Páginas

sexta-feira, 26 de julho de 2013

141 - "Tu rejeitaste a nossa filha enquanto eu estive em coma?"



Cesc estava ali por mais uma noite consecutiva. A 19ª noite em coma de Ana. Uma noite igual a todas as outras. O mesmo burburinho nos corredores, a mesma luz da lua a entrar pela janela. Mas…algo naquela noite a destacou de todas outras. Cesc observava-a meticulosamente, tal como em todas as outras noites, mas naquela…ele podia jurar que os lábios dela se haviam mexido. Ele sabia, ele sabia que podia estar imaginar coisas, sabia que, tal como o médico o avisara milhares de vezes, poderia ser apenas mais um reflexo e que a consciência dela poderia continuar adormecida. Mas era diferente. Ele sabia. Manteve-se calado e estático, tal como alguém que tenta não assustar um pequeno gato e fazê-lo fugir. Ele não queria que ela fugisse, não queria que fosse apenas um reflexo. Queria mais. Os seus olhos abriram-se. Lentamente os seus olhos abriram-se 19 dias depois de se terem fechado pela última vez. Piscou-os inúmeras vezes e Cesc apercebeu-se que tentava restabelecer a visão. No segundo seguinte, levou instantaneamente as mãos à sua barriga. Será que procurava Lia? Será que não se recordava de ter dado à luz? Os seus braços relaxaram-se e caíram junto ao seu tronco. Cesc não resistiu. Suavemente colocou a sua mão sobre a mão direita de Ana, mas ela pareceu não notá-lo. Será que ela não estava realmente acordada? Será que Cesc estava apenas a sonhar? Mas, sem que nada o previsse, Ana inclinou a sua cabeça em direção a ele, mostrando um sorriso doce e leve.

- Cesc… - acabou por sussurrar com a voz a sair-lhe fraca e arrastada.

Naquele momento, um choque trespassou Cesc. Era real, bem real. Ela tinha acordado. Ela tinha acordado.

- Mi vida – murmurou atordoado – Acordaste… Acordaste! – repetiu antes de a abraçar e espalhar inúmeros beijos sobre o seu rosto – Tive tanto medo de te perder – confessou enquanto percorria as feições de Ana com a ponta dos seus dedos.

- O que é que aconteceu? Dói-me a cabeça e…estou tão confusa.

- Está tudo bem, meu amor, agora está tudo bem – tranquilizou-a Cesc, enquanto as suas lágrimas continuavam a cair abruptamente.

Cesc levantou-se e correu até ao corredor.

- Ela acordou! A Ana acordou! – gritou antes de voltar ao quarto, sentando-se novamente ao lado dela.

- Acordei? Como assim? O que aconteceu, Cesc? – perguntou confusa.

- Estiveste em coma durante 19 dias. O teu coração parou durante o parto e os médicos tiveram dificuldade em reanimar-te. mas agora está tudo bem, está tudo bem – repetiu antes de a beijar suavemente.

- Mas… - Ana continuava confusa – E a Lia? Ela está bem?

- Sim, está. É linda linda linda – Ana abriu um sorriso com a descrição de Cesc – Aliás vou ligar à Adriana para que a traga.

- A Adriana? – perguntou sem perceber.

- Ela e o Alexis têm-me ajudado bastante com a Lia – explicou Cesc.

- Ora vejam quem acordou – disse o médico bem-disposto entrando no quarto – Bem-vinda de novo!

O médico aproximou-se de Ana, fazendo-lhe exames básicos, testando especialmente as suas funções vitais e os seus reflexos.

- Parece-me estar tudo bem – afirmou o médico, arrancando um sorriso aliviado a Cesc – Como se sente?

- Tenho dores. E estou confusa – respondeu Ana.

- Tudo isso é normal. Vamos fazer-lhe mais alguns exames mas acho que está tudo bem. Quanto às dores, a menos que não queira amamentar, apenas lhe poderemos dar um analgésico fraco, para não interferir com a amamentação.

- Quero amamentar! – disse de imediato Ana – Quero ver a Lia – pediu olhando Cesc.

- Compreendo – disse o médico – Mas antes vamos ter de fazer alguns exames neurológicos. Prometo que vamos tentar ser o mais breves possível!

Ana olhou desiludida para Cesc, que tentava controlar a vontade de a pegar nos seus braços e não a deixar sair dali.

- Cariño, vai correr tudo bem. Enquanto fazes os exames, eu vou buscar a Lia. Vamos estar aqui à tua espera – prometeu.

Ana forçou um pequeno sorriso e Cesc fez os seus lábios tocarem os dela, desta vez de forma mais intensa e profunda.






- Não dá, Adriana. Não dá mais para adiar. Temos de falar.

Adriana suspirou. Sabia que ele tinha razão. Caminharam para junto do sofá e sentaram-se lado a lado.

- Adriana, percebo que estejas frágil com toda esta situação. mas não quero, nem posso, ser simplesmente o teu porto de abrigo. Também tenho sentimentos, que tu bem sabes quais são. Sofro com esta situação. preciso de…

O telemóvel de Adriana tocou e instantaneamente sentiu um enorme peso abandoná-la. apressou-se a atender.

- Cesc? O quê? Isso é fantástico. Sim. Hum hum. Nós vamos já para aí! Beso!

- O que se passa? – perguntou Alexis vendo aquele entusiasmo por parte de Adriana.

- A Ana acordou – contou sem conseguir conter as lágrimas mas ao mesmo tempo com um sorriso enorme a rasgar-se no seu rosto.

Alexis aproximou-se dela e Adriana mergulhou nos seus braços. Adriana não resistiu. Estava tão feliz e…Alexis, Alexis estava ali. Tão perto… Ergueu o seu rosto e sentiu Alexis pousar os lábios dele sobre os seus de forma calma e carinhosa. Após algumas lágrimas derramadas por Adriana, mais tarde limpas carinhosamente pelos dedos de Alexis, os dois começaram a preparar a sua deslocação ao hospital. Ligaram a Thiago, pedindo-lhe que ficasse com o pequeno Thiago e anunciando que Ana havia acordado. Ele aceitou prontamente. Adriana e Alexis agasalharam Lia e Thiago e conduziram até a casa de Thiago onde deixaram o filho para depois seguirem para o hospital. Assim que entraram no quarto de Ana, viram Cesc sozinho, deambulando impacientemente. Abriu um sorriso enorme assim que os viu ali, assim que viu Lia. Aproximou-se de Adriana e de imediato pegou em Lia que choramingava por ver o seu sono interrompido.

- Onde está a Ana? – acabou por perguntar Adriana.

- Foi fazer alguns exames – respondeu Cesc, deliciado a contemplar Lia.

- Mas ela pareceu-te bem?

- Sim – respondeu desta vez olhando Adriana – Estava confusa, mas parecia-me bem – disse com um sorriso.

- Acho que é melhor sairmos um pouco – disse Alexis deixando Adriana surpreendida. Já Cesc estava tão mergulhado na sua felicidade que mal o ouvira – Acho que eles deviam ter um tempo para eles – explicou Alexis – Acho que precisam de um primeiro tempo só eles os três. A Ana acabou de acordar. Ainda não viu a filha. Acho que precisam de algum tempo só para eles, não achas?

- Sim, és capaz de ter razão – reconheceu Adriana, tentando pôr-se no lugar de Ana – Cesc, nós vamos um pouco para a sala de espera. Para que vocês possam estar um pouco…em família – aquilo soou muito bem a Cesc. Em família, pensou, finalmente em família.

Adriana e Alexis saíram deixando Cesc e Lia aguardando pela chegada de Ana.

- Vamos mesmo ficar aqui? – perguntou Alexis, após alguns minutos de silêncio junto a Adriana.

- Tens alguma ideia melhor?

- Por acaso até tenho – disse com um sorriso. Adriana odiava aquilo. Aquele sorriso era sempre meio caminho andado para alinhar nas ideias de Alexis, mesmo antes de as conhecer – Podíamos ir até à rua, beber um chocolate quente. Afinal eles ainda vão querer ter um grande tempinho para eles.

Adriana olhou-o desconfiada e até um pouco indignada. Ele conseguia sempre!

- Vale – acabou por concordar sendo brindada por mais um sorriso irresistível de Alexis.

Acabaram por sair. A noite estava fria, demasiado fria. Tornava-se desagradável passear por Barcelona com aquela temperatura.

- Estás com frio? – perguntou Alexis enquanto caminhavam pelas ruas quase desertas.

- Um bocado.

- Avisei-te para trazeres um casaco – recordou Alexis.

- Eu sei – murmurou. Odiava quando Alexis a repreendia, e ainda mais quando no fim se vangloriava subtilmente por estar certo enquanto a teimosia de Adriana a fazia estar errada.

Alexis despiu o casaco e ofereceu-o a Adriana.

