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sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Capítulo 143 - "Não quero salvar vidas, quero eternizá-las!"

143 - "Não quero salvar vidas, quero eternizá-las!"



- Eu estou grávida, Ana.

O desespero com que Adriana pronunciou aquela frase fez um pânico silencioso irromper em Ana. Ela estava em choque. Adriana estava grávida?
Por segundos, Ana focou-se no cenário que as rodeava. Quando ali chegara, Adriana era a sua única prioridade, o cenário era apenas um pormenor. Mas agora…agora Ana via inúmeras caixas espalhadas pelo chão, via algumas peças partidas, o espelho quebrado. Adriana tinha descarregado a sua frustração ali…

- Cariño, tem calma – disse ajoelhando-se junto a ela.

- Como, Ana, como? – bradou sufocada pelas lágrimas – Tu ouviste o que eu disse? Eu estou grávida!

- Adriana…pode ter sido um falso negativo! – respondeu tentando acalmá-la mesmo que fosse uma tranquilidade efémera.

- Falso negativo?! Eu fiz todos aqueles testes! – gritou apontando o bidé.

Ana esbugalhou os olhos com a quantidade de testes que Adriana havia feito.

- Mas… - gaguejou.

- Fiz 8 testes de gravidez na altura certa da maneira correta! E sabes o que apareceu? Embarazada, embarazada, embarazada [grávida, grávida, grávida]! Tradicionais ou modernos, espanhóis ou ingleses, comprados na farmácia ou no supermercado! O resultado foi sempre o mesmo! Eu estou grávida, Ana – tornou a repetir com a voz a falhar-lhe por entre as lágrimas.




8 testes? Não deixava de ser surpreendente. Há quanto tempo estaria Adriana enterrada entre lágrimas e testes de gravidez?

- Vamos sair daqui – decidiu Ana fazendo um esforço enorme para levantar Adriana.

Sentou-a no sofá e foi à cozinha buscar água e guardanapos.

- Bebe. Vai fazer-te bem.

Adriana aceitou o conselho de Ana. Assim que pousou o copo na mesa, Ana limpou-lhe as lágrimas, apesar de ter sido em vão já que as lágrimas de Adriana se multiplicavam.

- Adriana, sei que estás assustada. Mas…tens de tentar manter a calma! – aconselhou sentindo que as suas palavras eram descabidas. Acalmar-se? Adriana estava em pânico e Ana sabia-o. Nem ela conseguia estar calma! – Sei que ser mãe novamente não estava nos teus planos, não agora, não quando estás no auge da tua carreira, não quando estás divorciada e tens uma relação atribulada com o Alexis, não quando o Thiago está noivo… - Ana suspirou – Imagino que estejas assustada por não saberes quem é o pai do bebé, mas o Alexis e o Thiago são ambos homens espetaculares, não te vão deixar viver esta gravidez soz…

- Não saber quem é o pai do bebé? De que estás a falar?! – interrogou Adriana confusa – Eu sei muito bem quem é o pai do bebé!

- Adriana, envolveste-te com o Thiago e com o Alexis com uma diferença mínima de dias! Sem fazeres testes de paternidade não podes afirmar isso!

- Ana, isso foi há quase dois meses! E eu…eu estou grávida de 3 semanas – disse com um suspiro e esticando-lhe mais um teste de gravidez que tinha mantido bem preso na sua mão até ao momento.



- Mas…como? – gaguejou Ana pegando no teste.

- No tempo em que estiveste em coma, eu… - Adriana fez uma pausa, respirando fundo na esperança de se acalmar um pouco – Eu envolvi-me com o Alexis. Várias vezes.

Ana foi incapaz de esconder a sua surpresa. Adriana conhecia-a e mesmo que Ana tentasse disfarçar, ela iria perceber o seu choque.

- Eu sei, eu sei. Foi um erro, uma estupidez. Eu sei! – Ana não se atreveu a interrompê-la. sabia que ela precisava de falar de forma a extravasar toda a sua frustração – Quando estiveste em coma e o Cesc passou por aquela fase menos positiva – mesmo estando naquela situação, Adriana teve o cuidado de usar algum eufemismo. Ela também era mãe (e iria sê-lo mais uma vez!) e sabia bem que se tivesse passado pelo que Ana havia vivido, nunca iria ser fácil ouvir que o marido tinha rejeitado a filha, ainda que tudo estivesse bem – Eu e o Alexis tomámos conta da Lia. Começámos a partilhar casa de forma a conseguirmos tomar conta do Thiago e da Lia e…Não sei. Toda aquela proximidade, aquele voltar às rotinas. Estava frágil e…aconteceu – suspirou e passou as mãos pelo rosto tentando limpar as lágrimas – Aconteceu várias vezes, Ana. não acredito que fui tão irresponsável. Deixei-me levar por impulsos e agora…estou grávida! Grávida do meu ex-marido!

- Adriana, estás em pânico. É normal. Não estavas à espera…

- Isto não me podia ter acontecido. Não agora! Ana, vou perder a minha carreira na Victoria’s Secret. Estava apenas a substituir a Kim até ela recuperar da gravidez. Era a minha oportunidade de mostrar que podia ser mais que uma substituta! E…perdi-a! Ana, eu gosto mesmo daquilo. Da passerelle, dos flashes, dos nervos, da agitação. Aquilo faz-me sentir viva, faz-me sentir mulher! Foi ali que fui recuperando tudo o que o Alexis me tirou.

