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sábado, 22 de junho de 2013

139 - "Somos só nós no agora"



Lia chorou com fome e Adriana aproximou-se do berço, pegando nela.

- Estás com fome, querida? – murmurou – Vamos lá comer. A mamã está ansiosa por estar contigo.

- Adriana, tens a certeza do que vais fazer? – perguntou Alexis.

- Tenho – afirmou – E se não ajudas, pelo menos não desajudes!

- Se achas que isto é o melhor, então quero ajudar.

Adriana analisou aquelas palavras. Ajudar?

- Estou a falar a sério – contestou perante o olhar desconfiado de Adriana – Quero o melhor para eles. Não podemos ajudar a Ana mas podemos ajudar a Lia. Apenas te peço uma coisa – Adriana olhou-o expectante – Não sejas demasiado dura com o Cesc. Sei que o que ele está a fazer…é desumano e…não é digno de pai, mas nós não podemos sequer imaginar o que ele está a sentir neste momento. Não precisamos de o magoar para tratar da Lia.

- Vale… Mas aviso-te já que entre a Lia e o Cesc, será sempre da Lia que estarei. Porque o Cesc está a ser uma besta com a filha – atirou, não se preocupando em escolher as palavras. Era a verdade. Cesc estava a rejeitar a filha. Que tipo de homem era ele? Que tipo de pai era ele?



Cesc tinha passado a noite acordado. Olhara Ana vezes sem conta há procura de um sinal: um pequeno movimento, uma respiração mais intensa, alguma mudança na máquina que monitorizava o coração dela. Será que ela o ouvia? Se ouvia, porque não acordava? Cesc perdera a conta às vezes em que lhe suplicara para que acordasse. Seria assim tão difícil fazê-lo? Não podia ser! Ana já tinha feito coisas muito mais difíceis. Ana já tinha ressuscitado naquele bloco de partos. O coração que parara tinha tornado a bater. Apenas tinha precisado de uma pequena ajuda. Agora era tempo de acordar. Ela conseguia, Cesc sabia que sim. Sabia que por muito difícil que pudesse ser Ana acordaria, Ana voltaria. E se ela precisava de uma pequena ajuda, Cesc estava ali para isso. Não a deixaria, não a abandonaria. Falaria com ela, apertar-lhe-ia a mão, beijá-la-ia. Ele mostraria que a amava e que não a desiludiria neste momento. Ela não estava sozinha. Nunca estaria. Demorasse o tempo que demorasse a acordar, Cesc estaria ali. Nunca desistiria dela! Nunca!
Mas nem tudo era força e coragem em Cesc. Por vezes, caía. A esperança, a confiança, a fé desapareciam. E Cesc só conseguia pensar o quão injusto era tudo aquilo. Ana tinha completado 20 anos há uma semana atrás. 20 anos! Tinha ainda tanto para viver. Como é que a vida tinha tido coragem de falhar-lhe novamente? Ana não era apenas uma mulher de 20 anos. Ana era a mulher que mais merecia viver naquele mundo. Porque ela tinha aguentado, tinha lutado, tinha sobrevivido a tudo. Ela tinha suportado Pedro, tinha lutado pelo seu filho, tivera coragem para fugir para Barcelona e deixar toda a sua família para trás. Ela tinha tido força para deixar Cesc entrar na sua vida, mesmo que pudesse ser um risco demasiado grande. Ela tinha suportado o regresso do passado. Tinha suportado Pedro, tinha suportado Tiago. Tivera bondade suficiente para perdoar o amigo. Acolhera D. Graça e Rodrigo, lutara pela liberdade do homem que estava preso por crimes cometidos sobre ela. Ela tinha aguentado a perda de um segundo filho e tinha-a aguentado sozinha. Cesc recordou a forma como havia agido perante o aborto de Ana, quando ela havia perdido o filho que Cesc não sabia existir. E o que tinha feito ele? Abandoná-la, magoá-la, culpá-la. Que raio tinha feito? Naquele dia, doía-lhe ainda mais o que fizera. Tudo o que fizera de mau assolou-o naquelas horas. Podia ter feito as coisas de forma diferente. Tudo podia ser diferente!
Se ele tivesse estado mais atento, teria descoberto aquela gravidez, teria impedido aquele aborto. Ana não teria dado à luz Lia, mas outro bebé. E Ana estaria com ele ao colo e não deitada numa cama incapaz de acordar.
E se ele tivesse pedido a Ana que ela fizesse uma cesariana? Podia ter feito isso. Caramba, devia ter feito isso! Teria sido mais seguro, teria salvo Ana. O seu coração não pararia, a sua vida não sucumbiria.
E se ele se tivesse contentado com Ana? Se não tivesse querido ser pai? Se não houvesse gravidez, parto, nada? Ana estaria viva. Bem viva.
Cesc odiava-se ao pensar em tudo aquilo. Ele era responsável pelo que estava a acontecer. Ele podia ter evitado aquele desfecho! Tinha tido tantas oportunidades para fazê-lo, mas não o fez! Como poderia errar tanto, como poderia ser tão má pessoa? Como é que Ana o tinha escolhido a ele?! Ele não a merecia. Ana…Ana merecia o melhor. E Cesc não era o melhor. Era o pior.
Todos aqueles pensamentos foram interrompidos pelo som da porta a abrir-se. Cesc virou-se para trás e viu o que menos esperava. Alexis entrou acompanhado de Adriana, que trazia Lia embrulhada em cobertores. Cesc sentiu o seu estômago a contorcer-se, engolido por imagens que preferia esquecer.  