- Não é preciso. Eu estou bem.

- Deixa de ser teimosa.

- Se o trouxeste é porque precisas dele – contestou.

- Nem por isso. Trouxe-o porque sabia que ias precisar dele – Adriana reparou que Alexis ainda tinha outro casaco vestido o que confirmava a sua afirmação.

- Agora é que não o quero mesmo – refilou amuada. Ai como o odiava! Odiava que a conhecesse tão bem, que tentasse cuidá-la tão bem chocando com a sua teimosia e o seu orgulho.

- Nesses teus ataques de teimosia, ficas muito cómica – gozou Alexis pondo-se à frente dela e colocando-lhe o casaco sobre os ombros.

- Gracias – murmurou.

- De nada – respondeu passando rapidamente os seus dedos pelo rosto dela.

Continuaram a caminhar lado a lado. Inevitavelmente os seus corpos encontraram-se. Alexis rodeou-lhe a cintura com o braço e Adriana deixou cair a cabeça sobre o seu ombro.
Compraram o seu chocolate quente e foram sentar-se num banco de jardim. Era feito de forma bastante tradicional e Alexis aceitou pagar um pouco mais para que pudessem levar as canecas e desfrutar um pouco mais do momento.





- E nós? – Alexis apenas puxou o assunto que Adriana já previra. Sabia que estar sozinha com Alexis iria propiciar aquele momento, mas a verdade é que já bastava de fugir, de ser irresponsável, de viver na noite escondida da consciência.

- Precisamos de falar, não é? – Alexis apenas assentiu com a cabeça – Lamento desiludir-te mas…não faz sentido voltarmos. Divorciámo-nos por alguma razão.

- A Blanca já não está na minha vida.

- A Blanca foi um pormenor no meio disto tudo. Tu meteste na tua cabeça que não queres que eu seja uma Angel, que não me queres nas passerelles do mundo.

- Adriana, juro que mudei. Juro que quero apoiar-te a partir de agora – garantiu agarrando-lhe nas mãos.

- Alexis, há meses atrás disseste-me que ultrapassarias o facto de ter dormido com o Thiago e o que fizeste? Agrediste-o e foste suspenso. Não prometas coisas que nunca provaste conseguir fazer.

- Mas…

- Se tiver de acontecer, então acabará acontecer – descansou-o Adriana – As coisas funcionam assim.

- Não vou mentir… Vou tentar fazer as coisas acontecerem – admitiu Alexis.

- Espero que sim – atirou Adriana surpreendendo-o.

Ela queria dizer com aquilo o que ele estava a pensar? Estava a desafiá-lo a reconquistá-la? Alexis sorriu-lhe. Ele aceitava o desafio.

- Bem, vamos voltar ao hospital? – convidou Alexis esticando a sua mão a Adriana.

- Antes tenho de entregar-te uma coisa – Adriana remexeu a mala antes de fazer a sua aliança pousar na mão de Alexis – Não estou a desafiar-te a reconquistar o meu amor, Alexis, estou a desafiar-te a reconquistares a nossa amizade.

Alexis não esperava ouvir aquilo. Estava de facto convencido de que o seu casamento ainda poderia ser recuperado. Amizade? Não chegava. Mas Alexis ia aceitar. Passo a passo até recuperar Adriana na plenitude, até fazer aquela aliança deslizar pelo dedo de Adriana uma vez mais e de forma definitiva.
Caminharam de volta até ao hospital numa conversa descontraída, numa conversa de amigos…





Cesc esperava Ana impacientemente. Era suposto demorar tanto tempo a sair dos exames? Estaria tudo bem? Seria normal?
Suspirou. Tinha de acalmar-se. Aproveitou para trocar a fralda a Lia. Era a hora de ela comer e ele até tinha um ou dois biberões de leite no frigorífico da clínica, mas queria esperar por Ana. Queria que a Ana visse Lia, pegasse em Lia, amamentasse Lia. Tal como ele imaginara desde o momento em que soubera que seria pai.




Aqueles corredores pareciam não ter fim. O quarto parecia estar inalcançável. Será que não poderiam empurrar-lhe a cadeira de rodas mais rapidamente? A sua filha estava no seu quarto, à sua espera, à sua espera há 19 dias…
Assim que finalmente entrou no quarto, sentiu-se tremer. A adrenalina percorria cada ponta do seu corpo. O enfermeiro limitou-se a deixá-la no quarto e a retirar-se rapidamente dando-lhes privacidade. Cesc estava junto à janela olhando a lua com Lia a choramingar com fome no seu colo. Cesc aproximou-se de Ana que os observava com os olhos encharcados.
Cesc pousou-lhe Lia nos braços, ajoelhando-se junto a elas.

- Diós mio, ella es tan…bonita [Meu Deus, ela é tão…bonita]. Mi angel, sei que demorei a chegar, mas nunca mais te vou deixar. Eu prometo – dizia enquanto a acarinhava completamente enternecida – Agora estamos juntos. E nunca mais estaremos de outra forma – prometeu desta vez olhando Cesc que a beijou levemente.

Uns minutos depois, Cesc empurrou a cadeira de Ana até à cama, pegou em Lia e deitou-a para depois fazer exatamente o mesmo com Ana.

- Está na hora de ela comer. Queres tentar amamentá-la? – perguntou Cesc.

- Claro – respondeu sem hesitar nem um pouco – Enquanto estava a fazer exames contaram-me que a têm posto a amamentar e que ela se tem adaptado bem.

- É verdade – disse Cesc com um sorriso orgulhoso – Queres que te ajude?

- Sim, acho que é melhor.

Ana colocou-se numa posição mais confortável e Cesc pôs Lia nos seus braços, que, como já era habitual, começou a mamar de imediato. Ana olhava-a completamente maravilhada. Lia acabou por adormecer enquanto mamava. Ana sabia que ela tinha de arrotar, mas não conseguia acordá-la. parecia-lhe uma atrocidade tremenda fazê-lo. deixou-a sobre as suas pernas, quedando-se a contemplá-la durante quase uma hora. Cesc aproveitou esse tempo para falar com o médico. Os exames tinham mostrado que estava tudo bem e que Ana deveria estar apta para ter alta dentro de dias. Contudo, algo perturbava Cesc, algo que o levou a fazer aquela pergunta.

- É possível que ela volte a entrar em coma?

- Não lhe vou mentir. Sim, é possível – Cesc engoliu em seco com aquela resposta. Perder Ana novamente? – Contudo, é uma possibilidade muito remota. Portanto aconselho-os a fazer uma vida perfeitamente normal.

Cesc engoliu aqueles conselhos e voltou a entrar no quarto. Ana continuava a olhar Lia. Apenas isso. Olhá-la. não se atrevia sequer a tocá-la, já que Lia dormia serenamente e ela não a queria perturbar. Cesc acabou por pousá-la no seu berço e arrastá-lo para junto da cama de Ana.

- Deita-te aqui – pediu Ana chegando-se para uma ponta da cama.

Cesc acedeu ao seu pedido e sentiu Ana a aconchegar-se junto a si. Não disseram nada. estavam tão bem assim.
Pouco tempo depois, bateram à porta. Alexis e Adriana entraram com dois sorrisos gigantes nos seus rostos. Ambos se aproximaram de Ana, beijando-a e abraçando-a carinhosamente e claro aproveitando para mirar Lia.Não ficaram ali muito mais tempo, já que percebiam que Ana estava cansada e com vontade de estar só e apenas com Cesc e Lia.
Pela primeira vez em muitos dias, Adriana e Alexis dormiram em camas separadas, em quartos separados, em casas separadas. Tal como os amigos faziam.




Após alguns minutos, Ana entregou-se ao sono, deixando, por sua vez, Cesc entregue ao desespero. E se ela não voltasse a acordar? E se voltasse a entrar em coma? Por várias vezes a tocou, apenas para que ela se mexesse ligeiramente, dispersando constantemente o pensamento de que ela poderia estar em coma.
Como resultado, Ana acordou extremamente cansada, e Cesc ainda mais, já que não dormira uma única hora naquela noite. Ana não percebia por se sentia exausta. Por muito que tivesse acordado três vezes para amamentar Lia, julgava que se iria sentir com mais energia. Mas não. Sentia-se…cansada.

- Buenos dias – saudou-a Cesc com um sorriso.

- Buenos dias – murmurou.

- Dormiste bem?

- Não muito – confessou – Não consegui descansar muito.

Ao longo do dia as visitas foram-se multiplicando. Ana recebeu os seus pais, os de Cesc, o irmão Alexandre, Tiago, alguns colegas de Cesc, Carlota, Adriana e Alexis. Eram visitas curtas, mas que a deixaram exausta. Acabou por pedir a Cesc que lhe desse uma hora de descanso. Aproveitou para dormir. Mas algo lhe ocupava a mente… Aquelas palavras que Ana não sabia como haviam aparecido na sua cabeça.


