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domingo, 10 de agosto de 2014

155 - "Porque estupidamente te amo"



- Qué coño hiciste?! Explicame! – exigiu Ana completamente fora de si.

Como se atrevera a tomar uma decisão daquela dimensão e importância sem a consultar, sem lhe pedir a opinião, sem sequer lhe falar do assunto? Como era possível?!

- Tomei uma decisão – respondeu Cesc num tom altivo e frio.

- Uma decisão? – interrogou Ana com ironia – E por acaso não pensaste que eu também teria uma palavra a dizer sobre o assunto, que era importante discutirmos a proposta?

- Não havia nada a discutir – disse com arrogância – Era a melhor decisão para mim.

- Dizes bem! A melhor decisão para ti e só para ti! E nós, Cesc? A tua família? Isso não importa?

- Se eu estiver bem, estamos bem, não é isso que costumas dizer? – perguntou com egoísmo.

- Não entres por aí! – advertiu-o Ana – Isto não é decidir o destino das nossas férias ou a cor das paredes da sala. É mesmo mais sério do que isso, não consegues perceber?

- E tu não consegues perceber que o futebol é a minha prioridade? – disparou elevando o seu tom de voz.

- O futebol? O futebol é a tua prioridade? – interrogou Ana desiludida não conseguindo evitar que algumas lágrimas aparecessem no seu rosto.

- Sim, o futebol! Dentro de uns anos a minha carreira acaba. Tive a oportunidade de ir para uma liga melhor, jogar mais, ter um melhor salário!

- Quero lá saber da merda do teu salário, da merda da tua liga, da merda dos teus minutos jogados – berrou Ana fora de si – O que me interessa é a minha família, a estabilidade da minha filha, do meu casamento!

- Vamos para Londres. Está decidido – afirmou Cesc com uma arrogância latente, passando a imagem que não tinha escutado nem uma das palavras de Ana.

- Não. Tu vais para Londres. Eu e a Catarina ficamos – garantiu Ana, num tom quase desafiador, perante a atitude egocêntrica de Cesc.

- Não. Nós vamos para Londres. Todos! – assegurou Cesc com uma determinação cega.

- Nem à força nos tiras daqui – garantiu Ana – Podes ter a certeza que não iremos para Londres, não quando nada nos espera lá, quando eu já não percebo quem tenho ao meu lado e a minha filha já não tem um verdadeiro pai!

- Se não vieres, eu peço o divórcio! – ameaçou Cesc perdendo a calma.

- Força! Queres que seja eu a ir pedir os papéis? – sugeriu Ana com arrogância já fora do controlo – Ainda resolvemos isso antes de ires!

- Se avançares com o divórcio, eu lutarei pela guarda da Catarina.

- Não tenho medo das tuas ameaças, Cesc. Queres tirar-ma? Força! – atirou Ana, desafiando-o – Nada nem ninguém me vai tirar a minha filha! – garantiu com uma segurança terrificadora.

- Porque é que os pais estão a discutir? – a voz de Catarina preenchida pelas lágrimas assustadas interrompeu a discussão descontrolada em que Ana e Cesc se haviam envolvera.

- Nós não estávamos a discutir, mi ángel – negou Ana, limpando as lágrimas e ajoelhando-se junto à filha – Estávamos apenas a conversar.

- Mas estás a chorar, mamã – disse Catarina inocentemente, limpando as lágrimas da mãe com as suas pequenas mãos.

- Tu sabes bem que eu choro por tudo e por nada – desculpou-se Ana – Estava a ver um filme, estava a chorar, o papá chegou e…disse que não gostava do filme e…como eu gostava estávamos a falar sobre isso – inventou.

- Estavam a falar muito alto – murmurou Lia ainda assustada – Fiquei com medo.

- Não precisas de ter medo, mi amor. No ha pasado nada [Não aconteceu nada] – garantiu Ana, com um sorriso maternal a aparecer no seu rosto.

O som da campainha impediu Lia de fazer mais perguntas para alívio de Ana que pôde deixar cair todo aquele sorriso forçado e falso.

- É a tia Di! – gritou entusiasmada, correndo para a porta.

Cesc que até ao momento tinha simplesmente observado toda aquela cena, foi atrás de Lia e abriu a porta, permitindo que saltasse para os braços de Adriana para depois começar rapidamente a brincar com Emma.

- Ao fim da tarde eu trago-as – responsabilizou-se Adriana.

- Mamã, não podemos comer lá? Quero daquela comida que traz brinquedos! – pedinchou Emma com o seu olhar adorável.

- Hum…deixa-me pensar… - pediu Adriana pondo um ar pensativo.

- Oh vá lá, vá lá! – começaram a pedinchar Emma e Lia em conjunto.

- Vale, vale! Mas já sabes que…

- Que não pode ser sempre. Faz mal à saúde – disparou Emma interrompendo a mãe, mostrando-lhe que já memorizara aquelas palavras que tantas vezes ouvira da boca dos pais.

- Exatamente! Vamos lá. Comecem a entrar para o carro – ordenou Adriana vendo Emma e Lia entrelaçarem as mãos e caminhar calmamente até ao carro.

- Está tudo bem? – aproveitou para perguntar Adriana.

- Sim, está – respondeu Cesc curtamente.

- Já soube que vais para Inglaterra – comentou, tentando perceber melhor aquela decisão que a tinha surpreendido por completo.

- Sim, é verdade. As coisas normais nesta profissão – disse de forma seca, tentando claramente terminar aquela conversa.

- Mamá, mamá – chamou Emma impaciente já dentro do carro – Vamos, mamá!

- Bem, depois falamos melhor, não?

- Sim, claro – respondeu Cesc com pouco entusiasmo.

- Vale… - deixou escapar Adriana incomodada por aquela atitude tão distante – Adiós.

- Adiós – retribuiu Cesc fechando a porta.

- Vou fazer as malas – anunciou rudemente passando por Ana, que estava sentada no sofá da sala, num misto de incredibilidade e exaustão.

Ana olhou-o desiludida. Porque lhe estava a fazer aquilo? O que se estava a passar com ele?

Levantou-se e dirigiu-se ao jardim. Sentia-se sufocada naquela sala onde pareciam ainda ecoar os gritos protagonistas daquela discussão.

Deixou-se escorregar pela fachada da casa, sentando-se na relva fria e molhada. A tristeza latente no seu choro atraiu de imediato a atenção dos labradores que como sempre brincavam animadamente em conjunto. Os cinco caminharam até ela calma e sorrateiramente, como se percebendo a dor que ela sentia. Deitaram-se à volta dela, tocando por vezes com o seu focinho no corpo dela, como se lhe quisessem dar carinho e alento.

Mas apenas a dor e a desilusão existiam dentro da alma de Ana. Como é que tudo desmoronara daquela forma? Durante aqueles cinco anos tinham sempre tido um casamento tão estável, tão forte, tão seguro. A confiança era a base daquela relação onde os segredos não tinham lugar. Como é que ele lhe pudera esconder algo como aquilo? Como pudera tomar uma decisão tão egoísta? Como pudera não ter pensado nelas?

Ana enterrou a cabeça nos seus joelhos, agarrando fortemente as suas pernas.

Como é que de repente tudo mudara? De onde tinha surgido aquela reviravolta tão cruel e inesperada?