O corpo tremia-lhe e mal se apercebera que o ar lhe estava preso nos pulmões. O coração parecia-lhe ter parado e o sangue gelado nas veias. Após uns instantes em que apenas sentiu o olhar crucificador de Adriana, ganhou coragem para falar.

- O que estão aqui a fazer? – gaguejou.

- Viemos pôr a Lia a mamar – atirou Adriana sem demoras, sem meias palavras, sem um pingo de sensibilidade.

- A mamar? Mas…a Ana está…em coma – aquelas palavras eram piores quando ditas – Ela está frágil e…

- Cesc, não precisas de ter receio – Alexis tomou a palavra. Estava realmente chateado pela forma como Adriana tinha falado com Cesc. Para o que servira o que tinham falado no quarto de Lia? Ela não tinha mudado nada. Fora apenas cruel, dura, como se achasse que devia e podia julgar e castigar Cesc pelas suas atitudes! – Falei com os médicos e a amamentação é um grande estímulo para a Ana. Explicaram-me que durante o parto e a amamentação são libertadas várias hormonas altamente estimulantes. Já houve vários casos de grávidas em coma que acordaram durante o parto e de mulheres em coma que acordaram ao amamentarem.

- Então é bom para a Ana? – perguntou Cesc, assegurando-se de que, desta vez, estava a tomar a decisão certa.

- Sim, é. É muito bom para a Ana e muito bom para a Lia – ouvir aquele nome atormentou Cesc. Não conseguia controlar. Desde que ela entrara naquele quarto, que se sentia sufocado. Doía-lhe dividir o espaço com ela. E sentia-se pessimamente por isso. Era…filha dele, mas Cesc não sabia amá-la. Não sabia. E não saberia sem que Ana acordasse. Porque…Lia também era a culpada. Cesc sentia que a vida lhes tinha dado apenas duas hipóteses: ou a vida de Lia ou a vida de Ana. E não lhe havia permitido escolher. Porque se fosse Cesc a escolher, as coisas não seriam daquela forma. Ana estaria bem viva.

- Cesc – Alexis chamou-o, vendo-o perdido em pensamentos – Então podemos pôr a Lia a mamar?

Alexis sentiu o olhar inquisitivo de Adriana sobre si. Porque raio lhe estava a perguntar aquilo? Iriam fazê-lo quer Cesc quisesse quer não. Cesc não era dono dela! E se Ana pertencesse a alguém, então pertencia a Lia. Era Lia que tinha vivido dentro dela durante 9 meses, era Lia que tinha o sangue de Ana a correr-lhe nas veias, era por Lia que Ana faria tudo o que fosse preciso. Lia, Lia, Lia. Não Cesc. Ela não era de Cesc, Cesc não a possuía!

- Podem – acabou por responder Cesc. Inexplicavelmente aquela resposta doía-lhe – Se lhe vai fazer bem… Podem.

- Queres ajudar-nos? – propôs Alexis amistosamente.

- Eu? – gaguejou – Não, não. Eu…vou…sair e…volto mais tarde.
- Tudo bem – acedeu Alexis tentando mostrar a máxima compreensão.

Cesc olhou Ana, acariciou-lhe o rosto com a ponta dos dedos, depositou-lhe um leve beijo nos lábios e saiu, evitando a todo o custo olhar Adriana, olhar Lia.

- Hijo de… - sussurrou Adriana assim que Cesc deixou o quarto.

- Adriana! – repreendeu-a Alexis interrompendo-a.

- Adriana nada! – contestou – É a verdade. Viste como agiu? Parecia ter…nojo da própria filha! Não passa de um…

- Isso não interessa nada agora. Não estamos aqui para julgá-lo, estamos aqui para pôr a Lia a mamar.

- Sim, tens razão – concordou Adriana.

- Bem, como podes imaginar nunca amamentei…portanto o que é suposto fazermos? – perguntou Alexis um pouco desorientado.

- Basicamente temos de arranjar uma posição confortável para a Lia e para a Ana. Infelizmente qualquer posição é confortável para a Ana… - lamentou – Talvez devêssemos pô-la de lado e deitar a Lia. Podes ir pedir almofadas a uma enfermeira?

Alexis acedeu ao pedido de Adriana. Em instantes, estava de volta com várias almofadas. Adriana pousou Lia num berço que estava no canto do quarto. Depois com a ajuda de Alexis deitou Ana de lado e amparou-a com almofadas pelas costas. Pousou Lia junto dela e foi movendo-a até encontrar a posição correta. Apesar dos esforços de Adriana, Lia não mamava.

- O que está errado? – perguntou-lhe Alexis.

- Por vezes, mamar implica um maior esforço do que tomar o biberão. Para além disso, a mama deve ser a primeira coisa que o bebé deve provar, para se adaptar melhor. Mamar é um instinto. E, infelizmente, o instinto da Lia foi impedido pelo que aconteceu. Mas vou insistir. Ela vai apanhar-lhe o jeito – disse confiante.

Adriana passou mais meia hora ali. Lia ainda estava a adaptar-se mas já tinha conseguido mamar, o que bastava para deixar Adriana com um sorriso no rosto.




