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terça-feira, 30 de setembro de 2014

157 - "Hoje ninguém sai daqui vivo"



- Então? – perguntou Ana ansiosa.
Era um misto tão incompreensível de sentimentos. Sentir o transdutor sobre o seu ventre era sempre …mágico. Era uma ponte entre aquele pequeno e frágil bebé e o mundo exterior. Mas por outro lado, não era assim que esperava sentir-se na sua primeira ecografia. Medo, medo, medo. Estava sozinha ali e apenas por uma vez tal coisa havia acontecido: quando estivera grávida de Cesc pela primeira vez. Escondera-lhe a gravidez e tudo correra tão mal… No dia em que iria contar-lhe, fora atropelada por Carla e tudo se desmoronara. Cesc ficara tão magoado ao saber da mentira em que Ana se havia refugiado. Ana lembrava-se das lágrimas que a haviam assomado enquanto lhe berrava que faria tudo de novo, que apenas o protegera, que desde o início fora refém daquele medo de não ser capaz de levar aquela gravidez até ao fim como acontecera na sua adolescência. Mas no fim, ele havia-a recebido nos seus braços e ela tinha-lhe prometido que nunca voltaria a fazer uma coisa daquelas. Mas estava a fazer…
Ana queria tanto tê-lo ali, mas não era possível. Ele estava longe em todos os sentidos. Estava provavelmente sentado num sofá no seu apartamento de Londres vendo televisão, ignorando tudo o que se estava a passar.
Gravidez, Carla, aborto, Londres… Uma combinação de fatores que a fez ir buscar uma recordação às suas memórias mais profundas…

 
- Ainda bem que a minha irmã te encontrou! Ana, estava tão preocupado contigo – confessou agarrando o meu rosto entre as suas mãos – Estás bem? Porque rejeitaste as chamadas? – perguntou com desalento,  tristeza mas sobretudo preocupação.
- Porque não queria falar contigo – limitei-me a responder, não querendo abrir aquela ferida.
- E porque não querias? – insistiu – O que fiz de mal? Diz-me, eu posso tentar remediar algum erro que tenha cometido! – disse com algum desespero.
- Hoje estive com a Carla – contei, abrindo o jogo.
- Ela fez-te alguma coisa? – perguntou de imediato visivelmente preocupado.
- Sim. Fez questão de me humilhar e de deixar bem claro que eu não era mulher para ti.
- O que é que ela te disse?
- Disse-me o que eu já tinha pensado. Que só fizeste o pedido por causa da emoção do jogo.
- Não, Ana. Eu queria mesmo fazer-to. Eu não me arrependo minimamente de o ter feito e espero que tu não estejas arrependida da tua resposta – atirou com algum desânimo.
- Não, não estou. Mas…
- Mas…
- Ela disse-me uma coisa que…me assustou – confessei receosa.
- O que é que ela disse, Ana? – perguntou quase me implorando para que lhe contasse toda a verdade de uma vez por todas.
- Que em breve voltarias para aqui definitivamente. Porque Inglaterra é a tua vida e que desde que foste para Barcelona que pensas em regressar – atirei com o medo de ouvir o Cesc a confessar-me que tal era verdade a percorrer-me.

 
O pedido… Ana sorriu com aquela recordação. Tinha sido pedida em casamento em pleno Camp Nou… Que momento, que recordação, que pedaço do passado terminado.
Tinha tudo acabado e no fim Carla estava certa: ele voltara para Londres, Inglaterra e o futebol eram a sua vida. O tempo dera-lhe a razão.
- Está tudo bem – a voz da médica despertou Ana das suas recordações.
- Tem a certeza? – quis confirmar ainda assustada.
- Sim. A ecografia mostra que está tudo bem, sem razão para alarmismos.
- Então porque sangrei?
- Não é assim tão raro ocorrerem hemorragias nas primeiras semanas de gravidez. Foi provavelmente o resultado de alterações hormonais, mas as análises que lhe foram feitas vão ajudar a perceber isso. O importante é que está tudo bem. Os seus filhos estão bem.
- Os meus filhos?! – repetiu Ana num misto de incredibilidade e medo.
- Sim. A ecografia mostra que os dois embriões estão bem.
- Dois? Eu…
- A senhora está grávida de gémeos. Não sabia?
- Não… - murmurou Ana abanando a cabeça completamente desnorteada – A minha primeira ecografia estava marcada para a próxima semana.
- Então…parabéns! Vai ser mãe de gémeos.
- Gémeos… - murmurou Ana em completo estado de choque.

***
 
- Então como te sentes? – perguntou Adriana entrando e aproximando-se da cama onde Ana estava deitada – A médica disse que estava apenas à espera das análises para saber qual foi a causa do sangramento, mas que estava tudo bem. Sentes-te mesmo bem?
- São gémeos, Adriana – lançou Ana, ignorando todas as perguntas – Estou grávida de gémeos – repetiu, levantando o olhar e deparando-se com toda a surpresa de Adriana.
- Gémeos? Parabéns…? – desejou Adriana sem perceber bem se aquela era a palavra indicada para o momento.
- Adriana, eu estou grávida de gémeos! Não tenho pai para um, quanto mais para dois! – berrou deixando escapar todo o seu medo e nervosismo.
- Ei calma, calma. O importante é que estão todos bem – relembrou, calando-se por alguns instantes - Ana, tens de contar ao Cesc – aconselhou Adriana sabiamente recebendo um suspiro como resposta – Tu sabes que é o correto a fazer.
- Eu sei. Mas…está tudo tão complicado, Di. Ainda mais complicado. Parece que a vida se encarrega de tornar tudo cada vez mais complexo e difícil – desabafou frustrada – Só queria que tudo isto terminasse…
- Ana, não digas isso!
- Não me estou a referir à gravidez, Di – esclareceu Ana desanimada – O Cesc continua sem entregar o divórcio. Foi uma encomenda entregue em mãos. Eu sei que ele recebeu os papéis. Só não percebo porque não os entrega! Eu preciso de respostas, de certezas. Ou entrega a porcaria dos papéis ou volta para enfrentarmos este problema. Acredita que apenas desejo que escolha a segunda opção, que possamos recuperar o que tivemos porque…eu ainda o amo. Mas preciso mesmo de uma decisão. Prefiro que os papéis sejam entregues do que continuar nesta dúvida. Estou…cansada, Adriana – finalmente Ana punha em palavras tudo o que a atormentava, finalmente partilhava aquilo com alguém.
- Eu percebo, Ana. E não há nada que possa dizer ou fazer por ti. Apenas…prometer-te que estarei sempre sempre aqui, ao teu lado, a apoiar-te. Venha o que vier.
- Venha o que vier – concordou Ana, recordando os velhos tempos em que aquele era o lema delas: venha o que vier. E o que viria?

***
 
- Têm a certeza que não incomodamos?
- Pela milésima vez, não, Ana, não incomodam! – repetiu Adriana – Precisas de estar acompanhada.
- Mamá, porque precisas de estar acompanhada? – questionou Catarina intrigada.
Ana lançou de imediato um olhar de “para a próxima está calada” a Adriana que se limitou a revirar-lhe os olhos.
- Porquê? – insistiu Catarina.
- Porque toda a gente precisa de estar acompanhada! É mais giro quando estamos juntos, não é?
- Sim – concordou Catarina – Mas se vimos viver para a casa da tia Di e do tio Alexis, porque não podemos ir também para casa do papá?
Ana suspirou. Aquela pergunta que se repetia dia após dia com cada vez mais incompreensão e tristeza.
- Vem cá – pediu Ana, vendo Catarina correr para o sofá onde ela estava sentada – Tu sabes que o pai está longe e que agora não podemos ir vê-lo.
- Mas eu tenho saudades dele – choramingou Catarina.
- Eu sei, mi amor. Mas agora vamos estar cá e vamos ter muita companhia. Vais ter a Emma, o Thiago e o Ángel que chega já amanhã.
- Mas eles não são o papá…
- Eu sei. Mas…tens de ser paciente.
- Está bem, mamá – concordou cabisbaixa.
- Olha – Ana elevou o queixo de Catarina, fazendo com que ela a olhasse – Na próxima semana, vou levar-te a um sítio muito especial e vou dar-te uma novidade que eu sei que vais gostar muito. Mas será segredo, o nosso segredo.
- Um segredo? O que é? – perguntou instantaneamente curiosa e animada.
- É surpresa. Tens de esperar mais um bocadinho para saber, está bem?
- Lia! – Emma apareceu a correr na sala, puxando Lia pela mão claramente entusiasmada com um brinquedo que Alexis lhes mostrara.
- Alexis… - repreendeu Adriana.
- Elas são duas. Precisam de mais brinquedos, não? – desculpou-se, sabendo bem como Adriana odiava que ele ultrapassasse os limites de brinquedos que eles já haviam definido.