Eles estavam tão bem, tão felizes, a sua única preocupação era…era ter mais um filho. Há quatro meses que Ana e Cesc haviam tomado a decisão de serem pais novamente. Tinham um casamento estável, uma vida profissional segura e para além disso Lia mostrava um entusiasmo genuíno por ter um irmão. Engravidar estava a ser mais difícil do que haviam esperado. Lia tinha sido um bebé planeado, mas…aparecera de repente. Quando menos esperava, Ana soubera que estava grávida.

Desta vez não… Estava corroída pela ansiedade. Queria ser mãe, estava desejosa de recomeçar a aventura que era uma gravidez e de agora a poder partilhar com Lia.

Mas os seus “esforços” estavam a mostrar-se inglórios e apesar do apoio de Cesc, Ana não conseguia esconder aquela ponta de desilusão quando via que era mais um mês perdido. Cesc tentara sempre reconfortá-la e animá-la, dizendo-lhe que era apenas mais uma oportunidade para treinarem e fazerem um bebé perfeito.

Ana não suportava recordar isso… Onde estava aquela cumplicidade, onde estava aquela confiança, onde estava aquele Cesc?

Aquela discussão saíra do seu controlo. Ela não queria ter dito aquelas coisas. Não o queria ter desafiado a seguir com o divórcio em frente, não queria ter disputado Catarina daquela forma, não queria ter agido daquela forma tão irracional e precipitada…

Mas Cesc…Cesc agira de forma tão fria, tão indiferente.

Mesmo após a saída de Catarina, quando Ana já estava mais calma, ele não parou para sentar-se e recomeçar aquela conversa desta vez de forma mais calma e ponderada. Parecia…que já não importava, que Cesc não tinha medo de as perder, que apenas a carreira lhe importava.

Ana não se recusava perentoriamente a partir para Londres. Não era isso. Ela seria capaz de perceber e concordar com a decisão de Cesc. Mas não assim, não à força, sem o consentimento dela.

Ana não aguentava. Queria desligar-se por um pouco. A sua cabeça doía-lhe, os pensamentos pareciam ribombar dentro dela. Apenas queria parar e descansar um pouco, recuperar as forças, a coragem…

- Ana? – a voz de Alexis, sobressaltou-a e fê-la limpar as lágrimas desajeitadamente – Estás a chorar? O que aconteceu? – perguntou preocupado apressando-se a sentar-se junto a ela.

- Acabou – murmurou Ana desesperada deixando cair a cabeça sobre o ombro de Alexis.



***



Cesc pontapeara violentamente o cadeirão assim que entrara no quarto. Estava a perder tudo, tudo, tudo. E não podia fazer nada contra isso!

Mal conseguira extravasar a sua raiva, quando ouviu o telemóvel tocar fazendo-o desesperar.

Sabia que não atender não era uma opção…

- Que quieres? – disparou de imediato não conseguindo esconder a sua fúria.

- Hum que buen suena… [Hum soa tão bem…] Soa a missão cumprida. Falaste com ela? – perguntou com autoridade.

- Sí.

- Como é que ela reagiu? – interrogou com uma ponta de provocação, sentindo que tudo correra como planeara.

- Mal – respondeu Cesc com rudeza não conseguindo conter todo aquele ódio dentro de si.

- Falaste do divórcio?

- Sí.

- E ela?

- Ela….estava enervada e concordou.

- Hum…que bueno, que bueno! E atacaste-a com a guarda da Lia?

- Sim. Ela disse que lutaria por ela – respondeu, dizendo-lhe tudo o que ela queria ouvir. Era melhor dizer-lhe tudo de uma vez e não ter de continuar a suportar o som da sua voz.

- Uau… Muito melhor do que eu tinha imaginado… Quando terminares a tua carreira de futebolista, podes tornar-te…ator ou…qualquer outra coisa. És tão inteligente nas escolhas que fazes – disse calmamente não escondendo toda a satisfação que a invadia - Lindo menino…  - elogiou – Foi muito difícil? – perguntou numa mistura de satisfação e ironia. Ela queria ouvir a sua voz desesperada, sentir aquela raiva que lhe dava um prazer sádico e cruel.

- Callate – respondeu Cesc com a voz carregada de ódio.

- Cesc, Cesc, Cesc… No seas así. Não estás numa boa posição para seres rude… Aliás a Ana e a Lia não estão em boa posição para que sejas rude – respondeu com uma crueldade e um gozo visíveis. Ela adorava dizer aquelas coisas, imaginar o sofrimento e o medo que o aterrorizariam. Era bom demais imaginar tanta dor…

- Se lhes acontecer alguma coisa, eu juro que te encontrarei e te matarei com as minhas próprias mãos – garantiu com uma raiva inqualificável, recebendo apenas uma gargalhada desafiadora do outro lado do telefone.

- Ai Cesc… Deixa-me apenas fazer-te uma última pergunta: foste tu que escolheste aquele adorável vestido rosa que a Lia está a vestir?

Cesc arrepiou-se com aquelas palavras. Baixou o rosto, sentindo todo o seu corpo a descontrolar-se totalmente dominado pelo medo e a impotência. Ela continuava a vê-los…Continuavam todos ao seu alcance insano.

- Deixa a minha filha em paz, por favor. Isto não é nada com ela. Podemos resolver isto os dois – sugeriu tentando controlar os impulsos psicopatas de Carla.

Ela deixou escapar uma gargalhada demente que mostrava todo o gozo que raiava dentro do seu corpo.

- Faz boa viagem, Francesc. Não te atrases. O avião não espera… - aconselhou venenosamente, antes de desligar o telefone.

Cesc atirou o telemóvel para o chão violentamente. Como podia terminar com aquilo? Como? Como proteger as pessoas que mais amava naquele mundo de uma ameaça tão presente e imparável?

Alguns dias atrás Carla havia aparecido. Cesc tinha-a enterrado nas suas piores memórias. Após ter atropelado Ana e provocado o seu aborto, Carla tinha sido internada num hospital psiquiátrico, escapando assim à cadeia.

Durante todos aqueles anos, Cesc havia-a esquecido. Não passava de uma ex-namorada louca que ficara no passado. Mas ela havia regressado, mais louca do que alguma vez Cesc a conhecera.

Estava sedenta de vingança, planeara cada passo do seu fim.

E já começara…

Cesc não podia arriscar. Ela dava-lhe provas de que os seus olhos estavam sobre todos eles, a todo o momento. Cesc não podia arriscar a perdê-las. Tinha de as proteger a todo o custo, mesmo que isso implicasse o seu afastamento.

Carla exigira que Cesc forçasse a mudança de clube com o total desconhecimento de Ana. Ela estudara bem a personalidade dela. Sabia que não se iria rebaixar aos desejos fúteis e egocêntricos do marido. Sabia que ela perderia o controlo e que a palavra “divórcio” rapidamente surgiria entre tantas outras palavras precipitadas. A partir daí, Cesc sabia o que fazer: aproveitar a deixa e pôr Catarina em jogo.

Carla não queria Lia junto a Cesc. Queria apenas criar uma maior revolta dentro de Ana. O divórcio e o isolamento de Cesc em Londres eram o seu objetivo. Ou pelo menos o seu primeiro objetivo…



***



- Calma. Habla conmigo – pediu Alexis amparando as suas lágrimas.