Não consigo gostar dela. tenho nojo dela, tenho-lhe ódio, desprezo. É por causa dela que estás aqui, foi por causa dela que o teu coração parou. Eu não a amo, nem a vou amar. Não quero vê-la, não quero tocar-lhe. Só a quero longe de mim. Desculpa se te estou a desiludir. Sei que é nossa filha, mas simplesmente não consigo aceitá-la, amá-la ou seja lá o que for. Só quero voltes.



Aquela voz tão clara, tão nítida. Não podia ter sido apenas um sonho. Ana recordava muitas outras palavras todas muito parecidas com aquelas. De uma só voz. Cesc. E se…
O médico entrou para observá-la e Ana aproveitou para tirar aquela dúvida.

- Sr. Dr. Acredita que as pessoas que estiveram em coma possam…lembrar-se de coisas que lhe disseram quando estavam adormecidas?

- Não é uma questão de acreditar ou não. Houve pessoas que passaram por uma experiência como a sua e se lembram de conversas que tinham ocorrido durante um estado de coma. É um facto, não uma questão de crenças.

- Gracias – respondeu com um aperto no estômago e vendo o médico sair.

Poucos minutos depois, Cesc voltou a entrar com Lia ao colo.

- Então, cariño, estás com mais energia? – perguntou Cesc animado enquanto mimava Lia.

- Sim, acho que sim – murmurou Ana.

- Estás bem? – perguntou Cesc vendo Ana ligeiramente abatida.

- Sim, estou…

Cesc não engoliu aquela resposta. Pousou Lia no berço e sentou-se à cabeceira de Ana.

- Que se passa?

Ana tentou segurar as palavras. Mas simplesmente elas…escaparam-se dos seus lábios.

- Tu rejeitaste a nossa filha enquanto eu estive em coma?







- A mami te vay echar de menos, pequeño [A mamã vai sentir a tua falta, pequeno]– dizia Adriana enquanto se despedia de Thiago.

Tinha de ir a Nova Iorque. Já deveria ter ido mais cedo, agora era mesmo a data limite. Tinha de experimentar o modelo que usaria no próximo desfile que estava para muito breve.

- Adriana – Alexis aproximou-se dela com um livro na mão – Sei que gostas de ler e tenho este livro por cá. Como a viagem é grande podias levá-lo.

- Oh gracias – disse surpreendida e pegando no livro – Vai dar jeito. Bem, tenho mesmo de ir. Dentro de dois dias volto. Se tiveres alguma dúvida, liga-me – disponibilizou-se antes de dar mais um beijo a Thiago que estava sentado no tapete à frente da televisão para depois despedir-se também de Alexis com um beijo no rosto.

- Boa viagem! – desejou Alexis.

- Muchas gracias! – agradeceu Adriana antes de sair.

O táxi já a esperava. Em minutos estava no aeroporto, mesmo em cima da hora de fecho das portas de embarque. Entrou e tratou de aconchegar-se num lugar. À janela como sempre. O avião estava já a planar a vários quilómetros do chão quando Adriana decidiu pegar no livro que Alexis lhe oferecera.
Assim que o abriu foi surpreendida por um pequeno bilhete presente entre as primeiras páginas do livro. Pegou nele e de imediato vislumbrou um texto escrito com a inconfundível caligrafia de Alexis.



O que estará escrito no bilhete?
O que responderá Cesc a Ana?



Olá!

Cá está mais um capítulo! Espero que tenham gostado e que deixem os vossos comentários!

AVISO: A partir do dia 5 de agosto e até o dia 11 estarei sem internet portanto não estranhem a minha ausência ;)



Beso
Ana Santos

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Capítulo 140 - "Sou teu pai"

140 - "Sou teu pai"



Recordação


- Cesc, não podes estar aqui fechado 24 horas por dia! – refilava a minha irmã – Precisas de espairecer.


- Não há outro lugar no mundo onde queira estar – respondi, deslizando os dedos pelo braço da Ana.


- Mas eu quero que venhas comigo a um sítio. Um sítio onde precisas de ir.


- Que sítio? – perguntei sem perceber.


- Anda – respondeu agarrando-me a mão e puxando-me. Foi-me conduzido pelos corredores da clínica, até que parámos em frente a uma porta. A Carlota abriu-a e consegui vislumbrar de imediato um quarto fresco, luminoso, em tons branco e rosa, onde se destacava um berço ao centro.
- Não quero entrar – avisei assim que me apercebi de que era o quarto da Lia.


- Mas precisas de fazê-lo.


- Carl…


- Tenta – suplicou-me – Apenas tenta. Por ti, por ela, pela Ana! Vocês são uma família, Cesc. Precisam uns dos outros. E só tu e a Lia ainda não têm uma ligação! Tenta – incentivou-me.


Levantei os olhos para o quarto. Sentia calafrios só de pensar em entrar. Não queria, não queria que aquelas imagens, aqueles sentimentos me voltassem a trespassar. Não queria recordar o cenário que vivera naquele bloco de partos, não queria voltar a sentir repulsa da Lia. Não queria vê-la e arriscar-me a que este sentimento se agigantasse mais. Eu queria amá-la! Queria mesmo! Mas…


- Eu não consigo – acabei por dizer – Desculpa, Carlota, mas não consigo – expliquei antes de voltar costas àquele quarto e voltar ao de Ana. A cada passo que dava sentia um sentimento constrangedor a crescer assoberbadamente dentro de mim: eu odiava-me. Estava a rejeitar a minha filha, aquela que desejara meses a fio, aquela para quem fizera planos, aquela com que havia falado todas as noites enquanto a Ana dormia. “Só tu e a Lia ainda não têm uma ligação!”
Que raio estava eu a fazer? Era a minha filha! Tinha de tentar!
Voltei ao quarto da Lia. Respirei fundo. Tinha de conseguir fazê-lo. Abri a porta e vi a minha irmã sentada no sofá. Ela olhou-me com um sorriso mas nada disse. Entrei fechando a porta atrás de mim. Sentia um cheiro inconfundível no ar. Um cheiro a…bebé. Fui-me aproximando passo a passo do berço. Sentia as pernas a tremerem-me e uma vontade gigantesca de fugir dali. Depois…depois vislumbrei-a. Pequena, frágil, de cabelos negros, dormindo serenamente. Não consigo explicar o que senti naquele momento. Se por um lado estava encantado, maravilhado, perdido a contemplá-la, por outro sentia-me a pessoa mais odiável no mundo. Como a tinha rejeitado? Ela era indefesa, frágil, inocente! Como a podia ter culpado de tudo o que acontecera?
O telemóvel da Carlota tocou despertando-me destes pensamentos.


- É o Marcelo. Vou lá fora atender – sussurrou saindo do quarto.


Voltei a olhar o berço e aproximei-me ainda mais. Tão bonita… Inesperadamente ela mexeu-se ligeiramente para depois abrir os olhos grandes e castanhos. Senti-me paralisar. Era tão parecida comigo, os olhos, o nariz, a forma do rosto. Mas por outro lado era uma cópia da Ana. As suas expressões eram exatamente iguais as da Ana. A forma como olhava o vazio, a forma como sorria…
Sabia que não me via. Era cedo para conseguir fazê-lo, provavelmente apenas conseguiria distinguir uma sombra. Teria de falar-lhe ou talvez tocar-lhe para denunciar a minha presença. Mas tinha a voz presa na garganta. Não conseguia sequer sussurrar. O seu choro baixo fez-me voltar à realidade. Não a queria ver chorar, mas o que era suposto fazer? Falar com ela, tocar-lhe, pegar nela? Não, eu não conseguia fazê-lo. Instintivamente coloquei-lhe a chupeta na boca, silenciando-a. E quando menos esperava a sua mão embateu no meu dedo, enrolando-se a ele.







Naquele momento senti…nada e tudo ao mesmo tempo. É incrível como um gesto tão simples, tão banal, tão insignificante pode em determinadas circunstâncias ser o mais incrível, o mais maravilhoso, o mais puro. Deixei-me ficar ali durante alguns minutos. Assim que senti a porta abrir-se lentamente, despeguei-me suavemente da Lia e saí. Não, não queria que ninguém visse aquilo. Se o vissem iriam exigir mais de mim. Um mais que eu não sabia ser capaz de dar. Voltei ao quarto da Ana. Ali não havia exigências, nem expetativas.