***
 
- Finalmente sós – comentou Alexis, assim que sentiu Adriana a deitar-se no sofá, enroscando-se nele.
- É verdade – concordou Adriana, visivelmente cansada – É já amanhã.
- Sim… Estás ansiosa?
- Muito. E ele também. Viste como ele estava entusiasmado hoje? – perguntou Adriana com um sorriso.
- Sim, e os miúdos também estão numa animação sem fim. Foi um desafio adormecê-los!
- Sim…Espero que eles continuem a aceitar o Ángel assim. Às vezes tenho medo que eles…tenham ciúmes.
- Eu percebo. Vamos ter de esforçar-nos bastante para que eles se sintam todos tratados e amados da mesma forma.
- Vamos precisar de estar mais atentos – concluiu Adriana.
- Sim, não vai ser fácil, por causa dos nossos empregos mas…temos de o fazer.
- Sim… Eu estarei em Barcelona nos próximos tempos. Tirando a parte que tenho um desfile dia 3 de janeiro…
- Não te preocupes, eu ainda estarei em pausa e tomarei conta da ocorrência!
- Tens a certeza? Eu não sei… O Ángel continua frágil, os miúdos vão estar sempre por casa e a Ana também não pode fazer muitos esforços e…
- E calma. Eu vou cá estar, a Ana está grávida, não está inválida e para além disso parte da nossa família ainda estará por cá. E mais importante que tudo isso: os nossos filhos não são nenhuns diabinhos, até tivemos sorte…
- Sim, tens razão – concordou Adriana, acabando por sorrir alguns instantes depois.
- Porque estás a sorrir? – questionou Alexis curioso. Aquele sorriso era…intrigante, contagiante. Conhecia-o tão bem. Era o sorriso de boas recordações ou pensamentos!
- Porque tu és a minha bomba de calma e racionalidade – respondeu sorrindo – Se não fosses tu, acho que o mundo já tinha explodido com todo o meu stress.
- Gosto de saber que sou importante para a tua sanidade mental. E já agora para o mundo em geral para que não expluda – gracejou Alexis.
- Tu sabes que és importante para cada parte de mim, não apenas para a minha sanidade mental – respondeu com alguma provocação à mistura – És importante por exemplo para tratares da prenda de natal dos miúdos… - acrescentou desviando-se do caminho que tinha tomado com a sua última frase.
- Tudo tratado, guapa! As três bicicletas estão encomendadas. Na próxima primavera, já vão estrear os joelhos no asfalto de Barcelona… - ironizou.
- Parvinho! – brincou dando-lhe uma palmada no ombro – Acho que todos vão gostar.
- Sim. E vai ser uma forma de mostrar-lhes que têm todos a mesma importância para nós.
- Não tinha pensado nisso, mas tens razão! – Adriana suspirou com satisfação e recostou-se a Alexis – A família está quase a chegar…
- Sim… As saudades já apertam!
- E este ano vêm todos cá. Até os teus irmãos.
- É verdade! Vamos ter a casa cheia. Os miúdos estão radiantes com a ideia.
- Vai ser a oportunidade de conhecerem o Ángel… - relembrou Adriana.
- Vai tudo correr bem! A nossa família conhece bem a situação e o Ángel vai gostar de estar rodeado por pessoas que gostam dele.
- Sim, é verdade… - concordou Adriana, parecendo perder-se em pensamentos desagradáveis.
- Estás a pensar em quê, mi amor? – perguntou Alexis perspicazmente.
- No Cesc. Será que ele vem?
- Eu não sei, já não sei.
- Não falaste com ele?
- Não. E tu?
- Também não. Achas…que devíamos fazê-lo? – questionou Adriana, tocando naquela dúvida que a perseguia há várias semanas.
- Não sei. Mas sinceramente não tenho vontade nenhuma de falar com ele, Di – confessou Alexis com mágoa – Ele desiludiu-me. A cada dia que passa desilude-me ainda mais…Vês como a Ana anda?
- Sim, mas ela devia contar da gravidez!
- Não digo que não, mas ela tem o seu ponto de razão. O Cesc não mostra qualquer interesse por ela! Para todos os efeitos, continuam a ser marido e mulher já que ele ainda não entregou os papéis. Para além disso, estiveram casados por seis anos, viveram tanta mas tanta coisa. Mesmo que o casamento acabe, ele podia esforçar-se por…manter uma amizade, uma boa relação. Mas não. Simplesmente abandonou-a! – contou revoltado.
- Pensas muito sobre isto, não pensas?
- Adriana, isto faz-me lembrar as porcarias que fiz no passado. Estive a um passo de perder-te para sempre por me deixar manipular por uma pessoa que só queria o nosso mal. E o Cesc viu isso, criticou-me, abriu-me os olhos e agora? Agora está a fazer exatamente a mesma coisa. Ou talvez ainda pior! Porque no fundo, eu fiz tudo aquilo por te amar. O medo de te perder fez-me dar ouvidos a quem não devia. Mas o Cesc? O Cesc foi atrás do futebol! Não pensou na família por um único minuto, apenas pensou em si! E olhar para a Ana, ver como ela está…arrasa-me tal como te arrasa a ti. Somos amigos há tantos anos. Barcelona deu uma volta tão inesperada à nossa vida e nós estivemos todos juntos nesses momentos. E agora o Cesc… não consigo aceitar.
- Eu percebo, Alexis. E tens razão: arrasa-me por completo ver a Ana assim. É o mais perto que eu tenho de uma irmã. Estamos juntas desde os 17 anos e sempre fomos tão cúmplices, sempre estivemos lá uma para a outra e agora…vê-la assim. Ela já passou por tanto… - recordou Adriana – E agora que pensei que ela tinha realmente encontrado alguém que a iria cuidar e amar como ela merecia…o Cesc desilude-nos desta forma… - Adriana acabou por suspirar – Mas é melhor não interferirmos diretamente nisto. Só eles podem resolver este problema, apenas podemos…apoiá-los e ajudá-los no que for preciso.
- Sim, tens razão. E a Ana está a precisar do nosso apoio mais do que nunca. Gémeos…
- Não me digas nada. Ela está tão…cansada desta situação. Eu fui vendo que ela estava a aceitar a gravidez melhor do que eu esperava, mas…gémeos. Não imaginas como ela estava assustada quando a fui ver, quando ela me disse que não tinha pai para um filho, quanto mais para dois, fiquei de rastos. Eles queriam ser pais de novo e de repente já nada é igual! – disse claramente indignada com aquela reviravolta macabra da vida.
- Mi amor, percebo que estejas revoltada com tudo isto, mas temos de ser o suporte da Ana. Ela está bem, não está?
- Sim. Ficámos uma hora à espera dos resultados das análises que mostraram que houve uma alteração hormonal. Ela foi medicada apenas por precaução e a médica sublinhou que a gravidez não é de risco, que não houve qualquer ameaça de aborto, foi apenas uma situação pouco frequente, alarmante para a Ana, mas que não tem implicações nenhumas na gravidez. Os bebés estão bem. Para a semana ela tem a primeira ecografia e acho que vai contar à Catarina da gravidez…
- A sério? – perguntou Alexis surpreendido.
- Sim, ouvi-a dizer à Lia que na próxima semana tinha uma surpresa para ela, mas que ela teria de guardar segredo.
- Se a Lia souber, a Ana vai ter de contar ao Cesc antes que ele saiba pela filha.
- A Lia é mais madura do que possamos imaginar. Eu tenho um pressentimento que ela vai ser um apoio enorme para a Ana… - comentou Adriana com uma segurança surpreendente nas suas palavras.
- Nem me atrevo a duvidar dos teus pressentimentos – gracejou Alexis – Hum o que te apetece fazer? Ver um filme?
- Acho que se visse um filme, iria adormecer – confessou Adriana – Apetece-me mais ficar por aqui contigo… - insinuou Adriana, roubou-lhe um beijo.
- Ai sim? – perguntou Alexis provocadoramente, beijando-a suavemente no pescoço.
- Sim. E até podíamos tirar uma foto! – sugeriu animadamente, cortando as intenções de Alexis, que lhe sorriu como se lhe dizendo que sabia bem o que ela estava a fazer. A provocá-lo, a enlouquecê-lo…
Adriana pegou no telemóvel e eles posicionaram-se para uma foto que Adriana subiu nas redes sociais com a legenda “E amanhã um dia muito especial nos espera! #ansiosa”.




- Olha, sabes o que li por aqui há uns dias atrás? – perguntou Adriana, atraindo a atenção de Alexis – Que a Blanca foi para o Brasil.
- Para o Brasil? – perguntou surpreendido.
- É verdade. Por mim podia ter ido para a Austrália ou para a Nova Zelândia que ficam duas vezes mais longe. Mas Brasil não é mau. Temos um oceano a separar-nos e com sorte ela perde-se na Amazónia ou parte os dois pés a tentar dançar samba – desdenhou Adriana.
- És tão mázinha…
- Mázinha o tanas, Alexis! Aquela criatura fez-nos a vida negra! E acredita que me apetecia substituir a palavra “criatura” por uma de 4 letras que a define na perfeição!
- Eu percebo que estejas ressentida, mi cielo. Mas ela é passado e não temos de nos importar com ela.
- Ela voltou a tentar? – perguntou Adriana, disparando uma dúvida que a acompanhava havia vários anos.
- Voltou a tentar o quê? – interrogou Alexis sem perceber.
- Aproximar-se de ti.
- Claro que sim - respondeu com uma sinceridade e uma naturalidade impressionantes quase como dizendo que tal coisa era previsível vinda de Blanca - Logo que nós nos reconciliamos, ela veio a correr com tretas de que estava arrependida e que precisava de uma nova oportunidade para mostrar que apenas queria uma amizade. Mas com a mesma velocidade que veio, foi! Não tens de te preocupar, Adriana. Ela nunca mais se vai meter entre nós, nem ela nem ninguém. Eu prometo.
- Vale, vale. Vou esquecê-la. Mas se poder ser devorada pelos mosquitos, agradeço… - gracejou Adriana – Hum mas mudando de assunto: recebi as minhas fotos do novo catálogo que sai em janeiro. Queres ver?
- Claro! Gosto de ter estas notícias em primeira mão!
Adriana levantou-se e foi até à sua mala, trazendo um envelope que entregou a Alexis. Deitou-se no seu colo, enquanto ele via atentamente as fotos.