Ana desencostou a cabeça do seu ombro e respirou fundo, tentando recuperar a calma que Alexis pedira. Sabia que estava a precisar de falar com alguém e que podia confiar em Alexis.

- O Cesc assinou contrato em Inglaterra.

- Sí, lo sé. No lo esperaba [Sim, eu sei. Não estava à espera] – admitiu Alexis.

- Yo tampoco [Nem eu].

- Cómo? Que estás diciendo? – perguntou Alexis confuso perante a confissão de Ana.

- Ele…ele tomou esta decisão sozinho. Ouviu a proposta, aceitou-a, assinou contrato. Eu só soube hoje.

- Ele…ele não falou contigo?

- Não… - murmurou Ana abanando a cabeça – Ele limitou-se a informar-me da decisão que tinha tomado e a exigir que eu e a Catarina o acompanhássemos.

- Quê? Ele está louco? Como assim exigiu? – interrogou Alexis em estado de choque.

- Ele pensou que…nós iríamos atrás dele sem questionar a decisão que ele tomou completamente sozinho. E…eu não aceitei. Discutimos e…e…ele falou no divórcio.

- No, no es posible. Cesc no es así [Não, não é possível. O Cesc não é assim] – negou Alexis incrédulo.

- Não sei o que se passa com ele… - confessou Ana não conseguindo ocultar o seu desespero – A Catarina apareceu, assustada com os nossos gritos e…a Adriana chegou, levou-a e…o Cesc apenas subiu ao quarto para fazer as malas. Eu…eu pensava que ele ia…parar para sentar-se e falarmos de forma mais calma, sem discutirmos mas…isso não aconteceu – contou arrasada – Ele…ele já não é o mesmo. Nos últimos dias, ele tem estado cada vez mais afastado e indiferente. Mas pensei que fosse…tu sabes aquelas coisas das transferências, das propostas… E era… - concluiu – Só não pensei que…que ele fizesse isto. Ele não pensou em nós. Eu também tenho um emprego, também tenho os meus projetos. E a Lia? Não posso arrancá-la daqui, assim, sem sequer a preparar para o que a espera! O país, a língua, os costumes… Como é que ele não pensou nisso tudo? – perguntou indignada.

- O Cesc vai voltar a si – murmurou Alexis pouco crente nas suas palavras.

- Sabes que isso não é verdade – sussurrou Ana antes de se entregar às lágrimas uma vez mais.



***



- Lia, não tens fome? – perguntou Adriana ao perceber que ela ainda não tinha tocado no seu hambúrguer.

- Não, tia Di, não me apetece comer – murmurou Lia.

- Não gostas de hambúrguer? Posso pedir outra coisa – sugeriu Adriana amavelmente.

- Eu não tenho fome – respondeu num sussurro.

- Está tudo bem, pequeña? – perguntou Adriana, insistindo.

- Sim, tia, só não tenho fome – repetiu Lia.

- Vale – assentiu Adriana, percebendo que não valia a pena forçar Lia a falar.

Continuaram a jantar com Emma entusiasmadíssima com os brinquedos que vinham juntamente com a comida, que apesar de ser sem sombra de dúvidas a sua favorita, não vencia a magia dos pequenos brinquedos que a acompanhavam.

Adriana insistiu para que Emma deixasse os brinquedos de lado e jantasse e após alguma insistência Emma obedeceu à mãe, que continuava a mirar Lia inegavelmente tristonha e pensativa.

- Tia? – chamou alguns minutos depois – O que é um divrócio? – perguntou assim que Adriana a encarou.

- Um divórcio? – interrogou Adriana surpreendida, olhando Lia – Porque perguntas? – questionou dando a volta à situação.

- Hoje os meus papás estavam a discutir e eu ouvi-os a falar sobre isso. A mamã disse que eles estavam só a conversar sobre um filme mas eu acho que ela não está a dizer a verdade. Ela estava muito triste e zangada. A minha mamã não se zanga. Ela só fica má quando faço grandes asneiras – explicou na sua inocência.

- Mi ángel, tenho a certeza que não é nada grave. Eles estavam só a conversar como disse a tua mãe. Não te preocupes – aconselhou carinhosamente, percebendo de imediato que algo estava mal. Muito mal…



***



- As minhas malas estão prontas. Parto amanhã – informou Cesc com frieza.

O facto de estar sobre o domínio e a ameaça de Carla criava um instinto de sobrevivência e proteção que fazia com que todo aquele teatro fosse quase…natural. Nem ele percebia como conseguia ser tão frio, rude e egoísta. Apenas sabia que só isso protegeria a sua família.

- Vais mesmo fazer isto? – murmurou Ana.

- Já está feito – afirmou com segurança – Depois ligo ao advogado para tratar do divórcio – lançou com crueldade e desprezo. Era impossível saber a qual dos dois aquelas palavras tinham ferido mais: se a Ana ao ouvi-las, se a Cesc a dizê-las.

- Queres mesmo fazê-lo? – perguntou Ana ganhando coragem para olhá-lo.

- A partir do momento em que te recusas a acompanhar-me, percebo que já não faz sentido estarmos casados.

- Não percebes como estás a ser egoísta? – berrou Ana levantando-se – Estás a esquecer-te que somos uma família, estás a ser egoísta!

- Se sou assim tão mau, não percebo porque haverias de querer estar comigo – atirou com desprezo.

- Porque te amo – murmurou despedaçada – Porque estupidamente te amo – confessou – E tens razão. Não há razões para querer estar contigo. Já não te conheço. Já não és o mesmo, Cesc – confrontou mesmo que apenas uma voz sussurrada escapasse dos seus lábios – Espero que não te arrependas da decisão que estás a tomar.

- Tenho a certeza que não – mentiu continuando a ostentar toda aquela altivez e rudeza.

O som da campainha pôs fim a todo aquele teatro, que despedaçava Ana a cada palavra.

- Eu falo com ela – afirmou Cesc com determinação, sabendo que seria Adriana a vir entregar Lia.

Cesc abriu a porta e agradeceu a Adriana em curtas palavras, trazendo depois Lia para o interior de casa. Ela beijou o rosto da mãe de forma carinhosa e ternurenta e depois seguiu com o pai para o seu quarto.

- Eu gostava de falar um bocadinho contigo sobre um assunto importante – explicou Cesc calmamente assim que se sentaram sobre a cama de Lia.

- Eu fiz alguma asneira? – perguntou assustada.

- Não, mi amor, tu não fizeste nada – garantiu Cesc acariciando-lhe o rosto – O pai é que fez.

- O pai fez uma asneira?

- Mais ou menos – deixou escapar Cesc – Sabes que a profissão do pai é jogar futebol e sabes que há muitos clubes no mundo – explicava tranquilamente – O que se passa é que o pai vai mudar de clube. Vou para um país diferente.

- Vais para longe de nós? – interrogou inegavelmente fragilizada.

- Sim… Fica um bocadinho longe – admitiu Cesc.

- E vamos todos? – perguntou Lia na sua inocência.

- Não. Tu e a mamã ficam – esclareceu esforçando-se para não perder a coragem que o movia naquela luta desmesurada contra a insanidade de Carla. Ele não podia arriscar, não podia… - Eu vou sozinho.

- Porquê? Já não gostas de nós?

