. Não devia estar ali. Não devia estar naqueles braços. Não devia ter feito aquilo…
Levantei-me cuidadosamente, vesti-me e saí.
Assim que entrei em casa, dirigi-me ao quarto que havia deixado a meio da noite. Aquele que não devia ter deixado. A Ana estava sentada no sofá olhando o berço do Thiago. Olhou-me e percebi de imediato que sabia o que eu tinha feito. Ela descodificava-me apenas com um olhar. Chegou-se para a ponta do sofá num nítido convite para que me sentasse a seu lado. Cedi. Sentei-me ao seu lado e deixei a minha cabeça cair sobre o seu ombro.

- Fiz tudo mal…

- Não será um novo começo?

- Como? Nada mudou. Só piorou. As razões porque nos separámos continuam ali… E ainda se pode juntar a elas o facto de ele estar cada vez mais próximo daquela…mulher e de eu ter dormido com o Thiago.

- Foste para a cama com o Thiago?!

- Eu sei que fiz asneira… Eu sei. Mas estávamos…frágeis e aconteceu!

Quedámo-nos em silêncio. Doía falar. Mas pensar também doía. E recordar…recordar matava.



Recordação















(Alexis)

Não esperava acordar sozinho. Pensei que havíamos dado um passo para consertarmos o nosso casamento. Mas afinal…
Levantei-me e fui à casa de banho, onde passei a cara por água fresca. Era difícil enfrentar o espelho, era difícil enfrentar o meu reflexo. Estranhamente difícil… Podia confessar sentir…culpa no que havia acontecido. Parte da culpa. Toda? Não sei… Nenhuma? Não sei… Mas, fosse como fosse, não era razão para desistir! Não importava quem tinha cometido erros, quem tinha a culpa, importava sim quem estava disposto a recuperar o nosso casamento…


(Adriana)

Eram quase 11 da manhã quando a campainha tocou. Sabia quem era… Hoje o Thiago passaria o dia com o pai. Respirei fundo, peguei no Thiago e dirigi-me para a porta. O Thiago funcionava quase como uma proteção para mim. Esperava que o Alexis apenas pegasse nele e fosse embora. Mesmo que soubesse que tal não aconteceria.
Apelei à minha coragem e abri à porta. Senti-me ser estrangulada por aquela imagem. Doía vê-lo. Mas será que não doía mais não poder fazê-lo…?

- Olá – saudou-me calma mas tristemente.

- Olá…

- Adriana – ele deu um passo em direção a mim com a voz embargada.

- Hoje não, Alexis – pedi recuando – Não tenho coragem para falar sobre isto. Não hoje…

Ele suspirou mas acabou por falar.

- Tudo bem. Deixa-me apenas dar-te uma coisa.

Estremeci com aquelas palavras. Da última vez que me havia dado alguma coisa, tinha sido a minha aliança… Aquela que parecia estrangular o meu anelar. Ou seria o arrependimento a fazê-lo?
Ele desapareceu para alguns segundos depois voltar…acompanhado. Trazia ao colo um pequeno labrador branco que parecia um pouco assustado e confuso, provavelmente por não conhecer o sítio onde estava.

- É para mim? – perguntei surpreendida – Mas eu…
- Eu sei. Eu sei que não gostas de animais de estimação – disse interrompendo-me – Mas o Dalí é um cachorro muito carinhoso, muito meigo, muito brincalhão. É uma ótima companhia!

- Mas…é teu?

- Sim, comprei o Dalí e a Luna quando nós…quando nos divorciamos – disse com alguma mágoa na voz – Confesso que…já não estava habituado a viver sozinho e que me custou um pouco viver naquela…solidão – percebi que tinha tentado fugir àquela palavra – E por isso comprei-os. São fantásticos. Fazem-nos sentir importantes. Para eles somos realmente importantes… Não interessa se estamos de mau humor, ou se lhes gritámos de manhã, ou até se nos esquecemos de lhes pôr a ração… Quando chegámos a casa eles recebem-nos com o mesmo carinho, o mesmo entusiasmo… Sem ressentimentos. E sabe tão bem. Tenta. Tenta gostar dele.