- Adriana, as coisas mudaram – disse, interrompendo-a – O Alexis percebeu que errou e…

- Eu sei, Ana, mas isso não muda o passado. O Alexis destruiu-me e foi em Nova Iorque que me reconstruí. Foi lá que aprendi a viver sozinha, que aprendi a sobreviver às noites de solidão, que aprendi a valorizar-me, que aprendi a amar-me independentemente da altura do lugar ou da situação, que aprendi a cuidar de mim. Sei que o Alexis está arrependido de tudo o que fez, de se ter deixado manipular, de não ter confiado em mim, de não me ter ouvido. Mas o arrependimento não muda o que se passou. Ana, ainda não sou a Adriana de antes. Ainda não consigo ter aquela confiança inabalável como quando acordava de manhã e via o Alexis a meu lado. Em vez disso, sempre que olho para o Alexis sinto medo. Medo de que ele volte a errar, de que eu volte a perder-me, de que eu volte a pensar em desistir de mim para satisfazer os seus caprichos! Porque…eu amo-o mais do alguma vez amei. E tenho medo deste sentimento – Adriana fez uma pausa deixando a sua cabeça cair sobre o ombro de Ana – Não sei o que fazer. Tenho tanto medo – confessou – Não estou preparada para voltar a ser mãe. isto não estava nos meus planos. Queria continuar a desfilar, queria focar-me no Thiago, queria…pensar melhor em tudo o que aconteceu comigo e com o Alexis… E agora… - suspirou desanimada – Não era suposto a vida ter dado uma volta tão grande…

- Di, não estás sozinha. Eu estou aqui.

- Eu sei – Adriana olhou-a e esboçou um pequeno sorriso de gratidão – Mas tenho tanto medo – aquele sorriso forçado desvaneceu-se em lágrimas verdadeiras.

- O Alexis vai apoiar-te. Tenho a certez…

- Não! – ela levantou-se mostrando bem o seu pânico – Ele não pode saber!

- Adriana, que estás para aí a dizer? O Alexis é pai desse bebé. Tem direito de saber!

- Eu sei – reconheceu – Mas não agora! Eu estou frágil e…e se lhe conto, ele vai apoiar-me, amolecer-me e vou acabar por voltar para ele. Não posso fazê-lo!

- Adriana, tu amas o Alexis – atirou Ana sem meias palavras.


- Eu sei, eu sei! – explodiu – Eu sei, Ana – disse mais calma – Mas amar não chega. Aprendi isto com ele. Não confio nele. Não confio em mim.

- Cariño – Ana aproximou-se dela – Tens todo o meu apoio. Se queres fazer as coisas assim, então vamos fazer!

- Gracias, Ana, gracias! – disse abraçando-a fortemente.

- Agora precisamos de marcar uma consulta para ver como está a correr essa gravidez!

- Ana, vamos com calma, vale? Ainda não me mentalizei.

- Vais ter muito tempo para te mentalizar depois da consulta. Agora é importante que vás. É uma gravidez não planeada, foste mãe há 11 meses, tiveste uma ameaça de aborto na tua primeira gravidez, um parto complicado… Não vale a pena discutirmos. Vamos à consulta e acabou!

- Vamos? – perguntou Adriana notando o plural naquela frase.

-Sim, vamos, porque não te vou deixar sozinha! Nunca!

Adriana abriu-lhe um grande sorriso e Ana tratou de pegar no telemóvel.
Após alguns minutos deu o seu “veredicto” a Adriana.

- Bem, consulta com uma obstetra e ginecologista só arranjei para daqui a dois dias, mas podemos ir a uma enfermeira já hoje!

- É mesmo preciso?

- É! Assim aproveitamos e tratamos da tua ficha de doente da Sofía.

- Quem é a Sofía?

- A obstetra – esclareceu.

- Pensei que a minha obstetra seria a Alba. Disseste que foi uma excelente médica durante toda a tua gravidez.

- E foi! Mas agora está nos EUA.

- Bem, é fantástico para ela. mas…quem é a Sofía?

- A Sofía é uma obstetra e ginecologista e também foi minha professora na Faculdade. É absolutamente fantástica. Vais gostar dela! Quanto à enfermeira, chama-se Daniela e já me acompanhou durante a minha gravidez. Também é uma profissional fantástica!

- Vale… - concordou Adriana.

Ana notava-a desanimada, triste. Adriana não queria estar grávida e Ana até conseguia perceber as suas razões.

- Adriana, desculpa mas tenho de fazer-te esta pergunta – Ana fez uma pausa, aguentando o olhar atento de Adriana – Abortar é uma hipótese para ti?

- Não! – Adriana respondeu num grito imediato – Nunca! Nem pensar – dizia ainda exaltada – Nunca abortaria! É verdade que não desejo este filho, é verdade que dava tudo para que todos aqueles testes dessem negativo, mas nunca abortarei. Este bebé não tem culpa da minha irresponsabilidade, não tem culpa de ter chegado num momento em que a minha carreira estava a crescer exponencialmente, não tem culpa de eu e o Alexis estarmos divorciados. Sei que estou em choque, mas sou mãe, sei como as coisas acontecem. Estes nove meses ensinam-nos a amar, a abdicar de tudo por alguém que nunca vimos. Sei que vou aprender a amar este bebé, mas por enquanto estou em choque. Não quero pensar em cuidar deste bebé, só quero que cuidem de mim – confessou expressando a sua frustração perante o seu egoísmo.

- Cariño – Ana abraçou-a num gesto de consolo, de conforto.

- Estou a ser egoísta!

- Não digas isso. Não é verdade. Adriana – Ana afastou-se dela e pegou o rosto dela entre as mãos – Estás separada do Alexis e sentes-te sozinha. Quando estamos grávidas, apenas queremos alguém que nos conforte, alguém que nos prometa estar lá no mau humor, nos enjoos, nos desejos, nos medos, nos sonhos. E…

- E eu ao afastar o Alexis estou a abdicar disso! – completou interrompendo-a.