Entretanto, Cesc conduzia para casa. As mãos tremiam-lhe, os olhos doíam-lhe, pouca atenção prestava à estrada. Ana estava sozinha na clínica. Pior…Lia estava ao pé dela. Abanou a cabeça. Que pensamento era aquele? Lia era filha dela. Não podia pensar aquelas coisas, não podia. Mas também não conseguia. Não conseguia olhá-la, não conseguia respirar o mesmo ar que ela, não conseguia tocar-lhe. Tudo remetia para aquele momento. O momento em que Ana morrera. Lia era a lembrança eterna do que acontecera naquele bloco de partos. Cesc amava Ana, mas…não amava Lia. Ainda não. Não enquanto Ana não acordasse. A situação de Ana sugava-lhe todas as forças. Queria ter força para ser o pai que Lia merecia, mas doía-lhe. Não conseguia deixar de pensar que era uma troca. A vida de Lia pela de Ana. Aquele pensamento assombrava-a a cada segundo. Lia era o resultado de uma escolha que ele não tinha feito, que não o haviam deixado fazer. Porque se fosse ele a escolher… Cesc respirou fundo. Estava a mergulhar novamente entre pensamentos odiosos. O que acharia Ana de tudo aquilo? Como reagiria se soubesse o que Cesc estava a fazer, se soubesse o que ele pensava… Não, também não era justo para ele. Não o podiam julgar dessa forma. Ninguém imaginava o que ele estava a sentir, ninguém imaginava como era difícil. Sim, ele estava a ser mau pai, mas…como era possível pedirem-lhe mais? Como eram capazes? Ele sabia a resposta. Eram capazes porque não sabiam o que era ver o coração da pessoa que mais se ama no mundo parar. Eles não sabiam. Não podiam saber…
Cesc entrou em casa e arrependeu-se disso no mesmo instante. As fotografias das ecografias emolduradas, a taça ainda suja de chantilly do último desejo que Ana tivera. Na cozinha, o esterilizador de biberões. No quarto o berço, as roupas, os brinquedos. Lia, Lia, Lia. E lembrar-se de Lia significa lembrar-se daquele momento…O momento em que tudo se desmoronara…





- Adriana – o chamamento de Alexis, fez Adriana desviar a sua atenção de Lia e focar-se nele – O que achas de levarmos o Cesc a um psicólogo?

- Psicólogo não cura estupidez – refilou.

- Adriana, o Cesc está a sofrer! – repreendeu-a Alexis.

- Toda a gente está. Isso não justifica o que ele está a fazer. E tu só sabes estar do lado dele! És pai como é que podes apoiá-lo?! – indignou-se.

- A diferença é que… - Alexis ia a responder-lhe mas a entrada da médica impediu-o.

Ela saudou-os e fez-lhes perguntas sobre Lia. Examinou-a e confirmou que ela se encontrava de boa saúde. Falaram da amamentação e Alexis aproveitou para falar sobre Cesc e sobre a hipótese de consultar um psicólogo. Alba não só aprovou a ideia como a apoiou.





Mais tarde, Adriana deixou a clínica para ir a casa. Queria ver Thiago. Ainda não o tinha visto desde que chegara de Nova Iorque. Alexis ficou com Lia. Estava no corredor para ir buscar um pouco de água quando reparou em Carlota. Sentada num dos sofás vermelhos. Sozinha, perdida em pensamentos. Alexis aproximou-se dela, captando-lhe a atenção. Sentou-se e apertou-lhe uma das mãos.

- Como estás?

- Pior do que deveria – soluçou devido às lágrimas – Devia ser mais forte. Devia apoiar o meu irmão em vez de o contagiar com a minha tristeza – confessou frustrada.

- Não és de ferro, Carlota. A Ana é tua amiga, criaram uma relação muito próxima. Também estás a sofrer com o que está a acontecer!

- Sabes…o pior não é isso. O pior é…que a imagem do Cesc não me sai da cabeça. Nunca o tinha visto assim. Nunca. Pareciam que o estavam a espezinhar, a torturar, a matá-lo aos poucos. Foi horrível… Tu sabes. Tu estiveste lá. Como consegues…aguentar-te?

- Anda.

Alexis conduziu-a por entre corredores até ao quarto de Lia. Sentiu a mão de Carlota tremer. Ela estava nervosa. Era Lia, a sua sobrinha, a sua afilhada. Observou-a a alguns metros de distância como temendo perturbá-la. Deslumbrou-se a olhá-la. Era a sua pequenina. Lia acabou por acordar, revelando os seus fascinantes olhos.

- Ela é tão parecida com o Cesc – murmurou Carlota completamente encantada.

- Também acho – concordou Alexis – Não queres pegar-lhe?

- Eu? – perguntou assustada – Não sei se deva. Posso magoá-la, deixá-la cair…

- Tem calma. Eu ajudo-te.

Carlota apenas assentiu com a cabeça. Alexis pegou em Lia, sussurrando-lhe meigamente. Depois colocou-a nos braços de Carlota, para depois ajustá-los de forma a aperfeiçoar a posição em que pegava em Lia. Ao início, Carlota estava nervosa, estática, com medo de deixá-la cair ou de esmagá-la nos seus braços que pareciam demasiado rudes para um ser tão frágil e singelo. Depois foi-se relaxando, balançando, sussurrando. Demorou-se quase uma hora. Não importava se Lia adormecera, Carlota não a queria largar. Era tão fácil amá-la…





- Nem penses! – contestou Adriana – Não vou ao psicólogo.