***


Cesc pensava em tudo aquilo enquanto olhava Ana. Tinha ficado tanta coisa por fazer. Desejava pegar Lia ao colo, sussurrar-lhe, dizer que ia ser o pai que ele merecia, aprender a amá-la…
Agora Lia estava aos cuidados de Alexis e de Adriana. Mas era aos de Cesc que deveria estar. Ele sabia disso! Iria vê-la. Iria fazê-lo naquele mesmo momento. Assim que chegou ao exterior do edifício apercebeu-se de que não estava a ser racional. Eram duas da manhã, não poderia aparecer àquelas horas em casa deles. Teria de esperar até ao dia seguinte…




Alexis estava a voltar para o quarto, depois de mais um biberão dado a Lia, quando ouviu a campainha tocar. Apressou-se a abrir, não queria que Adriana acordasse.


- Cesc… - disse surpreendido – Buenos días. Desculpa mas acabei de acordar – explicou já que tinha apenas uns boxers vestidos.


- Não tem importância – garantiu Cesc – Queria pedir-te uma coisa.


- Força.


- Quero ver a Lia.


- A Lia? – deixou escapar inevitavelmente surpreso – Quer dizer…claro que podes. Acabei de lhe dar o biberão. Queres que vá contigo ou vais sozinho?


- Prefiro ir sozinho – admitiu – Onde é que ela está?


- Está no quarto do Thiago. Se precisares alguma coisa, chama.


- Gracias.


Alexis retirou-se, deixando-o mais à vontade e Cesc não hesitou nem por um segundo. Percorreu aqueles curtos metros até poder finalmente voltar a vislumbrar Lia. Estava acordada e Cesc não conseguiu evitar sorrir ao olhá-la. Instintivamente levou a ponta dos dedos à pequena testa dela, acariciando-a levemente. Tão macia, tão pura, tão frágil…
Espreitou para o berço ao lado. Thiago dormia pesadamente. Não parecia ir acordar em breve, o que significava que não seria assim tão cedo que Alexis ou Adriana entrariam ali. Era a sua oportunidade. Podia fazê-lo.
Cuidadosamente, com os braços tremendo de nervosismo, aproximou-se de Lia, atrevendo-se a pegá-la ao colo. Não conseguia descrever o sentimento que o percorria. Os sentimentos, aliás. Eram tantos, tão diferentes, tão confusos. Mas sentia-se incrivelmente bem. Pela primeira vez após Ana entrar em coma, Cesc sentia-se feliz, genuinamente feliz. Quase sem se aperceber, Cesc acabou por encostá-la ao seu peito.


 





Ela estava tão calma, tão serena… Parecia estar a desfrutar daquele pedacinho com…o pai. Pela primeira vez, Cesc sentia-se pai, verdadeiramente pai. Sentou-se no sofá e deixou-se durante mais de uma hora a contemplá-la, a mimá-la… Depois pousou-a no berço e saiu. Tinha de voltar ao hospital, Ana precisava dele. Ainda antes de sair deixou que um beijo se desvaecesse na testa de Lia com a promessa de que em breve voltaria.
Quando estava a caminho do hospital, não resistiu a elevar o volume do rádio. Aquela música…Aquela música era tão sua. Sentiu o seu corpo tremer com as primeiras palavras e decidiu encostar. Era o mais sensato… Sabia que era uma canção de amor, mas Lia…Lia era a única pessoa em que pensava enquanto a ouvia.




A veces me elevo, doy mil volteretas [Às vezes elevo-me, dou mil rodopios]
A veces me encierro tras puertas abiertas [Às vezes fecho-me atrás de portas abertas]
A veces te cuento por qué este silencio [Às vezes conto-te o porquê deste silêncio]
Y es que a veces soy tuyo y a veces del viento [É que às vezes sou teu e às vezes do vento]



Às vezes, escondia-se, isolava-se. Outras, dava-se por completo a Lia. Às vezes era dela e às vezes do vento…





A veces de un hilo y a veces de un ciento [Às vezes de um fio e às vezes de um cento]
Y hay veces, mi vida, te juro que pienso: [E às vezes, minha vida, juro-te que penso:]
¿Por que es tan dificl sentir como siento? [Porque é tão difícil sentir como me sinto?]
Sentir, ¡como siento! Que sea difícil [Sentir, como lamento que seja difícil]



Perdia-se pensando porque era tão difícil alguém pôr-se no seu lugar, alguém sentir o que ele sentia. Os sentimentos controversos. Amar Ana mas revoltar-se por não a ver a abrir os olhos. Amar desmesuradamente Lia mas ao mesmo tempo culpá-la, rejeitá-la, sentir repulsa dela. Lamentava tanto que fosse tão difícil sentir o que ele sentia, lamentava tanto estar completamente só.


A veces te miro y a veces te dejas [Às vezes olho-te e às vezes deixas]
Me prestas tus alas, revisas tus huellas [Às vezes emprestas-me as tuas asas, revisas as tuas marcas]
A veces por todo aunque nunca me falles [Às vezes por tudo ainda que nunca me falhes]
A veces soy tuyo y a veces de nadie [Às vezes sou teu e às vezes de ninguém]
A veces te juro de veras que siento, [Às vezes juro-te que lamento mesmo]
No darte la vida entera, darte sólo esos momentos [Não te dar a vida inteira, dar-te apenas estes momentos]
¿Por qué es tan dificil?...Vivir sólo es eso... [Porque é tão difícil? Viver, apenas isso…]
Vivir, sólo es eso...¿Por qué es tan dificil? [Viver, apenas isso… Porque é tão difícil?]




Ninguém mais do que ele lamentava o que estava a acontecer, ninguém mais do que ele lamentava a forma como estava a agir, ninguém mais do que ele lamentava que ele apenas conseguisse dar curtos e escassos momentos a Lia, enquanto lhe devia dar tudo – toda a sua vida, todas as suas horas, todo o seu amor, todo o seu carinho. Afinal porque era tão difícil viver, apenas isso, viver. Porque era tão difícil? Naquele momento, Cesc sentiu as lágrimas rolarem-lhe caprichosamente pelo rosto, enquanto este caía sobre o volante do carro.





Cuando nadie me ve puedo ser o no ser [Quando ninguém me vê posso ser ou não ser]
Cuando nadie me ve pongo el mundo al revés [Quando ninguém me vê viro o mundo ao contrário]
Cuando nadie me ve no me limita la piel [Quando ninguém me vê a pele não me limita]
Cuando nadie me ve puedo ser o no ser [Quando ninguém me vê posso ser ou não ser]
Cuando nadie me ve [Quando ninguém me vê]




Quando ninguém o via, ele era livre. Podia chorar, podia gritar, podia amar, podia odiar. Podia contemplar Lia, podia beijá-la na testa, podia pegá-la ao colo sem que estivesse a comprometer-se a algo. Se ninguém o via, ninguém lhe poderia exigir que fosse o que já havia mostrado conseguir ser: um Pai. Era por isso que se escondia. Porque não queria, através de episódios isolados, criar esperanças e expetativas que não conseguia carregar. O que poderia ser pior que saber que Alexis e Adriana esperavam que ele continuasse a ser um bom pai, que continuasse a pegar em Lia ao colo, que continuasse a beijá-la na testa? Nem ele sabia se seria capaz de tornar a fazê-lo. Partia tudo de…um instinto. Um instinto incontrolável, imprevisível.




Te escribo desde los centros de mi propia existencia [Escrevo-te desde os centros da minja própria existência]
Donde nacen las ansias, la infinita esencia [Onde nascem as ânsias, a infinita essência]
Hay cosas muy tuyas que yo no comprendo [Há coisas muito tuas que eu não entendo]
Y hay cosas tan mías, pero es que yo no las veo [E há coisas tão minhas mas eu não as vejo]
Supongo que pienso que yo no las tengo [Suponho que acho que não as tenho]
No entiendo mi vida, se encienden los versos [Não entendo, minha vida, os versos acendem-se]
Que a oscuras te puedo, lo siento no acierto [Que às escuras te digo “lamento, não acerto”]
No enciendas las luces que tengo desnudos, [Não acendas as luzes que tenho despidos]
El alma y el cuerpo [A alma e o corpo]




Lia e Cesc eram filha e pai, eram do mesmo sangue. Mas não eram a mesma pessoa. Eram duas pessoas diferentes…Duas pessoas diferentes que ainda agora se haviam começado a conhecer, que ainda agora haviam começado a aprender a amar-se…




Cuando nadie me ve puedo ser o no ser [Quando ninguém me vê posso ser ou não ser]
Cuando nadie me ve me parezco a tu piel [Quando ninguém me vê pareço-me à tua pele]
Cuando nadie me ve no pienso en ella também [Quando ninguém me vê também não penso nela]


(…)




Mas quando ninguém o via e ele podia simplesmente ficar a contemplar Lia, a sua mente extravasa-se, deixando de ter Ana como único pensamento. Deixando de pensar nela por minutos. Quando ninguém o via, Cesc parecia-se extremamente a Lia. Era frágil, tinha medo, estava a começar. Sim, a começar. Era um novo mundo para os dois. No fundo estavam os dois sozinhos, porque os dois não a tinham. Lia não tinha a mãe a seu lado, Cesc não tinha a mulher que amava a seu lado. Ambos estavam desnorteados, perdidos, procurando um rumo, uma força. Joder, que raio estava ele a fazer ali? Cesc era a força e o rumo de Lia. Lia era a força e o rumo de Cesc. Deu meia volta e acelerou rumo à casa de Adriana e Alexis.