- Adriana, fizeste uma escolha. Se é a mais correta ou não, isso não me compete a mim avaliar. Resolveste adiar contar ao Alexis da gravidez e eu não te julgo. Se achas que é o melhor, então tens o meu apoio. Estou aqui para o que precises! E neste momento precisas de um papá temporário e é isso que eu vou ser!

- Estás a falar a sério? – perguntou Adriana com os seus olhos vermelhos de tanto chorar a ganharem pela primeira vez naquele dia um brilho de tranquilidade, de paz, até de alegria – Gracias, Ana, gracias! – Adriana agarrou-se a ela fortemente.

- Vê-se mesmo que estás com as hormonas aos saltos! Tanto abraço, tanta lágrima!

- Pronto – Adriana afastou-se de Ana e limpou as lágrimas – Já parei!

- E agora vamos à enfermeira!

- Tem mesmo de ser hoje? – perguntou Adriana pondo um ar de criança pedinchona.

- Esquece, Di, o beicinho comigo não funciona. Vamos lá! – disse pegando na sua mala e arrastando Adriana consigo.



***


- Ana! que bom ver-te! – Daniela levantou-se de imediato assim que viu Ana entrar no consultório – Que susto nos pregaste, guapa! – reclamou abraçando-a, referindo-se ao estado de coma pelo qual Ana havia passado – E a tua pequena como está?

- Está linda! – gabou-se Ana.

- E tu como estás? Estás aqui por algum problema pós-parto?

- Não, eu estou ótima. A única coisa que o coma teve de bom é que tive um pós-parto fantástico sem dores e com tempo para dormir – brincou – É a Adriana que é a paciente hoje.

- Desculpe, nem tinha reparado em si! – disse Daniela atrapalhada olhando Adriana pela primeira vez.

- Não tem importância. E trata-me por “tu” por favor. Até porque sou da mesma idade da Ana – nesse momento um pensamento passou pela cabeça de Adriana, aos 20 anos estava grávida pela segunda vez. Nada como planeara, nada como desejara.

- Tratar uma Angel por tu… Uau a minha autoestima vai subir depois disto – brincou Daniela aliviando o ambiente que rapidamente se apercebeu estar tenso – Mas então o que te traz por cá? – perguntou sentando-se à sua secretária e convidando Ana e Adriana a fazer o mesmo. Usava um tom informal que criava uma imediata sensação de conforto, de proximidade.

Ana e Adriana entreolharam-se e de imediato Ana percebeu que Adriana lhe pedia para tomar ela a palavra.
Ana acabou por contar a Daniela que Adriana estava grávida, pedindo-lhe confidencialidade máxima e explicando-lhe que Adriana preferia manter a gravidez em segredo nas primeiras semanas. Contou-lhe também o historial de Adriana: a gravidez atribulada, o parto complicado.
Adriana era paciente daquela clínica e como tal foi fácil Daniela ter acesso a informações básicas sobre Adriana que serviram não só para comprovar o seu bom estado de saúde (pelo menos até antes da gravidez) mas também para preencher a sua caderneta de grávida.

- Agora vamos pesar-te e medir-te a tensão.

A balança apontou uns escassos 53 kg, o ideal para uma top-model mas insuficiente para uma mulher de 1,75 m a viver o início de uma gravidez. Quanto às tensões, estavam entre os valores recomendados, o que era ótimo.

- Adriana, as tuas tensões estão ótimas, mas o teu peso está ligeiramente abaixo da zona saudável. O ideal seria teres no mínimo mais 4 kg, mas sinceramente não dês muita importância a este pormenor. Se seguires os conselhos que te vou dar, as tuas necessidades nutricionais e as do bebé serão perfeitamente satisfeitas – descansou-a – Neste primeiro trimestre, é extremamente importante o consumo de alimentos ricos em ácido fólico. Já foste mãe, portanto sabes que este nutriente é importante para a redução de malformações do bebé. Portanto, deves consumir fruta e legumes como laranja, morango, tomate, espinafres, brócolos, alface – à medida que ia dizendo ia apontando num papel – A maioria dos vegetais verdes são ricos em ácido fólico, portanto são uma boa escolha – explicou olhando-a por alguns segundos – Ovos e leite também são boas opções. Para os enjoos, a ingestão de vitamina B6 é uma boa ideia. Está presente em alimentos como pão integral, batata, frango e outros alimentos que eu já indiquei para o ácido fólico. O gengibre também pode ser uma boa opção. Se tiveres enjoos, aposta em chás. Vá, tenhamos esperança que vais escapar aos malditos enjoos – gracejou – Dúvidas?

- Uau – murmurou Adriana – Acho que depois disto, é difícil ter dúvidas – brincou mostrando-se menos abalada – Muito obrigada.

- Quem é que vai ser o teu obstetra?

- A Dr. Sofia Pérez!

- Oh então estás em ótimas mãos! Da minha parte está tudo. Fica com o meu número – Daniela esticou um pequeno papel rabiscado – Estou disponível a qualquer hora do dia. Não hesites em ligar-me! E anima-te! Vais ver que as coisas se simplificam.

Adriana apenas assentiu, antes de se despedirem de Daniela e saírem.
Ana conduziu até ao apartamento de Adriana com o silêncio a envolvê-las. Ana sabia que a amiga estava a refletir em tudo o que lhe estava a acontecer. Não conseguia imaginar como se iria sentir se estivesse no lugar dela. Adriana iria ter de desistir do seu trabalho como Angel, iria ter de conviver com o ex-marido que era de momento o motivo de uma luta interior dentro de si. Adriana estava sozinha neste início de gravidez. Não estava feliz, não era um sonho.

- Eu subo contigo – disse Ana assim que estacionou – Ajudo-te a fazer as malas.