- Não, não, não é nada disso – apressou a esclarecer – Eu adoro-vos, eu amo-vos – garantiu, sentindo uma das suas melhores recordações abalroá-lo.





- Apareceu – murmurou, não conseguindo esconder a sua tristeza.

- Ei…não desanimes – pedi amarrando-a pela mão e fazendo-a sentar-se junto a mim – Não foi neste mês, será no próximo. É apenas mais uma oportunidade para praticarmos – brinquei tentando arrancar-lhe um sorriso.

- E se nós…não formos capazes? Se tivermos um problema? – perguntou revelando aquelas hipóteses que a vinham atormentando nos últimos meses.

- Mira nuestra niña – pedi apontando para a Lia que brincava animadamente com as suas bonecas – Nós somos mais do que capazes de fazê-lo. Olha a perfeição de menina que temos!

- Sí… - disse deixando escapar um suspiro – Acho que deves ter razão.

- Claro que tenho, mi vida. Todo va a salir bien [Vai tudo correr bem] – garanti tentando animá-la.

- Gracias, Cesc… Eu amo-te – declarou causando-me aquele sorriso incontrolável que nunca iria desaparecer.

- Eu também te amo, mi reina – respondi roubando-lhe um beijo.

- Papá – chamou a Lia aproximando-se de nós – O que é “amo-te”? – perguntou com a sua curiosidade de menina de 5 anos.

- Amo-te… - repeti surpreendido com aquela pergunta. A Ana ajeitou-se no sofá claramente curiosa pela forma como responderia a uma questão tão inesperada – Amo-te é quando gostamos muito muito muito muito muito muito muito muito muito de uma pessoa.

- Tipo infinito? – interrogou intrigada.

- Sim, tipo infinito.

- Uau…- disse num tom maravilhado – Mamá? – chamou olhando a Ana e subindo para o seu colo – Eu amo-te – declarou fazendo o sorriso mais emocionado que alguma vez lhe vira aparecer no seu rosto.

- Oh mi pequeña, eu também te amo muito! – respondeu com a voz ligeiramente tremelicante, abraçando-a.

- Ei e eu? – perguntei fingindo-me “excluído”.

- Oh eu amo-te a ti também, papá – disse prontamente saltando para o meu colo e dando-me um beijo longo e traquina no rosto.

- Eu também vos amo muito, mi ángel.





- Então porque vais embora? – perguntou Lia na sua inocência.

- Porque às vezes temos de tomar algumas decisões difíceis…

- Porque é que não podemos ir contigo? – questionou com as lágrimas a invadirem o seu rosto.

- Mi amor, se viessem comigo, ias ter de aprender uma nova língua, ias ter de deixar esta casa, a tua escola, os teus amigos, este sítio, a Emma…

- Mas assim fico sem ti. Porque não ficas? – interrogou quase em tom de súplica.

- Porque não posso. Mas eu venho visitar-te e tu também me vais visitar. Vamos falar todos os dias por telefone e computador. E é só por um ano, depois as coisas vão ser melhores – disse, alimentando aquela mesma esperança.

- Tu vais continuar a gostar de nós, não vais?

- Claro que sim, mi princesita. Siempre vos amaré! – garantiu, abraçando-a.

- Vou ter saudades tuas, papá!

- Eu também vou ter muitas saudades tuas, mi vida.



***



- Queres que acorde a Lia para te despedires? – ofereceu Ana num murmúrio.

Estava um verdadeiro trapo humano. Passara a noite às voltas naquela cama vazia, já que Cesc ficara no quarto de hóspedes. Chorara durante horas, chegando ao ponto de pensar que nunca seria capaz de pôr fim àquelas lágrimas.

- Não. Nós já nos despedimos ontem. Ela deve estar cansada.

- Vale…

- Bien…adiós – despediu-se voltando-lhe as costas.

- Francesc – chamou Ana fazendo com que ele voltasse a encará-la – Tens a certeza?

- Tenho. Eu tomei a minha decisão e pelos vistos tu também tomaste a tua – atirou com rudeza para depois sair sem olhá-la uma última vez.

Assim que saiu, respirou fundo e tremeu assim que ouviu o toque do seu telemóvel.

Era ela…

Abriu a mensagem que continha apenas um “Muy bien…” que provava que ela não dormia, que ela os observava a cada momento, que estava perigosamente perto.

Tocou à campainha de casa de Adriana e Alexis, querendo também despedir-se deles antes de entrar no táxi e seguir para o aeroporto.

Foi Alexis a abrir-lhe a porta e era visível na sua expressão que estava desiludido com o que Cesc fizera. Não, era muito mais do que desilusão, era raiva.

- Eu…vinha despedir-me – explicou Cesc hesitante.

Alexis não conseguiu controlar-se. Simplesmente fez o seu punho embater no rosto de Cesc libertando toda a sua fúria.

- Me das vergüenza [Tenho vergonha de ti] – atirou dominado pela deceção – Nada, mas absolutamente nada, vale mais do que a família. Devias saber isso. Pensava que sabias isso – corrigiu antes de simplesmente bater a porta com violência, mostrando que não estava disposto a ouvir nem mais uma palavra da boca dele.



***



- Não devias ter feito aquilo – repreendeu Adriana enquanto preparava o pequeno-almoço para Thiago e Emma.

- Eu sei. Mas não me consegui controlar – justificou-se Alexis num sussurro para que os seus filhos não ouvissem a conversa que tinham.

Sabia que eles eram curiosos, perspicazes. Se não tivessem cuidado, as perguntas iriam surgir e mentir-lhes não seria fácil.

- Talvez isto lhe abra os olhos – acabou por dizer Alexis mesmo que a crença nas suas palavras fosse pouca.

- Quando chegarmos tenho de falar com a Ana. Ela deve estar a precisar de apoio – respondeu Adriana levando as taças de cereais dos filhos para a mesa.

- Porque é que a tia Ana precisa de apoio, mamã? – perguntou Emma de imediato.

Alexis lançou um olhar a Adriana como se lhe perguntando se já não conhecia o ouvido aguçado da sua filha.

- Foi uma forma de falar, Emma – inventou Adriana – A tia Ana não precisa bem de apoio, ela…precisa de ajuda! Ajuda com as fotos dela – disparou sentindo uma ideia iluminá-la, escapando-a daquele deslize.

- Está bem – disse Emma claramente convencida com a resposta da mãe – Pensei que era apoio com aquela coisa que a Lia falou ontem, o divrócio.

- Mamá, o que é um divrócio? – perguntou Thiago de imediato, parando de comer os cereais e olhando os pais tal como a irmã.

- Um divórcio é…

- Um divórcio é uma coisa de adultos – disse Alexis, interrompendo Adriana que não tinha qualquer ideia de como explicar a situação aos filhos sem criar alarmismos – E agora despachem-se a comer. A Graziela deve estar a chegar para vos levar ao parque!

- Fixe! – rejubilou Thiago voltando a concentrar-se no seu pequeno-almoço.

- Papá – chamou Emma – Porque é que não ficamos juntos hoje?

- Eu e a mamá temos coisas para fazer. Hoje vamos a um hospital visitar meninos doentes e dar-lhes alguns presentes.

- Doentes? – perguntou Emma claramente assustada.

- Sim, doentes – Adriana tomou a palavra, adotando um tom calmo – Há alguns meninos que têm umas doenças um bocadinho difíceis de tratar e por isso ficam no hospital.

