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quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Capítulo 146 - "Tens um pai espetacular, meu amor"

146 - "Tens um pai espetacular, meu amor"



- Tens tomado conta da mamã, não tens?

Tinha entrado na casa do Alexis há instantes. Chamei-o desde o jardim mas ninguém me respondeu, decidi entrar e tornei a chamá-lo, mas novamente sem resposta. Resolvi subir ao quarto e ouvi aquele sussurro. Fiquei estática com aquelas palavras. Pela frincha da porta, pude ver o Alexis e o Thiago deitados lado a lado na cama que um dia também tinha sido minha…

- Sinto a falta da tua mamã. Sentimos os dois, não é? – o Thiago estava incrivelmente sereno, coisa que ultimamente era quase impossível. Estava mais ativo do que nunca, tentava gatinhar, mexer-se, sentar-se. Mas naquele momento, estava tranquilo e mirava o Alexis atentamente – Estraguei as coisas tão rápido e agora está a ser tão difícil repará-las… - consegui notar a frustração na voz dele e senti o meu estômago contorcer-se. Sentia-me culpada – Mas não vou desistir. Tu e a mamã são as coisas mais importantes para mim. Um dia vais conhecer uma rapariga que vai mudar a tua vida, que vai fazer cada dia ser especial e único. Vais fazer planos com ela e concretizar os teus sonhos junto dela. aí vais perceber o que sinto pela mamã. É maior e mais bonito do que qualquer coisa que consigas imaginar. Se saíres ao papá, nem te vais aperceber que te estás a apaixonar. Simplesmente…vais-te apaixonar. Lembras-te quando te contei como conheci a mamã? – ele tinha contado ao Thiago como nos tínhamos conhecido? – Acho que me apaixonei logo por ela. Ou se calhar não. Não importa. Foi simplesmente a coisa mais bonita que me podia ter acontecido! Isso e tu, claro – ele passou o dedo pela bochecha do Thiago que lhe sorria e eu senti uma lágrima rolar pelo meu rosto – Vou recuperá-la. Por nós. Nós todos merecemos ser felizes. E um dia mais tarde vou contar-te o que se passou uma vez mais para que não cometas o erro que cometi! Mas isso será daqui a uns aninhos, agora o importante é reconquistar a mamã! E preciso da tua ajuda! Tens de manter todos os possíveis pretendentes longe, bem longe. Não preciso de concorrentes! Por isso sempre que vires um espertinho por perto chora, vomita, faz birra… Tu sabes bem como mantê-los longe! Confio em ti, campeão. Estamos combinados? Sim? dá cá mais cinco! – o Alexis esticou a mão em que a pequenina mão do meu menino embateu alegremente.



***


O treino da seleção chilena era a porta aberta. A seleção estava a estagiar em Barcelona preparando-se para um jogo particular que iria acontecer aqui mesmo. Com tudo tão perto, não fui capaz de não ir espreitar. Vi o treino numa zona reservada do estádio e quedei-me vários minutos depois das bancadas, que acolheram alguns chilenos e muitos curiosos, ficarem vazias.
O Alexis estava com um sorriso enorme no rosto. Quando havia uma bola por perto ele estava sempre feliz. Admirava a maneira como era apaixonado pelo futebol, pelo que fazia. Conhecia-o. Para o Alexis o futebol era um sonho inacabado. O sonho não era apenas ser jogador profissional de futebol, não era apenas estar numa das equipas mais prestigiadas do mundo. O sonho era correr, era driblar, era rematar, era marcar golos, era festejar, era treinar a cada dia, jogar cada jogo. O sonho dele era viver o presente de forma intensa, saboreá-lo ao máximo.
Se eu fosse como ele, neste momento estaríamos juntos…
Tenho medo do futuro, tenho medo de sofrer, tenho medo de magoar. O Alexis é o oposto. O Alexis é dado ao risco, ao perigoso, ao desconhecido. Não quer saber do futuro, vive o presente e só pensa no futuro quando ele se torna isso mesmo – o presente.
Não sofre por antecedência, não perde noites pensando no que pode correr mal, não tem medo…
Suspirei num misto de confusão, tristeza e…enjoos! Este início de gravidez tem sido horrível! Não há um dia em que não acorde terrivelmente enjoada, não há um dia em que consiga tomar o pequeno-almoço. A primeira coisa que tomo é um chá às onze da manhã. E para piorar ainda tenho o Cesc, que desde que soube da minha gravidez, trata de mim como trataria do Thiago se o Alexis lhe confiasse essa missão.
Esta gravidez faz-me sentir falta do Alexis mais do que é possível! Queria tê-lo a meu lado para me consolar o mau humor, para me aturar durante os enjoos, para me chatear por causa do pequeno-almoço. Simplesmente queria tê-lo. queria deixar o medo e as dúvidas de lado e simplesmente viver o presente, porque sentir que a vida me está a escapar por entre os dedos e que sou incapaz de mudar isso faz-me sentir impotente, escrava dos meus medos.
O treino tinha terminado e se eu não fosse para muitos a ainda Adriana Sánchez não estaria naquele lugar privilegiado que me deu a oportunidade de presenciar um dos momentos mais bonitos em que alguma vez vi o Alexis envolvido.
Um menino bem pequenino apareceu no relvado trajado à chilena. Era pequenino mas enérgico e rapidamente conquistou a atenção do Alexis que não despregou os olhos dele e se deixou maravilhar pelo pequeno. Fez-lhe tudo o que podia! Brincou com ele, chateou-o, tirou fotografias …tudo! Parecia uma autêntica criança perto do menino, que mais tarde vim a saber que se chamava Agustín.










Foi um momento tão bonito, tão ternurento que mesmo que quisesse nunca conseguiria esquecer!
Acabei por acariciar a minha barriga com uma ponta de orgulho a invadir-me:

- Tens um pai espetacular, meu amor – sussurrei.




***



- Tenho cara de vidente?