- Malas? – perguntou Adriana sem perceber.

- Sim. Vais precisar de umas coisinhas lá em casa.

- Lá em casa? Ana, que estás a dizer?

- Adriana, vens viver comigo. Não te vou deixar sozinha neste apartamento a pensar nesta gravidez a toda a hora. Vens viver comigo enquanto precisares de apoio, enquanto precisares que cuidem de ti!

Adriana estava já em lágrimas com aquelas palavras. Ninguém imaginava como ela queria ouvi-las. Queria ter Ana por perto. Ela compreendia-a, não a julgava, sabia apoiá-la, sabia dar-lhe o seu espaço, sabia cuidar dela.

- Gracias! – Adriana abraçou mais uma vez Ana naquele dia – Mas e o Cesc?

- Queres contar-lhe da gravidez?

Adriana abanou a cabeça negativamente.

- Então, não contamos! Tenho a certeza que o Cesc não irá pôr problemas por não saber a causa de estares lá em casa.

- Gracias, Ana, gracias!

- Voltas a usar essa palavra hoje e bato-te! – refilou Ana divertida – Vamos lá!

Ana e Adriana saíram. Em cerca de meia hora recolheram tudo o que achariam indispensável Adriana ter por perto. Conduziram para casa de Ana agora deixando o silêncio de lado.

- O Alexis vai acabar por saber que estou em tua casa – comentou – Ele vai desconfiar.

- Inventamos qualquer coisa! Pensa nas coisas boas, vai ser mais fácil para o Thiago!

- Espero que isso não signifique dar de caras com o Alexis a todo o momento – barafustou.

- Adriana, com calma, vale?

- Vale, vale!

Passaram o resto da viagem a falar de Lia, esquecendo a gravidez de Adriana, Alexis ou a Victoria’s Secret.
Quando chegaram, a sala estava deserta e Ana encaminhou Adriana até um quarto de hóspedes onde ela se poderia instalar.

- Precisas de ajuda?

- Não, são só meia dúzia de coisas. Vai lá babar a princesa!

Ana abriu um grande sorriso e foi até onde saberia que iria encontrar as duas pessoas mais importantes da sua vida.

- Cheguei – anunciou em tom baixo entrando no quarto.

Cesc desviou o olhar de Lia para olhar Ana e lhe oferecer um grande sorriso.
Ana aproximou-se da cama e beijou Cesc para depois se deitar na ponta oposta da cama. Lia estava acordada e Ana aproveitou para a mimar um pouco, falando com ela e acarinhando-a.
Lia acabou por adormecer dando um tempinho para que Ana e Cesc namorassem e não só. Ana explicou a Cesc que Adriana passaria algum tempo em casa deles e assim que lhe disse que eram por motivos que Adriana preferia não revelar, Cesc não insistiu mais. Com Lia no berço, Ana aproveitou por mimar Cesc acabando ele também por adormecer.
Ana levantou-se. Tinha de estudar! Durante a gravidez estudara bastante, mas com o nascimento de Lia o tempo escasseava. Ana sentou-se mais uma vez à secretária, aproveitando antes para espreitar Adriana e verificar que ela dormia serenamente no seu novo quarto. Devia estar exausta após tantas emoções, tantas lágrimas.
Ana estava a organizar-se um pouco antes de se mergulhar nos livros quando olhou uma moldura que estava sobre a sua cabeça.





Instintivamente um enorme sorriso surgiu no seu rosto e as suas mãos voaram até à sua barriga agora “oca”, vazia. Não foi um sentimento de tristeza, apenas de saudade, de nostalgia! Ter uma barrigona tinha as suas “desvantagens”, mas era também algo maravilhoso e indescritível!
Olhou a primeira foto e deixou-se andar atrás no tempo…



Recordação

- Grávida – murmurei apática assim que vi aquela palavra estampada no teste de gravidez que tinha feito.

A Adriana arrancou-me o teste das mãos para no segundo seguinte me abraçar aos saltos:

- Estás grávida, Ana, estás grávida!

A minha falta de reação contrastava com a alegria da Adriana.
Alguns minutos depois contei à Adriana o motivo da minha reação (ou da falta dela).

- E se for um falso negativo?

Com esta dúvida a perseguir-me não podia fazer outra coisa que não fosse fazer um teste de sangue pedindo os resultados com urgência.
No dia seguinte, tinha-os na minha mão com o valor que mudou a minha vida.
5635, o valor do meu  hCG, o valor que confirmava que iria ser mamã!


***


A primeira coisa que fizemos após um mês longe um do outro por causa do Euro foi amor.

- Mi amor – o Cesc chamou-me, despertando a minha atenção. Estava a saber-me tão bem aqueles miminhos que conversas eram a última coisa que me apetecia – Ando preocupado contigo. Os enjoos, as tonturas, o cansaço… Pode ser grave!

- Meu tontinho… - brinquei roubando-lhe um beijo.

- Mas, Ana…

Ignorei-o e levantei-me, deixando para trás o cobertor que estava sobre os nossos corpos. Sorri-lhe provocatoriamente e fui até à casa de banho. Não tardou para ter a sua companhia na banheira onde matámos mais algumas saudades!

- Eu estive a investigar os teus sintomas – estávamos já sentados no sofá em frente à janela que nos presenteava com uma fantástica vista de Barcelona quando o Cesc retomou o assunto. Tinha andado a investigar? Bem, vinha aí drama. Um tumor cerebral? Talvez, um defeito cardíaco? Alarmista como o Cesc consegue ser, dar-lhe meia dúzia de sintomas e o Google era a receita letal para uma grande confusão – e encontrei um montão de doenças associadas a esses sintomas. Pode ser só tensão baixa mas também pode ser hepatite.