Assim que Cesc dissera que preferia ficar sozinho, Alexis retirou-se de imediato para o quarto. Adriana continuava a dormir serenamente.






Alexis sentou-se no chão, deixando a sua cabeça embater contra a porta. Não resistia a mirá-la, a contemplá-la. O que havia acontecido? Adriana tinha enlouquecido. Ou será que ele tinha enlouquecido primeiro? Não tinha segundas intenções quando a convidara para dançar. Podia admitir que se havia descontrolado quando a beijou, mas depois tinha-se mantido o mais racional possível. Mas Adriana tinha perdido o controlo, tinha partido para cima dele. Alexis conseguiu perceber que ela se debatia entre o que queria fazer e o que devia fazer. Fora isso que a levara a tentar terminar aquele momento: a sua consciência. E agora era a de Alexis que o fazia vacilar. Teria errado ao dissuadi-la? E se ela estivesse arrependida? Não… Alexis sabia que ela não estaria arrependida. Pelo menos não totalmente. Ele recordava-se claramente da felicidade que Adriana exalava na noite anterior. Era impossível não senti-la.
Levantou-se e sentou-se na cama deixando os seus dedos passarem suavemente pelo cabelo encaracolado de Adriana que dormia serenamente.
Quase duas horas depois, a campainha tornou a tocar. Alexis levantou-se cuidadosa e rapidamente para que Adriana, que ainda dormia, não acordasse.


- Cesc? – perguntou surpreendido ao vê-lo novamente ali.


- Preciso de falar contigo e com a Adriana. É urgente.


- Urgente, mas que se passa?


- Podes chamar a Adriana? Preferia falar tudo de uma vez com vocês os dois.


- Vale.


Alexis voltou ao quarto. Ajoelhou-se junto à cama e começou a passar os seus dedos pelo rosto de Adriana enquanto sussurrava o seu nome.


- Alexis… - murmurou abrindo os olhos. Decididamente preferia que ele não a tivesse acordado. Preferia continuar perdida entre sonhos em vez de voltar à realidade.


- O Cesc está lá fora. Quer falar connosco. Diz que é urgente.


- Urgente? Mas passou-se alguma coisa com a Ana? – disse agitada sentando-se na cama.


- Não sei. Ele não me disse nada.


Alexis afastou-se da cama, dirigindo-se ao armário retirando umas calças e uma t-shirt para vestir. Adriana levantou-se deixando para trás o lençol e revelando o seu corpo despido. Alexis não conseguiu evitar. Ficou a contemplá-la enquanto ela se vestia. Adriana sabia-se observada e sabia que devia ficar incomodada e pedir-lhe que parasse. Mas…não podia negar que ter os olhos de Alexis pregados no seu corpo a fazia estremecer daquela forma tão única.
Assim que se vestiram, saíram, encontrando Cesc impaciente, andando às voltas na sala.


- Já cá estamos – anunciou Adriana – Que se passa? É alguma coisa com a Ana?


- Não, não – esclareceu de imediato – Quero falar-vos sobre a Lia.


- Sobre a Lia? – surpreendeu-se Adriana – Mas…que se passa?


- Não é fácil para mim explicar-vos tudo isto. Tenho medo de me expressar mal – suspirou – Mas vou tentar… - Tanto Alexis como Adriana conseguiam vislumbrar o cansaço que o dominava. Os olhos vermelhos e inchados de quem não dormira por um único minuto.


- Não queres sentar-te? – convidou Adriana tentando pô-lo o mais confortável possível.


Cesc acabou por aceitar o convite, sendo seguido por Adriana e Alexis.


- Isto tem sido complicado e…no meio de tudo isto tenho de agradecer-vos – começou Cesc – A ti, Alexis, que nunca me julgaste, que tentaste fazer sempre tudo para que eu não me sentisse pior do que já me sentia. E também a ti, Adriana, que apesar de tudo me apoiaste ao tomar conta da minha filha – não passou despercebido nem a Adriana e nem a Alexis que Cesc apelidara pela primeira vez Lia de sua filha – Eu sei que tenho agido mal. Acreditem que não há ninguém neste mundo que me odeie mais do que eu mesmo de odeio. Sei que tenho sido uma merda de pai – atirou sem meias palavras – E sei que a Catarina não o merecia. Mas quero mudar as coisas. Ela é simplesmente a pessoa que mais rapidamente comecei a amar na vida. É quase…instantâneo. É inexplicável o que se sente quando se tem um filho nos braços. Mas isto não é uma novidade para vocês. Vocês são pais. Sabem do que falo. Eu quero mudar – afirmou levando Adriana e Alexis a sorrir – Por favor, não me olhem assim – implorou – É disto que tenho medo. Que criem expetativas com as quais eu não consigo lidar. Sei que agora, neste momento, apenas me apetece entrar naquele quarto, pegar na Lia ao colo e contemplá-la eternamente. Mas…não sei se amanhã será o mesmo. Às vezes apenas quero estar com a Lia, olhá-la, pegá-la ao colo, aprender a ser pai. Mas outras vezes…outras vezes apenas quero estar junto da Ana, ficar ao lado dela pegando-lhe na mão, acreditando que ela algum dia vai acordar. Parecem dois mundos diferentes com os quais eu não sei ainda lidar. Duas partes de mim que eu não sei ser ao mesmo tempo. Não agora. Preciso de…tempo. Juro-vos que quero ser o pai que a Lia merece. Não há nada neste mundo, para além de que a Ana acorde, que eu queira mais do que isso! Acreditem – disse com algum desespero.


- Calma, Cesc. Nós acreditamos em ti – assegurou Adriana – E não vamos pressionar-te. Sei que não agi bem contigo durante estes dias, mas acredita que estou arrependida. E acredito em ti. Se precisas de tempo, então terás tempo. Estamos aqui para te ajudar, não para te pressionar. Demora o tempo que quiseres. Estás numa posição demasiado difícil para nós te exigirmos alguma coisa.


- Gracias. É mesmo importante para mim. Quero fazer as coisas de maneira c…


As palavras foram interrompidas pelo choro de Lia que despertou a atenção de Alexis e Adriana e muito mais do que isso em Cesc.


- São horas do biberão – disse Alexis olhando o relógio – Eu vou prepará-lo – disse saindo para a cozinha.


- Posso…? – pediu Cesc, insinuando o seu desejo.


- Claro – acedeu Adriana.


- Podes…vir comigo? – acabou por pedir.


Adriana não estava à espera daquele pedido, mas não o conseguiu rejeitar.
Seguiram os dois para o quarto. Thiago estava igualmente acordado, já sentado no berço e tentando escapar. Sorriu assim que Adriana lhe falou docemente. Cesc aproximou-se do berço de Lia e passou-lhe os dedos pelo rosto.


- Queres pegar-lhe? – perguntou Adriana.


- Quero – afirmou convicto – Podes ajudar-me? Não tenho a certeza de a saber pegar corretamente.


Adriana pegou na pequena bola de Thiago e colocou-a dentro do seu berço para que ele se entretivesse por mais uns minutos para depois aproximar-se do berço. Pegou em Lia, preocupando-se em explicar a Cesc qual a melhor forma de o fazer para depois a pousar nos seus braços.


- Está bom assim? – perguntou Cesc inseguro.


- Sim, está. Só tens de ter atenção à cabeça. É o mais importante.


- Gracias – disse já perdido a olhar Lia.


- Eu vou levar o Thiago para lhe dar leite. Se precisares de alguma coisa, chama.


- Vale. Gracias – disse novamente.


Adriana saiu com Thiago ao colo e Cesc sentou-se. Naquele momento lembrou-se que a filha nunca havia ouvido a sua voz, que ele nunca lhe tinha falado carinhosamente como Adriana tinha feito com Thiago, que nunca lhe tinha dito o quanto estava arrependido e como estava pronto para amá-la, para aprender a ser pai.
Lia estava agora calada com os seus grandes olhos castanhos fixando Cesc. Ainda que ele soubesse que a visão da filha ainda era muito débil para que ela distinguisse a sua imagem, Cesc não conseguiu deixar de ficar maravilhado com aquele gesto.


