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domingo, 26 de outubro de 2014

Capítulo 158 - "Sim, bem que lhe podíamos chamar “Barcelona, La Ciudad Del Amor” "

158 - "Sim, bem que lhe podíamos chamar “Barcelona, La Ciudad Del Amor” "



No capítulo anterior:



- Os meus filhos?! – repetiu Ana num misto de incredibilidade e medo.

- Sim. A ecografia mostra que os dois embriões estão bem.

- Dois? Eu…

- A senhora está grávida de gémeos.



***



- Preparado? – perguntou Adriana entusiasmada quando já avistavam a porta do hospital.

- Sim, mamá – respondeu Ángel fascinado vendo a luz que entrava pelo vidro.

Adriana e Alexis estavam junto a ele, agarrando-o pela mão. Finalmente Ángel iria deixar o hospital depois de tantos e tantos meses ali.



***



- Papá, não tens cabelo – observou Emma surpreendida e sobretudo intrigada.

- Sim, não tenho – confirmou baixando-se junto a eles – E vocês gostam de mim na mesma, não é?

- Claro que sim! – respondeu Thiago sem hesitar, atrevendo-se a abraçá-lo sendo seguido por Ángel e Emma.

- Agora está na hora de entrarmos! – anunciou, levantando-se e aproveitando para beijar Adriana em jeito de despedida.

- A cada dia que passa deixas-me mais orgulhosa de ti – murmurou-lhe ao ouvido, fazendo um sorriso nascer no seu rosto.

Alexis beijou-a mais uma vez, sempre de forma curta e discreta, e seguiu em direção ao túnel de saída com os filhos. Ordenou que Emma e Thiago dessem as mãos e que caminhassem à sua frente, enquanto Ángel lhe agarrava a mão.

- Vamos entrar os dois ali sem cabelo – disse calmamente, atraindo a atenção de Ángel – E não há nenhum mal nisso. Não há nada de errado contigo, Ángel. Eres nuestro ángel, nunca te esqueças disso.



***



Ana e Cesc beijaram a filha e viraram-na partir para junto da porta. Entrelaçaram as mãos, partilhando a dor e o medo que os invadia naquele momento. Nunca antes haviam sentido algo tão tortuosamente devastador. Não confiavam em Carla, mas sentiam que aquela era a única oportunidade da sua filha sair dali ilesa.

- Esperemos que os senhores agentes não sejam muito impulsivos – comentou com um sorriso maquiavélico, antes de repentinamente esticar a sua arma e disparar três vezes em direção ao vidro que tinha à sua direita, estilhaçando-o por completo. No mesmo instante, abriu a porta e empurrou Lia para o exterior.

- No! – berrou Ana ciente do que poderia acontecer naquele instante. Carla havia disparado para provocar e deixar a polícia em alerta máximo. Qualquer movimento poderia custar uma bala e Lia era esse movimento…



***



- Tira a capa – ordenou – Tira-a já! – repetiu furiosa perante a hesitação de Ana.

Ela respirou fundo e retirou a sua capa, revelando a sua barriga. O choque trespassou Cesc, sem que ele conseguisse escondê-lo. Ana estava grávida?

- Achavas que eu não sabia o que fizeste há quatro meses atrás, Cesc? Achavas?! – berrou exaltada – Diz-lhe o resto. Diz de uma vez e não ouses enervar-me! – ordenou olhando Ana, que não conseguia segurar as suas lágrimas.

Cerrou os seus olhos e deixou escapar aquelas palavras:

- São gémeos – murmurou sem atrever-se a olhar Cesc. Não aguentaria ver a deceção, a dor, a mágoa. Ela tinha escondido algo demasiado importante.



***



- Yo te quiero, Cesc. Necesito que lo sepas y que no lo olvides, pase lo que pasar.

- Yo también te quiero mucho, mi reina. Y no va a ser la última vez que te voy decirlo.

- Prometes?

- Prometo – jurou Cesc, ciente que estava a fazer a maior e mais arriscada promessa da sua vida, porque já não estava nas mãos dele cumpri-la…



***



Cesc sabia que Carla iria mesmo fazê-lo. Era a sua última oportunidade. Levantou-se e surpreendeu-a, atacando-a. Agarrava-a, tentando a todo o custo tirar-lhe a arma que ela segurava fortemente na sua mão direita.

- Vai embora, Ana! – berrou Cesc – Vai!

Ana levantou-se completamente desnorteada sem saber o que fazer. Cesc e Carla estavam numa luta intensa corpo a corpo. Os seus braços e pernas movimentavam-se bruscamente deixando Ana desorientada. Não podia deixar Cesc.

Ele tentava dominar Carla mas toda a sua loucura parecia alimentar as suas forças, fazendo-a resistir mais e mais e mais. Cesc esforçava-se para tirar-lhe a arma da mão, mas ela parecia ser parte da pele de Carla tal a maneira como ela a segurava. A violência aumentava cada vez mais… Carla esbofeteava-o, arranhava-o, pontapeava-o tentando libertar-se dele que a tentava agarrar.

E de repente, um seu oco e devastador fez-se ouvir.

Num instante tudo mudara.

- Cesc! – gritou Ana desesperada.





Assim que o som daquele tiro se fez ouvir, foi impossível perceber o que havia acontecido.

O primeiro impulso de Ana foi gritar o nome de Cesc num desespero feroz.

Durante escassos instantes, Cesc e Carla paralisaram. Naquele momento eram iguais: o medo invadia cada pedaço das suas almas, reduzindo-os ao seu estado mais frágil e vulnerável. Os seus olhares assustados tocaram-se por uma fração de segundo até que o corpo de Cesc tombou no chão, levando a alma de Ana consigo.

- No! – berrou Ana desesperada, correndo ao encontro do corpo inanimado de Cesc.

Naquele momento, a sensatez de Ana foi totalmente engolida pelo seu medo. Apenas era capaz de bradar incessantemente o nome de Cesc, enquanto as lágrimas escapavam dos seus olhos vendo todo o sangue que escorria pelo peito de Cesc. O seu desespero deixava-a na posição mais perigosa que pudesse existir: tinha baixado a guarda, esquecendo-se que ainda havia uma pessoa com uma arma na mão dentro daquela sala, uma pessoa que jurara matá-la.

Mas essa consciência não se encontrava sequer no mais recôndito espaço da sua cabeça, pura e simplesmente porque naquele momento não havia cabeça, apenas coração. O desespero fustigava-a ferozmente, fazendo-a bradar o nome de Cesc incessantemente, enquanto lhe implorava para que ele não o deixasse. As suas mãos atreviam-se a cobrir a ferida no peito de Francesc, na esperança de poder travar todo aquele sangue que agora apenas se limitava a escorrer para o chão, para a t-shirt de Cesc e para as mãos de Ana.

De repente, um novo tiro foi ouvido, fazendo Ana soltar um grito assustado. A consciência tinha tomado território novamente. À sua frente, o corpo de Carla caía inanimado. Ela havia-se baleado a ela própria. Depois de tudo ela simplesmente pusera um ponto final à sua vida…

Por segundos, Ana foi incapaz de fazer o quer que fosse. A sua cabeça não conseguia processar tamanha informação. Era tudo tão surreal, tão repentino. Haviam estado sequestrados durante horas, Cesc tinha sido baleado e Carla suicidara-se… Porquê? Porque não a matara? Era isso que ela queria: matar Ana. E tinha tido essa oportunidade e simplesmente acabara com a sua vida. Qual a lógica de tudo aquilo?

Apesar de todos aqueles pensamentos que deixavam Ana completamente desorientada, ela acabou por voltar a si rapidamente e na sua cabeça tudo se encaixou com uma velocidade estonteante. Carla estava morta, era tempo de sair dali, de pedir ajuda, de salvar Cesc. Ana correu até à porta mas assim que a sua mão ensanguentada tocou a maçaneta, um enorme laivo de consciência despertou-a, alertando-o para o perigo daquela decisão. Dois tiros tinham sido disparados, a polícia estaria com certeza em alerta máximo. Qual a probabilidade de ao sair encharcada de sangue, uma bala precipitada e imprudente lhe roubasse a vida?

Não, não podia fazer aquilo. Era demasiado arriscado. Ana podia perder tudo: a sua vida, os seus filhos, Cesc.

Correu até à sua mala e pegou no telemóvel, regressando para junto de Cesc e voltando a tentar controlar a sua hemorragia.

A quem ligar? Ainda antes de aquela pergunta se formar na sua cabeça, já a resposta aparecera: Adriana. Ana sabia que Adriana estaria ali.



***

Dois tiros foram ouvidos com um intervalo de curtos segundos.

A polícia de intervenção alinhou-se. Era hora de agir. Adriana sentiu todo o seu interior revolver-se numa angústia cruel. O que teria acontecido? O que mais poderia vir a acontecer com a entrada da polícia no edifício? Estariam bem?

A polícia ouvia as últimas indicações do chefe de operações, quando Adriana ouviu o seu telemóvel tocar.

- É a Ana! – disse olhando o visor, fazendo com que o comandante suspendesse de imediato a operação. Algo novo chegava. Algo que podia mudar o rumo daquela intervenção.

- Ana!

- Di! – bradou Ana, não escondendo a sua felicidade ao ouvir aquela voz que por várias horas pensou que não voltaria a ouvir. Precisara tanto dela. E agora tinha-a ali consigo – Ela atingiu o Cesc. Ela matou-se, Di. Ele está mal, tão mal, eu preciso de ajuda. Ele está a sangrar muito.