- Porque não? – perguntou Alexis que há instantes havia proposto a Adriana que fossem com Cesc à consulta de psicologia, alegando que todos estavam a passar uma má fase e que lhes faria bem conversarem.

- Não sou eu que estou a ser uma besta com a minha própria filha! – atirou.

- Pois não. Só estás a sê-lo com um homem que tem a mulher em coma e que praticamente a viu morrer… - espicaçou.

- Callate! Agora deu-te para teres compaixão pelos maus pais, é?

- Adriana, não te vou responder. Vens ou não?

- O que é que achas?! – atirou.

- Que vens! Porque mal não te faz!

- Tu é que me fazes mal!

Adriana apenas notou a força daquela frase depois de a proferir. Como é que Alexis a interpretaria? Ela queria apenas dizer que estava farta de ouvi-lo, farta das suas ideias, dos seus sermões, da sua compaixão por Cesc. Não estava a insinuar que a presença dele na sua vida lhe fazia mal. Bem, tal também não era mentira. Alexis perturbava Adriana. Conseguia descontrolá-la, levá-la aos seus limites, tirava-lhe a paciência, a racionalidade. Tirava-lhe o discernimento, a calma, a resistência.

- Vens ou não?! – insistiu Alexis quase ignorando aquela frase.

- Paras de me chatear se for?

- O que quiseres. Vamos?

- Já? – perguntou Adriana – A que horas é?

- Era há cinco minutos atrás – respondeu Alexis olhando o relógio – Carlota, ficas com a Lia ou preferes que chame a enfermeira?

- Eu fico com ela – disponibilizou-se. Estava sentada no sofá olhando Lia atentamente.

- Ela já comeu e já lhe troquei a fralda. Não deve fazer muito mais do que dormir até chegarmos – descansou-a.

- Vale.

- Vamos? – perguntou Alexis a Adriana.

Ela limitou-se a abandonar o quarto e a caminhar por entre corredores até ao gabinete de psicologia com Alexis a seguir-lhe os passos. Quando chegaram, viram Cesc à porta, claramente inseguro. Alexis apercebeu-se de que ele não tinha coragem para entrar.

- Vamos? – a voz de Alexis sobressaltou Cesc que estava tão perdido em pensamentos que nem se apercebera da aproximação deles.

- Vocês também vêm? – perguntou surpreendido.

- Terapia de grupo. Afinal estamos todos a precisar de desabafar um pouco, não?

Adriana mantinha-se quieta, calada, engolindo aquelas palavras, quando a única vontade que tinha era gritar com Cesc, bater-lhe, insultá-lo, espezinhá-lo.

- Gracias – murmurou Cesc.

Alexis bateu à porta e todos entraram, saudando o psicólogo. Alexis já lhe tinha dado algumas indicações, explicando a situação que atravessavam, a reação de Cesc e também a de Adriana.
Cesc foi falando, desabafando o que lhe ia na alma. A falta que Ana lhe fazia, o medo que tinha de a perder, a forma como não conseguia encarar Lia. Adriana ouvia calada, mas a gritar por dentro. As palavras de Cesc tiravam-na de si. Nada justificava. Nada.

- Callate! – acabou por berrar, levantando-se – Callate! Estamos todos no mesmo barco. Todos estamos a sofrer e não é por isso que rejeitamos a Lia. Porque ela é quem menos culpa tem! Devias estar ao pé dela e não a lamuriar-te. Ela precisa o dobro de ti e tu estás a ser fraco, cobarde, egoísta!

- Adriana… - sussurrou Alexis tentando agarrá-la pelo pulso.

O psicólogo fez de imediato um sinal a Alexis para que não a tentasse impedir de falar. Alexis estava inseguro. Ninguém merecia ouvir o que Cesc estava a ouvir. Para além disso, Cesc não iria aguentar aquelas palavras… Ainda assim respeitou o pedido do psicólogo.

- Pareço que sou a única a ver isto! Em vez de te abrirem os olhos, consolam-te, apoiam-te. É isso que estás a fazer-lhe, apenas e só isso! – gritou a Alexis – A dar asas à estupidez dele! Ele não merece a filha que tem, não merece a mulher que tem!

- Callate! – ordenou-lhe Cesc furioso. Alexis estremeceu. Não esperava que Cesc reagisse, não esperava que tivesse força para ouvir e ainda se defender – Já te puseste no meu lugar?! Não, não puseste. E mesmo que pusesses não ias perceber. Porque nunca passaste por nada parecido. Nunca estiveste a um passo de perder quem mais amas no mundo. E se o Alexis me percebe é porque já passou por isto. Porque quase te perdeu no assalto em Lisboa – Alexis gelou. Cesc tinha razão. Mas Alexis não esperava que ele se apercebesse disso – Só ele dentro desta sala percebe um pouco do que estou a passar. Porque eu perdi a minha mulher durante o nascimento da minha filha. Mesmo que não queira sempre que vejo a Lia volto a ver toda aquela cena à minha frente. O barulho daquela máquina, os gritos dos médicos, a Ana inconsciente. Uma cena que tu não viveste, que não imaginas. És a última pessoa a poder julgar-me neste mundo! – atirou antes de sair batendo a porta violentamente

Adriana ficou paralisada por segundos. Depois um laivo de raiva a irrompeu. Levantou-se e saiu também.