Decididamente a Ana estava num dia não. A Lia tinha dado uma noite complicada o que lhe tirava toda a paciência e boa disposição.
Ela respirou fundo e tornou a olhar-me:

- Desculpa. Estou cansada – confessou – Mas respondendo à tua pergunta. Bem, não sei bem. És muito magra e é a tua segunda gravidez por isso a tua barriguinha não vai demorar muito a chegar. Não uma barriga que se note em roupas largas, mas uma barriga que vais conseguir distinguir bem frente ao espelho. Não pareces muito contente… - observou instantes depois – Sabes que isso de esconder barriga de grávida é muito anos 50, não sabes? – decidi ignorá-la e virei-lhe as costas. Ela não era a única a estar de mau humor. No meio dos nossos humores (des)controlados por hormonas chatas e insolentes, o Cesc tinha de aturar três mulheres. Sim, porque a Lia também já tinha as suas vontades! – Conta-lhe!

Sabia bem ao que se referia. Mas a coragem continuava a faltar.


***


- Adiar? – a Sofia não escondeu a sua surpresa – És a primeira mãe que me vem pedir para adiar a primeira ecografia o máximo possível…

Suspirei enterrando a cara nas mãos.

- Ainda não contei ao Alexis. Nem sei quando o vou fazer. Preciso de tempo! – contei desesperada.

A Sofia era amiga da Ana e era normal cruzarmo-nos em casa. Ela conhecia bem a minha situação e de certa forma tem-me apoiado bastante. Não julgava, não comentava, muitas vezes nem sequer tentava aconselhar e isso era estranhamente bom para mim.

- Vale. Eu percebo. Podemos marcar para a 13ª semana. As análises de sangue não mostraram nenhuma anomalia por isso não há razões para apressarmos a consulta. Mas, Adriana, tens de contar ao Alexis. Não te quero ansiosa. Quero uma gravidez santa!

Estas eram as palavras de ordem da Sofia – gravidez santa. Eu assenti em jeito de promessa e quedámo-nos mais uns minutos à conversa.



***



Aquele “Eu estou grávida, Alexis” parecia ressoar na sala.
Adriana olhava-o ansiosa esperando…qualquer coisa, apenas isso, qualquer coisa! Uma palavra, um piscar de olhos, um passo, um movimento, alguma coisa! Assim que Adriana dissera que estava grávida, Alexis tinha petrificado. Apenas os seus olhos pareciam ter vida. Adriana distinguia-lhes confusão, mágoa, medo, esperança. Tanta coisa que chegava a deixar Adriana tonta.
Ponderou ir-se embora perante a falta de reação de Alexis, mas ela também não conseguia mexe-se. Esperava alguma coisa. Durante dois meses tinha imaginado aquele momento, tinha ensaiado as palavras, tinha pensado no melhor discurso, imaginara todas as reações possíveis de Alexis: a felicidade, a fúria, a tristeza, até mesmo a indiferença.
Mas a falta da reação? Não, ela não tinha imaginado isso. Uma onda de deceção e medo invadiu-a. não queria estar ali, queria desaparecer, simplesmente isso, desaparecer!
Alexis respirou profundamente abanando a cabeça como se despertando do seu transe, fazendo o interior de Adriana fervilhar.
Ele olhou-a, fazendo-a tremer da cabeça aos pés. Ela conseguia ver perfeitamente que ele escolhia as melhores palavras, pensava no que seria melhor dizer. Alexis era péssimo nisso, nunca fora bom a ser racional. Alexis tinha as emoções à flor da pele, era tremendamente dado a impulsos. Era naturalmente espontâneo.
Ele clareou a voz e finalmente Adriana ouviu-o reagir.

- De quantas semanas? – a voz tremeu-lhe. Ele estava nervoso, confuso, ansioso.

Adriana distinguiu de imediato o verdadeiro cerne da questão. Há cinco meses atrás, Adriana tinha dormido com Alexis mas também com Thiago. Se estivesse grávida de cinco meses, não saberia quem era o pai daquela criança. Nem ela nem Alexis.

- O filho é teu, Alexis – Adriana foi diretamente ao essencial da questão, fazendo um enorme sorriso rasgar-se no rosto de Alexis. Ele não precisava de ouvir mais nada. acreditava em Adriana…iria ser pai – Estou grávida de cerca de 3 meses – num ato instintivo, impensado e provavelmente errado, Adriana subiu a sua camisola, revelando a sua pequena barriguinha. As lágrimas apareceram nos olhos de Alexis que levou de imediato as suas grandes e quentes mãos à barriga de Adriana que se sentiu arrepiar.

- Dios mio – murmurou em choque mirando o ventre de Adriana antes de erguer o olhar e fazê-lo encontrar o de Adriana. num ápice, retirou as mãos da barriga de Adriana e colocou-as no rosto dela para depois fazer as suas bocas unirem-se intensamente. Beijaram-se até Adriana ganhar consciência do que estava a acontecer e separar os seus lábios.

- Esta gravidez não muda nada – disse-lhe sem uma ponta de convicção.

- Shiu – Alexis pousou os dedos dele sobre os lábios de Adriana – Não digas nada. estou feliz. Gracias – os seus lábios voltaram a encontrar-se perdendo-se em sucessivos beijos.

Quando Alexis ficou mais calmo e lúcido, pegou na mão de Adriana e puxou-a para o sofá. Ela sentia-se completamente atordoada pelo que havia acontecido instantes antes.

- Como tem sido? – a pergunta de Alexis deixou Adriana sem reação.

Alexis estava tremendamente entusiasmado. Estava feliz, estava curioso, estava satisfeito.

- Como é que tem sido a gravidez? Tens tido enjoos? Já tiveste alguma consulta? – insistiu perante a falta de resposta – Estás bem? – perguntou preocupado após alguns segundos sem reação por parte de Adriana.

- Sim, sim – respondeu Adriana – Tenho tido muitos enjoos – confessou – E, sim, já fui a algumas consultas, mas nada de especial. Estou a ser seguida por uma obstetra que a Ana me aconselhou, fiz exames de sangue e está tudo dentro do normal – Alexis olhava-a atentamente como se não pudesse deixar escapar nem uma palavra de Adriana – Amanhã é a primeira ecografia. Se quiseres e puderes, estás à vontade para me acompanhar.