- Mas…porque me estás a dá-lo?

- Porque gostava que também pudesses sentir alguma paz, algum conforto, alguma companhia que julgo que de momento não tens…

Desviei o olhar dele, evitando aquela conversa.

- Mas…o Dalí não vai sentir a falta da Luna? – contrapus, retornando ao foco da questão.

- Basta que deixemos o portão entre os jardins aberto para que se vejam e brinquem. Para além disso, aqui tem o Peti.

- E…se o Peti e o Dalí se pegarem?

- São muito meigos. Vais ver que tal não acontecerá. Confia em mim. Se não gostares dele, se não te adaptares a ele, basta dizeres-me e venho buscá-lo, vale?

- Vale! – acabei por ceder após ponderar durante alguns segundos.

O Alexis abriu um sorriso para depois pousar o pequeno cachorro no chão. Ele foi entrando a pouco e pouco, mas assim que o Alexis o incitou a entrar, ele começou a farejar animadamente os objetos da sala. Assim que viu o Peti no jardim, saiu disparado pela porta de vidro da sala e em minutos já brincavam, rebolando e correndo pelo relvado.

- Importas-te que entre para lavar as mãos? – perguntou o Alexis.

- Claro que não. Entra, entra! – convidei um pouco atrapalhada.

O Thiago havia adormecido no meu colo, por isso, deitei-o na babycoque. Minutos depois, o Alexis regressava da casa de banho.

- Se houver algum problema, liga-me! – disponibilizei-me enquanto nos despedíamos.

- Vai tudo correr bem. Não te preocupes. A minha família está ansiosa por vê-lo.

“A tua família…Aquela que já foi um pouco minha…” pensei com nostalgia.

- Manda-lhe cumprimentos meus – pedi – Feliz Navidad.

- Feliz Navidad – respondeu em tom de despedida. Contudo, tal como eu, não se moveu um único milímetro. Os meus lábios gritavam pelos seus desde que lhe abrira a porta.

E se…fizéssemos uma última loucura? Não, não, não!, repreendi-me de imediato a mim mesma. Mas…eu queria tanto! E sabia que não era a única. E se… Apenas um beijo? É um erro!, gritava-me a minha consciência. Mas toda a gente tem direito a cometer erros, não?, contestei. Não, tu não, barafustava o meu arrependimento. E se for na face?, tentei negociar. Mas que raio estava eu a fazer?! A falar comigo própria, pior, eu estava a discutir comigo própria?
Aproximei-me do Alexis e depositei um beijo no canto dos seus lábios. Separei as nossas faces rapidamente e recuei, tentando encerrar assunto, esquecer aquele erro pelo qual estava já arrependida. Contudo, senti a mão do Alexis agarrar-me o braço e a puxar-me bruscamente para ele. Uniu os nossos lábios e fez-nos embater violentamente contra a parede do hall. Era um erro, um erro tão bom. Entreguei-me àquele beijo como se fosse o nosso último beijo. Era de facto o nosso último beijo… Sabia-o.
Ele acabou por separar os nossos lábios para rapidamente pegar na babycoque e desaparecer pela porta. Todo o meu corpo tremia, todas as minhas forças me fugiam. Acabei por deixar-me cair no chão…
Eu amava-o. Mais. Cada vez mais. E era para sempre…


***


- Adriana! – aquele chamamento sobressaltou-me já que estava perdida em pensamentos.

- Thiago… - ele sentou-se ao pé de mim no banco do jardim enquanto um enorme sorriso o dominava.

- É teu? – perguntou apontando o Dalí que passeava um pouco pelo parque sob a minha atenta vigia.