- Ana, calma, não estou a perceber nada. Eu sei que é difícil, que estás aflita mas tenta manter-te calma por segundos. Responde-me às minhas perguntas para que te possa ajudar. A Carla suicidou-se?

- Sim.

- Ela atingiu-te?

- Não. Ela atingiu o Cesc no peito. Por favor, preciso de ajuda.

- Vamos já entrar. Tem calma.

Antes mesmo de desligar, Adriana soltou todas as informações que tinha, atrevendo-se a dar ordens no seio daquela equipa.

- Eu preciso de duas equipas médicas. O Francesc foi baleado no peito e está mal. A Ana está muito aflita mas não está ferida. A Carla suicidou-se. Vamos entrar – ordenou, vendo de imediato três equipas de médicos a posicionarem-se, juntamente com uma equipa de polícias.

- O que pensa que está a fazer? – questionou o comandante irritado pelo controlo que Adriana estava a exercer.

- O que o senhor não fez durante todas estas horas: estou a agir e a tentar salvar vidas!

- Não lhe admito que me desrespeite!

- Vale vale… – murmurou Adriana, mostrando bem a sua indiferença face àquelas palavras.

Atravessou rapidamente o perímetro de segurança bem como as equipas de médicos e polícias que a acompanhavam, entrando sem hesitar.

O cenário foi especialmente aterrador. Ana estava prostrada junto a Cesc num desespero feroz, enquanto lhe suplicava para que não a deixasse. A alguns metros dela, o corpo de Carla estava tombado, completamente desprovido de vida. Uma equipa de médicos aproximou-se do corpo juntamente com vários polícias. Segundos bastaram para decretar o óbito.

Entretanto, duas outras equipas de médicos aproximaram-se de Cesc e Ana. Rapidamente se concentraram em monitorizar Cesc e assegurar que apesar de fracos, os sinais vitais ainda persistiam. Outra equipa tentou ajudar Ana, mas ela limitou-se a mergulhar nos braços de Adriana completamente desolada.

- Não posso viver sem ele, Di, não posso – murmurou desesperada.

- Va todo a salir bien, cariño.

- Ele protegeu-nos desde sempre e eu nunca percebi! Ela chantageou-o todo este tempo e eu simplesmente achei que ele já não me amava. E agora… - Ana rompeu num choro ainda mais descontrolado.

- Ana, não podias adivinhar… A culpa não é tua.

- Eu sei mas…e se ele…

- Não, Ana, nada disso vai acontecer – garantiu Adriana, não conseguindo ela mesma aceitar que Cesc pudesse partir.

Nesse preciso momento, Cesc saiu deitado numa maca e segundos depois um enorme alarido se fez ouvir no exterior, terminando com o som ensurdecedor da sirene de uma ambulância de serviços de emergência.

- Adriana, leva-me ao hospital, por favor – pediu Ana, assim que teve realmente noção de tudo o que se sucedia naqueles momentos.

- Ana, vais ter de ser observada por uma equipa de médicos. Estás muito nervosa e isso não faz bem aos bebés. Tenho a certeza que te levarão para o mesmo hospital que o Cesc e que te manterão informada, vale?

Ana apenas assentiu com a cabeça, antes de abraçar novamente Adriana, encaminhando-se depois para junto dos médicos.

- Di – chamou, aproximando-se novamente dela – E a Catarina? Ela está bem? – perguntou extremamente aflita. Os segundos iam passando e na sua cabeça a consciência começava a recuperar terreno, relembrando-a de tudo o que o desespero engolia.

- Sim, ela está bem. Não está ferida. Está muito assustada, mas está bem.

- Eu quero vê-la! – disse de imediato, sabendo que apenas poderia descansar quando a tivesse nos seus braços.

- Agora não é o melhor momento, Ana. Tu não estás bem, tens sangue nas tuas roupas, apenas a vais deixar mais inquieta. Eu e o Alexis estivemos com ela a maior parte do tempo. Uma psicóloga já foi destacada para a ajudar e ela deve estar com ela neste momento.

- Mas eu preciso tanto de vê-la – insistiu Ana em desespero. Naquele momento, Lia era a única coisa que ela tinha e necessitava de senti-la entre os seus braços.

- Eu sei, Ana. Fazemos assim: ficas aqui com os médicos, eles vão observar-te, colocar-te numa ambulância e entretanto eu vou ter com o Alexis e com a Lia e ver como está tudo.

- Depois vens ter comigo? – perguntou claramente lhe pedindo para que o fizesse.

- Claro que sim. Vemo-nos no hospital, vale?

- Vale – acabou por concordar com mais sensatez.

- Te quiero, cariño – acabou por sussurrar-lhe Adriana, enquanto a abraçava novamente.

- Yo también te quiero, Di. Tive tanto medo de não voltar a ver-te – confessou, tocando no motivo que as fazia declararem os seus sentimentos daquela forma.

Após alguns segundos, acabaram por largar-se. Ana foi rapidamente rodeada por vários profissionais de saúde, enquanto Adriana saiu do edifício onde o aparato jornalístico ainda era enorme.

Dirigiu-se para a ambulância onde havia deixado Lia e encontrou-a no colo de Alexis que a envolvia carinhosamente entre os seus braços, enquanto ela ia falando com uma psicóloga, por entre vários soluços assustados.

- Tia Di! – berrou, saltando do colo de Alexis e atirando-se para os seus braços – Como é que estão os meus papás? – perguntou preocupada.

Adriana olhou a psicóloga, quase lhe perguntando o que devia fazer. Ela por sua vez apenas lhe assentiu com a cabeça, incentivando-a a falar. Adriana sentou-se na maca, junto a Alexis, com Lia enroscada ao seu corpo e escolheu as melhores palavras para lhe contar o que havia acontecido.

- Os teus pais já saíram – começou Adriana, sendo imediatamente interrompida por Lia.

- Eu quero vê-los! Posso? – suplicou Catarina impaciente.

- Nena, lo siento, mas ainda não os podes ver.

- Eles estão magoados? – perguntou desolada.

- A tua mamã está bem, mas…o teu papá está um bocadinho magoado e os médicos têm de tratar dele.

- É muito grave? – interrogou num misto de receio e esperança.

- É um bocadinho, Lia… - confessou Adriana verdadeiramente angustiada por ter de contar-lhe todas aquelas coisas.

- Ele vai morrer? – perguntou destroçada.

- Lia, a situação é difícil, mas o teu papá é muito forte. Vamos esperar por novidades, está bem?

- Está bem… - murmurou tristonha – Mas se a mamã não está magoada, eu posso vê-la, não posso?

- A tua mamã estava um bocadinho nervosa e assustada e por isso os médicos estão a tratar dela. Mas está tudo bem. Nós vamos para o hospital e lá tu vais poder vê-la, está bem?

Catarina assentiu positivamente com a cabeça, antes de se recostar ao peito de Adriana.

Alexis olhava-a num misto de preocupação e desorientação, já que ele não conseguira perceber qual o verdadeiro estado de Cesc. Ao longo da viagem, Lia acabou por adormecer. Eram quase onze da noite e todas aquelas emoções haviam sugado as suas forças. Adriana acabou por deitá-la na maca e aproximar-se de Alexis, sem conseguir controlar as lágrimas.

- Ele foi baleado no peito. Ele está muito mal, Alexis. Não sei se ele vai resistir – confessou, abraçando-o fortemente.



***



Assim que Ana chegou ao hospital, a sua única preocupação foi Cesc. Perguntava inúmeras vezes pelo estado dele e a ausência de respostas estava a descontrolá-la por completo.

- Ana, acalma-te, por favor – pediu a sua obstetra.

- Não posso, Sofía. Eu preciso de saber como é que ele está!

- Eu sei mas eu preciso que te foques nos teus filhos – disse amavelmente.

- Eu preciso do Cesc e ele precisa de mim! – berrou Ana descontrolada.

- Não! – gritou Sofía, perdendo igualmente a compostura – Tu não podes fazer nada pelo Cesc. Mas podes fazer pelos teus filhos. Por isso, deita-te e acalma-te, por favor! – ordenou claramente com as emoções à flor da pele.

Só aqueles gritos foram suficientes para chamar Ana à razão e fazê-la deitar-se.

- Desculpa – acabou por dizer Sofía – Não queria ter falado assim.

- Tu tens razão. Eu não posso fazer nada por ele… - disse inegavelmente desconsolada, com as lágrimas a dominá-la.

- Ei não desanimes – pediu Sofía – Eu tenho a certeza que ele vai ficar bem.



***



Assim que Adriana e Alexis chegaram ao hospital, procuraram de imediato informações sobre o estado de Ana, mas especialmente de Cesc.

Contudo estas eram muito escassas. Francesc estava no bloco operatório há cerca de 1 hora e ainda não havia notícias concretas sobre o seu estado que apenas era apelidado de “crítico”. Já Ana estava internada na unidade de obstetrícia, sob observação cuidada de Sofía. As visitas eram permitidas e Alexis e Adriana não hesitaram em dirigir-se ao quarto dela. Seguramente que ver Lia tranquilizaria Ana, mesmo que ela estivesse ainda a dormir profundamente.

Ao chegarem ao corredor onde o quarto de Ana estava enquadrado, viram Sofía e apressaram-se a interpelá-la.

- Ela está bem? – perguntou de imediato Adriana.