- Claro, claro que sim! – respondeu sem hesitar.

Alexis não conseguia tirar aquele enorme sorriso do rosto, enquanto Adriana desejava desaparecer dali. Aquele momento estava a ser tremendamente perturbador para ela. O olhar de Alexis estava quase a intimidá-la. o choro de Thiago acabou por salvá-la.

- Eu vou lá! – apressou-se a dizer Alexis.

- Não, prefiro ir lá eu. Tenho saudades dele – perante a resposta de Adriana, Alexis sentou-se e viu-a partir em direção ao quarto de Thiago.

Minutos depois, viu-a aparecer com Thiago ao colo que gargalhava alegremente mostrando a felicidade que sentia por ter a mãe por perto.
Eram momentos bonitos mas também dolorosos. Sabiam bem que a separação deles fazia Thiago sofrer, fazia com que ele nunca conseguisse sentir-se plenamente bem. Quando estava com o pai, não tinha a mãe. E quando tinha a mãe, não tinha o pai. Nunca estava completo. Era mais um aspeto que pesava na consciência de Adriana.

- Ele já aprendeu a dizer “xau” – contou Alexis entusiasmado – Campeão, xau, xau! – Alexis ia-lhe acenando e dirigindo-se para a porta, fingindo ir-se embora.

Contudo, em vez de receber o pequeno e entusiasmado aceno do filho, Alexis viu-o cair num choro desconsolado, esticando-se na direção dele de forma desesperada.
Adriana quase conseguiu ouvir o som do seu coração quebrar. O filho estava a sofrer com aquela separação mais do que ela havia imaginado. As lágrimas assomaram-na, agoniando-a.
Alexis apressou-se a aproximar-se deles e pegou em Thiago que se agarrou fortemente a ele.

- A culpa é minha – murmurou Adriana por entre soluços.

- Shiu, não digas isso. Está tudo bem – Alexis fez um dos seus braços puxar Adriana para junto de si, envolvendo-a num abraço.

Pela primeira vez, em vários meses, tinha as cabeças das duas pessoas que mais amava naquele mundo encostadas ao seu peito no mesmo instante. Naquele momento, o tempo tinha parado e Alexis não fazia questão de que ele voltasse a andar.
Thiago olhava Adriana espantado, já que nunca vira a sua mãe a chorar, muito menos daquela forma.

- Thiago – o pequeno olhou de imediato Alexis assim que ele o chamou – Dá um miminho à mamã – Thiago esticou a mão em direção a Alexis – Não, à mamã – Alexis largou Adriana para poder pegar na pequena mão de Thiago e encostá-la ao rosto dela. Thiago fez a mão dele deslizar atrapalhada mas suavemente pelo rosto da mão acabando por limpar-lhe algumas lágrimas, que se multiplicaram daquela vez pela alegria que vivia.

- Dá um beijinho à mamã – Thiago olhou Alexis confuso – Beijinho, dá beijinho – Thiago tornou a esticar-se para Alexis – Não, à mamã – Alexis acabou por dar o exemplo, beijando Adriana no rosto. Em seguida, Thiago inclinou-se também para Adriana, fazendo os seus pequenos lábios embater na bochecha dela.

- Ensinaste-lhe tantas coisas – disse emocionada.

- Ele aprende depressa! É muito inteligente – respondeu com um sorriso orgulhoso no rosto.

Entretanto, Thiago já havia “saltado” para o colo de mãe. Alexis pegou numa das mãos dela e puxou-a até ao sofá. Thiago ficou sentado no chão, enquanto Adriana se deixou envolver no abraço confortante de Alexis.

- Gracias – murmurou ainda chorando.



***



- Olá, Adriana – Sofia saudou-a com dois beijos. Mesmo estando com a sua bata branca, não conseguia manter-se estritamente profissional – Olá, Alexis – Sofia saudou-o igualmente com dois beijos, deixando-lhe a certeza de que Sofia já era mais do que a obstetra de Adriana – Sentem-se – convidou enquanto contornava a mesa para sentar-se na sua cadeira.

- Então, Adriana, como foram estas semanas? – perguntou pousando os braços na secretária e olhando-a com um sorriso.

- Têm sido difíceis. Tenho tido muitos enjoos.

- Usaste as dicas que te dei?

- Sim, mas não resultaram.

- Na tua primeira gravidez tiveste também enjoos?

- Não, nada parecido com isto! Tive episódios pontuais de enjoos, más disposições, mas nada comparado a isto.

- Sentes-te ansiosa, nervosa… Sentes-te de alguma forma…instável a nível emocional?

Adriana ponderou em como responder àquela questão. Alexis. Alexis era a chave para todas as suas montanhas russas emocionais. Mas ele estava ali mesmo. Era suposto admiti-lo? Ou simplesmente mentir?

- Talvez – acabou por confessar usando um tom que transmitiu a pouca vontade de continuar com aquele tema.

- Vale. O stress, a ansiedade e aspetos emocionais podem tornar os enjoos, as indisposições e até as tonturas mais frequentes. É importante que estejas calma. A Daniela disse-me que sempre que te mede as tensões elas estão ligeiramente baixas ou ligeiramente altas.

- Isso é grave? – perguntou Alexis de imediato.

- Não. A tensão arterial é algo que é monitorizado regularmente porque é um fator a ter em atenção numa gravidez. As tensões da Adriana estão ligeiramente fora do normal, mas eu estou confiante que ela vai começar a ter mais atenção a isso. Vai relaxar-se, ter calma e deixar de pensar tanto em certas coisas – Adriana fuzilou Sofia com o olhar, perante aquela indireta, que de indireta tinha muito pouco já que até Alexis havia percebido que era o centro da conversa.

Sofia fez mais algumas perguntas a Adriana, enquanto inseria dados no computador. Depois passaram para uma sala anexa, onde Adriana se pôde deitar numa maca para fazer a sua primeira ecografia.
Um enorme sorriso surgiu no rosto de Alexis, quando Adriana subiu a sua camisola, revelando a sua quase impercetível barriga. Estando deitada era quase impossível vislumbrar a sua barriga, mas Alexis conseguia fazê-lo. Só não o conseguia fazer sem sorrir.
Sofia espalhou gel na barriga de Adriana para instantes depois terem todos os olhos cravados naquele pequeno monitor. Após alguns segundos mexendo o transdutor sobre a barriga de Adriana, Sofia constatou o óbvio:

- Aqui está ele.