- Sim, é. É um cão fantástico – confessei.

- Tenho de contar-te uma coisa – disse entusiasmado.

- Chuta.

- A Julia voltou. Voltou de Inglaterra. Voltou para mim! Pedi-a em casamento – esbugalhei os olhos, já que não esperava tal novidade – Vamos casar-nos! – contou radiante.

- Ah…parabéns! – felicitei-o – Mas ela sabe que…

- Sim, ela sabe o que aconteceu entre nós. E desvalorizou. Confessou que também ela se envolveu com outra pessoa durante a nossa separação na esperança de esquecer a nossa história.

- E isso não te incomoda? – questionei.

- Não. Não interessa nada. A única coisa que interessa é que estamos juntos, que nos vamos casar!

- Parabéns uma vez mais.

- E tu como estás? – perguntou após alguns minutos em silêncio – Tu e o Alexis…

- Só fazemos asneiras – disse com alguma frustração na voz – Na noite de consoada…envolvemo-nos – reparei na surpresa que invadiu a face do Thiago – Ainda não falámos disso. E vê, já passaram quase duas semanas.

- Mas…porquê?

- Porque eu lhe pedi – suspirei.

- Foi por causa daquilo que aconteceu entre nós?

- Também mas não só. Nada mudou, percebes? As razões por que nos separámos continuam lá. Vão sempre continuar.


***

A campainha tocava freneticamente. Apressei-me a ir abrir.

- Chega – disse-me o Alexis assim que abri a porta – Temos de falar. E já! – exigiu.

Suspirei e desviei-me da porta para que ele entrasse. Sentámo-nos no sofá lado a lado.

- Eu esperei. Sabes bem que sim. Mas agora…agora preciso de respostas! Adriana – ele agarrou as minhas mãos – nós amámo-nos. Ambos sabemos disso! Teres-me visitado a meio da noite, mais que uma vez prova isso! Termos feito amor prova isso! Todos os nossos beijos provam isso! 

- Alexis, não é assim tão fácil, tão linear! – contestei, afastando as minhas mãos das suas.

- É sim! Amámo-nos isso não chega?!

- Não, não chega! Se chegasse, nunca nos havíamos divorciado.

- O divórcio foi um erro. Ambos sabemos disso. Mas…podemos curar o nosso casamento. Podemos consertar o que partimos.

- Achas, Alexis? Achas mesmo? – perguntei já um pouco fora de mim – E se eu te dissesse que fui para a cama com o Thiago achavas o mesmo?! – atirei.


(Alexis)

As palavras da Adriana fizeram congelar cada pedaço de sangue nas minhas veias. Como…como é que ela tinha sido capaz? Eu amava-a! Como é que…como é que ela tinha tido coragem de me trair?! Ela tinha-me traído! O divórcio não passava de simples assinaturas em papel. Éramos casados… Éramos casados perante os olhos de Deus, éramos casados perante os olhos de todos aqueles que nos viram dar o “sim”. Tínhamos assumido um compromisso, um compromisso que não podia ser quebrado: amor, respeito e fidelidade até ao último dos nossos suspiros. Como é que ela tinha sido capaz?
Respirei fundo. Não interessava. A traição não interessava. Superávamos isso. Sim, eu perdoava. Era capaz disso. Por nós, era capaz.

- Não interessa – falei – Não interessa. Eu amo-te e isso não muda. Eu perdoo – disse levantando-me e caminhando na sua direção – eu esqueço – agarrei as suas mãos – Não será um erro a estragar o nosso casamento – coloquei a mão sobre o seu rosto e vi um sorriso nascer nos seus lábios – Eu amo-te. Vamos ultrapassar tudo. Não interessa que tenhamos cometido erros. Vamos voltar a ser o que éramos. Sem discussões, sem lágrimas. Vamos tornar a partilhar casa, momentos, vida. Basta esforçarmo-nos por honrar o nosso casamento, o nosso amor – o seu sorriso era agora acompanhado agora de algumas lágrimas emocionadas – Vamos ser novamente os três. Sem ciúmes, nem discussões, nem desfiles ou Victoria’s Secret…

Ela recuou assim que ouviu as minhas palavras.