- E vocês vão lá ajudar a tratar essas doenças? – interrogou Emma mostrando-se confusa – Mas são os doutores que fazem isso!

- Sim, são os doutores que os ajudam. Nós vamos apenas dar-lhes força, percebes? Vá, come lá os teus cereais, estamos a ficar atrasados.

Alexis e Adriana sentaram-se igualmente à mesa, apressando-se a tomar o pequeno-almoço. Alguns minutos depois, a campainha tocou e Emma e Thiago correram para a porta que Alexis acabou por abrir, dando os bons dias a Graziela.

Alguns minutos depois, Emma e Thiago rumaram para o parque de diversões sob a guarda de Graziela, enquanto Alexis e Adriana arrancaram para o Hospital Pediátrico de Barcelona.

- Já viste a coincidência? Nós os dois juntos a fazer uma visita solidária a um hospital… - ironizou Adriana.

- Os nossos agentes sabem bem o que lhes interessa – comentou Alexis – Mas sabes não estou muito preocupado. Isto foi claramente uma jogada que lhes interessou. Está no nosso trabalho apoiar causas solidárias e os nossos agentes simplesmente mexem as coisas da maneira que mais lhes interessa.

- Parece que se esforçam para que passemos uma ideia de casal perfeito – concluiu Adriana – Como se isso fosse preciso…

- Sabes que a nossa relação está bem cotada no mercado – disse Alexis sem rodeios, de olhos pregados na estrada – Eu tento focar-me no essencial: vamos fazer solidariedade juntos! Melhor não poderia ser.

- Sim, tens razão… Até é bom. Ajudamos alguém e estamos juntos!

- O que fizeste em relação ao dinheiro? – perguntou Alexis alguns instantes depois.

- Doei-o na totalidade à ala pediátrica.

- E a Victoria’s?

- Disse que aquilo não voltaria a acontecer – contou – Foi totalmente ridículo. Pagarem-me um milhão de euros para fazer solidariedade? Juro-te, fiquei furiosa! É solidariedade, não é trabalho!

- Eu percebo-te. Sabes…não vem expressamente escrito na minha folha de pagamento que existe um valor pago devido à minha presença nestes projetos, mas eu sei que existe, tal como existe um valor para as campanhas publicitárias, a representação do clube, tudo isso. Faz tudo parte do meu trabalho, mesmo que nos pareça ridículo e até insultuoso pagarem-nos para tentarmos pôr um sorriso nos lábios a crianças que tiveram o azar de terem uma doença grave… Mas bem…tentamos compensar com as doações!

- Sim, é verdade! A diretora da ala pediátrica quase chorou à minha frente. Não imaginas como ficou emocionada quando lhe disse que queria doar 1 milhão de euros à ala pediátrica. É um hospital com tanto prestígio. Nunca pensei que faltasse dinheiro… - confessou.

- É um hospital público e Espanha vive dias difíceis. Acaba por atingir tudo.

- Sim, tens razão. Somos uns privilegiados por vivermos sem problemas económicos.

- E por podermos ajudar quem os tem – acrescentou Alexis.

- Sim, sem dúvida… - concordou Adriana pensativa.



***



O tempo passara a correr.

Adriana e Alexis tinham percorrido inúmeros quartos, todos, infelizmente, preenchidos com crianças com as mais diversas doenças. Meninos, meninas, mais velhos, mais novos, mais esperançosos, menos esperançosos, todos com uma coisa em comum: um sorriso incrivelmente genuíno que espelhava a sua gratidão pelo mais pequeno e simbólico presente que recebessem. Acima de tudo pareciam agradecer aquela presença, agradecer que não se esquecem deles.

As promessas tinham-se multiplicado: entrar com Alexis em campo, visitá-lo durante os treinos, ter a oportunidade de conhecer todos os elementos do plantel, poder visitar Camp Nou, mas também acompanhar Adriana numa sessão fotográfica, poder assistir a um desfile dela, poder fazer um trabalho com ela. Cada uma das promessas que faziam era acompanhada de uma intenção real de a cumprir. E Alexis e Adriana tinham esperança de cumprir cada uma das promessas que haviam feito.

Agora o relógio marcava quase uma hora da tarde e por isso decidiram descer até à cantina da ala pediátrica para almoçar. A sua presença foi alvo de grande espanto, deixando-os a pensar que talvez fossem os primeiros a tomar a iniciativa de almoçar ali. Contudo, pegaram nos seus tabuleiros, sentando-se em dois lugares livres junto a outras pessoas que não conseguiam esconder a sua surpresa ao vê-los ali, tão humildes e simples.

Conversavam calmamente sobre a experiência que estavam a viver quando a diretora do centro de pediatria os abordou quase em choque.

- Dios mio, qué estan haciendo aquí? – perguntou num misto de surpresa e preocupação.

- O mesmo que a senhora – respondeu Alexis apontando para o tabuleiro que ela trazia nas mãos – Estamos apenas a almoçar.

- Não se quer sentar connosco? – convidou amavelmente Adriana.

- Eu não estava à espera que vocês ainda aqui estivessem, caso contrário teria preparado uma sala para almoçarem – garantiu de imediato.

- Oh Dra. Marta não se preocupe. Qual é o problema de almoçarmos aqui? Crianças, pais, funcionários, médicos e até a senhora o fazem, porque não o poderíamos fazer também? – interrogou Adriana tentando rapidamente desfazer as preocupações dela – Por favor, sente-se.

Apesar das hesitações, a diretora acabou por aceitar e juntar-se a eles.

- Tenho a dizer-lhe que a qualidade da comida é excelente! – elogiou Adriana – Uma coisa bem rara nos hospitais.

- Sim, é verdade. Mas nem sempre foi assim – confessou mais à vontade – Parte do seu donativo foi aplicado na melhoria da qualidade das refeições, a nível da nutrição mas também do sabor. Para uma criança já é difícil comer determinados alimentos, então para crianças que têm de passar os seus dias num lugar como este… o mínimo que podemos dar-lhes é uma alimentação saudável e a seu gosto – explicou para em seguida falar também de outros projetos em que o dinheiro doado por Adriana estava a ser aplicado, como por exemplo na investigação.

Adriana e Alexis escutavam-na com atenção, satisfeitos por saberem que o dinheiro doado estava a ser realmente bem gerido e sempre tendo em conta a qualidade de tratamento e de vida de cada criança internada naquela pediatria.

A conversa foi-se desenrolando naturalmente e apenas quando Alexis reparou que o relógio marcava as três horas da tarde é que ela foi terminada.

- Dra. Marta, está a ser ótimo falar consigo, mas ainda temos visitas a fazer – lamentou Adriana.

- Vão continuar a fazer visitas? – perguntou surpreendida.

- Sim, fomo-nos distraindo ao longo da manhã e não conseguimos visitar toda a ala – explicou Adriana.

- Vocês não têm o dever de o fazer – respondeu de imediato – Já é muito generoso terem vindo aqui…

- Nós percebemos que a nossa visita criou muito entusiasmo entre miúdos – explicou Alexis, lembrando-se de todos os pequenos desenhos que haviam recebido e que mostravam a gratidão genuína de cada criança que haviam visitado – Não queremos desiludir nem uma destas crianças. Acredite que não há melhor forma de aproveitar uma folga do que assim – garantiu Alexis com um sorriso sincero no rosto.