- Sim. Fizemos alguns exames rápidos e está tudo bem, excetuando a tensão arterial que está demasiado alta. Mas pouco podemos fazer quanto a isso. Enquanto ela não tiver notícias sobre o estado do Cesc, não conseguirá acalmar-se como é preciso. Mas os bebés estão bem e estou confiante que em breve ela receberá boas notícias sobre o Francesc.

- Tu sabes alguma coisa sobre ele? – interrogou Alexis, lendo as entrelinhas das palavras de Sofía.

- Não, Alexis, não sei. Apenas…desejo que seja isto que aconteça – confessou com tristeza.

- Podemos vê-la? – perguntou Adriana.

- Claro. Vai fazer-lhe bem ver a Lia.

Adriana e Alexis assentiram e aproximaram-se do quarto de Ana. Os seus passos sobressaltaram-na de imediato. Assim que Ana viu Catarina dormir serenamente nos braços de Alexis, o seu coração pareceu agigantar-se.

Alexis aproximou-se da cama de Ana e pousou Lia junto a ela. A vontade de Ana era beijá-la incessantemente, abraçá-la fortemente, repetir-lhe desmesuradamente que a amava. Mas Lia dormia de forma tão tranquila que Ana apenas se atreveu a aconchegá-la junto a si e a beijá-la suavemente na testa.

- Vocês sabem alguma coisa sobre o Cesc?

- Não – respondeu Adriana – Ele ainda está no bloco. Não há novidades.

Ana suspirou pesadamente, sentindo as lágrimas assomá-la novamente.

- Ei, vai tudo correr bem – disse Adriana, tentando acalmá-la.

- Eu não sei. Tenho tanto medo… - confessou Ana, sentindo Adriana e Alexis abraçá-la em conjunto.

Estavam todos a precisar daquele abraço. A vida de Ana estivera a um passo de terminar, o medo apoderara-se deles, precisam de sentir aquele reconforto. Por outro lado, o medo relativo ao estado de Cesc imperava dentro deles, unindo-os ainda mais.

Tudo poderia mudar numa questão de segundos…



***



Duas horas depois alguém entrou no quarto, fazendo o coração de Ana disparar. Seria algum médico responsável por Cesc?

As suas esperanças rapidamente se dissiparam. Era um membro da polícia, juntamente com uma médica que Alexis e Adriana pareciam já conhecer. Foi a primeira a apresentar-se: era psicóloga. Tinha acompanhado Lia nas últimas horas e estava agora à disposição de Ana. Estava acompanhada de um agente da Polícia Judiciária, responsável pela reconstituição do crime.

Tinham observado as imagens das câmaras de vigilância do banco e tinham confirmado a versão que Ana contara a Adriana por telefone: Carla havia-se envolvido com Cesc num confronto físico, ele acabara por ser atingido e ela suicidara-se segundos depois.

Contudo, outras peças faltavam encaixar e Ana podia ser um elemento decisivo naquela investigação. Apesar do interrogatório ser em prol de uma investigação policial, foi a psicóloga que falou com Ana. Muito provavelmente ela e o agente teriam chegado a um acordo que satisfizesse todas as partes: conseguir as informações necessárias sem prejudicar o estado psicológico de Ana.

Marta, a psicóloga, deixou Ana à vontade, dizendo-lhe que ela apenas precisaria de contar o que se sentisse capaz de fazer, que poderiam voltar noutra altura. Contudo, foi visível que Ana precisava de verbalizar muitas coisas.

A sala silenciou-se. Todos os olhos recaíram atentamente sobre Ana, enquanto ela relatava tudo o que havia acontecido, bem como outros dados anteriores ao sequestro.

- De alguns meses para cá, o Cesc vinha a tomar atitudes que eu não reconhecia nele. Partiu para Inglaterra de forma abrupta, sem pedir a minha opinião, sem me dar conhecimento da situação. Isso acabou por levar ao nosso divórcio. Nestes meses, ele apenas veio a Barcelona uma única vez, num momento em que o reconheci e que…pensei que poderíamos salvar o nosso casamento. Mas isso não aconteceu. Ele voltou a partir da mesma forma fria e egoísta. Algum tempo depois descobri que estava grávida, mas…não lhe revelei isso por convicções próprias. Esta tarde quando fomos sequestrados… Quando a vi, eu percebi logo que ela era a peça do puzzle que faltava. Após evacuar o edifício, ela foi-nos falando de tudo o que fez pouco depois de ter libertado a Catarina. Contou que subornou um médico para que lhe fosse dada alta psiquiátrica e que a partir daí começou a observar as nossas vidas, até que conseguiu ter em sua posse um conjunto de informações que podia usar para chantagear o Cesc.

- Que informações? – perguntou o agente da polícia sendo de imediato repreendido pelo olhar insatisfeito da psicóloga.

- Ela sabia as nossas rotinas, quando saímos de casa, quando entrávamos, quando a Catarina estava na escola, quando o Cesc estagiava. Tudo. Ela controlava-nos em tempo real com a ajuda de “pessoas certas” como ela lhes chamou. Ela chantageou o Cesc e manipulou-o a seu bel-prazer. O que aconteceu no banco era apenas…o fim. Ela…sabia que eu estava grávida, sabia que eram gémeos e obrigou-me a revelar isso ao Cesc naquele momento – contou absorvida naquelas recordações. O choque parecia trespassá-la novamente de tal forma que ela contava tudo aquilo com uma serenidade e uma frieza impressionantes – Ela queria matar-me e queria que o Cesc carregasse o peso da minha morte – concluiu após alguns segundos de silêncio – Não percebo porque se suicidou depois de o ter baleado. Não percebo porque não me matou – finalizou, confessando aquela dúvida que continuava bem presente na sua cabeça.

- A Carla estava claramente perturbada psicologicamente. Ela tinha uma ligação muito grande ao Cesc. Atingi-lo foi a pior coisa que lhe podia ter acontecido. Porque ela poderia querer vê-lo sofrer com a tua morte, mas nunca suportaria tirar-lhe a vida, porque apesar de tudo o Cesc era a única coisa que a agarrava a este mundo. No momento, em que ela sentiu que lhe podia ter tirado a vida, não suportou todo esse medo e suicidou-se – concluiu a psicóloga sabiamente num tom calmo, ouvindo um suspiro exausto de Ana.

- Muito obrigada pelo seu depoimento – agradeceu o agente – Há muitas coisas que vão ser investigadas: a alta psicológica da Carla, as tais pessoas certas que ela referiu, as informações sobre a gravidez. Há muita gente envolvida nisto.

- Eu tenho a certeza que a minha obstetra nunca revelaria nada sobre a minha gravidez – disse de imediato Ana.

- Há muitas outras possibilidades quanto a esse aspeto: podem ter hackeado o sistema informático da clínica, podem ter infiltrado alguém, podem ter subornado alguém. Seja o que for, nós vamos descobrir. É uma promessa – disse o agente, claramente mostrando que aquele caso tinha algo de pessoal. Possivelmente o facto de Carla ter saído do manicómio com uma autorização indevida de um profissional de saúde tocava-o especialmente. Um médico tal como um polícia tinha uma enorme responsabilidade na sociedade e se aquele médico tivesse cumprido a sua função seguramente que não estariam ali…



***



Eram quase seis e meia da manhã quando Ana viu o médico entrar no seu quarto. Tinham passado horas e horas e horas desde que Cesc dera entrada no hospital e aquelas eram as primeiras novidades que teria.

Durante aquelas horas, nem Ana, nem Adriana, nem Alexis tinham conseguido cerrar os olhos nem por meros instantes. Haviam quedado num silêncio profundo, preenchido pelo medo de perder uma das pessoas mais importantes das suas vidas.

- É o médico responsável pelo Francesc? – perguntou Ana de imediato.

- Sim, sou – confirmou com uma expressão neutra. Ana não conseguiu extrair nada do seu olhar. Não havia satisfação, nem desagrado, nem otimismo, nem pessimismo. Era tão desesperantemente imparcial.

- Como é que ele está? – perguntou Ana com o coração demasiado perto da boca.

- Hoje um milagre aconteceu – disse o médico, criando uma paz quase imediata dentro de Ana. A palavra “milagre” tinha uma conexão tão espontaneamente positiva – Nenhum órgão vital foi atingido pela bala. Com um tiro no peito à queima-roupa era altamente provável haver danos num pulmão ou no coração. Mas não… Houve uma hemorragia, que foi ligeiramente difícil de controlar, mas que foi corrigida em cirurgia. Para além disso, duas costelas foram partidas pelo impacto da bala. Na verdade, acreditamos que tenha sido o facto de a bala ter atingido as costelas que impediu a danificação de um órgão.

- Isso quer dizer que ele está bem? – interrogou Ana, desesperada por aquela resposta. Apenas queria saber aquilo: Cesc estava bem?

- Tirando as duas costelas partidas que vão levar 2 meses a serem curadas, o Francesc está muito bem – um enorme suspiro de alívio abandonou Ana, que sentiu Adriana apertar-lhe a mão – Eu sei que demorámos a ceder-lhe informações mas quisemos esperar que ele acordasse.

- Ele já acordou? – questionou Ana, interpretando as palavras do médico.

- Sim, ele acordou. Está lúcido, tem uma noção muito clara de tudo o que aconteceu e perguntou por si e pela vossa filha.

- Eu posso vê-lo? – perguntou em tom de súplica.