Era uma imagem clara, podiam ver perfeitamente o contorno da silhueta do seu filho.




- Cá está uma vantagem de fazer uma ecografia às 12 semanas e 3 dias. Uma primeira imagem muito bonita – admitiu Sofia, aproveitando para provocar um pouco Adriana.

- Que estás a fazer? – perguntou Alexis apontando para o ecrã.

- Estou a tirar as medidas todas ao vosso bebé. Sou madrinha de um casal de gémeos, quem sabe se não há casório! – brincou – Estou a fazer uma translucência nucal.

- O que é isso? – perguntou Alexis antes que Adriana o pudesse fazer.

- É uma espécie de exame que é importante para ajudar na deteção de doenças como o Síndrome de Down.

- E quando sabes o resultado desse exame? – perguntou Adriana um pouco confusa.

- Agora mesmo. É um procedimento rápido que é feito através de uma ecografia. Com certeza que o fizeste na tua primeira ecografia, com a diferença que desta vez te informei de que estava a fazê-lo. E posso dizer-vos que os valores estão dentro do recomendado. E também vos posso dizer que o vosso bebé tem 7 centímetros e meio e quase 30 g. Até às 20 semanas, a medição é feita da cabeça ao rabo do bebé – informou – E que me dizem a ouvir o coraçãozinho desta beleza?

Adriana e Alexis sorriram em resposta àquela pergunta.
Já tinham passado por aquele momento uma vez, mas era sempre especial e único ouvir o batimento do coração de um ser tão pequeno, tão frágil, mas ao mesmo tempo já tão desejado e até de forma quase inconsciente tremendamente amado.
Segundos depois puderam ouvir aquela acelerada e ritmada batida que conseguiu deixá-los a todos emocionados. Ficaram alguns instantes em completo silêncio saboreando o momento.

- Bem, eu vou à sala ao lado lutar com as tecnologias para ver se vos arranjo umas primeiras imagens fofinhas em papel! – disse Sofia levantando-se – Já saíram daqui hoje duas grávidas sem as merecidas recordações! Vamos lá ver se desta vez me desenrasco. Adriana, podes pegar em papel e limpar o gel antes de se juntarem a mim!

Sofia retirou-se e antes que Adriana pudesse pegar na caixa com lenços de papel, já Alexis a tinha na mão. Retirou um lenço e fê-lo deslizar suavemente pela barriga de Adriana cuidadosa e meticulosamente. Quedou-se ali durante longos segundos, limpando a barriga de Adriana e mais tarde passando a ponta dos seus dedos carinhosamente pela pele dela. Uma verdadeira tortura para Adriana, que estava deitada naquela maca totalmente imóvel tentando manter o pensamento bem longe dali, já que aquele gesto de Alexis dava-lhe arrepios. E pelos mais variados motivos! Primeiro, pelo que representava. Era algo bonito, carinhoso…familiar. E depois…pelo caos que estava a criar dentro dela. Sentir o seu toque só agigantava o desejo que carregava há dois meses, completamente impedida de saciar. Cravou os dedos na maca, numa tentativa de controlo. Sentia-se a fervilhar por dentro. Só ela sabia como desejava beijar Alexis, tocar Alexis…despir Alexis.
Viu-o baixar-se até que sentiu os lábios dele sobre a pele da sua barriga. Num ápice, afastou-o bruscamente e desceu da maca, apressando-se a passar para junto de Sofia.

- Bem, acho que se medisse a tensão a certas pessoas neste momento… - Sofia preparava-se para picar Adriana, mas ela apressou-se a interrompe-la, já que Alexis estava bem junto delas.

- Conseguiste a ecografia?

- Consegui – informou Sofia – Aqui está – disse dando-lhe um grande envelope – Continuas a viver em casa da Ana?

- Sim, por enquanto, estou por lá.

- Ainda bem.

- Ainda bem? – perguntou Adriana sem perceber aquele comentário.

- Não me agradaria se vivesses sozinha. Tiveste uma primeira gravidez complicada e não me deixa descansada imaginar-te a viver sozinha. Ter alguém por perto é sempre importante.

- Vale. Também não estar a ponderar deixar a casa da Ana nos próximos tempos.

- Então vemo-nos por lá, não?

- Claro!

Sofia e Adriana trocaram mais algumas palavras, antes de se despedirem. Adriana e Alexis seguiram em completo silêncio para o carro e assim continuaram durante todo o caminho. A meio da viagem, Adriana abriu a janela. Precisava de ar puro! O perfume de Alexis estava a agoniá-la. não num sentido negativo! Mas aquele perfume trazia-lhe memórias. O trânsito estava caótico e o ambiente dentro do carro insuportável. Sentia-se tensão no ar. Adriana odiava aquilo, principalmente quando estava grávida. Dava-lhe cabo do sistema nervoso!
Pelo canto do olho, Adriana viu Alexis a escolher uma música diferente. Ela não a conhecia e espantava-a que Alexis a conhecesse. Não era o género de música que ele apreciasse. Ainda assim concentrou-se na letra, tentando distrair-se:



Give me highs, give me lows [Dá-me altos, dá-me baixos]
Give me thorns with my rose [Dá-me espinhos com a minha rosa]
I want everything [Eu quero tudo]
When you laugh, when you cry [Quando tu ris, quando tu choras]
If you're sober or high [Se tu estás sóbria ou bêbeda]
I want everything [Eu quero tudo]




Give me love or hate [Dá-me amor ou ódio]
You can bend me 'til I break [Podes dobrar-me até eu partir]
Give me fire, give me rain [Dá-me fogo, dá-me chuva]
I want joy with my pain [Eu quero alegria com a minha dor]
I want your fears, your hopes [Eu quero os teus medos, as tuas esperanças]
The whole kaleidoscope [Todo oncaleidoscópio]