***



- Bem, visita concluída! Muito, mas muito obrigada por terem vindo e dispensado este tempo para estar com as nossas crianças.

- Não tem de agradecer, Doutora. Foi, sem dúvida alguma, um privilégio poder ver tantos sorrisos genuínos num só dia – expressou Adriana com um sorriso. A verdade era que estava realmente satisfeita com aquele dia. Saber que tinha dado um pequeno momento de felicidade a crianças que lutavam a cada minuto pelas suas vidas era um sentimento quase heroico!

 Contudo aquele sentimento não tardou a desaparecer sendo substituído por outro completamente distinto e que Adriana não conseguia explicar.

À sua direita, havia um quarto onde apenas uma criança se encontrava rodeada de máquinas e fios. Era sem dúvida um menino que deveria ser da idade de Thiago, estimava Adriana. A sua pele era extremamente pálido e na sua cabeça nem um cabelo se erguia. O seu olhar era extremamente desolador. Havia tristeza, uma tristeza tão pura e verdadeira que fora capaz de enterrar cada pedaço de satisfação que Adriana sentira há momentos atrás.~

- E aquele menino? – acabou por perguntar, apesar das muitas hesitações. Dentro do seu interior, havia algo que lhe gritava que era melhor não saber, que era melhor não conhecer o sofrimento que raiava nos olhos daquela criança.

- É o Ángel… - expressou Marta com uma tristeza inegável.

- Porque é que ele está ali? – interrogou Alexis, tocado pelo mesmo sentimento que aterrara Adriana há minutos mas que ela ainda não decifrara.

- Ele tem leucemia… Há alguns dias atrás um dador foi encontrado e portanto começámos a prepará-lo para o transplante… Durante esse processo, há um momento em que o sistema imunitário é enfraquecido, de forma a reduzir o risco de rejeição da nova medula. Isso implica o isolamento total do Ángel porque o mais pequeno vírus pode ser fatal.

- Mas isso é bom, quer dizer que ele vai curar-se! – respondeu Adriana com um sorriso no rosto, mas a mesma estranha sensação dentro de si.

- Não… O dador encontrado…desistiu e agora…agora a menos que um novo dador seja encontrado rapidamente, o Ángel…

- Dios mio – murmurou Adriana, baixando o olhar. Um arrepio percorrera todo o seu corpo. Aquela frase não precisava de ser terminada, todos eles sabiam qual era o seu fim – Nem imagino a dor que os pais dele devem estar a sentir… - confessou, assim que tornou a olhar Ángel. Era Ángel, mas podia ser Thiago, podia ser Emma…

- O Ángel não tem família. O pai morreu pouco tempo após nascer e…a mãe abandonou-o quando soube da doença dele. Ele está entregue a um orfanato – explicou pesarosamente.

Adriana e Alexis não foram capazes de murmurar uma única palavra. Era difícil perceber o que mais lhes doera ouvir: se o facto da vida de Ángel correr um risco incontrolável ou se o facto de Ángel estar completamente sozinho.

- Não podemos visitá-lo? – perguntou Adriana quase num impulso. Algo dentro de si parecia queimar. Sempre que olhava Ángel uma sensação completamente inexplicável se apoderava dela.

- Para entrar no quarto do Ángel é preciso respeitar alguns parâmetros de higiene. Teriam de desinfetar-se, usar uns fatos específicos… É um processo um pouco demorado.

- Percebo – respondeu Adriana – Mas não o podemos fazer?

- Bem…se vocês estão dispostos a dispensar algum do vosso tempo em todo o processo de desinfeção, não vejo qualquer problema em que o façam.

- Então vamos fazê-lo! – disse de imediato Adriana, pegando na mão de Alexis.



***



- Podem entrar – autorizou um assistente após vários minutos em processos de higiene.

Adriana e Alexis entraram no quarto de Ángel que os olhou claramente surpreendido.

- Olá! – saudou Adriana.

- Olá – retribuiu Ángel deixando escapar um sorriso de menino, que quase por magia fez uma pequena lágrima surgir ao canto do olho de Adriana. Era um sorriso tão doce, tão genuíno. Como é que ele era ainda capaz de sorrir daquela forma?

- Eu sou o Alexis e ela é a Adriana.

- Eu sou o Ángel! Eu conheço-te – disse com entusiasmo – Tu jogas futebol.

- Sim, é verdade! Tu gostas de futebol?

- Sim, muito. Mas agora não posso jogar – expressou, mostrando pela primeira uma tristeza aterradora. Naquele momento, Adriana arrependera-se de ter entrado naquele quarto. Olhar Ángel, ouvir a sua voz frágil, mirar os seus olhos vazios de esperança.

- Mas vais poder! – respondeu Alexis com confiança, passando a mão pelo rosto de Ángel num gesto de carinho quase instintivo. Era o que ele fazia a Thiago quando via aquele desalento nos seus olhos.

- Não…Eu sei que vou estar sempre doente – disse com uma maturidade que os impressionou – Antes uma pessoa ia dar-me umas coisas que me iam tratar, mas agora essa pessoa já não quer dar e assim não posso ficar bom.

- Mas vai aparecer outra pessoa – contrapôs Alexis de imediato, quase se querendo convencer daquelas palavras carregadas de uma esperança desmedida – Quantos anos tens? – acabou por perguntar tentando mudar por completo a orientação daquela conversa.

- Tenho 7 anos, vou fazer 8 anos daqui a 12 dias! – expressou mais animado, surpreendendo Adriana e Alexis. Quase 8 anos? Parecera-lhes muito mais novo, muito provavelmente devido à fragilidade da sua saúde…

- E já sabes o que queres como presente? – perguntou Alexis, não deixando de reparar na forma como a mão de Adriana tremia.

- O único presente que eu queria era a medula – respondeu com sinceridade, rompendo com as últimas forças de Adriana que lhe permitiam controlar as suas lágrimas.

- Eu tenho a certeza que vai aparecer outra pessoa que te possa dar medula! – assegurou Alexis com otimismo.

- Porque é que ela está a chorar? – perguntou Ángel, olhando Adriana com atenção.

- Por nada, por nada – respondeu Adriana limpando as suas lágrimas atrapalhadamente – Eu é que choro muito.

- Vocês são namorados?

- Sim, somos.

- E têm bebés? – perguntou com um sorriso curioso nos lábios.

- Sim – falou Adriana mais calma – Temos uma menina com 5 anos que se chama Emma e um menino chamado Thiago com 6.

- São uma família?

- Sim, exatamente. Somos uma família! – concluiu Adriana com um sorriso orgulhoso e maternal.

- Eu não tenho família.

- Eu sei, mas tens pessoas que gostam muito de ti! – respondeu Alexis rapidamente, tentando que aquele olhar vazio de amor voltasse a aparecer em Ángel. Era um olhar que pesava demasiado, que parecia sufocá-lo, queimá-lo.

- Quem?

- Nós! – acabou por dizer Adriana quase num impulso, não segurando aquela necessidade de que Ángel se sentisse amado por alguém – Nós gostamos muito de ti – assegurou.

- Porquê? – interrogou confuso.

- Porque…quando gostamos de alguém simplesmente gostamos. Não conseguimos explicar porquê!