- Tu é que deves ter algum problema com a tensão… - Assim que ele mencionou aquelas duas possibilidades tive a certeza que gravidez era algo que não lhe tinha passado pela cabeça nem por um segundo.

- Ana, não brinques com a situação. Podes ter uma doença grave!

Levantei-me sorrindo e ele levantou-se também.

- Ana, a sério, conta-me. Estou preparado para tudo! – “Para tudo menos uma gravidez” pensei para mim

- Cesc, eu não estou doente – ele olhou-me na expetativa sabendo que eu iria esclarecê-lo. Provavelmente achava que lhe ia mencionar uma quantidade exorbitante de exames que lhe confirmassem o meu bem-estar. Mas eu estava mais do que saudável. Eu… - Eu estou grávida!

A expressão do Cesc teve tanto de indescritível como de inesquecível.

- Eu…eu não acredito – por momentos pensei que iria cair redondo no chão com a surpresa, mas felizmente ele abraçou-me fortemente dizendo aquela maravilhosa frase – Vamos ser pais!



*****


Ana estava com um enorme sorriso no rosto recordando tudo aquilo. Concentrou-se na segunda imagem e recuou no tempo uma vez mais…



Recordações

- Amor… Amor – tentava acordar o Cesc de uma forma calma e carinhosa. Afinal o sol mal tinha nascido…

- Estás bem? – perguntou ensonado com alguma preocupação a sobressair na sua voz.

- Sim. Só queria melancia.

- Melancia?! Ana, onde vou arranjar melancia às 7 da manhã de um dia de janeiro?!

- Oh mas eu queria… - disse em tom pedinchão. A verdade é que me apetecia mesmo melancia!

- Cariño, escolhe outra coisa. Melancia é impossível.

- Por tua causa, a tua filha vai nascer com cara de melancia! – atirei frustrada. Aqueles desejos eram devoradores. Ficava louca enquanto não os satisfizesse!

- Amor, arranjo-te qualquer outra coisa. Mas melancia não vai dar mesmo…

- E cerejas?

- Amor, pede algo minimamente normal!

- Oh está bem! – respondi amuada e saindo da cama.


***

- Cesc, não vais comprar isso tudo!

- Porque não?

- Porque a tua filha teria de ter um mês de idade durante dois anos para usar tudo o que por este andar vais comprar – Um grande defeito do Cesc: não tem sensatez nenhuma quando se trata de comprar coisas para Lia! Exagera, exagera, exagera! Começo a achar que, a menos que a Lia suje mais roupa do que o previsível, haverá roupa no armário que ela nunca irá usar!

- Oh era só este…

- Sim, este, aquele, o outro…

- Oh estou entusiasmado pela vinda dela.

- Eu também. Mas vamos deixar as roupas de lado, vale? Ela já tem roupa para vários meses. Depois compramos mais coisas – disse arrastando-o para a secção de roupa para grávida.


***


Não parando quieta na cama, acabei por acordar o Cesc.

- Que pasa? – perguntou com a voz rouca e arrastada.

- É a tua filha que não distingue o dia da noite. Ou se distingue gosta de provocar insónias à mãe! – resmunguei. Noites mal dormidas eram o toque fatal para um mau humor colossal.

- Hum a minha filha, portanto…

- Sim, a tua filha! – disse irritada.

- Querida, tens de deixar a mamã dormir – falou acariciando a minha barriga – Sabes que ela quando não dorme bem fica com um daqueles humores…

Lancei-lhe um olhar reprovador. O humor era meu e odiava que falassem mal dele! Sim, tinha um humor horrível, mas só eu tinha o direito de falar dele!

- Estou a ter uma conversa com a minha filha. Não devias ouvi-la!

- Sim, claro. Eu vou deixá-la e vou dormir para o quarto ao lado! – apesar do tom brincalhão do Cesc, eu estava sem paciência para brincadeiras. Só queria dormir!

- Pronto pronto.

O Cesc continuou a falar com a Lia. A pouco e pouco, ela foi sossegando e as carícias do Cesc e a sua voz calma acabaram por me embalar para uma noite de sono profundo.


***


- Quantos faltam? – perguntei.

O Cesc estava a riscar mais um dia no calendário. Desde que o parto tinha data prevista, ele riscava cada dia que faltava para o nascimento da Lia.

- 41. Nunca mais passam. Estou ansioso por saber como é que ela é!

- Eu sei. Também estou curiosa… E ansiosa por deixar de ter desejos irrealizáveis! E humor insuportável… Sei que tenho sido uma chata… - admiti.

- Cariño, não podia pedir nada pior do que ouvir a mulher que amo refilar um dia inteiro por estar grávida… Tens os pés inchados mais bonitos do planeta, o humor insuportável mais especial de Barcelona e a barriga mais perfeita do universo. Foi com isto que sonhámos e sei bem que vamos ter saudades de tudo isto daqui a 41 dias!

Aquelas palavras combinadas com o meu estado de espírito frágil e carente fizeram as lágrimas aparecerem nos meus olhos.

- Não est…

- Não estás a chorar, são as hormonas! – sorri vendo que de tantas vezes que eu já utilizara aquela desculpa, ele já se habituara a ela.


***

- Cesc…

- Hum? – murmurou com os olhos focados no televisor.

- Preciso que me faças um favor.

- Diz – respondeu sem desviar a sua atenção da porcaria da televisão.

- Levanta-te, desliga a televisão e pega nesta mala.

- Ah?! – perguntou olhando-me.

- Faz o que te mando! – ordenei um bocado irritada.

Ele bufou e acabou por fazer o que lhe havia dito.