With you, with you [Contigo, contigo]
Our colors come alive when I collide with you [As nossas cores ganham vida quando eu choco contigo]
With you, with you [Contigo, contigo]
Our colors come alive when I collide with you [As nossas cores ganham vida quando eu choco contigo]



Give me nothing, give me faith [Dá-me nada, dá-me fé]
I want give with my take [Eu quero dar com o meu receber]
I want everything [Eu quero tudo]
Give me life, give me death [Dá-me vida, dá-me morte]
Or your biggest regrets [Ou os nossos maiores arrependimentos]
I want everything [Eu quero tudo]


Show me your fears, show me your scars [Mostra-me os teus medos, mostra-me as tuas cicatrizes]
I'll take whatever's left of your heart [Eu vou pegar tudo o que tiver sobrado do teu coração]
Give me heaven, give me hell [Dá-me céu, dá-me inferno]
All the dreams you try to sell [Todos os sonhos que tentas vender]
I want your fears, your hopes [Eu quero os teus medos, as tuas esperanças]
The whole kaleidoscope [Todo o caleidoscópio]

(…)

Without you it's shadows through night's black pitch [Sem ti há sombras por entre a escuridão da noite]
There's a hundred thousand light bulbs but there ain't no switch [Há centenas de milhares de lâmpadas mas não há nenhum interruptor]
Living in darkness, fear in the night [Vivendo na escuridão, medo da noite]
Oh what a feeling when I see that light [Oh que sentimento quando se vê a luz…]



Desde a primeira palavra que Adriana soube que a música não tinha sido escolhida ao acaso, nem pela sua melodia. A letra. Alexis apostara na música e Adriana não podia negar que nenhuma das músicas que ele lhe havia de alguma forma dedicado haviam ficado esquecidas, pelo contrário, haviam ficado bem cravadas na sua memória…e na playlist do seu telemóvel.
Trocaram um olhar fugidio como dois adolescentes apaixonados, para depois Alexis entrelaçar as suas mãos carinhosamente. Em minutos, haviam já chegado a casa.

- Gracias pela boleia – disse Adriana preparando-se já para caminhar para a porta de casa de Ana.

- Espera! Podes dar-me um minutinho? – Alexis aproximou-se dela remexendo as chaves do carro entre as mãos.

- Alexis, tenho mesmo de ir – respondeu Adriana virando-se para ir embora.

Contudo, Alexis agarrou-a para o braço, voltando-a de novo para ele.

- Vem viver cá para casa comigo e com o Thiago.


O que responderá Adriana?
Aceitará viver com Alexis pela felicidade do filho ou dará a Alexis um redondo “não”?
Até quando Adriana se deixará controlar pelos seus medos?




Olá! E…



1.           Lamento demorar tanto a postar. Como já expliquei, mudei de país, de língua (que não conhecia antes de me mudar para cá) e está a ser complicado conciliar escola com a escrita. Mas vou continuar a tentar! Espero continuar a ter-vos desse lado e a ler os vossos comentários, apesar da minha demora em postar!


2.          Já sabem, quem quiser aderir ao grupo Barcelona, La Ciudad Del Amor ou ser meu amigo no facebook (Ana Santos), deve em primeiro lugar mandar-me uma mensagem a dizer que manda as minhas fics. São questões de “segurança”


3.          Parabéns às minhas leitoras que fizeram anos recentemente!! Acho que há pelo menos uma por aí (Beatriz!)


Já sabem, deixem os vossos comentários, reações, opiniões!
Gracias por estar ahí!

Beso
Ana Santos

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Capítulo 145 - "Será que mereço o Alexis?"

145 - "Será que mereço o Alexis?"


- Tu não vais sair por essa porta – disse com a voz firme e implacável – Não podes chegar aqui, fazer amor comigo…daquela forma e sair assim, não podes! Que raio se passou ali dentro, Adriana? – perguntou acercando-se dela até escassos centímetros os separarem.

- Sexo, chama-se sexo, Alexis. Pensei que sabias – respondeu em tom sarcástico.

- Mais pareceu uma violação – disse Alexis, decidindo espicaçá-la.

- E o menino não se conseguiu defender. Coitadinho! Eu vou embora – disse voltando-se para a porta.

- Já disse que não vais a lado nenhum – repetiu agarrando-lhe um braço e sentindo de imediato Adriana a retrair-se – Fizeste amor comigo há dois minutos e agora tens nojo de mim?!

- Larga-me, vale?! – ordenou desprendendo-se dele bruscamente – Fizeste uma promessa. Espero que não te esqueças dela tal como te esqueceste dos votos que me fizeste no nosso casamento quando te deixaste manipular pela Blanca.

Dito isto, saiu deixando Alexis sem qualquer tipo de reação. Aquelas palavras tinham doído, aquela verdade tinha doído. Alexis acabou por pontapear o sofá completamente frustrado para depois se refugiar bebendo uma cerveja à varanda.



***



- Onde estiveste?

- Onde nunca devia ter estado! – respondeu Adriana enervada e seguindo disparada para o quarto.

- Que foi isto?

- Não sei, mi amor, não sei – respondeu-lhe Cesc que a tinha envolta nos seus braços no sofá – Mas tu é que andas com segredinhos com ela, tu é que deves saber…

- Não sejas cusco, Francesc!

- Vale, vale! Também há coisas mais interessantes para fazer… - insinuou.

- Ai é? – perguntou Ana com um sorriso travesso.

- Hum hum – respondeu Cesc roubando-lhe um beijo e outro e outro…

- Aqui não, Cesc. A Adriana pode aparecer a qualquer momento – advertiu-o Ana.

Cesc não lhe respondeu. Limitou-se a pegá-la ao colo e a conduzi-la por entre os corredores até ao seu quarto. Deitou-a na cama e começou a beijá-la de forma calma mas ao mesmo tempo desejosa.
As suas mãos escorregaram por debaixo da camisola dela, notando bem as diferenças do seu corpo que ainda não havia recuperado a sua forma depois de ter dado à luz há sete semanas atrás.
 Ana retirou-lhe a t-shirt, saboreando aqueles traços da sua pele quente que não pudera apreciar naquelas semanas. Cesc retirou também a camisola de Ana, deixando as suas mãos e a sua boca percorrer o peito e o ventre dela.
Cesc estava já a desapertar-lhe as calças, quando o choro de Lia se fez ouvir.