- Isto correu bem? – perguntou Alexis quase em choque.

- Melhor do que possa imaginar. É bom que ele tenha reagido. E é bom que a Adriana tenha tido aquela resposta. Talvez comece a ser mais tolerante com ele.

- Não estaria tão seguro disso. O problema é outro… E só eu o posso resolver.





- Saiu? Como assim? – perguntou Alexis.

- Pegou na mala dela e desapareceu – respondeu Carlota – Não me falou, nem sequer olhou para a Lia. Estava furiosa.

- Joder - sussurrou – Eu tenho de ir a casa. Ficas com a Lia?

- Eu? Mas ela vai querer comer e eu…eu não sei.

- A enfermeira ajuda-te, não te preocupes. Eu volto já! – disse pegando apressadamente no casaco e saindo, sem antes beijar Lia na testa e Carlota no rosto.

Conduziu para casa. Não sabia porquê, mas sentia que Adriana estaria lá. Assim que entrou, encontrou Adriana sentada com o portátil à sua frente. Alexis conhecia-a: ela estava a mergulhar em trabalho de forma a esquecer o que havia acontecido na clínica.

- Desculpa – disse Adriana assim que o viu – Tive uns problemas com o meu portátil e precisava mesmo de ver uns mails. Espero que não te incomodes.

- A única coisa que me incomoda é que me mintas – Adriana bufou – Sei bem o que estás a fazer, porque aqui estás, porque estás com esse portátil à tua frente – atirou.

- Uau impressionante! Eu nem te tinha explicado tudo há segundos atrás nem nada… - ironizou.

- Adriana, sabes bem o que estou a dizer. Sei a verdade, não me limito a engolir as tuas mentiras.

- O que é que queres, Alexis?! – perguntou levantando-se.

- Estás a descarregar a tua frustração nos outros, principalmente no Cesc! – atirou abrindo o jogo – Porque podes mostrar essa faceta dura, inquebrável, insensível até, mas no fundo sei que estás um caco!

- Callate! – gritou Adriana, tentando terminar de imediato aquela conversa.

- Não calo, Adriana! – ripostou Alexis aproximando-se dela – Sabes que é a verdade! A Ana é tua amiga, foi ao longo destes anos como uma irmã para ti e agora está a um passo da morte. Estás destroçada, Adriana! Admite! Admite que também te custa olhar para a Lia sem te lembrares da Ana. Admite que, mesmo que tentes evitar, desejavas poder trocar a vida da Lia pela da Ana. E odeias-te por isso! Não vês que estás a querer ser racional quando é impossível?!

- Callate, Alexis, callate! – voltou a ordenar, empurrando-o. Estava a perder o controlo, o discernimento, a postura segura e indestronável.

- Os outros podem não ver, mas eu vejo! Vejo que neste momento és muito mais frágil do que a Lia, que o Cesc ou que qualquer outro de nós. Vejo que tentas a todo o custo esconder a tua fragilidade não só dos outros, mas de ti própria. Porque sei que sentes que se começares a chorar não terás forças para parar. Eu sei. Não te esqueças de que te conheço melhor do que qualquer outra pessoa neste mundo.

Adriana estava estática. Não conseguia reagir. Ele tinha razão. Ela estava destroçada, frágil, trocava a vida de Lia pela de Ana. Era tudo verdade por muito que o quisesse esconder. Não era forte como aparentava. Era apenas…mulher. Frágil, fraca, com sentimentos a dominá-la. Tinha os olhos encharcados e pela primeira vez desde que regressara a Barcelona parecia-lhe uma missão impossível controlar as lágrimas.

- Te odio! – murmurou sem forças para gritar-lhe – Te odio tanto!

Virou-lhe as costas tencionando desaparecer dali, tencionando esconder-se onde ninguém a visse, onde ninguém soubesse da sua fraqueza, onde ninguém lhe atirasse tudo aquilo à cara. Contudo foi surpreendida por Alexis que a agarrou pelo braço, a voltou para si e a envolveu nos seus braços. Instantes bastaram para que Adriana estivesse a chorar intensamente nos braços de Alexis. Sentia a sua armadura cair. Agora sentia-se indefesa, um alvo demasiado fácil. Sentia-se sufocada por aqueles braços que a amparavam, que a acarinhavam, mas que eram errados. Tão errados… E ela desejava-os há tanto tempo, desejava-os desde que chegara a Barcelona. Só eles sabiam acolhê-la, consolá-la.
Alexis acabou por pegá-la ao colo e levá-la para o quarto. Pousou-a na cama e deitou-se junto a ela. Adriana acabou por aconchegar-se a ele, pousando a cabeça no seu peito e deixando-se a chorar até que o cansaço se apoderar dela e a fazer adormecer.





- Perdóname, perdóname! – foi a primeira coisa que Alexis disse a Carlota assim que entrou no quarto de Lia na manhã seguinte – Esqueci-me completamente. As coisas complicaram-se e…desculpa, desculpa, desculpa! – repetiu.

- Não tem importância – garantiu Carlota – A enfermeira ajudou-me e até aprendi a dar biberões e a trocar fraldas – disse visivelmente satisfeita – Mas resolveste as coisas?