- Fantástica como sempre – opinou com um sorriso orgulhoso, dando-lhe um beijo repenicado no rosto – Gosto especialmente desta – elegeu, mostrando a foto em questão a Adriana – Bride [Noiva]… Deram-te um ar mais…jovial! Faz-me lembrar a época em que nos conhecemos e em que nos casámos. Tinhas um toque de…menina, mas no fundo nunca me enganaste…




- Uh tenho um marido perspicaz e só agora é que me apercebi – gracejou Adriana, tirando-lhe as fotos das mãos e pousando-as na mesa de centro.
– Há mais alguma coisa que tenhas percebido? – provocou, sentando-se sedutoramente sobre ele.
- Sim – respondeu no mesmo tom insinuador – Percebi que tens de trazer essa tanga cá para casa para avaliarmos a qualidade produto…
- Quem sabe se já não a trouxe… Quem sabe se não a tenho vestida neste exato momento…
Alexis sorriu enquanto Adriana mordeu o seu lábio. Tinha noite ganha!

***
 
- Não dormes? – perguntou Alexis enquanto sentia os dedos de Adriana rodopiar no seu peito.
- Não consigo… - disse num suspiro.
- Round 3? – propôs Alexis maliciosamente.
- Não… Os nossos 2 rounds deixaram-me de rastos! O meu corpo está exausto, mas a minha cabeça não pára.
- Percebo. Queres falar?
- Não queres dormir?
- Querer quero, mas não vou conseguir adormecer sabendo que estás uma pilha de nervos, ansiedade e tudo mais.
- É já amanhã – repetiu Adriana como uma criança na véspera de Natal.
- Sim, mas se falarmos sobre isso só vais ficar mais excitada.
- Sim, tens razão. Falemos então de…o teu aniversário – lembrou-se Adriana – Já falta pouco mais de uma semana! – disse entusiasmada – Podíamos planear um dia ou uma noite para nós, dependendo dos treinos.
- Guapa, lamento desiludir-te mas tenho jogo nessa noite.
- No, no puede – barafustou Adriana visivelmente aborrecida – Vais passar o dia todo rodeado por 30 homens que vês todos os dias para ao fim do dia ires chutar uma bola? – Alexis ficou surpreendido com as palavras de Adriana – Lo siento – murmurou Adriana – Alexis, lo siento, de verdad – repetiu olhando-o – Sabes como estas datas são especiais para mim e…passei-me. No dia seguinte tens folga, não? Festejamos nesse dia. Será igual.
- Não só terei folga como entrarei em mini-férias de Natal – relembrou, roubando um enorme sorriso a Adriana – E acho que o jogo ajudará a dar-me o presente de aniversário perfeito!
- Pretendes fazer a exibição do século? – gracejou Adriana.
- Não, algo…especial e com que tenho sonhado nas últimas semanas.
- Estás a falar de quê? – perguntou Adriana intrigada.
- É surpresa. Depois vês.
- Alexis! – retorquiu.
- Shiu, está na hora de dormir. Vem cá – pediu colocando a mão no peito, perante o olhar amuado de Adriana – Vem – repetiu, acabando por sentir Adriana a pousar a cabeça sobre o seu peito – Buenas noches – desejou, começando a mexer suavemente nos cabelos de Adriana.
- Conheces-me tão bem… - murmurou com algum “desprezo” sentindo aquele toque embalá-la.

***
 
- Preparado? – perguntou Adriana entusiasmada quando já avistavam a porta do hospital.
- Sim, mamá – respondeu Ángel fascinado vendo a luz que entrava pelo vidro.
Adriana e Alexis estavam junto a ele, agarrando-o pela mão. Finalmente Ángel iria deixar o hospital depois de tantos e tantos meses ali.
Assim que pisaram o exterior, Ángel pareceu render-se a tudo o que via. Brilhava um reconfortante sol de inverno, estava um frio como ele há muito não sentia. Adriana e Alexis olhavam-no encantado, imaginando tudo o que lhe estaria a passar pela cabeça, todas as sensações que estaria a reviver.
- Agora vamos para casa? – perguntou Adriana docemente após lhe ter dado alguns instantes para saborear o momento.
- Sim! – disse entusiasmado.
Casa, lar. Pela primeira vez ele teria um verdadeiro lar, uma verdadeira família.
Entraram no carro conduzindo calmamente pelas ruas de Barcelona que iam sendo alvo da atenção e do fascínio de Ángel.
- Chegámos – anunciou Adriana, assim que Alexis estacionou em frente a casa após 20 minutos de viagem – Esta é a nossa casa, a tua casa – apresentou vendo os olhos castanhos de Ángel a brilhar mirando atentamente a enorme fachada da casa.
Alexis saiu do carro e abriu a porta a Ángel. Normalmente, gostava de abrir a porta a Adriana. Era um gesto de…cavalheirismo e tinha um encanto que parecia ter a capacidade de mostrar a Adriana o quanto ele a respeitava, admirava e cuidava. Mas naquela manhã, todas as atenções estavam focadas em Ángel que ficou alguns instantes admirando a enorme casa, até que Adriana lhe deu a mão e caminhou com ele até à entrada.
- Bem-vindo a casa – desejou Adriana, abrindo a porta do novo lar de Ángel.
- Bienvenido! – gritaram Ana, Lia, Emma e Thiago (quase) em uníssono. Ángel ficou completamente petrificado não esperando aquela receção, mas rapidamente o “choque” desapareceu assim que os pequenos se aproximaram dele, entusiasmados com a sua chegada.
Queriam mostrar-lhe os cantos à casa, apresentar-lhe todas as pessoas, estrear os brinquedos novos. Adriana e Alexis seguiam-nos de perto, contudo deixavam que Emma e Thiago fossem os anfitriões e o apresentassem ao seu novo lar. Era incrível o entusiasmo que os invadia e que contagiava Ángel. Adriana perdia-se a contemplar a surpreendente capacidade de adaptação das crianças. Tanto Emma e Thiago como Ángel pareciam ter estado toda uma vida à espera daquele momento, a planeá-lo infimamente para vivê-lo na plenitude. Mas as crianças eram seres maravilhosos. Tinham a capacidade de viver o presente e de ver o lado positivo de tudo. Viviam para a felicidade e Adriana e Alexis desejavam loucamente que eles continuassem assim: a viver para serem felizes.
Foi impossível separá-los, mesmo na hora de dormir. Acabaram por se deitarem os quatro na cama de Adriana e Alexis que os miravam adormecidos com um sorriso ternurento nos lábios.
Acabaram por dormir num quarto de hóspedes, enquanto Adriana ouvia Alexis vangloriar-se por ter insistido em comprarem uma cama bem grande para o quarto deles.
- Tu querias a cama bem grande para outras coisas, Alexis Alejandro! – atirou Adriana sabiamente.
- Talvez tenhas razão, mas não deixou de ser uma boa ideia! E por falar em “outras coisas”… - provocou rebolando para cima dela.
Começou por beijá-la docemente para depois intensificar o ritmo dos seus lábios. Quando se atrevia já a passar as mãos pelas coxas de Adriana, a porta do quarto abriu-se, fazendo com que se despegassem um do outro numa fração de segundo.
- Mamá? – murmurou Ángel tristonho.
- Qué pasa, mi amor? – perguntou vendo-o a aproximar-se dela.
- Não consigo dormir. Posso ficar aqui convosco?
- Claro. Ven – convidou, desviando-se para que Ángel se colocasse entre eles.
- Então, gostaste deste dia? – aproveitou para perguntar Alexis, também de forma a “refrescar” os ânimos.
- Estou a gostar tanto! Vai ser sempre assim?
- Por enquanto vai ser assim, mas depois terão de ir para a escola, vais conhecer meninos novos, fazer amigos. Mas nós vamos estar sempre aqui e vamos sempre gostar de ti. Isso não muda! – garantiu Alexis.
- Eu gosto muito de vocês.
- Nós também gostamos muito de ti, Ángel – respondeu Adriana, beijando-o na testa carinhosamente, embalando-o para um sono profundo.