- Eu vou lá. volto num minuto – disse Cesc levantando-se rapidamente na esperança de Lia sossegar rapidamente e poderem recomeçar onde haviam parado.

- Não vale a pena, Cesc. Ela quer mamar. Mamou mal da última vez e agora deve ter fome – explicou Ana vestindo a sua camisola – Depois compenso-te – disse beijando-o antes de sair.

- Compensas… - murmurou frustrado assim que Ana saiu.



***



- O que é que se passa? – perguntou Alexis – Estás estranho…

- Não é nada – respondeu Cesc concentrado na estrada.

- Tens a certeza? – insistiu Alexis.

- Posso fazer-te uma pergunta? – interrogou Cesc olhando-o por segundos.

- Claro!

- Quando…tu e a Di estavam juntos…e depois de ela ter tido o Thiago, vocês…demoraram muito a voltar ao normal?

- Normal? Que normal?

- Oh Alexis, tipo…a voltarem a estar juntos, só vocês…

- Ah! Isso – percebeu Alexis.

- Sim, Alexis, isso – confirmou Cesc – Demorou muito?

- Ela teve o período de recuperação dela, mas depois voltou tudo ao normal rapidamente.

- Hum…

- Porquê? Estás com problemas com a Ana?

Cesc silenciou-se e Alexis insistiu:

- Somos amigos! Podes confiar.

- É que…A Lia ocupa-nos muito tempo e quando podemos estar finalmente sozinhos, a miúda parece que tem o dom de adivinhar e interrompe! – contou frustrado levando Alexis a sorrir – Não te rias que não tem piada nenhuma! – reclamou Cesc.

- É normal. O Thiago às vezes também interrompia! Tu estás é a precisar de uma noite a sós com a Ana!

- Não me digas, Alexis! – respondeu Cesc com ironia.

- O que estou a dizer é que não me importo de ficar com a Lia esta noite.

- Estás a falar a sério?

- Claro! É para isso que serve um padrinho!

- Gracias!



***



- É que não me faltava mais nada…

- Oh Di, não te custa nada… - disse Cesc em tom pedinchão.

- Realmente não me custa nada conviver com o meu ex-marido uma noite inteira – ironizou Adriana.

- Oh Adriana vocês vão estar a dormir. Nem o som da respiração dele vais ter de ouvir!

- Mas porque raio queres que passe a noite em casa dele?

- Porque ele ofereceu-se para tomar conta da Lia para eu e Ana…sabes, para termos uma noite só para nós.

- Ah, já percebi. Sendo assim, eu posso fazer um sacrifício. Vocês merecem ter um tempinho para vocês.

- Gracias, gracias, gracias – disse espetando-lhe beijos repenicados no rosto.

- Vale, vale. Não abuses senão ainda mudo de ideias!



***



- Buenas noches – saudou Alexis.

- Buenas noches – retribuiu Adriana visivelmente incomodada.

- A Lia está a dormir no berço do Thiago…

- Ele pode dormir na cama onde eu dormir – informou pousando Thiago no chão que de imediato se entreteve a olhar para a televisão onde passava publicidade.

O serão foi passado numa enorme tensão. Alexis e Adriana raramente estavam a menos de três metros de distância um do outro. Thiago acabou por adormecer e Adriana deitou-o na sua cama. Estava a sair do quarto para ir buscar o tablet que havia deixado na sala quando embateu em Alexis.
O choque dos seus corpos eletrizou-os. Os seus olhares tocaram-se para no segundo seguinte Adriana sentir os lábios de Alexis precipitar para os seus. Tentou resistir mas como obrigar o corpo a fazer algo que nem ele nem a mente queriam?
Alexis encostou-a à parede e deixou os seus lábios vaguear pelo pescoço dela, enquanto sentia as mãos dela a percorrer os trilhos do seu tronco debaixo da t-shirt dele. Ele retirou as camisolas de ambos, deixando-as cair no chão. Adriana sentiu os lábios e as mãos dela vaguear pelo seu corpo. Contudo, não sentia prazer, nem sequer desejo. Quando Alexis a beijara ela sentira isso, mas agora? Agora não. Agora só desejava que Alexis retirasse as mãos de cima do corpo dela.

- Para – pediu empurrando-o.

- Que pasa? – perguntou Alexis sem perceber.

- O que se passa? Somos divorciados, Alexis, não devíamos estar a fazer isto! – respondeu enervada recolhendo a sua camisola do chão.

- Sejamos sinceros, Adriana. Não é a primeira vez que isto acontece. O erro está cometido. O peso na consciência já cá está. Pelo menos vamos fazer valer a pena, não? – disse aproximando-se dela.

- Não, não vamos!

- Porque não, Adriana? Estou disposto a esquecer. Estou habituado a entrar no teu jogo. Já não tenho nada a perder!

- Eu não tenho vontade!

- Não tens vontade de fazer amor comigo? Ainda há dois minutos parecias ter! E até muita.

- Mas agora não tenho! Só quero… - a voz de Adriana começou a tremer-lhe e em segundos estava entregue a um choro compulsivo.

- Por favor, não chores, Adriana – suplicou Alexis – Desculpa o que disse. Não queria ter sido rude contigo. Por favor, não chores, mi cielo!

Sem que Alexis contasse, Adriana atirou-se para os seus braços num pranto incontrolável. Para Alexis era tudo absurdo. Porque chorava Adriana assim? Porque quebrara assim? Porque estava tão frágil?
Contudo, para Adriana parecia simplesmente algo inevitável. Desde que soubera que estava grávida sentira-se sempre tão sozinha, tão desprotegida, tão perdida. Desejara os braços de Alexis todas as noites, desejara a sua compreensão todas as manhãs e os seus beijos a cada hora. Sentia-se a ser consumida por ela própria. Pelo seu medo, pela confusão da sua cabeça, pelos seus sentimentos contraditórios.