- Espero que sim…





- Posso? – a voz de Adriana sobressaltou Cesc que observava atentamente Ana, mais uma vez procurando um movimento, uma respiração mais pesada, talvez um arrepio…

- Claro – respondeu apesar de querer dar outra resposta.

Adriana entrou, aproximando-se da cama de Ana. Após uns minutos de silêncio, ganhou coragem e falou:

- Eu queria pedir-te desculpas, Cesc. Por tudo o que disse ontem. Por tudo o que tenho dito, aliás… Não queria magoar-te. Reconheço que me descontrolei, que descarreguei em ti. Peço desculpa.

- Está tudo bem, Adriana – descansou-a Cesc – Eu sei que tenho agido mal e que…

- Não sou ninguém para te julgar. Muito menos quando nem sequer tive a capacidade de me tentar pôr na tua pele por segundos. Peço desculpas, Cesc.

Cesc assentiu, mostrando aceitar o seu pedido de desculpas.

- Ela vai acordar – garantiu-lhe Adriana – Ela nunca nos falhou. Não irá falhar-nos agora.





Os dias passaram. Ana continuava em coma, Cesc continuava à sua cabeceira. Quanto a Lia, tinha recebido a primeira visita dos avós, encantando-os como havia feito em relação a todos que a haviam visitado. Mamava todos os dias, várias vezes ao dia. O leite materno era agora o seu único alimento. Mesmo quando não podia mamar, tomava leite que tinha sido previamente retirado a Ana. Estava a recuperar rapidamente o peso perdido e todos os testes que lhe tinham sido feito, comprovavam a sua boa saúde. Era tempo de voltar para casa. Mas com a situação de Ana, tudo se complicava. Adriana e Alexis responsabilizaram-se por ela. Agora partilhavam casa e tarefas. Entre Thiago e Lia nunca faltava o que fazer. Adriana estava exausta. Desejara intensamente o fim daquele dia. Thiago tinha estado especialmente aborrecido e Adriana detetara-lhe a chegada do 6º dente. Finalmente tinha adormecido e agora tinha apenas Lia por sua conta até às 8 da manhã do dia seguinte. Dentro de minutos Lia deveria acordar, mas Adriana não resistiu a sentar-se no sofá, fechando os olhos por segundos.

- Cansada? – perguntou Alexis sentando-se ao pé dela.

- Exausta – confessou – O Thiago hoje estava especialmente chato. Acho que é por causa dos dentes.

- A Lia deve acordar daqui a um bocadinho – comentou.

- Eu sei – respondeu ainda com os olhos fechados – Por isso é que estava a aproveitar estes minutinhos para descansar um pouco.

- Acho que podíamos aproveitar estes minutinhos de outra forma.

- Podíamos? Eu e tu? – perguntou Adriana abrindo os olhos – Não me parece – atirou rispidamente numa tentativa de manter a distância entre si e Alexis.

- Acredita que vais gostar! – garantiu, levantando-se.

Alexis aproximou-se da aparelhagem e pôs uma música a tocar, atraindo a atenção de Adriana. Aproximou-se dela, esticando-lhe a mão num convite nítido para que dançasse com ele.

- Não sei se é uma boa ideia… - respondeu Adriana nervosa.

- É só uma música. Prometo que não te piso – disse divertido.

Adriana hesitou mas acabou por aceitar. Agarrou a mão de Alexis e sentiu-se ser puxada contra o peito dele. Suspirou. Aquele cheiro, aquele calor…
Alexis começou a balançá-los suavemente. Apenas ouviam a música, as suas respirações. Nada mais.




Enséñame a rozarte lento [Ensina-me a acarinhar-te lentamente]
Quiero aprender a quererte, de nuevo [Quero aprender a amar-te de novo]
Susurrarte al oído, que puedo [Sussurrar-te ao ouvido que posso…]



Si quieres te dejo un minuto [Se queres dou-te um minuto]
Pensarte mis besos, mi cuerpo, y mi fuego [Para pensares nos meus beijos, no meu corpo e no meu fogo]
Que yo espero si tardas, porque creo que te debo mucho [Que eu espero se demorares, porque acho que te devo muito]


Ahora, que me he quedado solo [Agora que fiquei sozinho]
Veo que te debo tanto y lo siento tanto [Vejo que te devo tanto e sinto-o tanto]
Ahora, no aguantaré sin ti, no hay forma de seguir [Agora, não aguentarei sem ti, não há forma de seguir]
Así... [Assim…]



Vamos a jugar a escondernos [Vamos esconder-nos]
Besarnos si de pronto nos vemos [Beijar-nos assim que nos vemos]
Desnúdame, y ya luego veremos [Despe-me e depois veremos]
Vamos a robarle el tiempo al tiempo [Vamos roubar o tempo ao tempo]


Por mucho que aprieto tus manos [Por muito que aperte as tuas mãos]
Me cuesta creer que aún no te hayas marchado [Custa-me acreditar que ainda não te tenhas ido embora]
Me fundiré en tus labios [Fundir-me-ei nos teus lábios]
Como se funden mis dedos en el piano [Como se fundem os meus dedos no piano]



(…)


Adriana sentiu os lábios de Alexis aproximarem-se no seu ouvido e arrepiou-se ouvindo os seus sussurros:


Tú, que me enseñaste a ser sincero [Tu que me ensinaste a ser sincero]
Sin temor a lo que pienso, evitando la mentira [Sem medo do que penso, evitando a mentira]
Tú, que siempre has estado presente [Tu, que sempre estiveste presente]
Y cuando no estaba la gente que tanto me prometía [Quando não estava a gente que tanto me prometia]

(…)

Ahora, que me he quedado solo [Agora que fiquei sozinho]
Veo que te debo tanto y lo siento tanto [Vejo que te devo tanto e sinto-o tanto]
Ahora, no aguantaré sin ti, no hay forma de seguir [Agora, não aguentarei sem ti, não há forma de seguir]
Así... [Assim…]



Os seus rostos estavam tão próximos que Adriana sentia até dificuldade em respirar. As pernas tremiam-lhe e sentia-se a mingar junto de Alexis. Sentia a respiração de Alexis sobre os seus lábios. Uma tortura… Acabou por fechar os olhos. Acontecesse o que acontecesse mais valia não ver. Mais valia não ver o erro que se preparava para cometer. Sentiu os lábios de Alexis roçar os seus para no segundo voltar à realidade com o choro de Lia.




Afastou-se bruscamente de Alexis, tentando apagar o que estavam prestes a fazer. Estava prestes a entrar na cozinha para ir buscar o leite de Lia, quando se sentiu a ser abalroada por Alexis que a empurrou contra a parede e que fez os seus lábios embater violentamente. Adriana sentiu-se ser esmagada pelos sentimentos que a assolavam. Que raio estavam a fazer?! Não podiam ser racionais por um pouco?! Que se lixasse! Estava feito e a única coisa que ela podia fazer era aproveitar o momento ao máximo para que mais tarde o arrependimento pesasse menos.





Assim que Alexis separou os seus lábios dos dela, Adriana sentiu-se a pior pessoa do mundo. Ainda agora tinham terminado aquele beijo e ela já sentia a culpa a corroê-la. Joder, só fazia asneiras!
Adriana sentia o olhar fixo de Alexis aniquilá-la a cada segundo que passava. Sabia em que ele estava a pensar e sabia bem que ele seria capaz de fazê-lo.



Adriana levou as suas mãos ao peito de Alexis, empurrando-o com todas as forças que tinha. Forças essas que pouco moveram Alexis, mas que o haviam movido o suficiente para que Adriana conseguisse fugir dali. Entrou na cozinha, fechando a porta à chave. Puta madre! Só fazia porcaria! Respirou fundo mas parecia ter o cheiro de Alexis entranhado em si… Abanou a cabeça. Tinha de esquecer aquilo. Dirigiu-se à bancada e confirmou se o leite que tinha deixado a aquecer em banho-maria estava pronto. Como estava um pouco quente, pôs o biberão num copo com água fria, aproveitando para deixar cair algumas gotas de água fresca nos braços e no rosto, chamando a razão até si. Ok, tinha sido um erro. Mas estava feito e agora…era esquecer. Isso mesmo, esquecer. Era o que Adriana ia fazer. Esquecer o beijo, esquecer Alexis, esquecer tudo. Ia fazê-lo, claro que ia. Se conseguisse…
Adriana pegou no biberão. Ouvia a televisão acesa na sala e deduziu que Alexis lá estivesse, deixando-lhe portanto caminho livre até ao quarto onde Lia estava. Contudo, enganou-se. Alexis estava sentado no sofá do quarto com Lia ao colo, embalando-a um pouco de forma a acalmá-la enquanto não comia.

- Queres que lhe dê o biberão ou dás-lhe tu? – perguntou Alexis vendo Adriana estática, incapaz de pronunciar uma única palavra

- Eu…eu faço isso – gaguejou – Podes ir deitar-te.

- Vale – Alexis pousou Lia nos braços de Adriana que sentiu o sangue gelar-lhe nas veias por tê-lo tão próximo de si.

Assim que ele saiu, Adriana respirou fundo e sentou-se, concentrando-se única e exclusivamente em Lia. Assim que lhe deu o biberão, trocou-lhe a fralda e embalou-a até adormecer.
Assim que saiu do quarto e se dirigiu à sala, viu de imediato Alexis desligando a televisão preparando-se para ir para o quarto. Adriana não conseguia explicar. Mas algo a devorava por dentro. Desejo, necessidade, amor? Ela não sabia. Mas ver Alexis estava a tirar-lhe todas as forças para lutar contra o quer que fosse que a dominava. Ela ia fazer asneira. Sabia-o tão bem.
Deixou todo e qualquer discernimento de lado e precipitou-se para Alexis. Uniu os seus lábios aos de Alexis que lhe pareciam ainda mais saborosos do que há segundos atrás.





Beijavam-se de forma audaciosa, intensa, como se a vida deles estivesse na boca do outro. As suas mãos ganhavam vida, percorrendo caminhos que bem conheciam, que já haviam trilhado inúmeras vezes. Adriana contorcia-se com o simples toque de Alexis. Sentia-se louca, completamente louca. E sabia tão bem…
Empurrou Alexis contra uma parede, fazendo tombar uma pequena estande. Nada que os preocupasse naquele momento. Rasgou-lhe a camisa, cravando as suas unhas no seu peito, enquanto os seus lábios retomavam o seu vício. Alexis inverteu as suas posições, cercando o corpo de Adriana com o seu.