- É a mala da maternidade? – perguntou assim que olhou a mala que lhe havia pedido para agarrar – Tu…

- Cesc, as águas rebentaram-me – disse de forma calma, rezando para que o pânico não se instalasse no Cesc. Como se valesse a pena rezar…

- Ó meu Deus, já devíamos estar no hospital. Tens dores? Tens contrações? E agora, o que vamos fazer?

- Francesc Fàbregas, deixa-te de pânicos! – gritei enervada – Não me dói nada, não tenho contrações nenhumas. Vais manter a calma porque quase te posso garantir que vou passar toda a noite em dilatação para amanhã a tua filha nascer. Portanto cala-te, porque estou mal-humorada!


*****


Por fim, Ana olhou a terceira imagem, recordando os últimos dias.


Recordações

- Eu preciso de ti – a minha voz saiu fraca e arrastada, devido às lágrimas que me haviam devorado uns minutos antes.

Após a conversa com a Adriana, falara com o Cesc e pedira-lhe desculpa por ter reagido de forma tão radical quando soube que ele havia rejeitado a Lia. Estava agora deitada junto a ele com os nossos corpos bem juntos de forma a caberem naquela cama de hospital.

- E eu estou aqui – garantiu, beijando a minha testa.

- Não percebeste – olhei-o e pude ver alguma apreensão no seu rosto – Preciso de ti mais do nunca. Este dia sem ti foi… - as palavras faltaram-me – Não sei ser mãe.

- Cariño, claro que sabes ser mãe!

- Não sei, Cesc. Nestas 24 horas estive constantemente a chamar a enfermeira, a pedir-lhe ajuda. Não me sinto confiante. Não sei ser mãe sozinha – expressei assustada. Sim, eu estava assustada. Não queria ser má mãe!

- E não vais ser mãe sozinha. Eu estou aqui – ele agarrou a minha mão esquerda e as nossas alianças chocaram – Sei que no início é difícil. Já passei por isso e tive a Adriana e o Alexis para me apoiarem. E agora…e agora tens-me a mim. Vou ensinar-te todos os truques que sei da nossa filha. E um dia serás tu que me irás ensinar muitos. Tem calma. És uma mãe fantástica. És uma mãe maravilhosa! Sempre foste desde que aquele teste deu positivo. Nunca te esqueças disso – pediu antes de beijar suavemente os meus lábios.


***



Entrar em casa foi…estranho. Há quase um mês que não entrava ali. Estava tudo perfeitamente arrumado e sabia que a Graça tinha dedo nisso.
O Cesc pousou a babycoque perto do sofá onde nos sentámos. Pelos meus cálculos, a Lia deveria acordar dentro de 15 minutos para comer. Todos esses momentos foram aproveitados para deixar que o Cesc me mimasse. Queria mimo, queria mesmo. As noites mal dormidas davam cabo de mim e só de imaginar que seria assim nos próximos meses toda a minha coragem acabava por dissipar-se.
Estava já quase a adormecer quando a Lia chorou, sobressaltando-me.

- Calma – murmurou o Cesc passando a mão pelo meu rosto.

Sentei-me no sofá passando as mãos pela cara para despertar.
O Cesc foi até à babycoque e retirou cuidadosamente a Lia, enquanto lhe ia falando carinhosamente. Nada que a sossegasse. A Lia era uma espécie de Big Ben, mas mais barulhento. De três em três horas abria os pulmões não deixando dúvidas de que tinha fome. Puxei uma almofada para o colo e agarrei numa fralda e pano, para depois o Cesc pousar a Lia no meu colo quando eu já estava pronta para amamentar.
O Cesc foi buscar a minha máquina fotográfica e pô-la em cima do tripé, apontando-a para mim e para a Lia. Depois programou-a pondo-a a disparar em períodos regulares de tempo. Era um hábito dele. 90% das fotos eram uma autêntica porcaria, as outras 10% eram simplesmente fotos espetaculares, espontâneas, genuínas, dignas de um espacinho no álbum da minha princesa.
Quando montou tudo juntou-se a nós. O Cesc aproveitava o tempo em que a Lia mamava para me mimar. Duvidava seriamente que muitos casais namorassem enquanto o filho mamava, mas connosco funcionava na perfeição!


***

- Ainda bem que chegaste! – rejubilei assim que vi o Cesc a entrar em casa.

- Que pasa? – perguntou aproximando-se de mim e dando-me um rápido beijo nos lábios, para depois olhar para a Lia que chorava intensamente no meu colo.

- A Lia está a chorar há meia hora e estou a começar a desesperar – ele acabou por pegar nela e eu agradeci mentalmente por isso! Doía-me o corpo de tanto a abanar, para não falar do desespero que me estava a começar a afetar a confiança.

O Cesc deitou-se no sofá, pousando a Lia sobre si. Aconchegou-a com uma manta polar e foi falando com ela em sussurros. Em minutos, ela estava a dormir, melhor dizendo, estavam ambos a dormir. Uau, como é que ele tinha feito aquilo?

- Ela estava com cólicas – explicou-me umas horas mais tarde – E quando está com cólicas odeia que a tentem embalar, prefere ficar quietinha junto de alguém. Ah e gosta de estar bem aconchegada. Comprei aquela mantinha quando descobri isso!

Uau, ele conhecia mesmo os truques dela!

- Que foi? – perguntou divertido provavelmente por causa da minha expressão de surpresa.

- Estava a pensar que não podia ter encontrado melhor pai para a minha filha!

Ele sorriu e beijou-me na bochecha.

- A nossa princesa é uma sortuda. Tem uns pais espetaculares!

- Principalmente o pai! – esclareci dando um pouco de justiça àquela conversa.