***

 
1 semana depois

- Mamá, está a ser mesmo fixe ficar em casa com a Emma, o Thiago e o Ángel! – celebrou Emma.
- Sim, mas já sabes que quando eles voltarem para o infantário tu também voltas!
- Sim, mamá, eu sei. Mas porque é que eu agora não vou à escola? – perguntou intrigada.
- Porque nós agora estamos a viver em casa da tia Di e do tio Alexis e por isso temos de ter muito cuidado com os micróbios. O Ángel esteve doente e agora temos de ter cuidado porque ele ainda está um bocadinho fraco e os micróbios podem ser perigosos para ele. Quando vamos à escola, há muitos meninos e podes apanhar um micróbio e passá-lo ao Ángel quando vens para casa, percebes?
- Ahhh! Sim, agora percebo. Temos de andar muito limpinhos agora, não é?
- Agora e sempre, menina Catarina – retificou Ana, tocando-lhe o nariz com o indicador – Pequeña, lembras-te de a mãe te ter dito que tinha uma surpresa para ti?
- Sim, mamá, vais contar agora? – perguntou entusiasmada.
- Sim, mas antes temos de falar sobre umas regras!
- Regras? – interrogou Catarina confusa e quase assustada.
- Sim. O que eu te vou contar é um grande segredo, não podes dizê-lo a ninguém. Nem à Emma, nem à avó, nem mesmo ao papá.
- Porquê? – perguntou desconfiada.
- Porque é uma surpresa para todos. Temos de esperar mais tempo para lhes contar, percebes?
- Sim, mamá. Já podes contar!
- Primeiro tens de prometer que vais guardar segredo!
- Eu vou guardar segredo, mamá – prometeu Catarina solenemente – Não vou dizer a ninguém, eu juro! Agora qual é a surpresa?
- A mamã está grávida, Lia.
- Grávida? – perguntou chocada por um mínima fração de segundo – A sério? – quis confirmar agora indisfarçavelmente entusiasmada – Tens um bebé na tua barriga? Vou ter um mano?
- Sim, eu estou grávida. Mas não tenho um bebé na barriga. Tenho dois. Vais ter dois manos!
- Dois? – questionou visivelmente surpresa – É possível ter dois bebés dentro da barriga ao mesmo tempo?
- Sim, guapa, é possível!
- E são meninos ou meninas?
- Ainda não se sabe. É muito cedo! Até pode ser uma menina e um menino. Mas, Lia, sabes que tens de guardar segredo, não sabes?
- Sim, mamá, eu sei. Mas estou tão feliz! – confessou com um sorriso adorável no rosto – Há tanto tempo que eu queria um mano e agora vou ter dois!
- Sim, é verdade.
- Porque não podemos contar ao papá? Ele ia ficar tão feliz!
- Vamos esperar mais um bocadinho antes de o fazer, está bem? Até lá vai ser o nosso grande segredo – disse num tom mágico e intimista.
- Como os segredos que aparecem na Barbie?
- Exatamente!
- É um segredo muito importante… - refletiu Catarina pensativamente.
- Sim, muito importante. E é nosso.
- Sim, mamá, é o nosso segredo – concordou Catarina quase com um sentindo de responsabilidade.
- E ainda tenho outra novidade para ti.
- Conta, mamá!
- Hoje tenho a primeira ecografia.
- O que é isso?
- Ecografia é quando vamos ao médico ver os bebés numa máquina.
- Vamos ver os bebés? – perguntou excitada.
- Sim, mas não vai dar para ver bem. É uma fotografia um bocadinho estranha. Queres vir?
- Quero, mamá!!
- Então vamos lá tratar de ti porque estamos a ficar atrasadas.
- Mamá, eu posso ir. Descansa – aconselhou Lia preocupada, fazendo Ana sorrir.
- Lia, eu estou bem. Estou grávida mas posso cuidar de ti na mesma. Pelo menos por agora, depois vou ficar muitoooo gorda e vai ser difícil mexer-me – brincou.
- Não faz mal, mamá. Eu vou ajudar-te! E tu vais ser sempre linda mesmo que pareças uma baleia! – garantiu Catarina, fazendo Ana gargalhar ao mesmo tempo que se rendia à ternura da sua filha. Seria uma baleia linda!

***
 
Lia assistiu a toda a consulta extremamente atenta e…calada, o que deixou Ana com a pulga atrás da orelha. Conhecia bem a sua filha: era uma autêntica metralhadora de perguntas. As notícias eram as melhores possíveis: estava tudo dentro do normal, os embriões estavam ambos a desenvolver-se corretamente e não havia motivos para receios ou cuidados especiais.
- Então gostaste? – perguntou Ana assim que se puseram a caminho de casa.
- Sim, mas, mamá, eu tenho algumas dúvidas!
- Podias ter feito as perguntas quando estávamos na consulta. A Sofía até te podia responder.
- Oh eu sei, mas tive vergonha – confessou timidamente.
- Não precisas de ter. A Sofía é uma grande amiga minha e da tia Di. Foi ela que ajudou a Emma a nascer, sabias?
- A sério? – perguntou surpreendida.
- Sim. E agora vai ser ela a ajudar os teus manos a nascer! Mas tu disseste que tinhas dúvidas…
- Sim… Mamá, os bebés não estão apertados aí dentro?
Ana teve vontade de gargalhar fortemente com a questão da filha, mas conseguiu reduzir toda essa vontade a um sorrisinho incontrolável.
- Eles estão bem aqui dentro. Gostam de estar aqui! Ouviste como os corações deles batiam?
- Sim! Foi tão estranho. Não dava para ver muito bem – opinou Catarina insatisfeita.
- Sabes que é difícil vê-los porque eles estão dentro da minha barriga!
- Pois. Eu vi que a tua barriga estava maior. Eu não tinha visto!
- Como é segredo a mamã tenta esconder a barriga, percebes?
- Mas a tua barriga é tão bonita, mamã! Devias mostrá-la! – aconselhou como se Ana se tratasse de uma adolescente em conflito com as imperfeições do seu corpo.
- Eu sei. Mas lembras-te que isto é segredo. Se eu mostrar a barriga, o segredo acaba e a surpresa fica estragada.
- O papá vai ficar feliz quando souber! – lembrou entusiasmada.
- Sim, mas ele não pode saber. Por enquanto é segredo. Quando ele vier cá, nós contamos-lhe, está bem? – propôs Ana, estabelecendo assim um limite a si própria: quando Cesc viesse a Barcelona, ela contar-lhe-ia, independentemente da questão do divórcio estar ou não resolvida.
- Ele vem cá no Natal, não vem?
Ana suspirou pesadamente, esforçando-se para não tirar os olhos da estrada. Aquela pergunta…
- Lia, o papá não vai poder cá vir no Natal.
- Oh porquê? – perguntou inegavelmente desiludida.
- Porque…ele tem de trabalhar.
- Mas ele tem férias! – contestou revoltada.
- Não, no novo sítio onde está ele não tem férias. Joga no dia a seguir ao Natal.
- Mas podia vir na mesma e depois acordava mais cedo para ir para lá!
– resolveu Catarina com a sua simplicidade infantil.
- As coisas não são assim tão fáceis, mi amor.
- Mas eu tenho saudades dele – choramingou Catarina visivelmente carente pelo carinho do pai.
- Eu sei, mas já falta pouco para estarmos juntos – murmurou Ana, não acreditando nem em uma das suas palavras.
Cesc tinha confirmado a sua ausência através de um banal e frio e-mail, onde apenas dizia que não voaria para Barcelona no Natal, porque considerava que era demasiado desgastante fazê-lo por apenas um par de dias. Dizia também que não fazia questão que Catarina fosse até a Londres porque achava que não havia necessidade de submetê-la àquela viagem e mantê-la longe da restante família. Ana chorara durante horas naquela tarde. Era incrível como ele conseguia sempre desiludi-la mais e mais. Ele magoava-a tanto, porquê? Porque o fazia? Será que não percebia a dor que causava ou será que lhe dava prazer imaginá-la a sofrer? Ana não sabia qual das opções era mais grotesca.
- Mas não tens mais perguntas? – Ana tentou desviar a atenção de Catarina dos pensamentos “errados”.
- Sim – respondeu alguns instantes depois – A doutora disse que eram gémeos falsos. O que quer dizer isso? Não são de verdade? – perguntou intrigada.
- Gémeos falsos são bebés que vão ser diferentes. Há alguns gémeos que são iguais, os manos não vão ser iguais, vão ser diferentes. Isso quer dizer que podem ser dois meninos, duas meninas ou um menino e uma menina!
- E quando vamos saber?
- Talvez na próxima consulta.
- E quando é a próxima consulta? – questionou ansiosa e entusiasmada.
- Ainda falta um bocadinho. Vais ter de ser paciente, está bem?

 
***
 
 5 dias depois

- Meninos, o papá precisa de falar com vocês. Cheguem aqui, por favor – pediu Alexis, atraindo de imediato a atenção de Emma, Thiago e Ángel que estavam concentrados em terminar um puzzle – Amanhã o papá faz anos… - contou com os olhos dos filhos pregados em si – Mas eu vou estar a jogar, não vou poder passar o dia convosco. Mas eu gostava muito que vocês entrassem em campo comigo amanhã.
- Que fixe, papá! Eu quero, eu quero! – respondeu de imediato Thiago verdadeiramente entusiasmado.
- Sim, papá, vai ser giro. O Milán e o Thiago também vão? – perguntou curiosa referindo-se aos filhos de dois dos colegas de Alexis, que tinham sensivelmente a mesma idade que eles e que eram portanto os seus companheiros de brincadeiras.
- Não sei, Emma. Mas o importante é que vocês vão! Será o meu presente de aniversário! – explicou Alexis, roubando um sorriso a Emma e Thiago que rapidamente voltaram ao seu puzzle – Ángel? – chamou Alexis antes que ele pudesse juntar-se a eles.
- Sim, papá?
- Podes vir até aqui um bocadinho? – pediu, incitando-o a sentar-se no seu colo – Não ficaste feliz com a novidade? Não queres ir?
- Eu quero ir, papá, quero muito, mas…
- Mas… - insistiu Alexis, tentando desvendar aquele pormenor que lhe estava a escapar. Algo incomodava Ángel, mas o quê?
- Eu não tenho cabelo… - murmurou cabisbaixo – Eu tenho vergonha de não ter cabelo. 
- Ei – Alexis elevou o seu rosto – Não precisas de ter vergonha de não teres cabelo. Não tens cabelo porque tiveste de lutar contra uma doença e tu ganhaste! Só podes estar orgulhoso de ti, porque eu também estou! Está bem?
- Está bem.
- Está bem, Ángel? – insistiu Alexis perante aquele tom muito pouco convincente – Nós amamos-te, Ángel. E não foi preciso que tivesses cabelo para isso acontecer. Não te esqueças disto: tu ganhaste o jogo mais difícil de sempre!