- Sim, pode. Por enquanto é a única pessoa que está autorizada a visitá-lo. Sabemos que tem familiares dele na sala de espera e vamos transmitir-lhes estas informações, mas ainda não poderão vê-lo. Queremos dar-lhe descanso tal como acontece consigo, que também ainda não pode receber a maior parte das suas visitas. Mas estimamos que esta tarde já o possam fazer.

- Então posso ir? – insistiu Ana, vendo o médico e Sofía a trocarem um olhar rápido.

Sofía aproximou-se dela em silêncio e retirou-lhe cuidadosamente o soro ao qual estava ligada desde que entrara naquele quarto.

- Podes ir, mas essas tensões estão na hora de baixar – advertiu com um sorriso muito pouco profissional.

- Quando o vir tenho a certeza que ficarei com as tensões mais saudáveis da História da Medicina – gracejou, antes de se levantar – Ficam com ela? – perguntou olhando Adriana e Alexis, referindo-se a Catarina que continuava a dormir tranquilamente.

- Claro. Vai lá! – incentivou Adriana, vendo-a partir.

Ana seguiu o médico, queixando-se mentalmente da forma irritantemente vagarosa como ele caminhava. Após alguns corredores percorridos, o médico parou e indicou-lhe qual era o quarto de Cesc. Ana percorreu apressadamente aqueles últimos metros e assim que o seu olhar mergulhou naquele quarto, pôde ver Cesc sentado na borda da cama. Pôde imaginar que era a primeira vez que o tentava fazer, notava-o desconfortável. Contudo, assim que Cesc a olhou, Ana pôde notar a paz e a felicidade que invadiram os seus olhos.

Não hesitou em correr até ele e acabou por abraçá-lo fortemente com as lágrimas a dominá-la, acabando por ouvir um gemido queixoso de Cesc.

- Lo siento – disse de imediato, apercebendo-se do que havia feito.

- No pasa nada – respondeu-lhe claramente mentindo.

- Tive tanto medo de perder-te – confessou Ana olhando-o carinhosamente, enquanto sentia a mão de Cesc tocar o seu rosto com delicadeza.

- Eu nunca te deixaria – garantiu, atrevendo-se a beijá-la depois de tantos meses sob a tormenta. Um beijo que certamente não ajudara Ana a ter “as tensões da História da Medicina” já que o seu coração disparara tal como no momento em que Cesc a beijara pela primeira vez na praça da Catalunha. Pareciam ter nascido de novo para a vida.

- Lo siento tanto – murmurou Ana assim que os seus lábios se separaram – Devia ter percebido que…

- Shiu – Cesc colocou o seu indicador sobre os lábios de Ana, impedindo-a de terminar a sua frase – Isso já passou. Agora acabou e não temos de pensar mais nisso.

- Pelo menos devia ter-te contado da gravidez – reconheceu arrependida.

- Mi amor, nós fizemos escolhas que pensávamos serem as melhores. E talvez não tenham sido. Mas isso não importa. O que importa é que a vida nos deu uma nova oportunidade. E sabes o que vamos fazer com ela? – Ana olhou-o expectante – Ser a família mais feliz de toda a Espanha – completou vendo um sorriso cúmplice aparecer no rosto de Ana enquanto lhe agarrava as mãos – Promete-me que vamos esquecer tudo isto. Vamos deixar isto no passado e não vamos tocar mais nestas memórias. Eu sei que a polícia vai remexer isto, que a comunicação social vai ter assunto para capas e capas de jornais e revistas mas…vamos enterrar estes últimos meses. Sabemos tudo o que aconteceu, não vale a pena voltar a pegar naquele assunto porque eu não quero desperdiçar nem mais um minuto da minha vida preso àquele pesadelo. Temos acordo?

- Sem dúvida – respondeu Ana, sentindo o alívio de estar realmente a enterrar aquele passado tão tenebroso.

- Agora vamos deitar-nos porque há uma menina que tem umas tensões demasiado altas.

- De verdad, Cesc? Foste operado a uma hemorragia interna, tens duas costelas partidas, dois meses de recuperação pela frente e a tua maior preocupação é a minha pressão arterial? – perguntou-lhe em tom de gracejo.

- Sim, é. E sabes porquê? – perguntou olhando-a intensamente – Porque tu e os nossos filhos serão sempre a minha primeira preocupação, a minha prioridade e nada nem ninguém vai mudar isso. Nunca – garantiu fitando os seus olhos, antes de sentir Ana a abraçá-lo, desta vez de forma muito mais cuidadosa.

- Te amo, Francesc – murmurou-lhe ao ouvido.

- Yo también te amo, mi cielo. Más que a mi vida – respondeu afagando-lhe os cabelos. Sim, ele amava-a mais do que à sua própria vida. Ana já tinha tido a prova disso… – Mas agora vamos deitar-nos. Os meninos precisam de descansar!

- Meninos? Ainda não se sabe o sexo, Cesc – corrigiu-o Ana.

- Eu sei que serão dois meninos! – disse claramente convencido do seu palpite.

- Vê lá se não falhas por completo essa tua aposta e saem duas meninas!

- Pelo menos um menino tem de vir. Vou precisar de ajuda para controlar os miúdos cheios de testosterona que se vão aproximar delas na adolescência! Mas também nessa altura já não estarei no futebol e vou ter muito tempo livre portanto vou dar conta do recado – gracejou, fazendo Ana sorrir.

Ela ajudou-o a deitar-se e acabou por juntar-se a ele, preocupando-se em não o magoar.

- Achas que a Catarina demora muito a acordar? – perguntou Cesc ansioso após alguns minutos em que se limitaram a trocar alguns beijos e carícias, mergulhados num silêncio reconfortante.

- O teu médico mais parece um detetive. Falou-te das minhas tensões, sabia que a Catarina estava a dormir…

- Sempre rodeado das melhores pessoas. Olha só quem tenho a meu lado – gabou-se, olhando Ana com um sorriso galanteador enquanto pousava a mão sobre a sua barriga.

- Safaste-te bem! Mas sim…também estou ansiosa para que ela acorde. Quando chegou, já dormia…

- E nós devíamos fazer o mesmo. Vai ajudar as tuas tensões.

- Não sei se consigo dormir. Estou demasiado agitada – confessou.

- Claro que consegues – contrariou roçando o nariz na sua bochecha, antes de começar a acariciar suavemente o seu rosto com os seus dedos.

- Conheces-me tão bem…

- A cada dia melhor – concordou com um sorriso, antes de a beijar na testa.



***



- Sofía, podes ficar um minutinho com Lia, por favor? – pediu Adriana escassos instantes depois de Ana partir.

- Claro. Façam uma pausa – sugeriu, levantando os olhos das suas notas clínicas.

Adriana trocou um olhar com Alexis, que não hesitou em segui-la.

Assim que chegaram ao corredor, Adriana abraçou-o fortemente, abafando as suas lágrimas e os seus risos ao peito dele. Que dia… Todas as suas emoções tinham sido levadas ao seu expoente máximo: o nervosismo, o medo, a indignação, o sofrimento… Tudo tinha finalmente terminado e Adriana apenas era capaz de libertar todo esse misto de sentimentos que a havia dominado. Estava extremamente feliz e aliviada. As lágrimas de alegria misturavam-se com os risos livres do medo e do nervosismo. Quedaram-se assim por alguns segundos, o suficiente para Adriana se sentir mais calma.

Assim que ela se despegou de Alexis, ele agarrou o seu rosto e beijou-a com carinho mas com uma intensidade indisfarçável. Aquele dia tinha mexido com toda gente… A vida dera-lhes uma amostra de como podia ser imprevisível e traiçoeira. E eles tinham aprendido essa lição, percebendo que nenhum beijo era supérfluo, nenhum “amo-te” era repetitivo, porque nunca sabiam se não seria o último.

Acabaram por dirigir-se até à sala de espera, onde sabiam que a família de Cesc estaria, ainda impaciente apesar das notícias do médico.

Explicaram-lhes tudo o que sabiam. Nada acrescentaram sobre o estado de Cesc, pois haviam recebido as mesmas informações, mas puderam revelar-lhes todo o enredo daquele enorme pesadelo que se havia desenrolado durante meses e que Ana havia contado à polícia. O choque foi impossível de controlar. Como é que alguém podia ser tão diabolicamente cruel e vingativo?

Carlota, irmã de Cesc, acabou por dizer-lhes que a família de Ana havia falado consigo e Adriana lembrou-se que se havia desligado do seu telemóvel depois da chamada de Ana no banco. Provavelmente eles tinham tentado ligar-lhe dezenas de vezes e ela não ouvira…

Como seria expectável, estavam todos a caminho: os pais de Ana, o seu irmão Alexandre, juntamente com Margarida e Pedro, mas também Tiago e Joana que não haviam pensado duas vezes antes de viajar com Rodrigo para Barcelona.

Aproveitaram ainda para ligar a Graziela que os sossegou dizendo que os meninos tinham adormecido sem qualquer problema, apesar da curiosidade acerca da ausência dos pais. Adriana agradeceu-lhe e garantiu-lhe que naquela tarde já voltariam a casa.

Acabaram por voltar ao quarto de Ana, onde Catarina continuava a dormir. Aconchegaram-na e enroscaram-se um ao outro, num pequeno sofá que havia no quarto, adormecendo em escassos minutos.



***



- Tia Di… Tia… - Adriana despertou com aquela voz doce mas assustada juntamente com um toque cuidadoso no seu braço.