- Só quero que fiques comigo esta noite – murmurou Adriana sufocada pelas lágrimas.

- Ficarei contigo todas as noites que desejares – respondeu-lhe Alexis apertando-a nos seus braços e beijando-lhe a nuca.

Adriana agarrou-se a ele quase lhe cravando os dedos na pele. prendia-o como podia, apoderada pelo medo de tudo aquilo não ser real.

- Eu estou aqui, Adriana. Não te vou deixar – sussurrou-lhe Alexis levantando o rosto dela e obrigando-a a encará-lo. Beijou as lágrimas que escorriam pelo seu rosto para terminar unindo os seus lábios de forma leve e calma.

Agarrou as mãos dela e arrastou-a até à sua cama. Deitou-a e aconchegou-a junto ao seu peito. a pouco e pouco as lágrimas de Adriana cessaram e a sua respiração tornou-se cada vez mais regular e pesada, até que Alexis se apercebeu que ela havia adormecido. Levantou-se e foi até ao quarto onde Thiago estava. Pegou-o cuidadosamente para não o acordar e deitou-o junto a Adriana, juntando-se a eles em seguida.



***



- O jantar estava ótimo. Esmeraste-te! – elogiou Ana, sentando-se no sofá.

- Hum e ainda falta a sobremesa! Aposto que vais adorar – provocou beijando-lhe o pescoço – Volto já.

Cesc foi até à cozinha e preparou os morangos e o chantilly, confiante de que seriam uma ótima maneira de começar uma grande noite. Preparou tudo e caminhou para a sala. Contudo, os seus planos não haviam corrido tão bem como imaginara… Ana estava adormecida no sofá. Cesc sentou-se no chão da sala, olhando-a. era percetível o cansaço que a abrangia. Cesc largou um suspiro.

- Esta é a parte mais complicada de ser pai… - murmurou frustrado comendo os morangos.

Mais tarde, pegou em Ana e deitou-a na sua cama, pensando que, pelo menos, teriam uma noite calma como há muito não tinham…



***



- Buenos dias – a voz quase sussurrada de Alexis despertou a atenção de Adriana que estava junto à janela bebendo chá. O sol ainda mal nascera.

- Buenos dias – retribuiu antes de beber um gole do seu chá.

- Estás bem? – perguntou colocando-se junto a ela.

- Sim. acordei um pouco indisposta. Apenas isso.

Um silêncio invadiu a sala e Adriana acabou de beber o seu chá. Depois respirou fundo, arranjando coragem para pronunciar aquelas palavras:

- Quero pedir-te desculpa pela cena de ontem. Tenho andado um pouco…stressada e ansiosa por esta nova fase na minha vida profissional. É algo arriscado e sinto-me insegura – mentiu.

- Vai correr tudo bem – incentivou-a Alexis pegando-lhe na mão – Adriana – ele voltou-se para ela – Quero pedir-te desculpa por te ter beijado ontem e pela maneira como falei. Não queria ter-te de alguma forma ofendido ou faltado ao respeito. Eu…descontrolei-me!

- Não tem importância, Alexis. Fui sempre eu que criei estas confusões. Fui eu que apareci aqui na noite de Natal, fui eu que entrei à socapa aqui duas vezes, fui eu que cedi naquele período em que a Lia esteve a nosso encargo…

- Adriana…

- Deixa-me terminar, por favor. Fui eu que fiz isso tudo e no outro dia ainda entrei aqui como se fosse uma louca e praticamente abusei de ti.

- Isso não é verdade – negou Alexis interrompendo-a.

- Alexis, o que quero dizer é que não posso descontrolar-me sempre que quero e depois dar-te tolerância zero. Ontem… Alexis, o que sentimos é mútuo. Sabemos bem como nos sentimos perto um do outro, como as coisas acontecem. Continuo a amar-te – Alexis sorriu – Mas para mim não dá. Ainda não. Tens sido fantástico. Apoiaste-me na moda, foste um pai excelente, aturaste as minhas loucuras, mandaste-me bilhetes, deste-me livros. És maravilhoso. Mas algo em mim mantem-me longe de ti. não me quero magoar.

- Adriana, dá-me mais uma oportunidade. Só isso. Prometo não te desiludir.

- Alexis, não és tu, sou eu – Alexis revirou os olhos como se dizendo “A típica frase” – Estou a falar a sério – Adriana suspirou – Tu és um homem fantástico. Tens demonstrado isso. O problema é que eu não estou preparada para ser tua mulher novamente. O nosso divórcio e tudo o que nos aconteceu fragilizou-me como mulher. Não me sinto preparada para te merecer.

- Tu mereces-me, Adriana. mereces até melhor. e eu serei o que mereces, juro que sim – prometeu Alexis agarrando-lhe o rosto entre as suas mãos que tremiam com as lágrimas a rolarem pelo seu rosto – Dá-me uma oportunidade. Dá-ma!

- Alexis, não me faças isto – implorou começando a chorar também – Há coisas…que não sabes e…há tanta coisa que está dependente de nós. Por favor, dá-me tempo.

- Eu tenho-te dado tempo, todo o que posso. mas eu também preciso do tempo, preciso de tempo passado junto a ti. por favor, não me faças sentir que estou a desperdiçar a minha vida.

- Dá-me…dois meses.

- Dois meses?

- Alexis, há tanta coisa a acontecer.

- Que coisas? Diz-me. Podemos resolver isso juntos. Por favor, diz-me.

- Lo siento, Alexis, no puedo – respondeu afastando-se dele e terminando aquela conversa.



***



- Estás bem?

Adriana estava tão afogada entre as suas lágrimas que mal dera pela entrada de Cesc.

- Ouvi-te chorar quando estava a passar no corredor – disse Cesc aproximando-se e sentando-se junto a ela na cama – Precisas de falar?

- Preciso – admitiu com a voz a tremer-lhe – Preciso tanto. Mas não queria sobrecarregar a Ana. ela já me tem aturado tanto…

- Eu posso ouvir-te. também já ouvi o Alexis… Tenho-o ouvido bastante nestes quase dois meses e não é propriamente sobre o nascimento dos cachorros da Luna…

Luna tinha tido os seus cachorros há cinco dias atrás. Quatro pequenos e amorosos cachorros, centro da atenção de Thiago que completaria dentro de dias 1 ano de vida.