- Isso não é verdade! Simplesmente eu tive uns dias de avanço. Mas, sabes, as mães têm uma ligação natural com os filhos. Ela esteve dentro de ti durante 9 meses, és tu que a amamentas. São coisas que eu nunca poderei fazer. Cariño, és uma mãe fantástica e és cada vez melhor a cada dia que passa! não precisas de estar insegura! – disse aconchegando-me a ele e mimando-me até a Lia acordar.


***


- Não o consigo fazer sozinha! – disse quase em pânico.

- Calma, Ana, sempre o fizeste sozinha.

- Tu estavas comigo lá!

- Mas nunca te ajudei em nada. fizeste sempre tudo sozinha!

- Mas…sem ti não consigo! E se alguma coisa corre mal?

- Nunca nada correu mal! Vá, cariño, eu vou estar na sala. Se precisares de alguma coisa, basta chamares-me.

- Não, Cesc, não consigo! E se ela me escorrega e se eu a deixo cair? E se…

- Ei ei, calma, mi amor – pediu agarrando-me as duas mãos para depois me limpar as lágrimas que começavam a aparecer – Não precisas de entrar em pânico. És uma mãe fantástica. Já deste tantas vezes banho a tantos bebés!

- Mas…eu não sei. Eu tenho medo – confessei.

- Tens de confiar em ti! – disse agarrando o meu rosto entre as suas mãos – Eu confio em ti. E a Lia também! Vamos, mi cielo!

Respirei fundo meditando nas suas palavras para depois despegar-me das suas mãos e conduzir-me até ao quarto da Lia, onde a minha princesa olhava o teto muito sossegada.
Peguei nela, fingindo ter o Cesc mesmo ali ao meu lado, e pu-la em cima do muda-fraldas. Despi-a e levei-a até à banheira, que o Cesc já havia preparado. Mantive-me o mais calma possível e dei-lhe banho. A Lia adorava água, adorava estar no banho, desde que os movimentos em volta dela fossem muito delicados. Relaxava ao ponto de me adormecer nos braços, o que acabou por acontecer. Retirei-a e embrulhei-a numa toalha. Pousei-a na minha cama e enxuguei-a bem, para depois apenas lhe pôr a fralda e a embrulhar num cobertor para não a acordar.
Deitei-me ao pé dela e minutos depois o Cesc estava já ao nosso lado. Beijou-me a testa com um sorriso orgulhoso nos lábios para depois aproveitarmos aqueles minutinhos livres para dormir um pouco.


*****

- Que estás a fazer? Pensei que te iria encontrar no escritório a estudar – confessou Cesc sentando-se ao pé de Ana no sofá – Estás a ver fotos… - disse sorrindo.

Ana estendeu-lhe algumas fotos de quando estava grávida.

- Já tenho saudades – confessou Cesc mirando cada uma das fotos. A maioria nunca tinha visto e, por isso, sabia que Ana tinha dedicado os últimos dias a elas, a editá-las, a imprimi-las, a aperfeiçoá-las…











- Cesc, quero desistir do curso – Cesc despregou os olhos das fotos e olhou-a surpreendido – Não quero ser médica – disse com uma confiança avassaladora.

- Mas…

- Espera – pediu antes de o ouvir fazer perguntas – Olha.

Ela mostrou-lhe uma montagem de seis fotografias. Cesc estava lá quando cada uma delas tinha sido tirada.




Na primeira foto, via-se o polegar de Ana e a mão de Lia, agarrados a duas rosas vermelhas que Cesc lhe tinha oferecido no dia em que haviam voltado para casa.
Na segunda, podia ver-se Lia a agarrar um peluche que Gerard, padrinho de Lia, lhe oferecera da primeira vez que a vira, dois dias após ela nascer.
A terceira foto imortalizava um pequeno e simples gesto: Lia a agarrar um dedo de Cesc. Só quem tinha um filho percebia o impacto daquele gesto.
A quarta foto era o primeiro “retrato” de família: as mãos de Ana, Cesc e Lia unidas. Fora com aquela foto que Cesc apresentara a filha ao mundo através das redes sociais.
As últimas eram fotos às mãos e aos pés de Lia.
Ana mostrou-lhe mais fotografias, as duas primeiras eram brincadeiras de Carlota, que os visitava todos os dias. Na primeira foto, o famoso “Peace and Love”, na segunda, os quatro dedinhos de Lia em homenagem ao número 4 que Cesc envergava no Barcelona.




As restantes eram fotos absolutamente fantásticas. Eram fruto do intenso trabalho de Ana atrás da objetiva, que carregavam uma pureza e uma genuinidade que apenas um ser indefeso e frágil como um bebé poderia conter.







Depois apareceram algumas fotos de Ana junto a Lia que ele mesmo tinha tirado e mais tarde era ele mesmo que figurava junto à filha. Desde os momentos mais engraçados, como o facto de Cesc jogar PlayStation com Lia deitada sobre si, aos momentos mais íntimos e delicados em que eram apenas eles os dois.












Cesc viu apenas mais duas fotos antes da voz de Ana o despertar.





- É isto que quero fazer. Não quero salvar vidas, quero eternizá-las! Não quero passar anos e anos a estudar para depois acordar todos os dias com a responsabilidade de salvar vidas, não quero sair de casa sem certezas de quando voltarei a entrar. Não quero ver pessoas a morrer todos os dias. Quero estar atrás da minha máquina fotográfica, quero eternizar momentos únicos, quero ver sorrisos. Quero fotografar bebés, quero fotografar idosos, quero fotografar casais, quero fotografar grávidas. Quero fotografar paisagens, eventos desportivos. Quero fotografar modelos. Não importa! Eu quero fotografar é só isso. A medicina sempre foi um sonho mas…é a fotografia que me faz feliz. Quero ser fotógrafa, quero dedicar-me a isto, quero melhorar o meu conhecimento, tirar cursos e formações. É isto que me faz feliz, que me faz sentir realizada como profissional!