- Lia – murmurou olhando-a – Já acordaste, hermosa… - disse com um sorriso ajeitando-se no sofá e acabando por acordar Alexis.

- O meu papá? – perguntou preocupada.

- O teu papá está bem, mi amor. Ele ficou um bocadinho magoado, mas os médicos cuidaram dele. Vai precisar de algum tempo para ficar mesmo mesmo bem, mas ele vai conseguir.

- E a mamã?

- A mamã está com ele. Queres ir vê-los?

- Sim! – acedeu de imediato, pegando na mão de Adriana e puxando-o claramente entusiasmada.

Levantaram-se e Alexis pegou em Catarina ao colo, enquanto Adriana pedia a indicação do número do quarto de Cesc a uma enfermeira.

Em segundos já podiam ver Ana e Cesc deitados lado a lado trocando algumas palavras em forma de sussurros.

- Papá! – berrou Lia quase se libertando dos braços de Alexis que teve de agarrá-la com mais força para que ele não lhe escapasse por entre os braços.

- O papá está um bocadinho magoado. Tem cuidado, Lia – advertiu Ana, levantando-se da cama de forma a deixar uma espaço vazio onde Lia pudesse estar com o pai.

Alexis pousou-a na cama e Lia abraçou de imediato o pai, cuja expressão foi comicamente indecifrável. Por um lado, era visível que as costelas dele não estavam aptas para tamanha demostração de afeto. Por outro, era notória a felicidade e a paz que sentia por tê-la novamente nos seus braços.

Finalmente tinham voltado à vida…



***



Apesar do enorme susto, Cesc precisara apenas de 5 dias de internamento antes de voltar para casa. Como toda a família estava em Barcelona, Ana resolveu organizar um pequeno “Natal” atrasado.

Para Ana, o último Natal não tinha estado completo e para Cesc ele nem sequer tinha existido. A família reunira-se e Cesc perdera-se a contemplar a alegria que invadira a sua casa: crianças a correr e a gritar, o cheiro da comida das avós, a língua demasiado comprida da sua irmã.

A lareira tinha sido acesa de forma bastante simbólica. Os papéis de divórcio tinham chegado a Barcelona, a pedido de Cesc, havia poucos dias. Ana acabou por atear-lhes fogo e colocá-los na lareira que em minutos desprendeu um calor saboroso. Tinham queimado o passado tão tenebroso, aquecendo o futuro que apenas adivinhavam risonho e feliz.



*****



5 anos depois



- Cesc!

- Sí? – respondeu entrando no quarto.

- Trataste das meninas? – perguntou enquanto colocava uns brincos com o seu olhar concentrado no espelho.

- Sim, tudo tratado!

- Então dá-me uma ajudinha com o fecho porque o vestido encolheu! – queixou-se Ana indignada.

- Oh claro o vestido encolheu…diz a pessoa que devorou uma taça de mousse de chocolate às três da manhã…

- Tu queres ir dormir lá para fora esta noite, não queres? – ameaçou Ana com um olhar incisivo que deu uma vontade enorme de gargalhar a Cesc. Mas não o fez, caso contrário, dormiria realmente no jardim naquela noite.

Aproximou-se dela e apertou-lhe o vestido gentilmente, acabando por dar-lhe um beijo carinhoso no ombro, o que conseguiu relaxá-la.

- Mamá! – Alicia entrou a correr entusiasmada pelo quarto.

- Cesc, porque é que a Alicia está com o vestido da Elena?

- Era ao contrário? – interrogou confuso – Oh qual é a diferença? Os vestidos servem às duas!

- Não, não servem! – respondeu Ana irritada – O vestido branco com os pormenores verdes eram para a Elena, para combinar com os olhos dela. E o vestido cor-de-rosa era para a Alicia! Eu disse-te isso quando saíste do quarto.

- Ok, confundi. Mas não faz mal. Elas estão bem assim!

- Não, não estão, Francesc – repetiu, antes de respirar fundo e perceber que se queria as coisas bem-feitas então tinha de as fazer – Eu vou pôr tudo no devido no lugar. Aproveita para pôr a gravata…corretamente – acrescentou num tom desdenhoso.

- Por isso é que eu não queria duas meninas de uma vez… - murmurou Cesc não suficientemente baixo para que Ana não ouvisse e o repreendesse com o olhar. Sim, ele tinha escolhido um mau dia para testar a “fera”…





Recordações



- Devias ter ficado em casa… - repetiu novamente Ana, enquanto via Cesc desconfortável no banco a seu lado.

- Eu estou bem.

- Oh claro, Senhor-duas-costelas-partidas – ironizou Ana, desistindo daquela “luta”. Cesc era o “doente” mais desregrado da História! Descanso era a palavra-mestra naqueles meses. Era apenas de descanso que Cesc precisava para recuperar, mas ele parecia estar a esforçar-se realmente por falhar essa prescrição. Prova disso era estar ali, na sala de espera da clínica, para assistir à ecografia dos 6 meses de gravidez de Ana.

Para sua felicidade, a espera foi curta. Sofía já os esperava com o mesmo sorriso e a mesma simpatia de sempre. As perguntas foram rápidas, Ana andara sob a vigia atenta de Sofía nas últimas semanas e o verdadeiro ponto alto da consulta era de facto a ecografia que poderia vir a revelar o sexo dos bebés. Cesc continuava convicto que viriam dois meninos a caminho, já Ana estava segura que estava grávida de pelo menos uma menina.

- Ok, já sei o sexo. Querem saber? – perguntou Sofía após alguns minutos de ecografia que haviam servido para confirmar o excelente estado de saúde dos bebés.

- Sim, sim! – respondeu Cesc entusiasmado.

- São… - Sofía fez uma pequena pausa dando suspense ao momento que estava a deixar Cesc inegavelmente curioso – Duas meninas!

- Meninas? Mas tens a certeza? – interrogou Cesc pouco convencido – Eu vejo ali alguma coisa! – disse apontando para o monitor.

- É o cordão umbilical.

- Tens a certeza? – tornou a repetir.

- Após 10 anos de formação em Medicina e Obstetrícia, sim, posso dizer que tenho a certeza que são duas meninas… - ironizou perante a incredibilidade de Cesc.

- Vamos ter de mudar de casa…

- Mudar de casa? – interrogou Ana sem perceber.

- Sim. Onde é que vamos ter espaço para toda a roupa e sapatos delas quando forem adolescentes?

- És tão parvo, Francesc Fabrègas – repreendeu Ana sem conseguir evitar deixar escapar um sorriso divertido.



***



O resto da gravidez tinha passado de forma muito mais tranquila do que poderiam ter imaginado. Cesc tinha sido dispensado dos treinos e jogos até ao fim da temporada, o que lhe permitira ficar a recuperar das suas lesões em Barcelona na companhia da família. O futuro profissional de Cesc era ainda incerto, mas sentiam que havia poucas probabilidades de ficar em Barcelona. Contudo, isso não os amedrontava. Para onde Cesc fosse, todos iriam. Isso estava mais do que claro. A única “exigência” que Ana fizera fora que as meninas nascessem em Barcelona tal como tinha acontecido com Lia.

Os nomes estavam escolhidos e havia sido precisamente Lia a dar as suas sugestões. Levara o seu tempo, durante mais de duas semanas mantivera o total sigilo dos possíveis nomes que iria eleger, mas acabou por fazê-lo, escolhendo dois nomes que agradaram a Ana e Cesc, tendo sido de imediato tornados oficiais: a primeira a nascer chamar-se-ia Alicia e a segunda teria o nome de Elena.

O nascimento, o parto… Secretamente, aquilo causava algum desconforto a Ana e a Cesc. Quando Lia nascera, a situação acabara da forma mais inimaginável possível: Ana entrara em coma e Cesc rejeitara a filha durante vários dias. Era agora uma situação mais do que ultrapassada, mas o fantasma não deixava de sobrevoá-los.

Contudo, daquela vez seria diferente. Estava prevista uma cesariana desde o início e o facto de nenhuma das bebés ter dado a volta apenas dera força àquela escolha.

Sofía havia sido clara: o objetivo era manter a gravidez até o mais perto possível das 40 semanas, mas a partir do momento em que as bebés tivessem bons índices de crescimento para virem ao mundo e que a gravidez começasse a representar um sacrifício para Ana, a cesariana seria realizada. Gravidez não podia ser de forma alguma sinónimo de sofrimento para Ana. Se ela não estivesse bem, as suas filhas também não estariam bem.

No entanto, a gravidez foi realmente positiva. Tirando os momentos em que uma das meninas começava a mexer-se abruptamente dentro de Ana, tudo era bastante tranquilo. Ana ficava até preocupada porque enquanto uma das meninas se mexia bastante, outra era extremamente calma e os seus movimentos eram quase impercetíveis. Apesar disso, Sofía garantira-lhe que era normal. Era uma questão de personalidade e as duas estavam muito bem de saúde.

Às 37 semanas, já apresentavam excelentes alturas e pesos, bem como outros índices respetivos ao desenvolvimento de vários órgãos como o coração ou os pulmões. Contudo, Ana sentia-se ainda capaz de suportar aquela gravidez. Começava já a ter dificuldade em arranjar boas posições para estar sentada ou deitada, sem falar nas dores de costas causadas por todo aquele peso, mas sentia-se suficientemente bem, para não falar que era extremamente mimada por Cesc e por Lia que ansiava pela hora de poder ver as suas irmãs.