***
 
Alexis olhou-se por uma última vez ao espelho. Sorriu. Estava satisfeito com o resultado.
Apressou-se a correr pelos corredores do estádio. Tinha alguém para ir buscar!
Assim que Adriana, Emma, Thiago e Ángel o viram, o espanto instalou-se nas suas expressões. Era impossível disfarçá-lo.
- Papá, não tens cabelo – observou Emma surpreendida e sobretudo intrigada.
- Sim, não tenho – confirmou baixando-se junto a eles – E vocês gostam de mim na mesma, não é?
- Claro que sim! – respondeu Thiago sem hesitar, atrevendo-se a abraçá-lo sendo seguido por Ángel e Emma.
- Agora está na hora de entrarmos! – anunciou, levantando-se e aproveitando para beijar Adriana em jeito de despedida.
- A cada dia que passa deixas-me mais orgulhosa de ti – murmurou-lhe ao ouvido, fazendo um sorriso nascer no seu rosto.
Alexis beijou-a mais uma vez, sempre de forma curta e discreta, e seguiu em direção ao túnel de saída com os filhos. Ordenou que Emma e Thiago dessem as mãos e que caminhassem à sua frente, enquanto Ángel lhe agarrava a mão.
- Vamos entrar os dois ali sem cabelo – disse calmamente, atraindo a atenção de Ángel – E não há nenhum mal nisso. Não há nada de errado contigo, Ángel. Eres nuestro ángel, nunca te esqueças disso.
Ángel abriu-lhe aquele sorriso que Alexis já bem conhecia. Era um sorriso de gratidão e de…felicidade pura. Rapidamente se alinharam no túnel de acesso ao relvado. Era dia de Clássico em Camp Nou, que via cada uma das suas cadeiras preenchidas. Iria aquecer naquela noite.
Emma deu uma mão ao irmão e outra ao pai, enquanto Ángel continuou com a sua mão entrelaçada à de Alexis. Eles foram sem dúvida o foco de atenção daquela entrada. O burburinho espalhava-se pelo estádio, pelas notícias, pelas redes sociais. Adriana olhava-os orgulhosamente, vendo o sorriso que se espelhava no rosto de cada uma das pessoas que amava. Seria uma noite inesquecível…
Mais tarde nessa noite, após verem os miúdos festejarem efusivamente a vitória e conseguirem finalmente adormecê-los, Adriana e Alexis dedicaram alguns minutos a escrever um comunicado destinado à comunicação social e a todos os seus fãs em geral em que apresentavam Ángel ao mundo, reconhecendo-o com seu filho adotivo. Informavam ainda que Ángel havia sido sujeito a um transplante medular há escassos meses e estava agora na última fase do seu tratamento. Pediam o respeito pela privacidade deles e que sobretudo não “recalcassem” o facto de Ángel ser adotado. Pediam que expressões como “o filho adotivo” fossem completamente banidas, porque não queriam que qualquer distinção fosse sentida no seio na família. E acima de tudo solicitavam que não explorassem desmesuradamente o assunto da adoção ou do transplante, reivindicando que Ángel era uma criança normal tal como aquela família.


***
 
O Natal chegara e a alegria preenchera a casa de Adriana e Alexis. Na ausência de Cesc, Ana acolhera a sua família na casa de Adriana, aumentando ainda mais a agitação saborosa que se fazia sentir. As crianças eram sem dúvida a alegria da casa. Adriana não conseguia deixar de admirar a facilidade com que Ángel se adaptava às novas pessoas e sobretudo às novas crianças.
A mãe de Ana pressionara-a a falar sobre o seu divórcio, mas Ana pediu-lhe sempre para que esse assunto fosse enterrado, explicando curtamente que era algo muito recente e que a magoava. Após vários pedidos, Ana viu a mãe a acatar a sua vontade. O Natal conseguira-a distrair da confusão que atormentava a sua cabeça, o espírito familiar parecia consolá-la quase por magia enquanto os doces da sua mãe lhe consolavam o estômago de grávida.
A gravidez… Ana mantinha aquele segredo como se dele dependesse a sua vida. Apenas Alexis, Adriana e Catarina estavam na posse da verdade. E surpreendentemente, Lia continuava a guardar aquele segredo de forma irrepreensível. Na intimidade, disparava perguntas incessantes a Ana, mas ela sabia que era perfeitamente normal. Para além de ser uma criança de 5 anos curiosa com a chegada de novos elementos à família, era uma criança que guardava um segredo enorme e que apenas podia falar daquele assunto que tanto a entusiasmava com uma única pessoa. Era difícil, mas Catarina estava a dar conta do recado muito melhor do que Ana julgara. Estava a aguentar-se tão bem em relação…a tudo! Estava a ser o maior alicerce de Ana mesmo que não o percebesse.
E Cesc… Cesc passara o Natal sentado no sofá completamente perdido nos piores pensamentos e nas piores memórias. Quando é que aquele pesadelo acabaria? Nunca?
Estava longe da família pela primeira vez naquele dia. Nunca passara o Natal sozinho, nunca. Era a sua estreia. Curiosamente voaria para Barcelona duas semanas depois. Tinha sido contactado pelo banco, pedindo a sua comparência urgente na agência catalã e surpreendentemente Carla havia-o autorizado a fazer aquela viagem. Tinha uma esperança incontrolável que ela o deixasse ver a família. Queria tanto abraçar Catarina, repetir-lhe ao ouvido que a amava, pedir-lhe que nunca esquecesse aquilo, suplicar-lhe para que tomasse conta da mãe. Queria poder olhar Ana e implorar a Deus que ela pudesse ver nos seus olhos o quanto ele lamentava tudo aquilo, o quanto ele a amava…
Apesar do ânimo sombrio que se fazia viver em Londres, em Barcelona o espírito natalício prolongara-se até à passagem de ano, que tinha sido igualmente celebrada num ambiente bem familiar. Ángel ficara rendido ao enorme espetáculo de fogo de artifício a que tinham assistido no centro da cidade. Nunca antes vira algo tão grande e impressionante. De resto, Barcelona estava a ser uma aventura para ele, que a descobria pela primeira vez. Adriana passeava bastante com os filhos pelas zonas mais calmas e frescas da cidade. Evitava os espaços públicos recheados de pessoas, ciente de que isso poderia pôr em risco a saúde de Ángel.
Voar para Nova Iorque tinha-lhe custado muito. Deixar toda a família para trás tornava-se cada vez mais difícil. Mas o desfile tinha sido um sucesso, Adriana voltara a sentir aquela adrenalina e aquela realização pessoal ao desfilar pela passerelle mais cobiçada do mundo. 






 
No fundo, ela sabia que ela precisava daquilo, que era como um ponto de equilíbrio emocional na sua vida. Precisava de cuidar-se, de alimentar a sua autoestima, o seu ego, para poder estar à altura dos seus desafios familiares.
E ela era feliz assim…

***
 
2 semanas depois

Ana bufou ao olhar o relógio. Eram horas de deixar o trabalho (que estava finalmente a ser produtivo e motivante) e ir até ao banco onde uma “reunião de caráter urgente” a esperava, tal como uma assistente lhe havia reportado por telefone na semana anterior.
Mil e uma razões tiravam toda e qualquer disposição que Ana pudesse milagrosamente ter para se ir enfiar num banco numa tarde de inverno: Ana odiava burocracia, estava frio, teria de levar Lia consigo porque estavam sozinhas e acima de tudo teria de perder-se no armário à procura de algo que disfarçasse os seus (duplos) 4 meses de gravidez.
Ana caminhou até ao quarto e acabou por desencantar algo que ocultasse convincentemente a sua barriga: uma capa que assentava na perfeição para o dia gelado que se vivia em Barcelona.