- Obrigado – respondeu fazendo o coração de Adriana mirrar. Ángel estava a agradecer-lhes por gostarem dele? – Vocês estão aqui porquê?

- Nós viemos visitar os meninos do hospital e trazer-lhes alguns presentes. Não temos nenhum para ti porque não podemos trazê-los para este quarto – explicou Alexis.

- Não faz mal! Eu gosto de falar com vocês. É como um presente! – expressou fazendo um sorriso aparecer no rosto de Adriana e Alexis – Vocês vão voltar?

- Claro que sim! – assegurou Adriana – Sempre que pudermos, vamos voltar!

- Ainda bem! Eu gosto de vocês – disse com uma sinceridade tão pura que apenas as crianças podiam conter – Tens um cabelo tão bonito – elogiou olhando Alexis – Queria ser como tu. Mas eu não tenho cabelo…

- Não importa se não tens cabelo – respondeu Adriana – Tu és muito bonito como tu és e nós gostamos de ti assim!

- A sério?

- Claro que sim!



***





- Estás bem? – perguntou Alexis num sussurro apertando a mão de Adriana.

- Não – deixou escapar com sinceridade – Como é que a vida pôde ser tão injusta para o Ángel? – perguntou num misto de incompreensão e revolta.

Alexis não foi capaz de lhe responder. Na verdade, nem havia uma resposta para aquela pergunta que se multiplicava indefinidamente naquele mundo. Apenas a beijou na testa e a aconchegou a si, tentando reconfortá-la.

Naquele momento, estavam sentados numa pequena sala, esperando que fossem chamados para o seu exame sanguíneo. Não seriam capazes de abandonar aquele hospital sem realizar o exame de compatibilidade medular.

O processo foi rápido: uma simples colheita sanguínea que dentro de dias traria respostas e quem sabe uma nova oportunidade para Ángel…



***



- Não entras? – perguntou Alexis, abrindo a porta de casa.

- Não, entra tu porque os miúdos devem estar a chegar. Eu vou falar com a Ana – explicou Adriana.

- Ah vale. Fazes bem – concordou Alexis – Até já.

- Até já – retribuiu despedindo-se com um beijo discreto nos lábios.

Caminhou escassos metros e respirou fundo antes de tocar à campainha de casa de Ana.

Após alguns instantes, Ana abriu a porta. Os seus olhos estavam inchados e vermelhos denunciando cada lágrima que havia escorrido pelo seu rosto assim que Lia saíra juntamente com Emma e Thiago.

- Ana… - murmurou Adriana, sentindo-a cair nos seus braços.

- Eu não percebo como é que isto chegou a este ponto… - soluçou junto ao seu ouvido.

Adriana não foi capaz de dizer nada. Limitou-se a amparar aquelas lágrimas que pareciam doer ao cair sobre a sua pele.

Alguns instantes depois, Ana respirou fundo e convidou Adriana para entrar. Acabaram por sentar-se no sofá da sala, onde Ana estivera enroscada durante todo o dia.

Apesar de Alexis ter já contado tudo a Adriana, ela tornou a ouvir toda a história desta vez da boca de Ana. Percebia que ela precisava de libertar aquele medo, aquela dor…

- Não quero que isto acabe… - confessou Ana por entre lágrimas.

- E não vai acabar – disse Adriana agarrando-lhe as mãos – O Cesc…Ele está a passar uma fase difícil, vocês disseram coisas que não queriam, precipitaram-se.

- Eu sei que a última época aqui foi especialmente má, mas…eu não pensei que isto fosse acontecer desta maneira. Pensei que…que ele falasse comigo, que desabafasse, que quisesse ouvir o que eu tinha a dizer – explicou mais calma.

- Eu percebo-te, Ana. Mas eu acho que ele simplesmente não aguentou toda esta pressão e…tomou esta decisão de forma pouco ponderada.

- Sim, mas está tomada. Não há como voltar atrás!

- Sim, mas é apenas um ano! Passa a correr. Agora com as tecnologias é fácil manterem contacto e estás a duas horas de avião de Londres! – contrapôs Adriana com otimismo.

- Adriana, ele falou no divórcio. Achas que quer manter contacto comigo? – perguntou quase revoltada.

- Ei, isso foram apenas palavras disparadas no calor do momento. Ele queria que vocês fossem e…excedeu-se! Mas em Londres ele terá tempo para pensar. Vais ver que tudo se resolve! – incentivou.

- Espero que sim, espero mesmo… - respondeu Ana desanimada.



***



Uma noite de sono…

Por vezes, era o que bastava para que tudo parecesse menos negro e a esperança aparecesse à espreita.

Ana conseguira finalmente dormir e as palavras de Adriana pareciam ter ganho força dentro de si. Talvez Cesc precisasse de espaço, talvez fosse apenas uma fase, talvez fosse um desafio da vida. Não um fim, apenas um obstáculo.

Ana levantara-se bem-disposta, com uma força nova dentro de si que a encorajava a manter-se forte, porque a vida acabaria por endireitar-se. Para além disso, tinha Lia… Não a podia “abandonar” naquele momento. Também estava a ser difícil para ela e isso era mais uma razão para Ana se manter forte e esperançosa.

Já para Alexis e Adriana, a noite fora mais conturbada, apesar de tal como para Ana ela ter trazido uma nova chama. Os seus pensamentos tinham pairado sobre Ángel durante várias horas. Ele simplesmente não saía das suas cabeças. Aquela esperança irracional de eles poderem ser compatíveis com ele ribombava dentro deles de forma incontrolável. Contudo, um novo dia nascera e o medo transformara-se em esperança, uma esperança inexplicável.

Emma e Thiago tinham de imediato detetado aquela felicidade genuína dos seus pais que contrastava com a forma desanimada como os haviam visto na noite anterior.

Eles foram desfrutando dos últimos dias de férias com a mãe, já que Alexis partira para um torneio de pré-época. A vida assim corria e nunca ninguém a tinha visto parar.



5 dias depois

- Adriana! – chamou Alexis, sobressaltando-a.

- Qué pasa? – perguntou largando o portátil e aproximando-se dele.

- Chegaram os resultados – informou, erguendo dois envelopes.

Adriana apressou-se a pegar na carta que Alexis lhe entregou, mas naquele exato instante a coragem para lê-la parecia ter escapado por cada poro da sua pele…

Preferiu deixar a sua carta de lado e deixar que Alexis abrisse a sua em primeiro lugar.

- Não sou compatível – murmurou visivelmente desiludido.

Apesar de nunca o ter partilhado com ninguém, Alexis alimentara durante aqueles dias uma esperança insana de poder ser compatível com Ángel e de lhe poder doar medula. A desilusão era agora demasiado difícil de suportar…

Aquele resultado deixara Adriana ainda com menos vontade de abrir o seu envelope. E se ela não fosse compatível? E se…ninguém fosse compatível?

- Não vais abrir? – acabou por perguntar Alexis.

Mesmo que não o quisesse fazer, naquele momento tinha transferido toda a sua esperança para o resultado do exame de Adriana. Era agora sobre ele que depositava aquela esperança perigosa…

- Tenho medo…

- Eu sei – respondeu Alexis – Mas…tens de abrir. Podes ser compatível.

- E se não for?

- Logo veremos – disse Alexis claramente sem uma verdadeira resposta para aquela pergunta.