Pouco mais de uma semana depois, Ana começou a chegar ao seu limite. Nas últimas semanas de gravidez, o crescimento fetal era muito maior e no caso de Ana ele era a dobrar. Foi observada por Sofía e foi internada e preparada para a cesariana.

Aí o nervosismo começou verdadeiramente a crescer.

- Estou nervosa… - acabou por confessar.

- Eu sei, eu também… - respondeu-lhe Cesc enquanto brincava com as suas mãos.

- A Sofía explicou tudo bem e confio nos médicos mas…uma cesariana é para todos os efeitos uma operação e tem os seus riscos… - disse amedrontada.

- Ei no va a pasar nada. Em algumas horas, teremos as nossas meninas nos nossos braços – murmurou-lhe Cesc com carinho antes de a beijar no rosto.

- Sim, tens razão. Estou apenas…nervosa porque nunca vivi uma experiência destas.

- Não te preocupes. Vai correr bem. Estarei sempre com vocês – garantiu acariciando o seu rosto.

Minutos depois, Ana foi transferida para o bloco, onde ficou ao cuidado de várias enfermeiras e do anestesista. A sua pulsação era monitorizada, o soro entrava nas suas veias e a anestesia ia fazendo o seu efeito.

- Ok, estás pronta! – anunciou Sofía, aproximando-se dela – Vamos a isto? – perguntou com um sorriso satisfeito. Haveria melhor coisa que trazer uma vida ao mundo? Sim, trazer duas!

- Vamos a isso – concordou Ana, trocando um olhar com Cesc que lhe apertou a mão com carinho.

O silêncio irrompeu na sala. A equipa médica estava concentrada no procedimento cirúrgico e na monitorização de Ana, que por sua vez focava as suas atenções em qualquer sensação que pudesse ter. Cesc estava em total suspense. O seu coração batia descompassadamente e a sua respiração estava alterada, parecia ter de novo as suas costelas partidas. Não era nervosismo, era ansiedade. Estava tão próximo, poderia ter as suas filhas nos seus braços dentro de minutos.

Nesse momento, Ana sentiu algo completamente distinto dentro de si. Não havia qualquer tipo de dor, mas Ana era capaz de sentir algo dentro de si, algo que mexia, que puxava. Naquele momento, teve pena de estar a fazer uma cesariana. Apesar da forma como o parto de Lia havia terminado, a verdade é que tinha sido uma experiência ímpar. Estivera tão ativa naquele momento, tivera o controlo de tudo. Agora era diferente. Tão pouco natural…

Num instante, sentiu um vazio invadi-la sendo acompanhado de um choro maravilhosamente saboroso.

- Deem as boas-vindas à Alicia! – disse Sofía com alegria enquanto colocava aquele pequeno e belo ser numa toalha que uma enfermeira já segurava – Agora só falta uma! – anunciou tornando a concentrar-se.

A enfermeira aproximou-se deles que puderam contemplar Alicia. Era tão bela, tão frágil, tão pura. E de um momento para o outro, já tinha companhia.

- E cá está a Elena – anunciou Sofía, sobre um novo choro.

Elena foi igualmente embrulhada numa toalha e minutos depois já estavam as duas junto a Ana e Cesc, que não se cansavam de contemplar aquela visão mas também aqueles choros que nunca mais teriam a mesma magia daquele momento.

As bebés foram levadas para serem observadas pela pediatra, enquanto Ana ficou no bloco finalizando o parto que terminou sem qualquer tipo de complicação. Pouco mais de meia hora depois, Ana voltou ao seu quarto acompanhada de Cesc que não a largara por um único minuto.

- Estás bem? – perguntou-lhe Cesc quase num sussurro.

- Sim, por enquanto, a anestesia continuava a fazer efeito – respondeu com um pequeno sorriso antes de receber um beijo doce e carinhoso nos seus lábios.

- Elas são lindas… - murmurou Cesc ainda fascinado pela imagem que pudera apreciar mesmo que por meros instantes.

- São, não são? – concordou Ana igualmente maravilhada – Estou ansiosa para que cheguem – confessou para que minutos depois o seu desejo fosse realizado.

Duas enfermeiras chegavam com as suas meninas nos braços, juntamente com a pediatra que assegurava que eram ambas extremamente saudáveis e que estavam prontas para aquele novo mundo.

Ana e Cesc ficaram a contemplá-las durante vários minutos. Dormiam serenamente. Eram tão pequeninas, tão rosadas, tão frágeis… Cada uma delas tinha um gorro em algodão na cabeça porque mesmo que o mês de maio estivesse a terminar e o calor começasse a aumentar, elas haviam vivido durante 9 meses no ventre de Ana que tinha uma temperatura de 37ºC. Não era fácil adaptarem-se à nova realidade. Em cada um dos gorros, os seus nomes estavam gravados, assegurando-lhes que a sua identidade era mantida.

Assim que Elena acordou, Ana tomou a iniciativa de a colocar a amamentar. Ela estaria certamente com fome e Ana sentia que precisava de iniciar a amamentação tanto a nível emocional como físico. A tarefa não foi fácil, sobretudo porque a anestesia estava a perder os seus efeitos e Ana já tinha bastantes dores. Com a ajuda de Cesc conseguiu colocar-se numa posição suficientemente confortável e rejubilou assim que viu que bastaram escassos minutos para que Elena mamasse sem qualquer tipo de dificuldade. Já com Alicia, que acabou por acordar minutos depois, o processo já foi mais complicado. Foram precisas duas, três, quatro, cinco tentativas até que conseguisse ter uma amamentação calma e sem complicações.

Com o cair da noite, chegaram as primeiras visitas. Como não podia deixar de ser, Catarina foi a primeira a entrar, acompanhada dos padrinhos.

- Oh são tão pequeninas… - foi a primeira frase que Catarina deixou escapar assim que pôde espreitar para os dois berços – Elas vão demorar muito a acordar, mamá?




- Guapa, nos primeiros tempos, elas vão estar quase sempre a dormir. Vais ter de ter paciência… - avisou Ana, tentando dissipar de imediato as ideias erradas da filha.

- Então vai demorar muito até que possam brincar comigo?

- Sim, ainda vai demorar um bocadinho – confirmou Cesc – Mas tens a Emma para brincar enquanto elas não crescem.

- Sim, é verdade. O que é que elas têm nos chapéus dela? – perguntou intrigada.

- São os nomes delas – respondeu Ana – Como são muito parecidas temos de pôr os nomes nos gorros para as distinguirmos.

- E vai ser sempre assim? – questionou Catarina intrigada.

- Não, mi amor, depois elas vão crescer e vão ficar diferentes. No início, é que os bebés são todos muito parecidos – explicou Ana.

- E posso pegar-lhes?

- A madrinha ajuda-te, vale? – respondeu Ana, lançando um olhar convidativo a Adriana.

- É que nem precisas de perguntar duas vezes. São tão lindas, Ana! – elogiou, enquanto pegava cuidadosamente em Alicia.

- O pai também teve mérito – desdenhou Cesc.

- Calláte, Cesc – advertiu Adriana nas suas típicas picardias.

Catarina correu até a um sofá que estava no quarto e sentou-se, pronta a receber a irmã nos seus braços. Adriana pousou Alicia nos braços de Lia e ajudou-a a segurá-la. Catarina permaneceu em silêncio. Estava igualmente fascinada com a sua nova irmã.

Cesc aproveitou para eternizar o momento com uma fotografia, que juntou a outras tantas que já havia tirado naquela tarde.

Alexis aproximou-se delas e vigiou Lia, enquanto Adriana foi buscar Elena ao berço.

- Oh elas são adoráveis. Até dá vontade de ter uma! – confessou Adriana enquanto se maravilhava a olhar Elena.

- Isso queres dizer que queres ter uma, mi amor? – perguntou Alexis, tentando a sua sorte.

- Não foi isso que eu disse, Alexis Alejandro. Até porque nos próximos tempos eu estarei bem perto destas meninas!

- Se o futebol o permitir… - relembrou Ana.

- Há de permitir! – disse Adriana com esperança.

E de facto, permitiu. Cesc não renovou o empréstimo com o Arsenal, mas ingressou no maior rival da antiga equipa: o Chelsea. Já Alexis fora vendido precisamente ao Arsenal. Ou seja, o destino voltava a juntá-los, desta vez em Londres que deixava muito a desejar quando comparada com à fantástica Barcelona, mas que era a sua nova casa.

Adriana e Carlota, irmã de Cesc, tinham sido a maior ajuda de Ana nos maiores tempos. Dois bebés não eram tarefa fácil e por algum tempo Adriana e Carlota viveram verdadeiramente em casa de Ana e Cesc.

Ana foi tentando ganhar independência já que a palavra “ama” parecia criar-lhe urticária. Mas assim que viu Carlota regressar a Barcelona e Adriana a voltar ao trabalho, teve de ceder. Não chegou uma ama, chegaram duas! Gémeas não eram tarefa fácil e não se podiam esquecer que Lia também existia, também precisava de atenção e carinho. Apesar de hesitante, Ana aceitou e agradeceu aos céus tê-lo feito. Encontraram duas pessoas perfeitas para o cargo. Eram jovens, na casa dos 30 anos, mas eram surpreendentemente espanholas. Tinham ido para Inglaterra à procura de novas oportunidades e apesar de cuidar de bebés não ser propriamente o que idealizavam, a verdade é que foi sem dúvida o melhor que lhes podia ter acontecido. Não tinham formação na área, mas eram ambas mães e Ana não hesitou em escolhê-las para o cargo, mesmo que Cesc tenha torcido o nariz. Bastou uma semana para perceberem que a escolha tinha sido acertada. Eram carinhosas, metódicas, organizadas e era claro que gostavam do que faziam.