(Adriana)

- Não! Não! Que estás a dizer?! Desistir da moda? Não! Não! Não percebes? É esta tua atitude que destrói qualquer coisa que tentemos construir. Não percebes! Não respeitas! É o meu sonho e não vais ser tu a destruí-lo!

- Adriana, vê o que estás a fazer! Não vês como esse mundo te está a mudar?! És obcecada por aquilo! Tornaste-te egoísta e…

- Cala-te! – ordenei – Cala-te! Obcecada, egoísta?! Não me conheces! Não. Tu, tu é que estás obcecado. Não percebes que tenho direito a realizar os meus sonhos…

- Isto não é o teu sonho!

- É sim! Sempre foi! Ou esqueceste-te que quando me conheceste eu já era modelo?!

- É diferente! Agora…

- Agora? – interrompi – Agora atingi o topo! É essa a única diferença!

- Adriana, estás a errar! A destr…

- Cala-te! Não quero ouvir mais nada. Nunca mais! Sai! – ordenei – Sai!

Ele acabou por sair batendo violentamente a porta. Deixei-me cair no chão. Não tinha forças sequer para respirar… Como? Como é que ele me podia destruir tanto?!


***

(Cesc)

Ano novo, emoções novas.
Cada vez mais perto do tão esperado dia todos os minutos têm sido aproveitados para mimar as minhas meninas. Hoje era Dia de Reis. Ontem tínhamos jantado em casa dos meus pais e trocado as prendas de Natal. A Catarina foi sem dúvida alguma o membro da família mais mimado! Hoje, eu e a Ana passaríamos o dia fora de casa. Oferta (suspeita) da minha maninha…

- Carlota, tu não estás a pensar em trazer para aqui o brasileiro enquanto nós estivermos fora, pois não? – adverti-a quando estávamos já de saída e a minha irmã se encontrava estendida no sofá.

- Oh como descobriste? – ironizou – Comer-me na casa de um dos seus maiores rivais que por acaso também é meu irmão está em 3º lugar na lista de fantasias do Marcelo.

- Até tenho medo de saber quais são as outras duas. Fui! – disse sem paciência para aturar as parvoíces dela.

O nosso dia tinha como destino Barcelona. Tínhamos uma tarde cheia de sítios a visitar, colmatada por um jantar num dos restaurantes mais conhecidos da cidade. Contudo, tudo me parecia estranho. Barcelona? A Carlota gostava de coisas extravagantes. Mandar-nos para Barcelona? A nossa cidade? Muito estranho…
Apesar disso, tentei desfrutar daquelas horas com as minhas meninas, mas quando chegou a hora de voltar a casa, a ansiedade de chegar assoberbava-se.
Assim que entrámos, vi a Carlota exatamente no mesmo sítio a ver um filme.

- Boa noite também se costuma dizer – reclamou.

- Boa noite – respondemos. Percebi que também a Ana tinha as mesmas suspeitas que eu.

- O que tramaste, Carlota? – atirou a Ana nada convencida pela aquela excessiva calma que a Carlota deixava transparecer.

- Isto! – disse saltando do sofá e arrastando-nos.

- Carlota, o que fizeste aí dentro? Esse ia ser o quarto da Catarina! – barafustou a Ana realmente aborrecida, quando estávamos parados em frente ao quarto que iria ser o da Lia.

- Este é o quarto da Lia – disse abrindo a porta.




- Gostam? – perguntou enquanto nós ainda observávamos tudo.

- É lindo! – respondeu entusiasmada a Ana – Como é que fizeste isto?

- Não fui eu. Foram os Reis Magos, não foram, mi pequeña? – disse acariciando a barriga da Ana.