- Olá – sussurrou inseguro. Será que devia mesmo fazer aquilo? – Não sei se te lembras de mim – continuou – Há uns dias atrás, quando ainda estavas quentinha e sossegada na barriga da mamã, eu costumava falar muito contigo – Lia parecia estar atenta àquelas palavras. Continuava olhando Cesc serena e fixamente, como se estivesse de facto a ouvi-lo e a compreender o que dizia – Sou teu pai – aquelas palavras pareceram doer nos lábios de Cesc – A partir de hoje sou teu pai. Sabes…tenho sido muito mau contigo. E não queria isso. Quando tu nasceste, uma pessoa muito especial para nós adormeceu por muito muito tempo e não sabemos se ela voltará a acordar. É a tua mamã. E para mim, ela é, juntamente contigo, a pessoa mais importante da minha vida. Gostava que ela estivesse aqui. Gostava que ela pudesse olhar para ti e ver como és bonita, gostava que ela me pudesse ajudar, gostava que tudo estivesse bem. Mas, infelizmente, ela não está cá, por isso, vamos ter de ser fortes e vamos ter de fazer um esforço para ultrapassar isto sozinhos. Quero dizer, eu contigo e tu comigo. Sabes…acho que te amo. Não te vou desiludir, eu prometo!


Alexis tinha-se aproximado da porta sensivelmente a meio das palavras de Cesc. Tinha-se mantido calado, não denunciado a sua presença. Nada poderia ser melhor do que ouvir aquilo. Era o ponto de viragem. Ele tinha certezas disso. Assim que teve a certeza que Cesc nada mais diria, entrou com o biberão de Lia.


- Queres que lhe dê ou preferes dar-lho tu? – perguntou-lhe.


- Eu dou – respondeu de imediato – Mas vou precisar de uma ajuda. Nunca o fiz.


- Não te preocupes, eu ajudo-te. É menos complicado do que possas imaginar.


Alexis sentou-se junto a Cesc e foi ajudando-o. De imediato Cesc deduziu que Alexis tinha razão: não era tão difícil quanto ele imaginava, era quase instintivo. Era apenas ouvir as dicas de Alexis e depois era algo perfeitamente natural.
Depois Alexis trocou a fralda a Lia tentando ensinar algo a Cesc, mas a tarefa já não era tão fácil como dar-lhe o biberão. Havia toalhitas, cremes, fraldas novas, fraldas usadas. Era sem dúvida uma tarefa que ainda levaria uns dias a encaixar e que decididamente Cesc não gostava.
Acabou por ficar a almoçar com Adriana e Alexis. Não pôde deixar de reparar como Thiago estava a crescer a olhos vistos, principalmente no plano intelectual. Reagia às brincadeiras de Adriana e Alexis, pedia colo a Adriana, batia palmas, abanava a mão quando Alexis o pegava e fingia ir embora.
Lia também seria assim…


- À tarde vamos ao hospital – informou Adriana – A Lia vai mamar. Não sei se queres estar presente…


- Acho melhor não – confessou Cesc – Não quero precipitar-me. Acho que seria demasiado para um dia. Acho que vou aproveitar esse tempo para ir a casa, dar um banho, dormir um pouco. Espero que percebam – desejou preocupado.


- Claro, Cesc. Não há problema. A sério!


- Posso fazer-vos uma pergunta?


- Claro!


- Como é que funciona essa coisa do leite?


Adriana tomou a palavra, explicando que de momento Lia apenas se alimentava de leite materno. Mamava e tomava leite que armazenavam sempre que retiravam leite a Ana com a bomba. Cesc foi ouvindo com atenção, aproveitando para tirar algumas dúvidas.
No fim do almoço, Cesc voltou ao hospital. Tinha o corpo dorido, a cabeça doía-lhe, os olhos mal se mantinham abertos. Precisava tanto de descansar.
O caminho até ao quarto era sempre preenchido pelos mesmos sentimentos. O desejo de que Ana tivesse acordado transformava-se aos poucos numa esperança insana e cega de que ela realmente tivesse acordado. Uma esperança que o fazia acreditar mais nisso do que até no próprio facto de ele estar vivo naquele preciso momento. Tornava-se quase uma certeza. Uma certeza demolidora alimentada por aquela esperança doentia. Esperança essa que era atropelada juntamente com a sua força sempre que abria a porta do quarto e a via como sempre deitada, dormindo profundamente. Naquele dia não tinha sido diferente.
Como sempre Cesc tinha aberto a porta e vira Ana a dormir. Aproximou-se dela e depositou-lhe um beijo nos lábios como sempre fazia. Puxou a cadeira para perto da cama e sentou-se, agarrando-lhe a mão carinhosamente.


- Hoje tenho novidades – Cesc falava diariamente com Ana. Sabia que ela o ouvia. Isso era uma certeza inabalável – Acho que vais gostar de saber. Hoje estive com a nossa filha. Estive realmente com ela. Peguei nela ao colo, falei com ela, dei-lhe o biberão. Vou mudar a minha atitude, prometo-te – disse, agarrando-lhe a mão fortemente. Ana tinha sido a única pessoa a quem Cesc nunca escondera os seus sentimentos por Lia ao longo daqueles dias. Simplesmente não o conseguia fazer. Tinha-lhe contado os pensamentos que tivera, tudo o que sentira. A repulsa, a revolta, a incapacidade de a amar – Ela é linda. Juro-te que é! Muito mais do que alguma vez poderíamos imaginar! Tem os olhos castanhos e tem muito cabelo, muito negro, igual ao teu… Mas acho que os olhos são meus. A mesma forma, a mesma cor… Mas as expressões. As expressões são tuas! A forma como olha, a forma como sorri quando está a sonhar… É muito parecida contigo. Vais adorar conhecê-la, sabes, quando acordares. E eu prometo que vou melhorar as coisas. Prometo.


Cesc ficou mais algum tempo com ela, mas depois acabou por voltar para casa e dormir um pouco. Estava exausto.






Assim que Cesc saíra, havia ficado um ambiente tenso entre Adriana e Alexis.
Adriana não queria falar sobre o que havia acontecido. Tinha errado, sabia disso. Só não sabia porque não sentia a culpa a corroê-la, porque apenas conseguia recordar a noite anterior, porque queria tanto repeti-la… A única coisa que a consolava era saber que Alexis a conhecia demasiado bem para tocar no assunto. Ela sabia que ele tinha plena noção que ela não queria falar, não queria sequer pensar em tudo aquilo.
Tinham passado parte da tarde no tapete da sala, brincando com Thiago que se mostrava entusiasmado por ter os pais ali. Depois tinham visitado Ana, dando a Lia a oportunidade de mamar. De volta a casa, as tarefas voltaram a acumular-se. Dois bebés para duas pessoas não era propriamente um cenário de sonho. E aquele dia era dia de banho. Dois bebés completamente diferentes, de idades diferentes, com necessidades tão parecidas mas ao mesmo tempo tão distintas. Adriana tinha ficado com Lia, Alexis com Thiago. As tarefas eram claras: banho, comida, sono. Mas não eram tão simples como pareciam antes de serem começadas. Havia sempre pormenores que acabavam por complicar tudo. Lia que tinha de ter alguns cuidados especiais no banho, Thiago que não queria comer a sopa, Lia que não conseguia adormecer com cólicas, Thiago que se via em mais uma luta com um novo dente. O resultado era claro: assim que os dois conseguiam adormecer, Adriana e Alexis sentiam-se exaustos, sem uma pinga de força.
Alexis já estava sentado no sofá quando Adriana, após conseguir adormecer Lia, se estatelou a seu lado.


- Estou tão cansada… - murmurou, cerrando os olhos.


- E eu. Pensei que fosse mais fácil, mas quando os dois resolvem ter um mau dia ao mesmo tempo…


- Sim, não me digas nada. E ainda dizias tu que não te importavas de ter gémeos – recordou.


- Eu era tão ingénuo… – respondeu roubando uma gargalhada a Adriana, que acabou por suspirar mostrando o seu cansaço – Já jantaste?


- O que achas? – perguntou Adriana num sussurro virando-se para ele e abrindo ligeiramente os olhos – Estou tão cansada que nem fome tenho.


- Não tens fome ou vontade de ir para a cozinha?


- Segunda opção – admitiu.


- Eu estou numa de jantar uma deliciosa taça de leite com cereais de chocolate.


- Hum parece-me bem. Podes fazer duas?


- Sem dúvida – respondeu levantando-se para momentos depois voltar à sala com o seu saboroso jantar – Hum isto foi a melhor coisa que alguma vez cozinhaste – brincou Adriana.


- Isso é porque ainda não provaste os dotes culinários que eu tenho desenvolvido.


- Se fizeres amanhã o almoço, já posso provar!


- Amanhã não posso. Vou voltar aos treinos. A minha suspensão terminou.


- Isso é bom. Sendo assim fazes o jantar – disse com um sorriso.


- Está combinado! Vais chorar por mais.


- Hum hum imagino!


- E imaginas bem! Estou a pensar abrir um restaurante quando me reformar do futebol – brincou.