Agasalhou Lia e saíram calmamente, já que desde que engravidara, Ana adotara um estilo de vida bem mais distanciado do stress da vida quotidiana: se não chegasse a horas, chegaria dois minutos depois e estava segura de que isso não provocaria uma calamidade mundial.
O banco estava cheio e apesar de Ana ter uma hora marcada para a sua reunião, podia apostar que havia reuniões em atraso. Típico.
Retirou o ticket de informações e sentou-se com Lia em duas cadeiras metálicas. Felizmente tinha previsto aquela situação e portanto tinha-se apetrechado com brinquedos suficientes para entreter Lia por várias horas.
Vinte minutos antes, Cesc aterrara em Espanha. Assim que viu Barcelona abraçá-lo, os seus olhos começaram a vaguear incessantemente por cada recanto da cidade. Carla não autorizara uma visita a Lia, por isso, a única esperança que carregava era a de que o destino permitisse que ele visse a família pelas calles que percorria. Mas tal não aconteceu.
Assim que chegou ao banco, esperou que Carla o autorizasse a entrar. Eram as regras e ele conhecia-as bem. Sabia que Carla exigia saber cada passa que ele dava em Barcelona para que pudesse impedir qualquer encontro furtivo.
A autorização chegou e Cesc entrou. O relógio marcava as quatro da tarde.
Escassos passos havia dado, quando ouviu aquela voz doce e entusiasmada que fazia estremecer as suas entranhas:
- Papá! – gritou Lia, não se coibindo de abandonar a mãe e correr para os braços do pai assim que o vira entrar.
Cesc baixou-se e recebeu-a nos seus braços, abraçando-a fortemente. Cinco meses sem ver aqueles caracóis castanhos, cinco meses sem tocar aquela pele macia e frágil, cinco meses sem ouvir a sua voz carregada de alegria e pureza, cinco meses sem sentir aquele aroma a pureza e inocência.
- Papá, te he echado de menos! – confessou Lia, agarrando-se ao pai com uma força descomunal quase temendo que algo o roubasse dela. queria prendê-lo a ela, certificar-se que nunca mais estaria longe dele.
- Yo también te he echado de menos, mi pequeña – murmurou Cesc ao seu ouvido, não conseguindo evitar que as lágrimas rolassem pelo seu rosto.
Sem dúvida, a melhor sensação daqueles últimos cinco meses.
Saboreava aquele momento que tanto imaginara e almejara de forma intensa e minuciosa. Finalmente podia apertá-la nos seus braços, provar-lhe como a amava, sentir aquele amor ingénuo e puro.
Contudo, aquela sensação rapidamente o abandonou, sendo substituída por um sentimento de medo, de insegurança, de desconfiança. Não, aquilo não devia acontecer. Carla nunca o permitiria, a menos que…tivesse sido ela própria a provocá-lo…
Assim que aquele pensamento o abalou, Cesc pegou em Catarina com a intenção de sair dali antes que algo acontecesse. Mas era já tarde demais…
- Mãos em cima do balcão já! – berrou Carla à entrada da agência bancária, apontando uma arma ao funcionário que tinha na sua frente e que fez o que ela ordenou naquele mesmo segundo – O resto tudo no chão! A primeira bala vai para quem abrir a boca!
A sua ordem foi satisfeita numa questão de ínfimos instantes. À exceção do funcionário, cada pessoa estava prostrada no chão, completamente preenchida por um medo que valia vidas.
Carla sorriu. Aquele poder, aquela supremacia… A sua mãe tremia, enquanto a apontava ao funcionário que continuava imobilizado, na esperança que isso lhe poupasse a vida. Um brilho demente aparecia nos olhos de Carla. A adrenalina percorria-a, fazendo sentir-se viva, poderosa, feliz. Sim, ela estava feliz como não se lembrava de estar havia vários anos.
Ana estava completamente perdida. O seu coração parecia ter sido comprimido pelo pânico até a um ponto biologicamente impossível. Carla. O que é que ela queria? Tudo menos dinheiro… Aquilo não era um assalto, Ana sabia-o, era claro como água. E Cesc…Cesc não estava ali por mera coincidência, nada do que acontecera naqueles meses fora o que parecera. Foram aqueles dois pensamentos que trespassaram Ana de imediato sem que ela se apercebesse. Não era algo racional, era puramente instintivo. Um instinto tão forte que se transformava numa certeza incontestável.
Era como se Carla fosse uma peça de um enorme e confuso puzzle, uma peça-chave que fazia todas as outras peças se encaixarem. Mas apesar do puzzle estar completo, continuava confuso e incompreensível.
Algo dentro de Ana lhe dizia que Carla estava ali pela sua família, que lhe assegurava que Carla estava intimamente relacionada com tudo o que acontecera nos últimos meses. Não percebia como, porquê ou de que forma. Era apenas um instinto.
À sua volta, dezenas de pessoas estava deitadas no chão, reféns de um pânico silencioso, não imaginando que simplesmente haviam sido apanhados numa história que não era sua.
Cesc e Lia estavam alguns metros à sua frente. Cesc mantinha Lia parcialmente debaixo do seu corpo, claramente com o intuito de a proteger.
- Isto pode correr bem para todos, ou melhor – corrigiu Carla – para quase todos – lançou com um sorriso trocista e insano – Mas para isso vais ter de fazer exatamente o que eu mandar – explicou Carla mantendo a arma bem perto da cabeça do funcionário – Caso contrário – o seu tom brando transformou-se num tom ameaçador, perigoso – Eu matarei cada uma destas pessoas e deixar-te-ei vivo a sentir o peso de cada uma destas mortes e a raiva de todos os familiares que perderam alguém por causa da tua imprudência. Presta atenção ao que te digo. Tudo vai correr bem se não te armares em espertinho e chamares a polícia. Vais começar por pegar no telefone e mandar todos os teus colegas saírem do edifício. Não me importa se dizes a verdade, ou se mentes, a única coisa que quero é que todos saiam em dois minutos sem sequer pensarem em chamar a polícia. Percebido? – perguntou ao funcionário que continuava completamente paralisado – Percebido?! – berrou encostando a arma à testa do funcionário que apenas conseguiu murmurar um “sim” carregado de medo.
Carla observou-o meticulosamente enquanto ele falava ao telefone, até que ele lhe indicou que todos os funcionários tinham sido evacuados do edifício.
- Muito bem… - elogiou cinicamente com um sorriso de satisfação – Tu – Ana estremeceu assim que Carla a olhou, apontando a arma na sua direção. Os seus olhos estavam preenchidos por um ódio tão grande, por uma insanidade tão assustadora – E vocês – Cesc viu Carla encará-los – Para aquele canto, os três, JÁ! – ordenou vendo a sua ordem ser cumprida em escassos segundos – Vocês – falou olhando com altivez a multidão assustada e prostrada no chão – Podem ir. Tenham um bom final de tarde - desejou com um sorriso irónico que petrificou cada uma daquelas pessoas – JÁ! Ou querem um pedaço de chumbo enterrado na cabeça? – perante a ameaça irritada de Carla que não vira a sua ordem cumprida da forma que gostaria, a multidão apressou-se a sair de forma atrapalhada, devido ao pânico que os assolava e que se traduzia naquela urgência de sair dali.
- Também podes ir. Foste muito prestável – elogiou Carla num tom cínico, olhando o empregado claramente apavorado que tal como as restantes pessoas saiu a correr do edifício, provocando uma gargalhada prazerosa a Carla.
Entretanto, Lia refugiara-se nos braços de Ana que tentava a todo o custo tranquilizá-la e abafar o seu choro, com medo que ele pudesse provocar algum tipo de reação agressiva por parte de Carla.
- Mamá, tengo miedo – murmurou Catarina, agarrando-se fortemente à mãe.
- Yo sé – respondeu-lhe Ana tremendo e sentindo as lágrimas de pânico a aparecerem no seu rosto – Yo también.
- Ora, ora, o que temos aqui… - comentou Carla olhando-os com satisfação – Então, pequeña, por que choras? – perguntou aproximando-se e preparando-se para tocar no rosto de Catarina.
- Não lhe toques! – bradou Ana, recebendo uma impiedosa e disciplinadora bofetada como resposta àquele seu laivo de insolência.
Cesc levantou-se num impulso, revoltado pelo que vira, com intenção de partir para o confronto físico com Carla.
- Senta-te já! – ordenou Carla descontrolado encostando o tubo da arma à testa de Ana, que sentiu o seu coração disparar de forma inacreditável.
Cesc sentou-se vagarosamente, erguendo as suas mãos no ar, tentando a todo o custo acalmar Carla. Ela acabou por se afastar deles, vagueando pensativamente pela sala, até que minutos depois os voltou a olhar com atenção.
- Que bonito. A família novamente reunida… - constatou com um perigo latente na sua voz.
- Deixa-as ir, Carla – implorou Cesc calmamente, tentando não enfurecê-la – Isto é entre nós, elas não têm nada a ver com isto.
- Calláte, Cesc – ordenou por entre dentes – Elas têm a ver com isto, têm muito. Tudo o que te possa provocar dor tal como me provocaste a mim tem a ver com isto – respondeu com os olhos carregados de ódio e loucura.
Após aquele pequeno pico de tensão, que revelara as suas intenções, Carla tornou a afastar-se. Olhou atentamente o exterior do edifício, acabando por fechar todos os estores. Olhava o relógio impacientemente e assim que começou a ouvir o aparato policial e jornalístico, largou o sorriso mais satisfeito daquela tarde.
Encarou Cesc, Ana e Lia, fazendo-os estremecer.
- Está tudo a correr como planeado – contou como se sentisse a necessidade de partilhar o seu sucesso com alguém. No seu interior, a satisfação, a adrenalina e a expetativa misturavam-se num cocktail explosivo. Os seus ohos miravam atentamente o telefone. Ana e Cesc podiam perceber qe ela esperava algo. Segundos depois, o telefone tocou e um sorriso repleto de supremacia apareceu nos seus lábios. Ela esperou alguns segundos, quase como saboreando o toque do telefone, e acabar por atender.
- Comandante López, estou a falar com quem?
- Carla, Carla Dominguéz – respondeu com uma excitação secreta que era capaz de camuflar de forma impressionante.
- Carla, o edifício está cercado. Por favor, entregue-se.
- Não – negou perentoriamente – Eu não me vou entregar e tão pouco vou libertá-los – garantiu com algum descontrolo. Não era assim que as coisas deviam acontecer. não era assim que as tinha planeado!
- Calma – pediu o comandante claramente tentando tomar o controlo sobre as emoções de Carla – Podemos negociar – sugeriu num tom de cedência.
- Sim, negociar! – concordou Carla de imediato, desta vez sem conseguir esconder a sua satisfação. Sim, era assim que as coisas deviam acontecer – Quero um helicopetro e 500 mil euros o mais rápido possível.
- Carla, o que nos está a pedir é algo muito complicado. Precisamos de uma prova da sua boa fé neste acordo. Liberte um dos reféns, a criança…
- Não! Eu tenho a arma, eu tenho os reféns, eu decido! – respondeu, desligando o telefone bruscamente, sobressaltando Ana, Cesc e Lia.
Lia continuava naturalmente aterrorizada. Ana e Cesc tentavam a todo o custo acalmá-la, receando que entrasse num pânico incontrolável. Não tinham trocado uma única palavra. As suas mentes estavam demasiado confusas e atormentadas para o fazer.
- Cesc – a voz de Carla assustou-o, apesar do tom sereno com que ela o chamara – Lembras-te como eu gostava daquele filme do metro, o Assalto ao Metro 123? Via-o vezes sem conta – recordava com um olhar totalmente dominado pela demência – Adorava ver as ameaças, o choro dos reféns, os disparos, as mortes, as negociações…Secretamente, eu estava a torcer pelos crimosos desde o ínicio. Mas nunca te dizia isso com medo que me achasses louca – confessou com deceção – Eles tinham as suas razões para fazer aquilo – disse agora mais revoltada – Mas ninguém queria saber. Nunca ninguém quer saber de nós – acrescentou com raiva – Eu tenho a minha razão para cá estar: tu, Cesc, tu. Eles que se entretenham a arranjar o helicopetro e a porcaria do dinheiro. Não me importo. Hoje ninguém sai daqui vivo – ameaçou com um descontrolo aterrador – E a culpa é tua, Cesc – atirou completamente fora de si, com algumas lágrimas dementes a rolar pelo seu rosto. Eu amava-te tanto e tu…tu não quiseste saber. Tu deixaste-me, tu abandonaste-me. E eu não vou perdoar isso, não vou.