- Cesc – Adriana agarrou-lhe as mãos fortemente com o desespero a invadi-la – Promete-me que não contarás nada do que eu disser aqui, seja o que for o que irás ouvir.

Cesc assustou-se um pouco com as palavras de Adriana, mas tentou relaxar e seguir a sua veia mais descontraída.

- Não me digas que mataste alguém… - brincou.

- Pelo contrário – disse num suspiro – Promete, Cesc, promete.

Cesc havia ficado confuso e até assustado com as palavras de Adriana, mas acabou por lhe prometer o que ela lhe pedira, para no instante seguinte ouvir a amiga despejar tudo o que lhe ia na alma.

- Quando a Lia nasceu e ficou por nossa conta, nós deixámo-nos levar e envolvemo-nos – Não foi preciso que Adriana mencionasse o nome de Alexis para Cesc se aperceber que aquele ‘nós’ tinha como protagonistas os seus amigos – E eu engravidei – Cesc ficou abismado com aquelas palavras. Adriana estava grávida? – Ando a esconder uma barriga de três meses como se vivesse nos anos 50! Não tenho coragem de contar ao Alexis, porque a cada dia que passa tudo se parece cada vez mais irremediável e trágico. Estou grávida há três meses e o Alexis nem desconfia. O que vai pensar quando lhe contar? Não o quero magoar e sei que vou fazê-lo! – Adriana falava a uma velocidade alucinante resultado de ter ‘incubado’ aqueles pensamentos por tanto tempo – Ele tem sido fantástico comigo, tem sido um homem de sonho! Surpreendeu-me, fascinou-me, fez-me apaixonar-me por ele de novo vezes sem conta! E quando lhe pedi para que me desse um tempo, ele deu! Pedi-lhe dois meses e ele…e ele deu-mos! Nem por uma vez nestes dois meses me pressionou, me tentou interpelar. Nada! E eu sei, eu vejo que ele sofre. E está a carregar a dor dele para me fazer a vontade. E eu sinto-me horrível com tudo isto. Quero voltar para ele mas…ao mesmo tempo não quero. Tenho medo da intensidade com que amo o Alexis. Assusta-me a forma como daria a vida por ele. Assusta-me que possa abdicar de mim, dos meus sonhos, de tudo o que lutei para alcançar por ele. Tenho medo de ter coragem de abdicar até da minha felicidade por ele! Porque sempre que penso em voltar para ele, lembro-me do dia em que saí de minha casa para ela nunca mais ser minha, lembro-me da vontade que tive de ceder à chantagem dele, lembro-me do quanto chorei por ele, o quanto desejei dormir indefinidamente só para não doer cá dentro. Amo-o mais do que a mim própria e isso assusta-me. O que estarei disposta a fazer por ele? Matar? Morrer? – Adriana desabou num pranto agoniante, deixando Cesc a sentir-se completamente impotente e inútil – Será que alguém que se deixa dominar pelo medo merece um homem como ele? Será que mereço o Alexis?

Cesc limitou-se a abraçar Adriana, impedindo-a de dizer qualquer outra palavra. Ela chorou. Chorou até estar exausta, chorou até se sentir desidratada, chorou até não ter mais forças para o continuar a fazer.

- Adriana – Cesc levantou a cabeça da amiga, amarrando-a delicadamente entre as mãos – És uma mulher fantástica. Uma mulher que consegue entregar toda a sua alma e amor a um homem. E o medo é passageiro. Ele não te vai perseguir eternamente. Quando menos contares, tudo encaixará na tua mente e as coisas vão resolver-se.

Adriana suspirou, nem sequer tentando fingir um sorriso crente ou otimista. Limitou-se a deitar-se e a sentir Cesc a aconchegá-la entre os lençóis e a dar-lhe um beijo na testa.



***



- Vai correr bem.

- Continuo sem saber o que fazer em relação à minha relação com o Alexis – disse Adriana num suspiro.

- Não és obrigada a sabê-lo. vais lá contar-lhe da gravidez, não falar sobre vocês – respondeu Cesc tentando acalmá-la.

- Achas que ele vai reagir mal por lhe ter mentido por quase três meses?

- Não sei – disse Cesc com sinceridade – Mas poderia apostar que ele vai ficar radiante por ir ser pai mais uma vez.

- Não posso adiar mais. Amanhã é a primeira ecografia e não quero deixar o Alexis de fora. Apenas se isso for uma decisão dele. Este filho é tanto meu como dele e não quero que ele sinta que o estou a privar de acompanhar esta gravidez.

Cesc assentiu, mostrando que percebia as palavras de Adriana. depois abraçou-a, sussurrando-lhe uma mensagem de sorte e coragem ao ouvido.
Adriana despegou-se dos seus braços e saiu em direção ao jardim. atravessou-o e bateu à porta de Alexis, que rapidamente a abriu.

- Adriana… - murmurou abismado como se tivesse esperado toda a vida por aquele momento – Entra, entra – convidou despertando do seu transe.

Adriana entrou e Alexis seguiu-a.

- Senta-te – convidou Alexis visivelmente nervoso.

- Acho que prefiro ficar em pé – respondeu Adriana com um enorme nó na garganta.

Minutos passaram e nem uma palavra se ouviu naquela sala. Adriana deu voltas e voltas à sua cabeça, pensando em como dar aquela notícia a Alexis. Mas como era suposto fazê-lo? por onde começar? Que tom usar? Que palavras escolher? Tudo parecia descabido e por isso Adriana optou por curtas mas claras palavras. Clareou a voz e olhou aquele homem que a mirava confuso, expectante, esperançoso.

- Eu estou grávida, Alexis.



Qual será a reação de Alexis?
O que mudará com esta gravidez?



Olá!

Depois de 15 comentários era impossível não pôr estes dedinhos a trabalhar freneticamente para vos dar este capítulo!

Espero que tenham gostado e, claro, que continuem a deixar as vossas opiniões!



Besazo
Ana Santos