- Desde que não fiques atrás dos tachos…


Continuaram a picar-se um ao outro, numa conversa descontraída como há muito não conseguiam ter. Quem iria imaginar? Adriana, Alexis, os dois sentados naquele sofá, mergulhados nas recordações daquela sala, esquecendo o divórcio, esquecendo o casamento. Simplesmente como dois amigos que não podiam negar sentir mais do que uma amizade.
Adriana acabou por levantar-se e ir pousar as taças à cozinha. Estava cansada, apenas queria ir dormir. Quando tornou a passar pela sala, reparou que Alexis continuava sentado. Exatamente no mesmo sítio. Exatamente com o mesmo sorriso. Exatamente como ela o amava. Instintivamente aproximou-se da aparelhagem. Só uns minutos. Só isso. Foi passando as faixas até encontrar a que procurava. Aos primeiros sons do piano, Adriana conseguiu distinguir os sons dos movimentos de Alexis. Assim que o sentiu realmente próximo de si, voltou-se para ele. Aquelas feições tão perfeitas, aquele sorriso tão puro, aquela mão esticada na sua direção. Como haveria de resistir, como haveria de recusar? Para quê ser racional e correta? Isso não a fazia feliz. O que a fazia feliz naquele momento era pegar na mão de Alexis e sentir os seus corpos embater numa dança genuína e única. E foi isso mesmo que aconteceu. Adriana mergulhou nos braços de Alexis, deixando que eles completassem cada pedaço de si. Aquele calor, aquele toque, aquele cheiro…






Se acabó [Acabou]
Ya no hay más [Já não há mais]
Terminó el dolor de molestar [Terminou a dor de aborrecer]
A esta boca que no aprende de una vida [Esta boca que não aprende com uma vida]




He dejado de hablar [Deixei de falar]
Al fantasma de la soledad [Ao fantasma da solidão]
Ahora entiendo [Agora entendo]
Me dijiste que nada es eterno [Disseste-m que nada é eterno]




Y solo queda subir otra montaña [E apenas resta subir a outra montanha]
Que también la pena [Que a pena também]
Se ahoga en esta playa [Se afoga nesta praia]




Sem perceber nem como nem porquê, Adriana acabou por sussurrar aquele refrão tão acertado para a situação que vivia, aquele refrão que ouvia diariamente enquanto as memórias lhe trespassavam a mente, aquele refrão que sempre desejara poder mostrar a Alexis:




Y es que vuelvo a verte otra vez [E é que volto a ver outra vez]
Vuelvo a respirar profundo [Volto a respirar fundo]
Y que se entere el mundo [E que o mundo saiba]
Que de amor también se puede vivir [Que de amor também se pode viver]
De amor se puede parar el tiempo [De amor pode-se parar o tempo]
No quiero salir de aquí [Não quero sair daqui]
Porque vuelvo a verte otra vez [Porque volto a ver-te outra vez]
Vuelvo a respirar profundo [Volto a respirar fundo]
Y que se entere el mundo [E que o mundo saiba]
Que no importa nada más [Que não importa nada mais]


Adriana sentiu o corpo de Alexis corresponder de forma inexplicável àquelas palavras. Todo aquele corpo parecia tremer junto a si como nunca havia tremido. Sim, ele tinha sentido aquele refrão como Adriana desde sempre sentira.




Esta humilde canción [Esta humilde canção]
La que está arrancándome la voz [Está a arrancar-me a voz]
Va llevándome a un latido diferente [Vai levando-me a uma pulsação diferente]
Corre por mis venas la música de un alma libre [Corre pelas minhas veias a música de uma alma livre]
Y sin cadenas [E sem correntes]
Sin luz que perseguir [Sem luz a perseguir]
(…)




Nem Alexis nem Adriana conseguiram terminar aquele momento. A música tinha terminado, o silêncio imperava naquela sala, mas os seus corpos continuavam bem juntos balançando gentilmente.
- Repete-o. Por favor – murmurou Alexis em tom de súplica, deixando a sua voz desvanecer-se junto ao pescoço de Adriana.


- E é que volto a ver-te outra vez. Volto a respirar fundo – pela primeira vez os seus olhos fixavam-se de maneira intensa, atroz, desmesurada – E que o mundo saiba que de amor também se pode viver. De amor pode-se parar o tempo. Não quero sair daqui – confessou passando-lhe os dedos pelo rosto – Porque volto a ver-te outra vez. Volto a respirar fundo e que o mundo saiba que não importa nada mais. Não importa nada mais, Alexis. Porque volto a ver-te outra vez e volto a respirar fundo, volto acreditar que de amor se pode viver, que de amor pode-se parar o tempo. Continuo a amar-te e quero usar este amor para parar o tempo, para ser tua novamente. Só mais uma vez… - suplicou.


Alexis não podia descrever tudo o que tinha sentido com aquelas palavras. Cada uma mais verdadeira que a outra, cada uma mais intensa que a outra, cada uma mais acertada que a outra.
Não hesitou. Agarrou o rosto de Adriana entre as mãos e fez chocar os seus lábios violentamente.





Adriana sentiu a língua de Alexis invadir a sua boca de forma brutal, roubando-lhe a mais pequena ponta de discernimento. Subiu-lhe para a cintura, entrelaçando as pernas à volta dela. Alexis conduziu-os por entre corredores até deixar os seus corpos caírem sobre a cama. Em escassos minutos todas as suas roupas estavam espalhadas pelo chão. Não havia dúvidas, não havia hesitações. Adriana tinha apenas necessidade de sentir Alexis novamente dentro de si, acabando com a sua urgência de ser amada. As suas mãos vagueavam por sítios que bem conheciam, tal como as suas bocas. Naquele dia, não havia consciência. Adriana tinha-a perdido por completo. Não iria arrepender-se, não iria tentar impedir aquele erro. Já Alexis…Adriana sentia-o hesitante. Tomando os caminhos mais longos, ganhando tempo, como se tivesse medo de estar a precipitar-se, de estar a pressionar Adriana. Ela percebia isso. Em cada toque, em cada, beijo… Aquele medo… Aquele medo de não ser real, aquele medo de a fazer errar… Mas não havia no mundo erro que Adriana quisesse cometer mais do que aquele.


- Alexis – murmurou interrompendo o trilho que Alexis percorria uma vez mais com os seus lábios. Ele sabia que ela ia acabar o momento, sabia que estava arrependida… Tal como ele deduzira desde o início. Tinha-se perdido em carícias para que Adriana ainda tivesse tempo de se arrepender, para que não a levasse a cometer um erro que era não queria. Alexis despegou os seus lábios daquela pele que tanto amava e olhou-a – Faz-me tua – suplicou Adriana surpreendendo Alexis – Por favor…


Naquele momento, Alexis percebeu que Adriana poderia arrepender-se de qualquer coisa na vida, menos daquele momento. Tomou o corpo de Adriana de assalto e mergulhou-o em carícias intensas, culminadas na união dos seus corpos. Instantes bastaram para que Adriana tremesse debaixo do seu corpo para segundos depois serem abalroados por onda de prazer inexplicável. Era um prazer que passava as barreiras físicas. Era aquela felicidade que os seus corpos emanavam assim que encontravam. Tão puro, tão genuíno, tão deles.
Alexis ainda não tinha separado os seus corpos quando sussurrou aquelas palavras ao ouvido de Adriana:


- Yo te amo.


- Yo también te amo, Alexis. Tanto, tanto, tanto.


Alexis não esperava aquela resposta, mas nada foi melhor que ouvi-la. Separou os seus corpos e deitou-se junto a Adriana que se aconchegou a ele. Inexplicavelmente Alexis sabia que aquilo nada mudava, mas isso não o assustava… O presente era simplesmente perfeito. Ele não iria estragá-lo a pensar no futuro, não quando Adriana estava nos seus braços e lhe havia dito que ainda o amava.
Mais tarde, Alexis teve de ir dar o biberão a Lia. Quando voltou ao quarto, Adriana ainda estava acordada. Alexis voltou a deitar-se junto a ela e beijou-a suavemente, o suficiente para que os seus corpos pedissem mais. Voltaram a fazer amor, desta vez serena e calmamente, numa pura contemplação de cada pedaço de pele que já conheciam.
Depois adormeceram profundamente. Adriana tomou o lugar de Alexis, encarregando-se de tomar conta de Lia durante a noite, já que ele teria treino de manhã e deveria estar fresco. O despertador de Alexis fê-lo acordar não só a ele, mas também a Adriana, que retirou o seu corpo de cima do de Alexis. Olharam-se por segundos. Tinha acabado. Tinha amanhecido e a luz do dia era a prova de que aquele momento tinha chegado ao fim. Adriana não conseguia explicar mas quando anoitecia parecia que os erros não contavam, como se ela fosse outra pessoa, noutra vida, com tantas e tantas hipóteses de cometer erros.
Alexis sabia isso. Não iria invadir a esfera de Adriana, não iria passar por cima da sua vontade. Limitou-se a levantar-se e dirigir-se para a casa de banho. Tomou um banho e assim que voltou ao quarto, viu que os olhos de Adriana estavam ainda abertos, perdidos fixando o nada. Alexis percebia que ela estava confusa. Percebia que lutava contra o choque entre a razão e o sentimento. Sabia que ela dava tudo para que ainda não tivesse amanhecido, para ter só mais um beijo que a consciência não julgasse. Alexis olhou a janela de onde a luz emanava, terminando com a liberdade de Adriana. Tinha amanhecido, mas quem poderia provar isso se pura e simplesmente Alexis fechasse os estores remetendo o quarto a uma escuridão profunda e promissora? Foi isso que fez. A cada raio de sol que se desvanecia, o sorriso de Adriana alargava-se infinitamente. Alexis aproximou-se dela apenas guiado pela pequena luz de um candeeiro que desde sempre estivera ligado naquele quarto. Deixou que os seus lábios se encontrassem novamente e que as suas mãos voltassem a saborear as feições perfeitas do rosto de Adriana. Após alguns minutos, Alexis ganhou coragem e acabou por vestir-se e sair do quarto, deixando Adriana atordoada com tudo o que se havia passado. Só desejava que anoitecesse rapidamente de novo…