Cesc quedou-se algum tempo em silêncio absorvendo aquelas palavras para depois dizer o inevitável:

- Eu apoio-te. Se é isso que te faz feliz então terás todo o meu apoio!

Ana abriu um enorme sorriso para depois fazer os seus lábios chocar.



***

- Bem-vinda, Adriana – saudou Sofía, a sua nova obstetra.

- Gracias – respondeu forçando um pequeno sorriso.

Durante aqueles dois últimos dias tinha-se tentado mentalizar de que ia ser mãe, mas era difícil. Era difícil acreditar que a vida tinha dado uma volta tão grande, tão indesejada.
Sofía começou por apresentar-se e por explicar a Adriana a forma como seria seguida ao longo da sua gravidez. Esclareceu que mantinha uma relação muito próxima com Daniela, a enfermeira que tinha visto Adriana assim que ela descobrira que estava grávida, e que tal iria ajudar no seguimento da sua gravidez.
Viu a sua caderneta de gravidez e, através das notas que Daniela havia escrito, percebeu que pouco havia a fazer. Daniela tinha-a pesado e tinha-lhe medido as tensões. Tinha-lhe falado da implicação do seu peso na gravidez e ainda referenciado o tipo de alimentação que ela deveria ter.
- Bem, a única coisa que tenho a fazer-te é receitar-te um suplemento de ácido fólico. Já foste mãe portanto deves estar familiarizada com este suplemento – Adriana assentiu – E vou-te passar umas análises ao sangue e marcar a tua primeira ecografia.

Sofía rabiscou um papel para depois o entregar a Adriana. Despediram-se com Sofia a deixar no ar uma afirmação confortante:

- As coisas vão melhorar.

Ana e Adriana dirigiram-se para o carro em silêncio. Ana tinha o sido o suporte fulcral de Adriana ao longo daqueles dias e ela não sabia como teria aguentado aquela volta na sua vida se a amiga não estivesse ao pé de si.
Ao chegar a casa, Ana percebeu de imediato que havia visitas. Havia demasiado movimento para que Cesc estivesse sozinho com Lia.

- Hola! – Carlota saudou-as assim que as viu entrar. Lia já não tinha o body que Ana lhe vestira. Em vez disso tinha agora um body cor-de-rosa com a mensagem “I have the best auntie” [Eu tenho a melhor tia] e as mesmas calças brancas que Ana lhe vestira naquela manhã.

Carlota estava sentada junto a Marcelo, que estava tímido, como sempre estava com Cesc por perto. Nem ser pai lhe dera um pouco mais de maturidade, pensou Ana.
Ana e Adriana cumprimentaram-nos aos dois para depois Ana se sentar junto a Cesc que tinha Lia adormecida no seu colo. Adriana preferiu ir até ao jardim brincar um pouco com os cães. Luna já não estava com o cio (o mais provável seria estar prenha) e agora a cancela entre o jardim de casa de Ana e Cesc e o jardim da casa de Alexis estava sempre aberta permitindo que Luna, Dali e Peti circulassem livremente pelos dois enormes jardins. Adriana havia-se refugiado neles nos últimos dias. Eram naturalmente carinhosos e afetuosos, fazendo-a distrair-se sempre que estava junto deles…
Estava tão concentrada nos cães que apenas reparou que já não estava sozinha quando ouviu aquela voz.

- Hola – Adriana levantou a cabeça vendo de imediato Alexis com o seu sorriso característico no rosto e com Thiago no colo.





- Têm de ver o que comprei para a Lia! – disse Carlota entusiasmada pegando num grande saco de papel – Em Madrid há uma loja brasileira que faz roupa com frases originais! Resumindo: não vais precisar de comprar bodies até ao verão! – brincou para depois começar a tirar um por um os bodies que comprara.

- “Eu sou linda, a mamã é linda, o papá é sortudo”… - repetiu Cesc olhando o body e Marcelo.





- Gostei mais destes dois! – disse Carlota, atirando-lhe mais duas peças de roupa.





Cesc revirou os olhos enquanto Ana gargalhou fortemente.







Alguns minutos depois a campainha tocou.

- Deve ser o Gerard – disse a Carlota levantando-se rapidamente e dirigindo-se à porta.

- O Gerard? – perguntou Cesc – Carlota, o que estás a tramar?

- Já vês! – respondeu abrindo a porta.



O que estará a tramar Carlota?
E o como será o reencontro de Alexis e de Adriana?
Contará Adriana que está grávida? E se contar, como reagirá Alexis?
Tentará Alexis aproximar-se de Adriana?




Olá!

Muitas muitas muitas desculpas! O capítulo é enorme, eu sei. E prometo, PROMETO, que vou começar a fazer capítulos mais curtinhos. Descontrolei-me mesmo! Lo siento, lo siento!


Agora...

1.           O blog ultrapassou as 60 000 visualizações! Muchas muchas gracias, guapas!!

2.          Queria agradecer à Diana Ferreira (escritora de Never Forget Me e Nunca É Tarde Para Amar – links na parte “Fics que leio”) que foi uma enooorme inspiração para mim.

3.          Daniela e Sofía (os nome da enfermeira e da obstetra de Adriana) são nomes de três leitoras minhas (Daniela Gomez, Sofia Martins e Carla Sofia) que leram esta fic quando ela já ultrapassava à vontade os 100 capítulos! Gracias pela coragem! Esta é a minha forma de vos homenagear!

4.         Queria agradecer à Rita Pereira e à Diana Ferreira por me terem ajudado com as imagens! Gracias!!

E agora: muchas gracias a todas as que estão aí e já sabem – comentem, estou aqui para ler-vos!!



Beso
Ana Santos

NOVA FIC