***
 
- Estás bem? – perguntou Alexis sentindo Adriana estranhamente inquieta.
- Não sei – confessou desconfortável – Sinto algo…estranho. Como..um mau pressentimento. Não consigo explicar.
- Ei calma, está tudo bem. Estamos a chegar a casa. Vais ver que está tudo bem com os miúdos.
Adriana apenas assentiu com a cabeça, apesar daquelas palavras não terem sido capazes de a acalmar.
Minutos depois, chegaram a casa. Alexis estacionou e Adriana apressou-se a entrar em casa. Pôde de imediato ouvir as vozes dos filhos. Caminhou até ao quarto de atividades e espreitou pela porta entreaberta, podendo assim ver que eles cantavam músicas infantis na companhia de Graziela.
Adriana suspirou aliviada mas aquela sensação não desaparecera. Caminhou até à sala, mentalizando-se de que deveria estar cansada, apenas isso.
Contudo, assim que chegou à sala, viu Alexis completamente petrificado em frente à televisão, pálido como Adriana nunca vira.
Olhou o televisor e sentiu-se colapsar.
 “Cesc Fabrègas, esposa e filha, reféns em banco de Barcelona”
As imagens mostravam o enorme aparato que se vivia à volta do banco, constrastando com o edifício que se encontrava cerrado, sem qualquer perceção de movimentos no interior.
Adriana apressou-se a tentar sair de casa, mas Alexis rapidamente a agarrou.
- Calma, eu vou falar com a Graziela, explicar-lhe a situação e pedir-lhe que fique com os miúdos. Vai tudo correr bem – garantiu calmamente – Por favor, espera por mim. Estás demasiado nervosa para conduzires – advertiu, antes de a deixar e de se encaminhar para o quarto dos miúdos. Falou com Graziela, que não pôde esconder o seu choque, e pediu-lhe que ficasse com os miúdos sem lhes revelar a situação.
Assim que voltou ao hall de entrada, Adriana não se encontrava lá. Olhou o exterior e viu que o carro já não estava no local onde ele o estacionara minutos antes.
- Puta madre… - murmurou, correndo para a garagem e pegando noutro carro.
Assim que chegou ao local, foi fácil perceber onde estava Adriana. Uma multidão de jornalistas cercava-a enquanto ela barafustava descontroladamente com o responsável da missão de resgate, que apenas lhe dizia que estavam a fazer tudo o que lhes era possível, o que obviamente não bastava para Adriana.
Alexis foi empurrando todos aqueles jornalistas, sedentos de um escândalo, e amarrou Adriana, puxando-a para fora daquela confusão, apesar da resistência dela que insistia em tentar libertar-se dos braços de Alexis enquanto bradava para que a largasse.
Assim que chegaram a um ponto mais recatado, Adriana quebrou por completo. O seu nervosismo e o seu pânico tinham dado lugar a um medo terrível que a atirou para os braços de Alexis completamente desolada.
- Tudo vai correr bem. Temos de ter fé – murmurou Alexis ao seu ouvido.

***
 
- Carla, eu nunca te quis magoar. Eu lamento muito – disse Cesc tentando arranjar um caminho por onde demovê-la.
- Eu sei o que estás a tentar fazer, Cesc, e aconselhava-te a parares. Não sou estúpida, por isso pára – ordenou num tom ameaçador.
- Deixa a minha filha ir – suplicou Cesc em desespero – Ela não tem culpa nenhuma em nada do que está a acontecer. Tens-me a mim, tens a Ana, é por nós que sentes todo esse ódio, tens tudo o que precisas para te vingares. Deixa-a ir, por favor, Carla. É a única coisa que te peço – implorou.
- Hum, acabaste de me dar uma excelente ideia… - confessou Carla. Era notório que toda aquela súplica desesperada de Cesc lhe alimentava o ego e a loucura de forma perturbadora – Tens razão. Vocês bastarão para me vingar. E tu não imaginas como, não é, Ana? – Carla olhou-a de forma perscrutadora com um sorriso provocador no rosto e Ana teve a certeza: ela sabia, ela sabia que ela estava grávida – Ela vai sair. Vai para perto da porta – ordenou num tom rude, olhando Lia de forma cruel. Contudo, Catarina apenas conseguia chorar completamente aterrorizada.
- Mi amor, vai tudo correr bem – murmurou Ana num tom carinhoso – Tens de ir.
- Eu tenho medo.
- Eu sei – disse desta vez Cesc – Mas tens de ser corajosa, está bem? Vai tudo correr bem, o pai promete.
- Nós amamos-te muito, pequeña. Nunca te esqueças disso – sussurrou-lhe Ana, temendo fortemente que aquela fosse a última vez que poderia dizer aquilo à sua filha.
- Vamos! – berrou Carla exasperada.
Ana e Cesc beijaram a filha e viraram-na partir para junto da porta. Entrelaçaram as mãos, partilhando a dor e o medo que os invadia naquele momento. Nunca antes haviam sentido algo tão tortuosamente devastador. Não confiavam em Carla, mas sentiam que aquela era a única oportunidade da sua filha sair dali ilesa.
- Esperemos que os senhores agentes não sejam muito impulsivos – comentou com um sorriso maquiavélico, antes de repentinamente esticar a sua arma e disparar três vezes em direção ao vidro que tinha à sua direita, estilhaçando-o por completo. No mesmo instante, abriu a porta e empurrou Lia para o exterior.
- No! – berrou Ana ciente do que poderia acontecer naquele instante. Carla havia disparado para provocar e deixar a polícia em alerta máximo. Qualquer movimento poderia custar uma bala e Lia era esse movimento…

***
 
Três disparos foram sentidos no exterior, dando origem ao pânico geral. Contudo, ninguém ficou ferido. No mesmo segundo, a porta abriu-se e as armas ficaram mais a postas do que nunca.
- No, no! Es Lia! – berrou Adriana de imediato assim que vira Catarina, que começou a correr assustada. Adriana ultrapassou o perímetro de segurança, sem que a polícia conseguisse impedi-la, e correu até Lia, abraçando-a fortemente, sentindo o medo avassalador da menina. Como é que tanto medo podia caber dentro de alguém tão pequeno?
- Deixem-na! – gritou protectoramente, assim que sentiu a polícia aproximar-se, claramente com intenções de falar com Lia para perceber melhor o cenário que se vivia dentro da agência.
Adriana pegou-a ao colo e caminhou para longe, sendo “escoltada” por Alexis. Acabaram por entrar numa ambulância, onde Adriana e Alexis abraçaram Lia por vários minutos. O seu pequeno corpo tremia incessantemente e foram precisos longos instantes para que ela conseguisse ficar ligeiramente mais calma.
- A mamã e o papá estão lá – foi a primeira coisa que Lia disse assim que conseguiu ter a capacidade de dizer algo – Há uma mulher. Ela bateu na mamã. Ela conhece a mamã e o papá, sabe o nome deles. Ela chama-se Carla.
De imediato, o cérebro de Adriana juntou todas as peças: Carla. Alexis saiu da ambulância e contou tudo o que sabiam à polícia: o facto de Carla ser a ex-namorada de Cesc, de ter atropelado Ana intencionalmente e de isso lhe ter valido um internamento psiquiátrico já que sido considerada inimputável devido a perturbações psicológicas.