Com aquela ajuda, Ana pôde voltar ao trabalho, no qual só havia pegado para eternizar momentos das suas princesas.














Continuava a trabalhar sobretudo com grávidas e bebés e Londres era mais um mar de oportunidades para ela!





*****



- Buenos dias! – saudou Ana, sentindo a mão de Adriana acariciar o seu ventre.

- Buenos dias! – retribuíram Adriana e Alexis, enquanto viam Cesc a aproximar-se deles, já com Elena e Alicia a juntarem-se a Emma.

- Buenos días, mi gente – saudou Cesc abraçando Ana pelas costas, colocando as mãos sobre o seu ventre.

- Pronto para ver a maninha a subir ao altar? – perguntou Adriana num tom de gracejo.

- Isto se o Marcelo não tiver um ataque cardíaco antes disso – completou Alexis com um sorriso.

- Não gozes, Alexis Alejandro. No dia do nosso casamento, estavas igual ou pior – contra-atacou Adriana.

- Sim, é verdade. Toca-nos a todos! – confessou – Tu é que podias ir tentar acalmá-lo, Cesc? – desafiou Alexis.

- Oh claro… Ainda fazia o rapaz fugir – desdenhou Ana.

- Até parece! – indignou-se Cesc – Não tenho nada contra ele. Tirando a parte de ser o namorado da minha irmã.

- Correção: noivo e futuro marido – acrescentou Ana.

- Sim, sim, isso!

- Preferias que ela ficasse solteira para sempre? – questionou Ana, “cansada” daquela superproteção de Cesc em relação à irmã.

- Dizes isso como se fosse mau…

- E é! Eles fazem um par excelente – defendeu Ana – E quem sabe se daqui a uns meses não têm um bebé como nós!

- Ou como nós – acrescentou Adriana.

Sim, Ana e Adriana estavam ambas grávidas e tinham aproximadamente a mesma duração de gestação. Adriana estava com 28 semanas e Ana com 26.





- Com calma, vale? – respondeu Cesc, fazendo-os gargalhar.

- O problema é esse, Cesc? O que eles fazem entre as quatro paredes de casa? – provocou Ana.

- Não, não é. O problema é que ela é a minha irmã mais nova, a minha menina. Sempre a protegi e agora não podia ser diferente. Não tenho nada contra o rapaz. Mas ao longo dos anos tive de mostrar-lhe que se ele lhe fizesse alguma coisa, eu estaria aqui para acertar contas. Ele resistiu, portanto estou seguro que ele gosta mesmo da minha irmã e eu aceito isso. Mas bebés não! Ainda não. Ainda saía um madridista, Deus me livre!

- Eres tan tonto, Cesc! – respondeu-lhe Ana, desatando numa gargalhada – Mas isso tem algo de fofo. Também vais ser assim para as nossas meninas…

- Não, isso é um assunto diferente. Nada de rapazes, pelo menos até aos 20 anos. Depois qualquer rapaz que queira estar no mesmo metro quadrado do que elas, terá de ser devidamente avaliado por mim!

- Oh claro… Assim só vais fazer com que elas te escondam coisas. Têm tantas possíveis cúmplices! A Emma por exemplo…

- A Emma? Na na – negou Alexis perentoriamente – Eu estou de acordo com o Cesc! Vamos fazer o mesmo com a Emma!

- Pois sim. Quando derem por ela, já elas namoram! – avisou Adriana, antes de entrarem na igreja já que a noiva acabara de chegar.

Era estranho para Cesc ver a irmã a subir ao altar. Sempre fora tão independente, desregrada, amante da sua liberdade… E agora iria casar-se. O que o amor podia fazer na vida de alguém!

Catarina entrou à sua frente, era a menina de alianças e era notório o orgulho que tinha nisso.

A cerimónia foi simples e bonita e não deixava de relembrar a cada um deles o momento em que eles próprios tinham assumido um compromisso que não se cansava de perdurar…



***



- Ana, promete-me que não vais ter uma overdose de mousse de chocolate… - implorou Cesc vendo Ana aproximar-se da mesa dos doces.

- Nem estou a perceber essa conversa, Francesc Fabrègas!

- Pois claro! – ironizou Cesc afastando-se, sendo rapidamente seguido por Ana que já tinha uma generosa porção de mousse na sua taça.

- Isto faz-me feliz! – defendeu-se Ana.

- Se te faz feliz, não vou interferir nisso… - comprometeu-se Cesc, desistindo da missão de proteger o estômago Ana dos seus desejos mórbidos.

- É por isto que te amo.

- Hum hum… Sabes bem como dar-me a volta – advertiu-a.

- Não é preciso muito para isso… Tu amas-me demasiado!

- Amar-te nunca será demasiado – garantiu Cesc, dando-lhe um discreto beijo nos lábios.

- Eich controlem-se! – reclamou Adriana aproximando-se deles juntamente com Alexis, já munida de uma deliciosa taça de gelado.

- Olha, outra grávida descontrolada!

Mal Cesc terminou de dizer aquela frase, sentiu duas palmadas generosas na sua cabeça. Era melhor não irritar as “grávidas descontroladas”.

- Tento na língua, menino! – advertiu Adriana.

- Cada vez mais perto de ires fazer companhia ao Peti esta noite! – ameaçou Ana referindo-se de novo à excelente oportunidade que ele estava a ter de ir dormir no jardim.

- Então? Como estão as minhas grávidas favoritas? – perguntou Carlota bem-disposta aproximando-se deles juntamente com Marcelo.

- Muito bem. E a recém-casada como se sente? – perguntou Ana.

- Cansada… Estar casada cansa, não?

- Ui nem imaginas o quanto! – respondeu Adriana – A partir do momento que te casas com um homem, eles parecem interpretar isso como um “tenho uma nova mãe”.

- Vocês adoram difamar-nos… - desdenhou Alexis.

- Hum hum agora só precisam de um bebé! – acrescentou Ana claramente num tom desafiador.

- A menos que ele chegue como este menino chegou – disse acariciando o ventre de Ana – Não haverá bebés em breve! – garantiu trocando um olhar com Marcelo.



Recordação



- Puta madre… Hoje é mesmo dia 15? – perguntou Ana desde a cozinha, enquanto Cesc se entretinha a ver televisão.

- Sim, porquê? Estás com algum trabalho em atraso?

- Não, bem pior… - murmurou não querendo acreditar no que as contas lhe faziam querer.

- Esqueceste-te de pagar uma conta?

- Pior, Cesc, muito pior… - respondeu atraindo a atenção de Cesc que acabou por ir ao seu encontro.

- Afinal o que se passa? – perguntou com alguma preocupação.

- Estou com um atraso… - confessou com o choque a invadi-la.

- Um atraso atraso? – interrogou Cesc absorvendo um pouco daquele “choque”.

- Sim, um atraso atraso – confirmou Ana.

- Ok, vou buscar um teste à farmácia! – disponibilizou-se de imediato.

- Não te atrevas a pôr um único pé fora desta casa, Francesc Fabrègas.

- Mas temos de saber! – contestou Cesc. No seu íntimo, ele estava entusiasmado com a ideia mesmo que não estivesse nos planos deles.

- Sim, temos. Mas vamos a um hospital, fazemos um teste de sangue e está feito. Mais seguro, mais eficaz e menos polémico do que Cesc Fabrègas ir comprar um teste de gravidez numa farmácia londrina – ironizou.

- Vale vale… Tens razão! – acabou por concordar, não conseguindo esconder o seu entusiasmo – Vamos ser pais!

- Não está confirmado!

- Tu nunca tens atrasos… - observou Cesc.

- É…do tempo.

- Do tempo?

- Não me enerves, Cesc. Porque há uma certa possibilidade de eu estar grávida e não se enervam grávidas! – argumentou Ana, perdendo claramente aquela batalha.

- Uma certa possibilidade… - repetiu aproximando-se dela e entrelaçando os braços à sua cintura.

- Sim…

- Pronta para recomeçar a aventura?

- Só depois da confirmação…

E a confirmação acabou por chegar. Ana estava novamente grávida e assim que fez a sua primeira ecografia, a primeira questão foi: “Quantos são?”. Um, desta vez era apenas um bebé, um menino como se viera a revelar meses mais tarde. O primeiro menino da família, o que estava a deixar Cesc num entusiasmo ímpar! Um rapaz… Iria jogar à bola, aprender uns toques com o pai, quem sabe seguir-lhe as pisadas…



*****



- Olha que é difícil planeá-los! – avisou Adriana – Olha para nós, só à terceira é que fomos lá! – gracejou, arrancando várias gargalhadas.

Sim, daquela vez, Adriana e Alexis haviam planeado a chegada de um novo membro à família…





Recordação



- Tens um minutinho, cariño? – perguntou Adriana aproximando-se de Alexis, que não hesitou em pôr o seu jogo em pausa.

- Por supuesto que sí, pasa algo? – interrogou já que sentiu Adriana um tanto nervosa.

- Mais ou menos. Eu tenho pensado sobre a renovação da Victoria’s Secret e…acho que não vou aceitar.