Adriana assentiu com a cabeça, apesar do medo continuar a percorrer cada pedaço de si. Mas tinha de abrir, tinha de saber…

Pegou no envelope e abriu-o, desdobrando a carta em seguida. Levantou-se e percorreu rapidamente o documento com um olhar atento e minucioso.

- É positivo… - murmurou olhando a carta em choque – Dios mio – disse olhando Alexis – Sou compatível, eu sou compatível! – repetiu quase sem conseguir acreditar no que via – Sou compatível, posso doar medula ao Ángel! Dios mio! – celebrou saltando para o colo de Alexis e sentindo as lágrimas a tomar conta dela – Ni lo creo… Dios mio… Gracias, gracias, gracias – sussurrava sem parar, agradecendo a Deus, ao destino, ao acaso. Não sabia o que havia sido, mas agradecia, agradecia aquela oportunidade de salvar uma vida, de salvar a vida de Ángel.

- É positivo – tornou a dizer ao reler a carta – Temos uma alta taxa de compatibilidade… Nem acredito – confessou, sentando-se no sofá, enquanto aquela notícia parecia assentar dentro de si – Eu sei que pode parecer uma comparação totalmente descabida, mas…quando vi este resultado senti algo parecido com o que senti quando vi o teste de gravidez positivo do Thiago – confessou olhando aquele documento que parecia valer uma vida. E valia…

- Eu percebo – murmurou Alexis – Tens uma vida nas tuas mãos tal como nesse dia. Estás bem? – perguntou, sentando-se junto a ela.

- Sim, estou apenas… Ainda não consigo acreditar – admitiu – Eu…eu devia ir ao hospital e… - disse levantando-se de imediato.

- Ei, calma, vale? – pediu Alexis, agarrando as suas mãos – Primeiro, vais assimilar a notícia durante uns minutos e depois vamos ao hospital – aconselhou, sentando-a no seu colo.

- Como é que achas que o Ángel vai reagir? Achas que podemos ser nós a contar-lhe? – perguntou entusiasmada.

- Tu não vais acalmar-te enquanto não fores ao hospital, pois não? – interrogou Alexis com um sorriso.

- Não – confessou Adriana – Vamos? – pediu levantando-se do colo dele e exibindo um sorriso demasiado convincente.

- Ai o que hei de fazer contigo?

- Beijar-me é uma boa ideia – provocou Adriana, roubando-lhe um beijo.



***



Dois dias haviam passado de forma extremamente lenta…

Adriana e Alexis tinham-se dirigido ao hospital e falado com a médica responsável pela situação de Ángel. Ela rapidamente acionara os procedimentos necessários, que começavam por fazer exames mais detalhados para assegurar a compatibilidade entre Adriana e Ángel.

Exames esses que haviam agora chegado e confirmado que o transplante poderia ser realizado. Haviam debatido durante alguns minutos todo o processo pelo qual Ángel e Adriana passariam, bem como os seus riscos. Adriana aceitara tudo o que ouvira e o transplante fora marcado: dentro de poucos dias Ángel teria a sua nova oportunidade.

Assim que Adriana e Alexis saíram do hospital, passaram pelo infantário de Emma e Thiago, levando-os para casa.

- Mamá, porque estamos em casa tão cedo? – perguntou Emma de imediato.

- Porque nós temos de falar convosco. Sentem-se ao pé de nós – pediu Alexis, vendo os filhos sentarem-se no sofá em frente a eles.

- Lembram-se quando fomos visitar os meninos doentes do hospital? – introduziu Adriana, recebendo um aceno positivo dos filhos como resposta – Bem, nós conhecemos um menino chamado Ángel que tinha uma doença chamada leucemia. É uma coisa um bocadinho difícil de vos explicar, mas o que vocês têm de saber é que o Ángel precisava de uma coisa chamada medula. Todos nós temos medula e quando temos medula parecida com a de outra pessoa, podemos dar-lhe se ela precisar. O Ángel precisava de medula e eu tenho medula muito parecida com a dele e por isso vou dar-lhe medula.

- E depois vais ficar sem medula, mamá! – respondeu Emma assustada.

- Não, mi amor, não vou ficar sem medula – explicou Adriana com um sorriso – Eu vou dar apenas um bocadinho de medula, vou ficar com muita medula para mim e o meu corpo também vai fazer mais medula.

- Então não vais ficar doente como o Ángel? – interrogou Thiago desconfiado.

- Não, eu não vou ficar doente, meninos – garantiu Adriana.

- E o Ángel vai ficar bom? – questionou Emma.

- Sim, o Ángel vai ficar bom. Sabem, ele agora está num quarto sozinho, sem poder brincar, porque não tem forças. Mas quando eu lhe der medula ele vai ficar bem e vai poder fazer tudo!

- Então a medula é como um remédio? – perguntou Emma confusa.

- É mais ou menos isso – respondeu desta vez Alexis.

- E isso vai demorar muito? – interrogou Thiago – Vais ter de ficar no hospital, mamá? Eu não quero que fiques lá!

- Eu não vou ficar no hospital. Vocês vão ao infantário e eu vou dar medula. Quando chegarem a casa, já estarei cá – garantiu, tranquilizando-os.

- Hum está bem – acedeu Emma quase como dando autorização à mãe para doar medula.

- Mamá, nós não podemos conhecer o Ángel? – perguntou Thiago, surpreendendo os pais que não esperavam tal questão.

- Vocês gostavam? – interrogou Alexis.

- Sim. Tu não dizes que ele tem poucas forças, papá? Quando eu tenho poucas forças gosto de miminhos. E nós podíamos ser amigos do Ángel para ele não estar sozinho – sugeriu Emma completando o raciocínio do irmão.

- Bem, pode ser uma boa ideia – acedeu Alexis.

- Sim… Amanhã vêm connosco – concordou Adriana, orgulhosa do espírito solidário dos seus filhos.





Como reagirá Ángel à notícia da compatibilidade com Adriana?

Como será o encontro entre Emma, Thiago e Ángel?

Correrá o transplante como planeado?

E Ana e Cesc?

Carla conseguirá mesmo pôr fim ao seu casamento?





No próximo capítulo:



- Mamá, é triste o Ángel não ter papás… - murmurou Emma tristonha – Nós não podemos ser uma família a fingir para ele?



***



- Quem era? – perguntou Adriana ao ver a forma como Ana ficara perturbada com aquele telefonema.

- O advogado – murmurou prestes a romper em lágrimas – O Cesc abriu o processo de divórcio.



***



- Cesc? – murmurou Ana surpreendida ao vê-lo ali – Qué estás haciendo aquí?

- Posso entrar? – pediu calmamente.



***



- Eu estou grávida – sussurrou antes de romper num choro desesperado.



*****





Olá!!!!

Cheguei! Tardei mas cá estou!

Espero que tenham gostado deste cap com várias novidades e acreditem que isto vai melhorar ;)

Queria agradecer à Diana Ferreira que, para não variar, me deu uma ajuda preciosa neste cap! Estava difícil andar para a frente e ela como sempre teve paciência para mim!

Espero pelos vossos comentários (espero mesmo). Acreditem que não há nada melhor do que ler as vossas opiniões, portanto deixem lá uma palavrinha por mais pequena que seja!



Besito

Ana Santos