***
 
Nenhum tiro se ouviu. Os segundos passaram e nada se ouviu, apenas um enorme alarido vindo do exterior.
Ana e Cesc concentravam-se loucamente em tudo o que ouviam, desejando não ouvir aquele som. E não ouviram.
- Hum safou-se bem a miúda… - comentou Carla num tom trocista. Sabia que aqueles segundos tinham causado um sofrimento ímpar a Cesc e Ana e isso não deixava de lhe causar um prazer desumano – Bem, isto está muito monótono. E se falássemos um pouco? – gracejou – Então, não têm vontade de falar? Nem tu, Cesc? – perguntou olhando-o provocadoramente – Vale, começo eu então… Comecemos pelo início. Estão confortáveis para ouvir, não? – perguntou num tom irónico – Bem, eu não gostei de ter falhado o meu alvo quando te atropelei, Ana… Pensei que te ia limpar de uma vez por todas da minha vida, mas não… Tu resististe e até pensaste que te tinhas livrado de mim. Mas quem tem dinheiro tem tudo… - gabou com supremacia – E é fácil perceber quem precisa de dinheiro quando estás fechada numa clínica por anos e anos e anos – disse não escondendo a sua raiva – Oferece-se dinheiro, choraminga-se um pouquinho dizendo que sair dali apenas nos fará bem e puff! Conseguimos. Eles aceitam o dinheiro, dizendo que sim, que talvez estejamos apenas a precisar de sair. Mas no fundo eles sabem que não. É apenas uma forma de tirarem aquele peso da consciência…Assim que saí, não perdi tempo – contou com entusiasmo e orgulho pelos passos que havia seguido – Rodeei-me das pessoas certas e bastaram uns meses para poder avançar. E avancei, não foi, Cesc? Queres ser tu a contar esta parte? – propôs com sarcasmo, não recebendo uma única palavra como resposta. Cesc e Ana apenas a olhavam sem conseguir exprimir uma única emoção. Pareciam estar anestesiados pelo medo. Carla estava louca, tão louca… - Eu encontrei o Cesc e obriguei-o a fazer tudo o que ele fez. Eu sabia cada passo que vocês davam. Quando saíam, quando entravam, a que horas a menina chegava à escola, quando lanchava, quando estava no recreio, quando iam às compras, quando iam ao parque, o que vestiam, o que comiam, tudo! – disse com demência. Agora sim, Ana tinha a explicação para tudo. O seu Cesc nunca tinha desaparecido, tinha apenas feito uma escolha: proteger a família – E não, ele não te podia ter dito porque eu saberia e acabaria com vocês no mesmo instante – garantiu Carla com rancor – Vês, Cesc? Ela diz que te ama, mas nem sequer percebeu o que se passava contigo. Eu teria percebido, eu teria percebido… - repetiu descontrolada, enquanto Ana olhava Cesc pelo canto do olho quase implorando-lhe para que a desculpasse – Mas agora é a tua vez, Ana. Revela o teu segredinho, ou melhor, o teu duplo segredinho – desafiou jocosamente, não recebendo qualquer resposta por parte de Ana. Já Cesc estava extremamente intrigado. Segredo? Que segredo? Do que é que Carla falava? – Não queres fazê-lo? Hum vale tentemos à minha maneira então. Levanta-te – ordenou num tom rude – Já! – berrou apontando a sua arma em direção a Ana, perante a sua passividade.
Ana suspirou e respeitou aquela ordem. Levantou-se e olhou Carla de forma expectante. Não era assim que as coisas deviam ser. Cesc iria ficar magoado, era uma situação horrível para lhe revelar que estava grávida. Como é que Carla sabia?
- Tira a capa – ordenou – Tira-a já! – repetiu furiosa perante a hesitação de Ana.
Ela respirou fundo e retirou a sua capa, revelando a sua barriga. O choque trespassou Cesc, sem que ela conseguisse escondê-lo. Ana estava grávida?
- Achavas que eu não sabia o que fizeste há quatro meses atrás, Cesc? Achavas?! – berrou exaltada – Diz-lhe o resto. Diz de uma vez e não ouses enervar-me! – ordenou olhando Ana, que não conseguia segurar as suas lágrimas.
Cerrou os seus olhos e deixou escapar aquelas palavras:
- São gémeos – murmurou sem atrever-se a olhar Cesc. Não aguentaria ver a deceção, a dor, a mágoa. Ela tinha escondido algo demasiado importante. Quem sabe se tudo não teria sido diferente se ela tivesse contado a verdade. Talvez não estivessem ali, talvez tivessem conseguido escapar…
- Muy bien – elogiou Carla com um sorriso dementemente satisfeito – Senta-te – ordenou antes de simplesmente se afastar um pouco, saboreando mais aquela pequena vitória. A surpresa, a mágoa, a dor, a desilusão… Hmm, tudo tão bom! Foi-se aproximando de algumas janelas tentando observar o exterior.
- Lo siento – murmurou Ana em lágrimas assim que se sentou junto a Cesc.
- Ei no pasa nada – respondeu-lhe Cesc num tom reduzido e impercetível a Carla, enquanto limpava as lágrimas salgadas de Ana.
- Perdonáme – suplicou em desespero.
- Não há nada a perdoar, mi amor. Fizemos escolhas que pensamos ser as melhores. Não eram, mas…são apenas erros.
- Tengo tanto miedo – confessou não conseguindo fazer o seu corpo parar de tremer.
- Va todo a salir bien – disse Cesc num jeito de promessa – Eu sei que é difícil, mas…tenta manter-te calma, vale? Por eles – pediu, colocando a sua mão sobre o ventre de Ana. Pela primeira vez naquela tarde, ambos estavam a sentir algo que se aproximava ligeiramente à alegria e à felicidade.
- Yo te quiero, Cesc. Necesito que lo sepas y que no lo olvides, pase lo que pasar.
- Yo también te quiero mucho, mi reina. Y no va a ser la última vez que te voy decirlo.
- Prometes?
- Prometo – jurou Cesc, ciente que estava a fazer a maior e mais arriscada promessa da sua vida, porque já não estava nas mãos dele cumpri-la…

***
 
- Eu quero a minha mamã e o meu papá! – choramingou Lia mais uma vez.
- Eu sei, mi amor – disse Adriana num suspiro – Eles estão quase a sair, está bem?
- Aquela mulher vai fazer mal aos meus papás. Eu não quero que eles vão para o céu, eu quero que eles fiquem aqui comigo! – gritou assustada afogada nas suas pequenas e devastadoras lágrimas. Lia percebia tão bem o que estava em jogo.
- Alexis, fica um pouco com ela. Eu tenho de falar com a polícia – disse Adriana levantando-se.
- Adriana, é melhor não…
- Fica com ela! – berrou Adriana sem conseguir controlar as suas emoções.
Passou as mãos pelo rosto bruscamente, sabendo que estava a entrar num estado de descontrolo total. Ainda assim saiu da ambulância e dirigiu-se ao comando das operações.
- Porque é que eles ainda não saíram? – perguntou rudemente – Já passaram 4 horas desde que estão ali fechados.
- Nós estamos a fazer o nosso trabalho. Peço-lhe que não interfira.
- Que não interfira?! – repetiu Adriana exaltada – Duas das pessoas mais importantes da minha vida estão fechadas naquele edifício há 4 horas com uma louca que tem uma arma em sua posse. E até agora o que fizeram? Nada!
- Temos estado a negoc…
- A negociar?! Ela não quer helicópteros ou dinheiro! Ela quer matá-los, quer vingá-los. Vocês têm de entrar e tirá-los de lá já!
- Há vidas em jogo, eu não posso mand…
- Sim, há vidas em jogo! Quatro lá dentro! A Ana está grávida de gémeos – a expressão do comandante alterou-se de imediato. Havia mais vidas em jogo – E não come há 5 horas, está exposta a um stress enorme. Eu quero-os aqui e quero-os já! – mal Adriana proferiu aquelas palavras, um tiro fez-se ouvir sobressaltando cada pessoa ali presente.

***
 
Durante mais de duas horas, Carla não dirigiu a palavra a Ana ou Cesc. Ia passeando pela agência bancária, esfregando a sua arma, espreitando o exterior. O telefone voltou a tocar e após alguns minutos de conversa com o comandante das operações de salvamento, Carla desligou-o com satisfação. Era óbvio que estava apenas a entreter a polícia.
- Carla, a Ana precisa de ir à casa de banho – murmurou Cesc a medo. Contudo sabia que Ana não conseguia aguentar mais, principalmente no estado em que estava.
- Ela que vá. Mas se demorar mais de dois minutos pode ser que já não tenha companhia quando voltar – ameaçou Carla, insinuando que qualquer passo em falso custaria a vida de Cesc.
Ana levantou-se e correu para a casa de banho. Aproveitou para passar água pelo seu rosto e respirar fundo um par de vezes. Depois regressou. Pouco mais de um minuto tinha passado.
Voltou a sentar-se junto a Cesc e encostar-se a ele. Cesc envolveu-a num abraço carinhoso, sentindo a cabeça de Ana pousar no seu ombro. Era óbvio que ela estava exausta. Toda a carga emocional a que estavam sujeitos era esgotante. Para além disso, Ana carregava dois bebés.
Outro par de horas passou e nada mudou. Apenas o comportamento de Carla. Com o passar do tempo, aquela excitação parecia dissolver-se em nervosismo e desnorteamento. Contudo, Ana e Cesc não se atreveram a dizer nada, mesmo que aquele pudesse ser um bom momento para tentar demovê-la.
E outra hora passou… Carla estava visivelmente descontrolada, perdida, nervosa.
- Isto não tinha de chegar aqui! – berrou sobressaltando-os – Mas tu magoaste-me, Cesc, magoaste-me tanto – disse com lágrimas insanas a escorrer pelo seu rosto – Eu amo-te tanto, podíamos ser tão felizes, mas tu não queres. Fizeste-me chegar onde eu não queria.
- Carla, tem calma, por favor – implorou Cesc – Não precisas de fazer isto. Vais estragar a tua vida.
- Não! Tu é que estragaste a minha vida. Agora é a hora de receberes o teu castigo. Ela vai morrer porque ela ocupou um lugar que não era dela. E tu vais sofrer tal como eu sofri. Por toda uma vida. E eu poderei passar o resto da minha vida numa prisão, mas passá-lo-ei feliz. Na minha mente, só a verei morta e só te verei completamente arrasado – disse com os olhos preenchidos de uma loucura inqualificável.
Cesc sabia que ela iria mesmo fazê-lo. Era a sua última oportunidade. Levantou-se e surpreendeu-a, atacando-a. Agarrava-a, tentando a todo o custo tirar-lhe a arma que ela segurava fortemente na sua mão direita.
- Vai embora, Ana! – berrou Cesc – Vai!
Ana levantou-se completamente desnorteada sem saber o que fazer. Cesc e Carla estavam numa luta intensa corpo a corpo. Os seus braços e pernas movimentavam-se bruscamente deixando Ana desorientada. Não podia deixar Cesc.
Cesc tentava dominar Carla mas toda a sua loucura parecia alimentar as suas forças, fazendo-a resistir mais e mais e mais. Cesc esforçava-se para tirar-lhe a arma da mão, mas ela parecia ser parte da pele de Carla tal a maneira como ela a segurava. A violência aumentava cada vez mais… Carla esbofeteava-o, arranhava-o, pontapeava-o tentando libertar-se dele que a tentava agarrar.
E de repente, um seu oco e devastador fez-se ouvir.
Num instante tudo mudara.
- Cesc! – gritou Ana desesperada.

Olá!
Nem perguntas há, o que haveria de perguntar? Dúvidas já têm vocês, não?
Gostaram?? Espero que sim!
Esta parte final do capítulo foi arriscada. É algo diferente: ação/policial. Não é bem o que costumam ver de mim, mas estava a precisar de emoção!
Espero que tenha conseguido dar a emoção necessária ao momento!
Sei que demoro a postar, mas com a faculdade tem sido muito difícil e o cap é enorme.
Não se esqueçam de comentar. E se não gostam de o fazer, escrevam algo como “estou aqui” ou algo do género para que eu saiba que estão aí, porque esta parte da fic é realmente importante e eu gostava de ter-vos desse lado, pode ser, pode pode pode?
Vá, fico à espera!
Tenham uma excelente semana!

Beso
Ana Santos