- Porquê? Sentes-te tão bem como modelo da Victoria’s… Há algo errado?

- Não. Eu adoro ser modelo e a Victoria’s é sem dúvida uma casa para mim mas…estou neste emprego há vários anos, absorve muita da minha energia, apesar de ser extremamente gratificante. Sentir-me-ia capaz de continuar a fazer isto por outros tantos anos mas…as minhas prioridades estão a mudar.

- Como assim? – perguntou Alexis não percebendo onde Adriana queria chegar.

- Alexis, eu quero dedicar-me mais à nossa família. Gostaria até de…alargá-la – sugeriu com um pequeno e inevitável sorriso a aparecer-lhe nos lábios.

- Queres ser mãe de novo, é isso? – perguntou Alexis ansiando aquela confirmação.

- Sim. Isto se quiseres ser pai de mais um filho meu… - confirmou com um sorriso nervoso.

- Não há nada que queira mais neste mundo! – garantiu Alexis antes de a beijar de forma arrebatadora.

A partir daí, vontade de treinar não faltou. Fizeram exames que confirmaram que estavam aptos para serem pais e a partir daí foi tentar e tentar e tentar. Poucos meses bastaram para que a boa nova chegasse e fosse celebrada por toda a família. Emma, Thiago e Ángel estavam num êxtase incomparável. Após tantos anos com aquele desejo, ele iria realizar-se. Vinha a caminho…uma menina!



*****



- Vocês vão atingir o equilíbrio: dois meninos e duas meninas! – constatou Carlota.

- Depois só nos faltam mais dois meninos para atingirmos também o equilíbrio! – comentou Cesc animado.

- É que nem penses. Depois do Pablo, não virá mais nenhum. Retirámo-nos do mercado, finito! – advertiu Ana num tom sério.

- Vale vale. Eu ainda te dou a volta…

- Eu é que te dou a volta. Dou-te de volta à tua mãe!

- Ana, lamento desiludi-la, mas os pais da Carlota garantiram que não aceitavam devoluções! – gracejou Marcelo, roubando-lhes algumas gargalhadas.

Acabaram por dispersar-se: Carlota e Marcelo eram o centro das atenções e tentavam desfrutar da companhia de cada um dos presentes, já Alexis e Adriana decidiram ir até ao jardim da quinta namorar um pouco, já Ana e Cesc ficaram a apreciar todo o ambiente que os rodeava, até que aquela música começou a tocar, arrancando-lhe aqueles sorrisos indisfarçáveis. Os braços de Cesc entrelaçaram-se de forma ainda mais carinhosa em volta do ventre de Ana, que se recostou a ele, apreciando aquele momento.



Olha para as estrelas

Vê como elas brilham para ti

E para tudo o que tu fazes

Sim, elas eram todas amarelas



A tua pele

A tua pele e os teus ossos

Tornaram-se em algo bonito

Tu sabes?



- Tu sabes como eu te amo tanto? – murmurou Ana, aquela frase que sempre lhe faria relembrar Cesc e tudo o que haviam vivido.



E a tua pele

A tua pele e os teus ossos

Tornaram-se em algo bonito

Tu sabes?



- Tu sabes que por ti eu daria todo o meu sangue? – sussurrou Cesc ao ouvido de Ana, fazendo-a estremecer.

Por várias ocasiões já pudera testemunhar isso: Cesc daria a vida por ela. Ana não duvidava disso nem por um segundo, tal como não duvidava que ela também daria a sua vida por ele. Loucura? Não… Amor.

Entretanto, Adriana perdia-se a contemplar o calor do corpo de Alexis. Tão reconfortante, tão seu…

- Estás a pensar em quê? – questionou Alexis após alguns minutos de silêncio.

- Em como sou feliz…

Alexis apenas foi capaz de sorrir e apertá-la ainda mais entre os seus braços.

Felicidade… Era tão fácil encontra-la quando se construía uma vida ao lado de quem se amava.

Curiosamente, a música deles também começara a tocar e Alexis não resistiu a convidar Adriana para dançar.

- A menina dá-me a honra desta dança? – perguntou de forma cavalheira estendendo-lhe a mão.

- Se aceitar um elemento extra – disse apontando a sua barriga – Então sim aceito! – respondeu sentindo os braços de Alexis rodeá-la.



E é que volto a ver-te novamente

Volto a respirar fundo

E que o mundo saiba

Que de amor também se pode viver

De amor pode-se parar o mundo

Não quero sair daqui

Porque volto a ver-te novamente

Volto a respirar profundo

E que o mundo saiba

Que nada mais importa



Após aquele momento mais íntimo acabaram por voltar para o interior. E bendita a hora que o fizeram porque acabaram por assistir a um dos momentos mais hilariantes das suas vidas.

Estavam junto a Ana e Cesc, conversando descontraidamente, quando Catarina e Thiago chegaram de mão dada junto a eles e com novidades!

- Mamá, mamá! – chamou Catarina entusiasmada – Olha eu e o Thiago somos namorados!

- São o quê? – perguntou Cesc de imediato claramente “chocado” com aquela novidade.

- Uh that’s my boy! – gracejou Alexis orgulhoso.

- Catarina, vocês não podem namorar – disse de imediato Cesc.

- Porque não? Tu e a mamã também namoram e dão beijinhos!

- Mas tu és muito nova para fazer isso – explicou Cesc calmamente.

- Nós já somos grandes, papá! Para o ano vamos ser finalistas do 1º ciclo! – contra-argumentou Lia, deixando o pai sem palavras. Lia tinha 9 anos e ele já tinha aqueles problemas. Não queria imaginar quando ela chegasse aos 16!

- Eu e o Milan também somos namorados! – disse Emma igualmente entusiasmada.

- Ah o quê? – questionou Alexis de imediato.

- Ui Gerard, that’s your boy! – gracejou Cesc em resposta à piada anterior de Alexis que o olhou quase que o repreendendo – Que posso dizer? Karma is a bitch, my friend!

- Oh o papá disse uma asneira! – observou Lia muito admirada.

- É, o teu pai ainda não percebeu que caladinho é que ele está bem! – atirou Alexis, dando uma pequena palmada a Cesc.

Não demorou muito para que as crianças se voltarem a dispersar. A linguagem dos adultos deixava-os completamente deslocados e preferiam ignorar e brincar do que tentar perceber tudo o que diziam.

- Hum voltar a Barcelona é sempre bom! – comentou Ana.

- É verdade – concordou Adriana – É a nossa verdadeira casa. Onde tudo o que de melhor havia nos aconteceu – recordou com um sorriso nostálgico.

- E em breve estaremos de novo lá – lembrou Cesc.

Sim, mais de dez anos haviam passado desde que as suas vidas se haviam cruzado na mítica cidade de Barcelona. Tanta coisa havia passado e o mais importante de tudo é que haviam encontrado o amor que os tinha permitido construir uma felicidade única e duradoura.

Dez anos depois, Cesc e Alexis estavam prestes a terminar as suas carreiras e Barcelona era sem dúvida a cidade para onde iriam voltar. Cada vez Barcelona era mais sinónimo de casa.

- Sim… Barcelona mudou-nos a vida – reconheceu Ana com satisfação.

- Sim, bem que lhe podíamos chamar “Barcelona, La Ciudad Del Amor” – gracejou Adriana.

- E foi mesmo… Barcelona foi o melhor que nos poderia ter acontecido…



Não há doutor que me retenha

Não há dor que me detenha

Não há planeta que me eclipse

Ou que me desvie do teu lado



Não há rancor que me dê frio

Não há amor como este meu

As tuas ações definem-te

O destino é quem caminha

Não há medo que me detenha

Não há distância que esteja longe



Desde longe que nos temos no fogo

Desde longe que nos temos nos mares

Desde longe que te sinto, amor

Desde longe que nos temos nos ossos

Desde longe que os nossos corpos se fazem ar

Desde longe que eu te posso amar

Desde longe que o nosso amor será lenda

Desde longe falarão

Deste amor que é de lenda



Se és fé, eu converto-me

A tua existência dá-me alento

Digo-to convencido:

Não há amor como este meu



E é isto que sinto mais ou menos

E por isto mesmo morro

Diz-me se não merecemos

Dar a vida a tentar

Se é por amar-te desde longe

Então quero fazê-lo até ao final



Desde longe te amo com o fogo

Desde longe te tenho com os mares

Desde longe falarão

Deste amor que é de lenda





Quando Ana e Cesc se olhavam sabiam que não havia dor ou medo que os detivesse, sabiam que se eles eram fé, então que se convertiam um ao outro.

E quando Adriana e Alexis se olhavam sabiam que não havia amor como aquele, sabiam que tinha valido a pena darem as suas vidas a tentarem serem felizes um ao lado do outro.

Era amor… Amor digno de uma verdadeira lenda que a vida lhes tinha oferecido em Barcelona, que para eles fora realmente a cidade do amor…









E não há muito a dizer…

O fim foi surpresa, como vocês pediram numa votação no grupo.

Esforcem-se por deixar um comentário a dizer o que acharam da história ou simplesmente para me dizerem o que vos apetece dizer. Vou ler tudo e RESPONDER. Cada comentário será respondido num período máximo de 24 horas! Também tenho algo a dizer a cada uma de vocês em especial!

Daqui a uma semana, será colocada uma mensagem mais extensa sobre o fim da história.

Foi um prazer escrever esta história para vocês. Muito obrigada.





Ana Santos