Cesc tinha, como sempre, passado a noite na clínica ao lado de Ana. E como sempre nada tinha acontecido. 11 dias tinham passado e Ana continuava dormir sem data para acordar. Os médicos diziam que os exames feitos não mostravam qualquer alteração e que tudo continuava numa incógnita.
Cesc despediu-se de Ana com um beijo na testa e a promessa de voltar ainda naquele dia e foi até à casa de Adriana. Queria ver Lia, pegar em Lia, falar com Lia, beijar a testa de Lia.
Assim que Adriana lhe abriu a porta, o seu olhar denunciou-o. Aquela ânsia era impossível de notar.

- Ela está no berço. Ia agora mesmo dar-lhe o biberão – disse abanando-o na mão – Queres tratar disso?

- Sem dúvida! – disse agarrando o biberão.


- Queres ajuda ou já te desenrascas?


- Acho que consigo fazê-lo – disse confiante.


Cesc foi até ao quarto onde pôde vislumbrar Lia acordada mas serena esperando o seu pequeno-almoço.


- Bom dia, princesa. O papá chegou! – disse passando os dedos pelo seu rosto. Pegou nela e deu-lhe o biberão. Ficou bastante tempo com ela. Às vezes falando com ela, outras apenas a olhando e mimando. Era tão bonita…
Acabou por almoçar com Adriana e com Alexis que chegara animado do treino. Cesc recordou que há 11 dias que não punha os pés no centro de treinos. Será que era tempo de voltar à vida? Não… Ainda não o conseguia fazer. Precisava de Ana. Mas era tempo de fazer uma coisa.


- Quero aprender a colocar a Lia a mamar.


A surpresa foi visível nos rostos de Adriana e Alexis.


- Então nós vamos ensinar-te – acabou por responder Adriana roubando um sorriso a Cesc.


Mais tarde, seguiram para a clínica. Pela primeira vez, Cesc via Ana e Lia juntas. Alexis e Adriana cumpriam mais uma rotina já tão normal como lavar os dentes. Cesc observou-os e ouviu-os com atenção. Queria aprender a fazê-lo. Na mamada seguinte, ele mesmo se encarregou de preparar tudo o que era necessário. Pôs Ana e Lia nas posições corretas, não se esquecendo das indicações que Adriana lhe tivera dado. Aprendeu também a retirar leite a Ana com a bomba e a armazená-lo corretamente para que não se estragasse. Sentia-se estranhamente…bem. Mais do que nunca sentia que a sua família estava unida por laços invisíveis mas inegáveis. Aquele era o dia.


- Quero tomar conta da Lia. A sério – informou – Quero estar com ela durante o dia. Quero que passemos algum tempo com a Ana mas também quero que ela esteja um pouco em nossa casa para se ambientar. Mas gostaria que vocês continuassem a passar as noites com ela. Compreendo que é a parte mais difícil, mas eu durmo aqui e não quero que a Lia passe tanto tempo dentro desta clínica.


- Cesc, tens a certeza? – perguntou Alexis.


- Tenho. Eu amo a minha filha e estou preparado para tomar conta dela. Claro que vou precisar de ajuda mas…vou agarrar este desafio que é simplesmente o que me compete como pai.


- Podes contar com o nosso apoio – garantiu Adriana.


- Gracias, muchas gracias. De verdad.


E a partir daquele dia assim foi. Cesc passava o seu dia com Lia, deixando-a com Alexis e Adriana apenas durante a noite. Dava-lhe o biberão, punha-a a mamar, dava-lhe banho, adormecia-a, embalava-a, mimava-a, trocava-lhe as fraldas, retirava o leite a Ana.
Acabou por criar um cantinho para Lia no quarto de Ana. Tinha decorado o berço com coisas que Lia apreciava como brinquedos que imitiam qualquer tipo de som. Tinha trazido cores alegres para o quarto. Trazia quase todos os dias um ramo de flores a Ana. Com Lia aquele caminho era mais fácil de aguentar, havia sempre esperança. Lia adorava estar deitada junto de Ana ou até mesmo sobre o seu peito. Às vezes Cesc passava horas e horas a falar e a mimar as duas. Ana iria acordar. Isso era agora uma certeza inabalável. Lia era a prova que Ana iria acordar, Ana tinha de acordar, Ana tinha de ver o ser maravilhoso que tinha dado à luz.







Adriana tinha adormecido Lia por mais uma noite. Ana estava em coma há 19 dias. 19 dias.
Adriana voltou à sala onde Alexis ainda permanecia. Durante aquelas noites que haviam passado nem por uma haviam deixado de acabar despidos e entregues um ao outro. Não houve uma noite em que os lábios de Adriana não tivessem encontrado os de Alexis, não houve uma noite em que Alexis não tivesse deixado as suas mãos percorrer o corpo de Adriana, não houve uma noite em que o corpo de Adriana não se tivesse contorcido sobre a cama numa onda desmedida de prazer.
Naquela noite, como em todas as outras, Adriana aproximou-se da aparelhagem. Era sempre assim que começava. Contudo, naquela noite foi diferente. Alexis aproximou-se de Adriana e agarrou-lhe o pulso impedindo-a de pôr a música. Voltou-a para ele e olhou-a intensamente.


- Não dá, Adriana. Não dá mais para adiar. Temos de falar.





Estava confusa. A sua mente estava cheia. Imagens e sons cruzavam-se brutalmente na sua cabeça, deixando-a atordoada. Como se estivesse perdida num sonho do qual não conseguia acordar.
Abriu os olhos. Por segundos sentiu-se cega, como se por muito tempo os seus olhos não vislumbrassem a luz. Estava desnorteada. As cores e as formas iam a pouco e pouco tornando-se mais nítidas, mais claras. Onde estava ela? Num instinto levou as mãos à sua barriga. Onde estava Lia? Uma avalanche de recordações a atropelou. Ela tinha dado à luz. Mas…nunca vira a sua filha… O que havia acontecido? Porque se sentia tão perdida? Respirou fundo e sentiu o seu corpo doer como se não se tivesse levantado por dias e dias consecutivos. Concentrou-se nas sensações que os seus sentidos lhe ofereciam. Havia silêncio, um cheiro claro de desinfetantes mas ao mesmo tempo cheirava a flores, cheirava a bebé, cheirava a Cesc. E…não sentia apenas dor. Sentia…aquele toque, aquele calor. Aquela mão que amarrava a sua tremendo incrivelmente. Ana voltou a cabeça para o lado direito sentindo dores horrendas a trespassá-la. Assim que o fez vislumbrou o rosto de Cesc encharcado em lágrimas, paralisado, como se presenciando um milagre.


- Cesc… - murmurou com a voz a doer-lhe na garganta.




Olá!


Hoje não há perguntas porque nem eu saberia bem o que perguntar perante esta última parte que escrevi xD
Talvez tenha demorado muito a postar, mas a verdade é que andei noutro projeto (algumas de vocês sabem que estive a colaborar noutra história) e depois tive grandes problemas de inspiração! Estive 6 dias com o capítulo na mão e só agora o consegui acabar!
Espero não ter desiludido, espero que tenham gostado!!
Agradeço a todas as que comentaram o último capítulo [sinceramente não estava a pensar em fazer o Cesc aceitar a Lia tão rápido mas os vossos comentários demoveram-me e acabei mesmo por fazer-vos a vontade].
Já sabem, deixem os vossos comentários, são sempre MUITO importantes para mim!!




Besazo
Ana Santos