- És a melhor madrinha que ela poderia ter – gabou-a a Ana.

- Oh eu sei que sim – respondeu entregando-se a uma gargalhada.


***

O Cesc estava em estágio e o dia em Barcelona apresentava-se muito risonho para uma manhã de inverno. Decidi ir com o Tiago e o Rodrigo até ao parque. Eu e o Tiago parecíamos estar a reviver os bons velhos tempos. Eles também existiram. No meio de tanta dor, tanto sofrimento, tanta coisa para esquecer, também houve grandes momentos.
Estávamos a caminhar lentamente, já que os meus oito de meses de gravidez já se refletiam na minha energia (ou falta dela), quando gelei com aquela imagem.

- Não é possível… - sussurrei em choque.

- Ana, estás bem? – perguntou o Tiago olhando-me – Ana, estás pálida. Estás bem? Sentes-te bem? Sentes alguma dor? – a voz preocupada do Tiago faiscava dentro da minha cabeça, mas era impossível conseguir responder-lhe. Ele acabou por seguir a direção do meu olhar…

- Não. Não é possível… - negou igualmente em choque.


(Alexis)

Estava farto. Farto de pensar. Farto de pensar naquela tarde, naquela discussão, naquelas palavras, naquela asneira…

Recordação

Saí fulo daquela casa.
Como é que ela tinha sido capaz, joder?! Aliás, como é que eles tinham sido capazes?! Ele era meu colega, meu amigo, padrinho do meu filho! Como é que tinha sido capaz de ir para a cama com a minha mulher?! Aquela com que ele me tinha visto jurar amor e fidelidade eternos? Como?!
Em vez de entrar em casa, enfiei-me no carro e segui para o centro de treinos. Aquele onde eu deveria estar se não tivesse sido castigado por duas semanas por ter agredido aquele filho de mãe quando vim a saber que ele tinha acompanhado a Di à consulta do Thiago.
Acelerei. Tinha a raiva a dominar-me… Assim que cheguei ao centro de treinos, entrei, correndo furiosamente pelos corredores, até que cheguei ao relvado. Corri até ele e espetei-lhe um murro naquela cara.

- Eres un hijo de puta! – gritei-lhe, empurrando-o violentamente para o chão.

- Alexis, para! – pediu-me o Cesc, enquanto já alguns colegas me tentavam agarrar.

- Não passas de um filho da mãe! – berrei-lhe – Como foste capaz?! Ela era minha mulher! Minha mulher! Como é que foste capaz de a levar para a cama? Como?! Hijo de puta!


***
                                                                                                          
Três meses de suspensão. Era isso que tinha restado daquela tarde…
Decidi deixar-me de lamentações. Peguei na Luna e fui passear com ela até à parte histórica da cidade. Ouvia a mesma música de todos estes dias…


I'm still alive but I'm barely breathing [Eu continuo vivo mas mal respiro]
Just praying to a god that I don't believe in [Apenas rezando a um deus no qual não acredito]
Cos I got time while she got freedom [Porque eu tenho tempo enquanto ela tem liberdade]
Cos when a heart breaks no it don't break even [Porque quando um coração se parte, ele não se parte realmente]


Her best days will be some of my worst [Os seus melhores dias serão os meus piores]
She finally met a man thats gonna put her first [Ela finalmente encontrou um homem que a põe em primeiro lugar]
While I'm wide awake she's no trouble sleeping [Enquanto eu tenho insónias, ela não tem problemas em dormir]
Cos when a heart breaks no it don't break even [Porque quando um coração se parte, ele não se parte realmente]


What am I suppose to do when the best part of me was always you [O que é suposto fazer quando a melhor parte de mim sempre foste tu?]
What am I suppose to say when I'm all choked up and your ok [O que é suposto dizer quando eu estou engasgado e tu estás bem?]
I'm falling to pieces [Eu estou a cair aos pedaços]
I'm falling to pieces [Eu estou a cair aos pedaços]
  