Fez a sua mão deslizar até a uma das coxas de Adriana, percorrendo-a com desejo, saboreando aquela pele macia e quente. As suas mãos tornaram-se mais atrevidas, aumentando a intensidade do momento, parecendo juntar-lhe até um pouco de agressividade, devido à pressa que tinham de ser um do outro. A respiração de Adriana estava já completamente descontrolada. Sentia o corpo a tremer-lhe de desejo, na expetativa de ser novamente de Alexis.
Ele fê-la subir para o seu colo e conduziu-os até ao quarto. Deixou os seus corpos tombar sobre a cama e fez os seus lábios descerem pelo pescoço de Adriana, fazendo-a suspirar prazerosamente.





As mãos de Alexis eram incapazes de despegar-se das pernas de Adriana e a sua boca concentrava-se agora no peito dela, fazendo-a deixar escapar gemidos quase mudos. A cada segundo que passava a vontade de ter Alexis dentro de si crescia. Não queria saber se era um erro. Ela precisava. Precisava de tê-lo para si, precisava que ele a possuísse, porque havia erros que valiam a pena!




Alexis elevou os seus corpos e Adriana aproveitou para desfazer-se do seu vestido e para arrancar a camisa do tronco de Alexis. Levou as suas mãos aos botões das calças de Alexis e ele rapidamente as tirou e juntou a todas as outras peças que já figuravam no chão do quarto.
Adriana apoderou-se de Alexis, beijando-o doentiamente. Mordendo-o, juntando vezes sem conta a sua boca àqueles lábios que naquele momento lhe pertenciam. Alexis pertencia-lhe. Naquele momento era seu.



Adriana empurrou Alexis fazendo os seus corpos cair sobre o colchão, mas nunca separando os seus lábios.
Nunca na vida uma loucura lhe soubera tão bem…




Alexis inverteu as suas posições, fazendo a sua boca perder-se no peito e no ventre de Adriana. Aquele corpo que tão bem conhecia, aquela mulher que tanto amava…




Adriana sentia-se ser abalroada por uma onda de consciência. Não, aquele erro não ia valer a pena. Estava a dirigir-se para um beco sem saída, para um buraco sem fundo. Ia magoar-se, ia magoar-se.

- Não, para – implorou – Eu não posso, não posso. Não podemos fazer isto, Alexis, não podemos… - dizia sentindo a sua consciência ser atropelada por um sentimento de culpa atroz, que a corroía a cada segundo.

- Podemos – contestou Alexis, ofegante com os seus lábios a roçar os de Adriana – Podemos. Esquece tudo. Somos só tu e eu. Sem passado sem futuro. Esquece tudo o resto. Somos só nós no agora.

Aquelas palavras pareceram esmagar qualquer réstia daquele sentimento de culpa. Adriana foi apenas capaz de precipitar os seus lábios contra os de Alexis, retomando o momento frenético que viviam. Cada toque, cada beijo, cada mordida, cada suspiro, cada gemido, cada grito… Era tudo tão insano, tão doentio, tão maravilhosamente errado. As últimas peças de roupa que ainda cobriam os seus corpos acabaram por cair junto à cama como todas as outras e segundos depois Alexis uniu os seus corpos. Todo o corpo de Adriana estremeceu, não só de prazer, mas de plenitude. Estava completa. Adriana deixou-se contorcer sobre aquela cama, enquanto Alexis possuía cada pedaço de si. Não se coibiu de gritar, de cravar as suas unhas e os dentes no corpo de Alexis. Estava feliz, estava completa. Assim que os seus corpos se separaram, Adriana sentiu um misto de sentimentos invadi-la. Arrependimento e culpa não estavam entre esses sentimentos. Acima de tudo estava inexplicavelmente feliz. Plenamente feliz. Naquele momento eram só eles no agora
Sem perceber bem porquê, Adriana sentiu necessidade de se aconchegar a Alexis e de sentir os seus braços acolhê-la. Afinal o agora ainda não tinha terminado, não é verdade?
Quedaram-se em silêncio, escutando atentamente as suas respirações e notando o ritmo cada vez mais compassado dos seus corações. Amanhã seria um novo dia, mas hoje, hoje era o agora.



No hospital, Cesc encontrava novamente dificuldades em adormecer. Aquele momento, aquele momento perseguia-o. O momento em que a irmã o tinha levado a conhecer a filha… Aquele momento que ele simplesmente não conseguia esquecer…



Como será o despertar de Adriana e Alexis?
E que recordações atormentarão Cesc?
E Ana? Irá acordar ou Cesc e Lia terão de aprender a viver sem ela?





Olá!

Exames terminados e aqui estou eu! Sei que demorou umas três semaninhas mas teve mesmo de ser assim. Queria agradecer às 14 leitoras que comentaram o último capítulo. Gracias por estarem aí mesmo que eu possa não escrever tão regularmente como vocês mereciam. E um gracias ainda maior à Sofia Martins que em duas semanas leu TODA a fic! Gracias, Sofia!

Espero que tenham gostado do capítulo. Confesso que aquele tipo de cenas Adriana-Alexis são as que menos me deixam satisfeita. Acho que não tenho muito jeitinho para elas, mas espero que mesmo assim tenha conseguido transmitir a loucura e a insanidade misturadas com o amor daqueles dois! ;)

Deixem os vossos comentários e mais uma vez GRACIAS por aí estarem!




Besazoooo
Ana Santos







FICS NOVAS