They say bad things happen for a reason [Eles dizem que as coisas más acontecem por uma razão]
But no wise words gonna stop the bleeding [Mas nenhumas palavras sábias irão parar este sangramento]
Cos she's moved on while I'm still grieving [Porque ela seguiu em frente enquanto eu continuo a lamentar-me]
Cos when a heart breaks no it don't break even [Porque quando um coração se parte, ele não se parte realmente]
(…)
You got his heart and my heart and none of the pain [Tu tens o meu coração e o dele e nenhuma dor]
You took your suitcase, I took the blame [Tu pegaste na mala, eu assumi a culpa]
Now I'm tryna make sense of what little remains [Agora eu estou a tentar entender o pouco que resta]
Cos you left me with no love, no love to my name [Porque tu deixaste-me sem amor, sem amor para com o meu nome]



Ela sempre foi a melhor parte de mim… O que era suposto fazer agora?
Ela tinha pegado na mala e eu assumido a culpa do nosso casamento ter falhado… Durante esta semana ela enviou a minha casa funcionários de uma empresa de mudanças que levaram cada uma das suas coisas. Nada…Absolutamente nada que não fosse meu, havia restado. Sabia que ela se tinha mudado para um modesto apartamento perto daqui. Quanto ao Thiago, o acordo continuava a ser cumprido. Apesar disso, nunca o recebia ou entregava à Adriana. Era sempre a alguém a substituí-la… Não nos havíamos visto desde aquela tarde.
Havia aprendido a rezar… Eu que antes mal sabia o que era um Pai-Nosso para desgosto da minha mãe… Provavelmente rezava a um deus no qual, efetivamente, não acreditava.
Ela estava bem, feliz, realizada…e eu estava a cair aos pedaços.
O pouco que restava não tinha como ser entendido… Pura e simplesmente não havia nada.
Estava perdido nestes pensamentos surgidos daquela estúpida música que devia deixar de ouvir quando vi o impossível…

- Alexis! Finalmente uma cara conhecida! – rejubilou, abraçando-me efusivamente – Então, rapaz, que cara é essa? Parece que viste um fantasma!

E tinha visto mesmo… Não era possível.

- Senhor Suárez… - gaguejei incrédulo.




O que/quem terão visto Ana e Tiago?
Quem será o “Senhor Suárez”?



Olá!

Peço imensa desculpa por ter demorado tanto a postar. Principalmente, quando vocês deixaram tantos comentários! Muito obrigada do fundo do meu coração! Era neles que encontrava a força para escrever quando apenas tinha vontade de dormir (hibernar) xD

Espero que tenham gostado do capítulo que, como prometi, estava recheado de emoções. Gostaram? Recordações da noite de Natal, um beijo perdido, um casamento a caminho (sim, vai ter influência na história!), uma conversa que acabou em confissões que proporcionaram uma enorme discussão. Mas também um presentinho dos Reis Magos ;) Gostaram dos aposentos da mais jovem personagem? E já falta pouquíssimo para a “conhecerem” (menos do que possam imaginar!). E a cena Alexis-Thiago…? Ups!

Mas agora estes dois mistérios! Garanto-vos que um deles é muito mas muito difícil que venham a adivinhar, já o outro são capazes de imaginar o que aí vem. Mas se este capítulo acabou de forma tão misteriosa, acreditem que o próximo não acabará de melhor forma… Acreditem: fortes emoções a caminho!

Ah e troquei a música! Sei que gostaram muito da Vuelvo a Verte, mas decidi mudá-la e agora é Breakeven dos The Script. Mas a Vuelvo a Verte regressa. Mas quando as coisas mudarem de figura ;)

Hum mas agora deem-me os vossos comentários, vale?

(Desculpem o testamento :o )


Beso
Vos quiero, guapas!
Ana Santos